O regresso ao interior é romantizado por muitos, ponderado por alguns, mas efetivado por poucos. Carlos e Maria são exemplo de quem saiu para o litoral, mas regressou às origens. Ele licenciou-se em publicidade, mas, pouco depois, investiu numa exploração de mirtilos em Baião; ela é atriz e quer viver das artes a partir de Cabeção.

Carlos Vaz Ferreira é natural de Gestaçô, em Baião, a cerca de 80 quilómetros do município do Porto. Após terminar o secundário no concelho vizinho, em Resende, saiu da aldeia que o viu crescer. Primeiro, mudou-se para Coimbra e, depois, para Viseu, onde terminou a licenciatura em Publicidade e Relações Públicas. No Porto, fez um estágio curricular de cinco meses, no canal180. Gostou da experiência e da cidade e queria ficar, mas a sua vontade colidia com a realidade do país. Estávamos em 2012, em plena crise da Troika.

Não foi contratado e, sem emprego, decidiu voltar a Gestaçô e à casa dos pais, enquanto decidia o que rumo tomar. “As oportunidades de emprego na minha área, na área da publicidade, eram escassas e essas oportunidades eram todas em locais citadinos. Tive essa breve reflexão e cheguei à conclusão de que, realmente, onde me poderia sentir bem e realizado era investindo e conseguindo ter o meu próprio trabalho na minha aldeia.” E assim foi.

Carlos Vaz Ferreira

Dos mirtilos sabia pouco mais do que serem frutos. Cruzou-se com eles nesta fase da vida e interessou-se. A mãe trabalha para o Ministério da Agricultura e introduziu-o aos apoios disponíveis para jovens agricultores, entre os 18 e os 40 anos. Carlos inscreveu-se em formações e começou a ponderar a ideia de ser agricultor e empresário agrícola.

A ideia ganhou terreno quando se candidatou aos prémios de instalação de jovens agricultores do PRODER — Programa de Desenvolvimento Rural (2007-2013). E em abril de 2013, o projeto de instalar uma exploração agrícola em Baião foi aceite. Passaram-se já alguns anos e o agora empresário não se arrepende da decisão. “Como cresci numa aldeia e vivi no mundo rural, sempre tive essa necessidade de investir e de trazer algo bom para o sítio onde vivo e para as pessoas que sempre conheci ao longo da minha vida.” Trabalhar em agricultura “não foi partir do zero, mas perto disso.” Hoje consegue empregar entre 25 e 30 pessoas, na altura da colheita.

O jovem agricultor teve de descobrir outras rotinas e não esconde algumas saudades do mundo mais citadino, até porque lá se encontra grande parte dos seus amigos – “sou dos poucos que está pelo interior.” Contudo, o estilo vida que tem continua a ser a grande mais-valia de ali viver. “Numa cidade sabemos que é tudo muito frenético e aqui, na aldeia, é tudo muito mais calmo, de certa forma, até organizado, e dou muita importância a todo esse bom lado de viver”, diz, acrescentando: “Não critico, nem faço juízos de mau valor do que é viver na cidade, mas, sem dúvida, e cada vez nota-se mais, que as pessoas procuram também o local mais calmo. Obviamente que é também essa a minha opção, ter esta vida ‘mais calma’.”

Apesar de importantes, considera Carlos, de 31 anos, os incentivos para viver e investir no interior não são suficientes para fixar mais pessoas, ou as suficientes. “Quando falamos em conseguir ter uma vida no interior é ter essas opções de emprego, porque sabemos muito bem que o emprego gera desenvolvimento, gera oportunidades e penso que o problema que existe é mesmo esse, é não haver emprego”, refere. “Claro que o empreendedorismo anda muito por detrás de uma das soluções para o interior, apesar de que não ser só com empreendedorismo que se vai criar vontades para as pessoas virem investir para o interior.”

O despovoamento em Baião, analisa o jovem, ainda não é tão visível como noutras regiões do país, como Castelo Branco, Bragança ou Vila Real, mas para lá caminha. “Em comparação com aqui até não se nota muito, mas vai começar a notar-se, porque as pessoas idosas cada vez são mais, a taxa de falecimento também é cada vez maior, a taxa de natalidade é muito baixa, e os jovens daqui optam, sem dúvida, por tentar procurar trabalho em outros locais, fora do país ou nas cidades portuguesas.”

Maria Alves

Maria Alves nasceu em Lisboa, mas foi viver para Cabeção, no Alentejo, quando estava quase a fazer dois anos. Foi lá que os pais, ligados ao mundo do teatro e da dança, fundaram a Metamorphose - Centro de Divulgação Artística, com o objetivo de criar um grupo de teatro e de trabalhar, junto da comunidade, na promoção das artes naquela zona do país.

