Nasceram em Portugal, têm ascendência cabo-verdiana e o crioulo é a língua que se lembram de ouvir ainda antes de dizerem as suas primeiras palavras. Nesta reportagem, falámos com dois rappers de gerações diferentes e a cantora e compositora Sara Tavares. Expressam-se, ora em português, ora em crioulo. Mas será que isso lhes limita o público? E como sentem o que dizem?

Sara Tavares sempre entendeu crioulo, mas começou a falá-lo muito tarde – pouco depois de conquistar a Chuva de Estrelas, quando viajou para Cabo Verde numa comitiva oficial. Para ela, a decisão de cantar em português ou em crioulo “deu-se de uma forma consciente”, quando a artista começou a criar os seus próprios textos e a falar dos seus sentimentos. “Tornou-se imediatamente óbvio que a forma mais autêntica de me expressar fosse as duas línguas que mais uso no meu dia a dia. Muito mais do que o inglês que ouvia sempre na música. Queria desenvolver raciocínio e falar mesmo a sério, e não como se fosse num teatro”.

A artista divide, hoje, os seus discos entre estas duas línguas, mas diz que o crioulo é “mais real e natural”. “Permite uma plasticidade mais larga e é, para mim, uma descoberta constante, quer em expressões arcaicas portuguesas ou dicas novas que surgem a toda, quer em termos muito engraçados que não lembram a ninguém e, sobretudo, termos afetivos, tão doces que somente existem naquelas ilhas”, conta.

Para além disso, “o facto de arranhar a variante de sotavento, de parte paterna, e de barlavento, de parte materna, também me dá um gozo enorme e maior largueza para desfrutar da idiossincrasia do dialeto. Posso falar e entender-me com o povo de uma cultura tão funda que, só por isso, me sinto imensamente abençoada”, acrescenta a cantora e compositora que já correu mundo com os seus trabalhos.

No caso de Karlon, pioneiro do rap crioulo cabo-verdiano em Portugal, a ligação inicial com o crioulo foi diferente: “Antes de falar português – eu nasci já cá em Portugal – falei a língua crioula, que é a língua que os meus pais me incutiram lá no bairro da Pedreira dos Húngaros”.

Quando estudou no Chapitô e mesmo antes, na escola, no final dos anos 90, como a língua portuguesa era a mais corrente, Karlon também cantava português. No entanto, ficava algo por dizer.  “A parte emocional que tenho, consigo expressar cá para fora melhor em crioulo do que em língua portuguesa. Para mim, como artista, faz mais sentido cantar crioulo, porque é uma coisa que flui mais. Pode dizer-se que é identidade, mas é mesmo pelas raízes que me sinto mais à vontade a cantar crioulo e sinto mais dificuldade a cantar em português.”

Apesar da kizomba e do funaná terem conseguido “furar” o panorama musical português num momento mais precoce, ocupando algum espaço nas discotecas e na rádio, o valor do crioulo cabo-verdiano demorou a ser assumido, por exemplo, no mundo do hip hop. Nos últimos anos, muito graças à Internet e ao YouTube, muitos artistas conseguem chegar a mais pessoas e além-fronteiras.

Karlon é dos fundadores da mítica banda Nigga Poison e fala desses tempos e de como, para o grupo, e outros da altura, era natural cantar em crioulo, embora nem sempre fosse compreendida esta escolha pelos que os ouviam. “Nos anos 90, já tínhamos a banda Nigga Poison. Na altura nunca sentimos essa dificuldade, mas se me perguntas se era bem aceite… Muita gente dizia “ah, canta em português, porque chegas a mais pessoas”, relembra. Mas o intuito nunca foi esse, explica: “porque o rap, para nós, é a expressão, é um diário, é descarregarmos os pensamentos cá para fora.” E esses eram tidos em crioulo.

Karlon reforça ainda que há um grande público, também crioulo, que não pode ser esquecido. “Graças a pessoas como o Ildo Lobo, Pantera, que são grandes artistas cabo-verdianos, e principalmente a Cesária Évora, que teve um êxito internacional, o crioulo foi bem aceite. De certa forma, o crioulo é uma língua bem aceite e apreciada em muitas comunidades, não só por quem ouve e percebe o crioulo, como por muita gente no estrangeiro. Não podemos pensar só em Portugal. Quando faço rap crioulo, penso para o mundo inteiro”, afirma.

Para facilitar e permitir que mais pessoas entendam as suas letras, o rapper faz a tradução em alguns dos seus vídeos disponíveis no YouTube: “Em «Ku Amor» ou «Sodadi nha Terra», tens a opção de legendas em, português, francês e em inglês, que é uma boa prática para as pessoas começaram a perceber crioulo e a aprender” – sendo esta também uma forma de “não deixar a língua morrer”.

Já Mynda Guevara, fruto de uma nova geração de rappers em Portugal – e também de uma outra geração de descendentes cabo-verdianos –, acredita que cantar em português lhe permitirá chegar a um público mais vasto.

Vinda do bairro da Cova da Moura, no concelho da Amadora, é mulher, afrodescendente e rapper. Depois de lançar o EP “Mudjer na Rap”, em 2014, com vários singles cantados maioritariamente em crioulo, a artista lançou, no início deste ano, “Na Nossa Língua”, a primeira música feita inteiramente em português. “A cena de cantar em português é porque quero atingir outros públicos, porque sinto que o crioulo me limita muito, então, se quero dar esse passo também tenho de fazer algumas alterações a nível profissional e uma delas é começar a alternar em cantar nas duas línguas.”

Mas esta era uma realidade que não fazia sentido quando começou a fazer as primeiras letras. “Para já, sou africana, então, no início, quando comecei a cantar não me fazia muito sentido cantar em português, visto que o crioulo faz parte da minha cultura e faz parte de mim. Agora é que estou a começar a cantar em português, mas, quando comecei, não fazia sentido para mim cantar em português, porque acho o crioulo uma língua mais expressiva e acho que as palavras têm mais peso do que serem ditas em português. É diferente”, refere.

Seja em que língua for – “até podia cantar em chinês” –, para Mynda a essência é sempre a mesma: “Não é porque canto em português que tenho menos identidade. É claro que não sou da mesma maneira, porque o crioulo é mais pesado, é mais sujo, digamos assim. Mas a essência está sempre presente.”

O feedback a “Na Nossa Língua” foi positivo, mas o receio de ser mal interpretada também existiu: “Estava à espera de que o people dissesse ‘ah, agora está a cantar em português’ e aquelas tretas, mas não, por acaso, tive bom feedback, e o people disse para começar a investir nisso também.” E é o que vai fazer, porque, tal como nos seus versos, está certa e segura desta convicção: “Também sei falar português, porque sou portuguesa, apesar de ser descendente africana. Se quero alcançar outros públicos, é claro que tenho de cantar em português. Acredito que existam pessoas que até curtam do meu trabalho, até podem perceber uma palavra ou outra, mas não percebem o contexto geral do som, e isso é algo que me indigna um bocado, porque gostava que elas percebessem. E é, por isso, que quero começar a alternar”.

Texto por Flávia Brito

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