O Manicómio é o primeiro espaço de criação de arte bruta em Portugal. Foi fundando em março de 2019, no Beato, onde conjuga a criação e a aproximação ao público dos artistas residentes, que experienciaram ou experienciam doença mental. 

O projeto foi pensado por Sandro Resende e José Azevedo, fundadores da Associação de Desenvolvimento Criativo e Artístico P28, que dinamiza o pavilhão 31 do Hospital Psiquiátrico de Lisboa. Após duas décadas a dar aulas de artes plásticas a doentes do Hospital Júlio de Matos, quiserem apostar em novas formas de trabalhar a saúde mental. Assim, nasceu o Manicómio, um “local sem filtros”, onde há artistas, e não doentes. Sem horários, com mais apoios e uma política de “porta aberta”, este ateliê pretende ajudar a quebrar barreiras, desmistificar o estigma associado à doença mental, incentivar a empregabilidade destes artistas e promover a sua inclusão social.

Vencedor de concursos de criatividade, o projeto recebeu o prémio de Mérito pelo Ministério da Saúde, trabalha atualmente com marcas como a Central de Cervejas, Fidelidade e Arcádia, e está, neste momento, a representar Portugal na Bienal de Nova Iorque.

Numa manhã de quinta-feira, batemos à porta de um Manicómio aparentemente fechado. Devido à pandemia, os artistas estão a trabalhar de casa, mas, no NOW_Beato, há vestígios e peças suas espalhados por todo o lado, incluindo nas secretárias dos colaboradores da Mercedes-Benz.io, com quem partilham este espaço de coworking. Sentámo-nos com Sandro Resende, numa das mesas ao fundo, onde, em tempos não pandémicos, e devido à “sujidade” seria mais provável encontrar estes criativos a trabalhar. Conversámos com o cofundador sobre como este projeto veio relegar a doença mental para segundo plano e valorizar estas pessoas enquanto artistas, promovendo uma mudança de “filosofia” e de “formas de trabalhar” para que o Manicómio espera contribuir.

Gerador (G.) – Como nasce este “Manicómio”?

Sandro Resende (S.R.) – Nasce no Hospital Júlio de Matos. Nasce daquela necessidade de criar umas formas diferentes de trabalhar no Júlio de Matos, nomeadamente, pelos horários. Aqui quem decide os horários são os próprios artistas. Lá, no Júlio de Matos, eram aqueles horários muito rígidos em que a pessoa, às vezes, não tinha vontade de trabalhar. E isso refletia-se tanto no trabalho, como na saúde mental, assim como também nos próprios técnicos. Limpámos algumas coisas de que não gostávamos, nomeadamente, o horário, o apoio aos artistas – que era uma coisa que não tinham, e as pessoas não têm –, além das refeições e dos transportes, e depois a abertura para o exterior e a porta aberta. Agora não, por causa da Covid, mas a porta aberta permitia muito mais contacto com as pessoas, muito mais vendas, muito mais trabalho, muito mais procura, muito mais galeria e muito mais internacionalizações. No Júlio de Matos, não havia essa possibilidade porque é um hospital público. Faz o seu serviço normal, e bem, mas estas possibilidades não havia.

Então optámos por abrir, nós, um espaço, acolhendo apenas dez artistas inicialmente para começar a trabalhar. Hoje já somos mais, somos para aí quinze, e a equipa também aumentou imenso, a equipa que trabalha nesta área e que consegue chegar a muito lado artisticamente, a muitas galerias, a muitos museus. E agora com as marcas, também já começamos a influenciar publicamente outras formas de trabalhar a saúde mental nos hospitais, a parte do Governo passa a olhar para nós de uma forma mais séria, que possa ser efetivamente usada nos hospitais esta forma de trabalhar. 

