Resistir ao tempo é um dos grandes desafios de qualquer negócio, sobretudo para aqueles que viveram fases de transição em que o trabalho manual foi sendo substituído pela produção em série executada por máquinas. As fábricas de cerâmica, que de acordo com José Queirós, autor de uma das maiores monografias sobre cerâmica portuguesa, começaram a ganhar uma maior projeção no século XVIII — como te contámos ontem neste artigo — foram desaparecendo com o tempo. Ainda assim, mantêm-se vivas até hoje algumas das fábricas que surgiram entre o século XIX e XX e que, graças a uma boa gestão e a um trabalho distinto, conseguiram resistir ao tempo.

Hoje apresentamos-te cinco fábricas com pelo menos um século de existência que com mais ou menos inovação atravessaram a história e fidelizaram clientes, muitas vezes de várias gerações. Bordallo Pinheiro, Cerâmica Vieira (Lagoa), Fábrica Sant’Anna, Vista Alegre e Viúva Lamego são fábricas com histórias e produtos distintos, mas com um ponto em comum: usaram a resiliência de que vive a cerâmica para se manterem vivas e firmes, ainda com tanto para oferecer.

Fábrica Bordallo Pinheiro, Caldas da Rainha

A fauna e a flora compõem, até hoje, o universo de Bordallo / Fotografia de Fábrica Bordallo Pinheiro disponível via Facebook

A Fábrica Bordallo Pinheiro foi fundada em 1884 por Raphael Bordallo Pinheiro, na altura diretor artístico, e por Feliciano Bordallo Pinheiro, o seu irmão e sócio. Em entrevista ao Gerador a propósito da reportagem “Cerâmica: mais do que um ofício secular, a metáfora perfeita para a vida”, Elsa Rebelo, a atual diretora artística, conta que nos primeiros tempos “a fábrica era mais do que um centro de formação, um centro cultural.”

“Na cerâmica costuma dizer-se que Bordallo Pinheiro projetava o impossível e o impossível acontecia. Porque ele tinha realmente uma equipa excelente que o ajudou também, e com o seu génio levou a cerâmica das Caldas à arte — não é que não fosse, mas ele deu um incentivo enorme ao nível da escultura”, conta Elsa.

Enquanto esteve vivo, Bordallo desenvolveu mais a parte escultórica, não tendo como primeira opção torná-las utilitárias; “mas os mercados de hoje assim o exigem”, explica. Ainda assim, ressalva que “O património que se faz é realmente valioso, tem uma historia incrível por trás e diariamente há pessoas que conseguem reproduzir técnicas centenárias.”

Atualmente a Fábrica Bordallo Pinheiro pertence ao grupo Visabeira, do qual também fazem parte a Vista Alegre e a Atlantis, o que aumenta os “canais comerciais da Bordallo”.

Para melhor dar a conhecer a história de Bordalo Pinheiro, foi criado em 1916 “pela mão do colecionador Cruz de Magalhães, grande admirador de Raphael Bordallo Pinheiro”. O Museu Bordallo Pinheiro, sobre o qual podes saber mais aqui, foi “o primeiro Museu em Portugal a ser construído de raiz  para albergar a obra de um artista”.

Cerâmica Vieira, Lagoa (Açores)

A Cerâmica Vieira é a fábrica com mais notoriedade no arquipélago dos Açores / Fotografia de Cerâmica Vieira disponível via Facebook

Fundada em 1862 por Bernardino da Silva, natural de Vila Nova de Gaia, a gestão da fábrica Cerâmica Vieira tem-se mantido nas mãos da mesma família há 155 anos. Atualmente gerida por António José da Silva Martins Vieira, natural de Lagoa, membro da quarta geração, e pelas suas filhas Leonor Vieira, Teresa Vieira e Manuela Vieira, que representam já a quinta geração, a fábrica tornou-se um lugar de paragem obrigatória na ilha de São Miguel, tanto para ceramistas como para turistas.

De acordo com a página no Facebook da fábrica, “o processo de fabrico artesanal é mantido desde os primórdios da fábrica”, bem como as suas decorações. Peças de cerâmica feitas na roda de oleiro e azulejos produzidos manualmente são os produtos que distinguem a fábrica centenária de Lagoa que utilizam nas decorações o azul como cor predominante.

A Cerâmica Vieira abre as portas aos visitantes, que podem fazer visitas à fábrica e “acompanhar as diferentes fases do processo de confecção de louça e azulejos, entre outras peças”, “desde a modelagem à pintura e a cozedura no forno”.

Fábrica Sant’Anna, Lisboa

Grande parte das vendas da Fábrica Sant’Anna são feitas para o estrangeiro / Fotografia de Carolina Franco

Ano de 1741, perto da Basílica da Estrela, nas “terras de Sant’Anna”. Foi neste contexto que surgiu a Fábrica Sant’Anna, inicialmente uma “pequena olaria de barro vermelho” que nos primeiros anos “produzia peças de barro sem qualquer tipo de decoração”. Após o terramoto de 1755, o azulejo tornou-se o revestimento mais procurado graças ao seu preço baixo “quando comparado com outros revestimentos de pedra” e “com o crescimento elevado da procura por este tipo de material a, outrora pequena olaria, viu-se obrigada a iniciar a produção de azulejos decorativos que viriam a fazer parte da decoração das fachadas de muitos prédios em Lisboa”, como é possível ler no site oficial da fábrica.

Da zona da Basílica da Estrela para a Lapa e, mais tarde, para a Rua da Junqueira, a fábrica foi mudando de instalações ao longo do tempo conforme as suas necessidades, até se mudar definitivamente para a Calçada da Boa Hora, onde se mantém nos dias de hoje.