A jovem de 29 anos seguiu as pegadas dos pais enveredando pelo mundo profissional das artes performativas, mas, após o 9º ano, ainda não era possível estudar teatro a partir do Alentejo. “Na altura, procurava uma área artística. No meu concelho. As ofertas que havia eram só ciências e, no distrito, não havia nada ligado ao teatro.” As opções eram Lisboa ou Porto. Foi então que fez as audições para a Escola Profissional de Teatro de Cascais, onde concluiu o secundário. Regressou ao Alentejo para licenciar-se em teatro em Évora e voltou novamente a Lisboa para estudar na Escola Superior de Teatro e Cinema.

Atualmente, vive e trabalha, numa espécie de intermitência, entre Lisboa e Cabeção. “Neste momento, trabalho em Lisboa, como frente de sala no Teatro Nacional D. Maria II e vou estando entre cá e lá, porque estamos a aproveitar este tempo de pandemia também para nos situarmos, para procurar outros apoios, porque já vimos que a nível da zona não é possível”, afirma, referindo-se ao trabalho desenvolvido pela Metamorphose, da qual também faz parte, e que se encontra numa fase de reestruturação, devido à pandemia e à falta de financiamento municipal, o que tem dificultado a realização de atividades.

Para Maria, viver da cultura e promovê-la no interior do país não é tarefa fácil. “Os meus pais começaram a desenvolver um trabalho desde que chegaram lá. Houve um educar das pessoas, do público, habituar o público a voltar a ir ao teatro. Porque quando os meus pais chegaram a Cabeção já se tinha perdido esse hábito, apesar de termos um teatro lá e de, na altura dos meus avós, se ir muito ao teatro”, conta. “O que começámos a aperceber é que, a nível de valores ou de identidade do concelho não era o que se procurava, a cultura não era uma coisa essencial. As coisas são muito pensadas para aquilo que as pessoas já estão habituadas”, continua. “No nosso caso, agora já nem tanto, mas era muito tourada, futebol e aquelas feiras de verão, e o dinheiro era essencialmente investido nesses três lugares, o que dificultava um bocadinho o nosso trabalho”.

Essa falta de alternativas, acredita, também é o motivo que leva muitas pessoas a abandonar os territórios do interior. “Há o trabalho-casa e o casa-trabalho e, depois, tudo o resto, a parte social e cultural existe muito pouco, porque não há dinamismo nesse sentido”, sublinha. “Lembro-me de quando era pequena, os meus pais vinham todos os fins de semana a Lisboa para ver espetáculos (…) Discutimos muito isso em família que é, em termos educacionais, é difícil as pessoas terem o hábito de consumir cultura, porque, se não há essa oferta, é difícil a pessoa um dia, em adulta, ter vontade de ir ao teatro.”

Apesar disso, e por isso mesmo, investir na cultura e trabalhar nas artes a partir do interior alentejano continua a ser a sua vontade. Neste momento, Maria e a família estão a desenvolver um projeto que alia o turismo a residências artísticas e que pretende dinamizar Cabeção, levando até lá novas pessoas. “É um lugar sereno e tranquilo e, infelizmente, com muito espaço por habitar, porque, entretanto, as pessoas foram-se quase todas embora. Por isso, há muitos espaços que podem ser aproveitados para trabalho e, neste momento, há muitas companhias também a procurarem espaços para ensaiar, para residências", explica. "Então, estamos um bocadinho com esse foco de criar um espaço para receber artistas e também para receber pessoas de todo o tipo que possam ter contacto com a cultura. Quase como se fosse uma quinta artística onde as pessoas pudessem escolher o que experimentar e estar lá de férias, ou seja, ser uma coisa de lazer, mas pudesse ter contacto com a cultura.”

Como artista, Maria considera que as vantagens estão no interior, embora as oportunidades, muitas vezes, a empurrem para outros locais. “O que preciso é de um espaço tranquilo para desenvolver e para criar. Depois há uma acessibilidade às pessoas que estão à nossa volta gigante, porque toda a gente se conhece, toda a gente se disponibiliza, toda a gente cede um espaço, toda a gente cede um material para fazer um cenário”.

O facto de lá não haver tanta gente a trabalhar, pondera, também liberta a pressão que existe nos grandes centros, onde prevalece o “stress” e onde a criação é “sempre urgente e tem de ser sempre uma coisa imediata” – “já passou a hora de criar, já passou a hora de apresentar o espetáculo, e lá acho que as coisas são um bocadinho mais calmas nesse sentido e a visão começa a ser diferente, mais libertadora.” Adicionalmente, haver mais pessoas nem sempre é positivo. “Somos muitos mais, porque está tudo concentrado aqui e há sempre muito mais projetos, muito mais pessoas, muito mais ideias a circular e isso, às vezes, também é cansativo para que está a criar, porque se esgota.”

Texto por Flávia Brito
Fotografias cedidas pelos entrevistados

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