G. – No Júlio de Matos, sentiam que o trabalho que faziam ficava muito restrito, muito fechado lá?

S.R. – É um hospital público e há sempre uma normalidade e logística pesada, que não permite a saída, nem a visibilidade do próprio artista, nem a visibilidade da própria pessoa. Porque há várias coisas que as pessoas quando estão dentro do hospital não podem fazer. Não podem ser vistas. Essas regras todas que existem de privacidade dentro de um hospital, como um hospital público, aqui isso não existe. Quer dizer, existe. Se um artista não quer aparecer, não aparece. Preocupamo-nos muito mais com a identidade desta pessoa. Isso para nós é fundamental. Quem é esta pessoa, o seu valor enquanto pessoa e, ao fim ao cabo, quando estamos a fazer isso, estamos já a trabalhar a saúde mental de uma forma discreta. 

G. – Este nome, “Manicómio”…

S.R. – É bom não, é?

G. – É. É desde logo bastante impactante. Também muito influenciado pelos filmes que vemos, acho que posso dizer que, no imaginário da maioria das pessoas, o Manicómio é aquele sítio em que os doentes entram amarrados de bata...

S.R. – E foi. E ainda, em alguns países do mundo, o é.

G. – Este nome confronta-nos logo com a ideia de saúde mental.

S.R. – Explica logo tudo o que é. Existe aqui uma abordagem mais provocadora da situação, que é uma coisa que nós gostamos muito de fazer, provocar a reação. Isto vem também de um livro que li há muitos anos. Era um livro de 1930/1940. Já não me lembro qual é o livro, mas era um livro que dizia: "manicómio, terra de loucos e artistas". Todo inspirado nessa filosofia e, acima de tudo, numa ação provocatória e direta, o Manicómio fazia sentido. Ao início, tivemos algumas dúvidas e tivemos reações negativas, como é óbvio, com um nome destes, nomeadamente, num espaço quando estamos a trabalhar com instituições públicas. Mas, felizmente, perdeu esse contexto. Acho que as palavras têm o contexto que lhes queremos dar. Por exemplo, a palavra amante é um contexto desagradável, mas é uma palavra linda. Amante é uma palavra bonita, é alguém que ama. É muito bonito. E o manicómio também pode ganhar outro contexto, e quero acreditar que estamos a colaborar para que mude esse contexto.

Depois o que acho que é muito estigmatizante é o que acontece nos hospitais, nos ateliês. Os nomes é “ateliê criativo do serviço de reabilitação, da terapia ocupacional”... Quer dizer, é uma coisa absurda. Ou “ateliê do hospital de dia”. É muito mais estigmatizante do que um espaço chamado “Manicómio”, sendo que o Manicómio não é só um ateliê, trabalha todas as áreas, todas as valências. E depois é um local sem filtros. Isso é muito importante. É um local em que o filtro se dilui. Se andarmos aqui com uma coisa na cabeça, ninguém vai olhar para nós, ou se fizer uma coisa completamente louca, ninguém vai olhar para nós, porque esse filtro desaparece. Nós temos muitos filtros enquanto pessoas, socialmente. Esses filtros aqui perdem-se e começam a ser normais.

Nós vamos lançar a revista Manicómio. A revista é toda gerida por pessoas com doença mental, e as pessoas que são entrevistadas estão “mortas” por que lhes façam perguntas completamente diferentes. Tu, enquanto jornalista, não me podes fazer uma pergunta completamente ao lado, nem eu estou tão à vontade que posso ser o Sandro completamente numa entrevista. Mas, se for uma pessoa com doença mental e se for alguém que já vai predisposto a abrir-se, acredita que é completamente diferente. Isso notou-se nas entrevistas que fizemos. As pessoas abriram-se muito. As perguntas são muito erráticas, desde “qual é o teu panorama na arte nacional?” a “qual é o comprimido que tomas para dormir?” e, a seguir, “se tomas drogas e se te masturbas”. É uma forma muito particular de fazer uma entrevista, que permite descontração e não ter filtros. As pessoas acabam por precisar desse “não ter filtros”. 