Em visita à fábrica também a propósito da reportagem “Cerâmica: mais do que um ofício secular, a metáfora perfeita para a vida”, Francisco Tomás, diretor comercial da Sant’Anna mas também uma espécie de “faz tudo”, contou que “os fornos a lenha foram substituídos por fornos elétricos mas o processo é igual; os azulejos hispano-árabes são feitos exatamente com a mesma técnica do século XV e XVI”.

“É uma Fábrica em que os trabalhadores trabalham com gosto. Ao visitar a fábrica percebe que há aqui pessoas que trabalham há quase uma vida. Temos gente a reformar-se aos 49 anos de casa; aos 50 ainda temos cá gente a visitar e a vir trabalhar de vez em quando. Tem que se gostar disto; ou se gosta e se fica ou não se gosta mesmo”, conta.

Francisco acredita que o segredo para a preservação da fábrica é ter sido sempre gerida por pessoas que percebiam que a excelência do trabalho feito à mão era o que as distinguia entre as demais, e que mudar os processos seria “perder a alma” mas também perder um posicionamento de mercado.

À semelhança da Cerâmica Vieira, a Fábrica Sant’Anna faz visitas guiadas que dão aos visitantes a possibilidade de ver de perto as técnicas centenárias que fazem questão de continuar a utilizar.

Vista Alegre, Ílhavo

O azul e o branco são as cores icónicas e que mais se repetem nos serviços clássicos da Vista Alegre / Fotografia de Vista Alegre disponível via Facebook

Situada em ílhavo, a Fábrica de Porcelana da Vista Alegre foi fundada por José Ferreira Pinto Basto em 1824 e, por sinal, a primeira unidade industrial dedicada à produção de porcelana em Portugal. O reconhecimento começou a surgir tanto em Portugal como no estrangeiro, sendo as peças de porcelana da Vista Alegre parte de muitos enxovais portugueses.

Começou por produzir peças em porcelana e em vidro, tendo abdicado deste último material em 1880. Após sentir algumas dificuldades na empresa, Augusto Ferreira Pinto Basto, filho do fundador, visitou a fábrica francesa de Sèvres, onde “estudou a composição da pasta e obteve esclarecimentos que se revelaram fundamentais para a descoberta em 1832 de abundantes jazigos de caulino a norte de Ílhavo.”

Um século passou e o sucesso da Vista Alegre foi-se consolidando. No início do novo milénio, em maio de 2001, une forças com o grupo Atlantis, tornando possível um regresso do vidro ao seu universo envolvente. Ainda antes da Bordallo Pinheiro, em 2009, a Vista Alegre foi comprada pelo grupo Visabeira, fator que contribuiu para as obras de requalificação por que passou entre 2014 e 2015, “que incluíram a recuperação do património edificado existente, ampliação e renovação do circuito expositivo e a integração de dois antigos fornos da empresa nas áreas de recepção do Museu”, lê-se no site oficial.

Além da fábrica, o espaço em Ílhavo que se encontra aberto ao público inclui um Museu, a Oficina de Pintura Manual da Fábrica, a capela, as lojas e o Bairro Operário.

Viúva Lamego, Lisboa

O revestimento da estação de metro do Intendente, em Lisboa, é o resultado de uma das parcerias entre Maria Keil e a Viúva Lamego / Fotografia de Viúva Lamego disponível via Facebook

É provável que, se vives em Lisboa, já tenhas passado por azulejos produzidos pela fábrica Viúva Lamego. Criado originalmente como oficina de olaria de António Costa Lamego, o edifício no Intendente coberto de azulejos foi construído entre 1849 e 1865. A oficina de olaria tornou-se uma fábrica e, após a morte do marido, a mulher de António Costa Lamego assumiu a sua gestão. Corria o ano de 1876 e o nome, em jeito de homenagem, mudou para Viúva Lamego.

Ainda que inicialmente produzisse artigos de barro vermelho, azulejos em barro branco e faiança, “o azulejo tornou-se o principal produto da Viúva Lamego” no século XX, “já então numa fábrica virada para os artistas, com ateliês de trabalho que colocava à sua disposição”, explica-se no site da fábrica.

No ano de 1930 a parte industrial mudou-se para a Palma de Baixo, onde ficou até 1992, quando se mudou para a Abrunheira, em Sintra, onde permanece. O ano de 1930 foi também um marco para a Viúva Lamego uma vez que representou o começo de uma parceria que passou a ser-lhe característica: entre a fábrica e artistas plásticos, “que viram potencial criativo nas características do azulejo”, como foi o caso de Maria Keil, na altura, e mais recentemente Joana Vasconcelos.

Os azulejos da Viúva Lamego não só passaram a estar no espaço público pela mão de artistas como começaram a fazer parte das escolhas de obras arquitetónicas de Siza Vieira, Souto de Moura ou Rem Koolhaas. A sala de azulejo da Casa da Música, as estações de metro da Baixa-Chiado (Lisboa) e S. Bento (Porto) são alguns dos exemplos que, segundo a marca, “revelam como o traço contemporâneo e a azularia tradicional se podem complementar.”

 

Começou ontem a Semana da Cerâmica do Gerador, que te vai trazer um artigo dedicado a este ofício secular por dia em gerador.eu. A semana da cerâmica, sobre a qual podes saber mais aqui, parte da reportagem “Cerâmica: mais do que um ofício secular, a metáfora perfeita para a vida” integrada na Revista Gerador 27.

Texto e fotografia de Carolina Franco

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