G. – Há uma associação antiga entre a arte e uma espécie de loucura. Há quem diga que todos os artistas são todos loucos, coisas deste género.

S.R. – Sim. Não acredito em nada disso. Acho que criatividade não é loucura, e loucura não é criatividade. Acho que a doença mental é uma doença em que se sofre muito, são pessoas que sofrem bastante. Nem todas as pessoas quem têm doença mental, ou 90% das pessoas que têm doença mental, não percebem nada de arte, nem têm talento para isso. E as pessoas que cá trabalham podem ter algum talento, mas acima de tudo têm de trabalhar muito para chegar onde chegam. Estes artistas trabalharam muito para chegar onde estão e, ainda por cima, associados a uma doença. A doença mental é sofrimento. Não há cá dúvidas nenhumas. Essa coisa de glamour e de trendy da doença mental, não acredito em nada disso. Nos meus 21 anos de Júlio de Matos, só vejo uns dois por cento que tenham tido alguma capacidade e vontade de trabalhar, e algum talento. 

G. – Quando vejo os monstros da Anabela Soares, imagino os monstros que ela possa ter “na sua cabeça”... 

S.R. – Nela é-o, sim.

G. – Pergunto-te de que forma é que a doença influencia o imaginário destas pessoas e o trabalho artístico que fazem?

S.R. – Pode influenciar e pode não influenciar. É curioso perguntares isso, porque, no Júlio de Matos, nas primeiras aulas que se tem, quando uma pessoa vem para o primeiro ateliê, procuram sempre trabalhar no mais normal possível. O trabalho mais normal, um Van Gogh, um Monet, ou uma paisagem. Nunca procuram explorar aquilo que querem explorar. É uma conquista que se faz. Primeiro, a pessoa tem a necessidade de fazer trabalhos “normais” para se sentir normal. É muito curioso isto. Depois começa a evoluir para o seu trabalho pessoal. Estes artistas – alguns já conhecia, outros não – mas já passaram essa fase do “quero ser normal”, “eu quero ser aquilo que sou”. O trabalho da Anabela, da Cláudia, é aquilo que elas são, são trabalhos muito honestos e muito autênticos. Se a saúde mental os proporciona a isso? Talvez. Assim como uma pessoa que foi violada também o faz, que tenha um acidente de carro também, ou uma experiência de vida e de morte. Isso tudo são experiências que lhes proporcionam pensar mais sobre isso.

G. – Mas também não tem de ser obrigatoriamente sobre isso...

S.R. – Alguns não são. Alguns fazem precisamente o contrário, porque não querem fazer isso, porque é o trabalho deles pessoal, enquanto artistas. 

G. – Enquanto artistas e não enquanto doentes mentais, que é uma frase que sublinhas em várias entrevistas. Isto não é terapia, é arte. 

S.R. – Para as pessoas perceberem. Nem nada daqui sai, sem a aprovação de todos. 

G. – Essas pessoas ainda vivem muito com o estigma de serem, primeiro, doentes mentais.

S.R. – Sim, a primeira pessoa a ter estigma são os próprios artistas. Até porque, durante a vida toda, toda a gente lhes disse que eles eram loucos, que “não valias nada”, “és maluco, não vais ser nada na tua vida”. Isso está enraizado desde que são pequenos, portanto, é muito duro vivermos com isto constantemente. Por isso, sim. O estigma está associado neles, está associado na sociedade, está associado nos médicos, está associado nas pessoas que os gerem. Aqui não falamos de estigma, porque para nós é muito normal, e porque acho que, quanto mais falamos de estigma, mais os estigmatizamos. Achamos que eles têm de perder isso, mas também sabíamos que está muito enraizado. É um misto. Aqui não se fala. Não se sente no ar, enquanto cá estamos, mas, se calhar, quando há um visitante, talvez se sinta, porque o visitante, se não for uma pessoa instruída ou que perceba do assunto, está sempre à procura da pessoa louca, onde é que está o doente, onde é que está o louco. Isto é uma coisa muito do sangue. Vamos ver onde é que está o sangue. Quando há um acidente, as pessoas param para ver. É aquela curiosidade humana. As pessoas, às vezes, ali ao início, paravam ali em cima das escadas, quando estava a porta aberta, e estavam à procura aqui no meio, em 50 pessoas, qual delas é que era o maluco.

G. – O meio artístico não deveria ser um meio mais sensível?

S.R. – E é. Agora, como todos os meios artísticos, existe um mercado artístico. E como todos os mercados artísticos também existe um mercado da arte bruta. E como todos os mercados também existe coisas boas e coisas más. O mercado ainda não é forte em Portugal. É quase inexistente, nós temos muitas vendas lá fora, nos Estados Unidos, França, Suíça, que é um mercado muito forte nesta área. Estamos a falar de trabalhos a dois e a três milhões que eles vendem. Nós vendemos ao preço que achamos que é justo, não são esses valores, como é óbvio. Estamos a representar Portugal na Bienal de Nova Iorque. Foi a primeira vez que Portugal foi lá, representado por nós. E sentimos esse mercado. Esse mercado é incrível, como todos os mercados, tem coisas boas e coisas más. Tem desde doentes a venderem-se à doença para vender os trabalhos, galeristas a vender a doença igual ao trabalho, trabalhos incrivelmente fantásticos e maravilhosos, sem doentes presentes. Há várias formas que o mercado pode trabalhar. Mas o mercado é o mercado. Arte contemporânea, arte bruta, é sempre assim. 

G. – O objetivo do Manicómio é, através da arte destas pessoas, desconstruir o estigma da doença mental. Como é que procuram fazê-lo, nomeadamente, junto das marcas?

S.R. – As marcas têm de olhar para nós como valor. E só fazemos coisas, se as marcas acharem que estamos a dar valor à marca. De outra maneira não fazemos nada e rejeitamos mesmo. Já rejeitámos várias propostas, várias e grandes, financeiramente muito grandes. As marcas, às vezes, querem usar só a parte do doente, e isso, para nós, não faz qualquer sentido. Aqui é um processo de igualdade, que é: “OK, eu faço uma coisa para ti. Eu faço-te uma proposta. A minha proposta é completamente diferente do produto que tu tens, ou não.” Até agora algumas têm sido, outras não. As marcas têm dinheiro a ganhar connosco, nós temos dinheiro a ganhar com elas. Há aqui um “win-win” que para nós é fundamental. Isso faz a comunidade e a sociedade olhar para nós como artistas, criativos e não como doentes. Há sempre as pessoas más que vão dizer que estão a usar os malucos para fazer dinheiro ou qualquer coisa assim do género, mas isso faz parte. Até agora ainda não ouvi nada disso! Mas, mais tarde ou mais cedo, vai acontecer. Sendo que nós ainda por cima não ganhamos nada neste momento, mas pronto, tudo bem. Mas esta preocupação é grande, que olhem para os nossos artistas como criativos e não como doentes. Mas as marcas estão muito atentas a isso. E sabem que funciona.

G. – Tem sempre esse lado q.b. perverso...

S.R. – Está lá, está lá um bocadinho imposto. 

G. – Isso é evitável ou inevitável? 

S.R. – Isso também depende muito de nós, aquela transformação de que falava. A transformação ao nível social é muito importante. Ao início é inevitável, depois a ideia é que se perca. As marcas que trabalham connosco, tanto a Arcádia, como as joias, como os vinhos, estão connosco já só pela parte da criatividade. Mas, ao início, começavam um bocado com a doença. Mas já perderam essa filosofia. Depois, quanto mais marcas se forem associando, mais isso vai desaparecendo. 

Texto por Flávia Brito
Fotografias da cortesia do Manicómio

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