“Tudo o que eu quero” não é um dicionário, nem tão pouco um inventário. Não está organizada por ordem cronológica nem é representativa de todas as artistas mulheres que nasceram ou viveram em Portugal. Mas essa nunca foi a intenção. “Tudo o que eu quero” é uma exposição que reúne 40 artistas portuguesas de 1900 e 2020, cujas obras estão expostas no Museu Calouste Gulbenkian até ao dia 23 de agosto; depois, seguem para Tours, em França. Pensar a condição da mulher artista não é uma questão do agora, mas, com o passar do tempo e a persistência da invisibilidade histórica, torna-se urgente. Inevitável. 

Ao entrar na primeira sala da exposição “Tudo o que eu quero”, na Gulbenkian, enfrentamos Aurélia de Sousa. Olha-nos como quem reclama um lugar que historicamente não lhe pertence, enquanto mulher. Como se nos dissesse “esta sou eu aos meus olhos”, contra a maré de uma História da Arte que durante séculos contemplava as mulheres apenas como representações figurativas vistas por uma lente masculina. “Menos de 4% das artistas nas secções de Arte Moderna são mulheres, mas 76% dos nus são mulheres” lê-se na obra Do women have to be naked to get into the Met. Museum? (2005), de Guerrilla Girls. A proposta de Helena de Freitas e Bruno Marchand, curadores da exposição, foi no sentido de reunir mulheres que (se) olhem, a si e ao mundo à sua volta, e que, de certa forma, dialoguem entre si. 

À porta da primeira sala, sentamo-nos com Helena de Freitas e, desde logo, perguntamos “porquê estas artistas e não outras?”. Explica-nos que a curadoria foi sendo feita em rede, e que a intenção era “construir esta exposição a partir das obras e não das artistas que fossem representativas”. “Não há nenhuma ideia de representatividade nesta exposição, nem de hierarquia, nem de importância. As artistas estão todas ao mesmo nível, sempre que possível, e as obras surgiram-nos na relação que umas têm com as outras. Portanto, a criação de diálogos entre artistas intergeracionais, para nós, foi um dado importante. Também não tentámos procurar aqui o que era feminino nem o que era português, o que nos interessou fazer foi uma afirmação de força destas mulheres artistas, que era um statement importante, mas sem trazer as artistas mais internacionais ou as mais importantes. Não estivemos a cumprir um puzzle de História da Arte, a exposição não é histórica, mas dentro destes núcleos que fomos construindo, o essencial foi tentar construir um conjunto de subtemas que dessem expressão à força e autonomia das mulheres artistas em Portugal”, explica. 

Desde que inaugurou, a exposição tem tido uma fila de espera para entrada. Já se contam 30 mil visitas, o que, para Helena, “é uma grande alegria” — de facto, ao longo da conversa com o Gerador, ia olhando discretamente para mais e mais pessoas que se juntavam à fila. Para algumas das pessoas que visitam “Tudo o que eu quero”, este pode ser o seu primeiro contacto com artistas que foram sendo desconsideradas, que ficaram na sombra de maridos artistas; grande parte delas, que não entram nos manuais de História da Arte. A sua invisibilidade é, desde logo, possível de verificar: na primeira sala, as pinturas de Ofélia de Sousa, em diálogo com as de Mily Possoz, não são fáceis de encontrar numa rápida pesquisa na Internet. E não só as suas pinturas, dos anos 20 do século passado, são difíceis de encontrar; também informação sobre o seu percurso não está acessível. 

Auto-retrato de Aurélia de Sousa / Fotografia de Pedro Pina

Ainda que não tenha sido a intenção, “Tudo o que eu quero” recupera alguns nomes esquecidos, e um nome pouco considerado nos circuitos frequentados pela classe burguesa da sua época: Rosa Ramalho. Como lembra André Silveira no texto que assina no catálogo da exposição, a vida de Rosa Ramalho é, aliás, a personificação do que era suposto ser-se enquanto mulher na época em que viveu. Enquanto algumas das suas contemporâneas nasceram num contexto que lhes permitiu frequentar o ensino artístico, viajar para outros países e beber do que por lá se fazia, Rosa abdicou do seu trabalho de ceramista para se dedicar a ajudar António Mota, o seu marido, que era moleiro, e a cuidar dos filhos e da casa. O percurso de Rosa foi o que se esperava de uma mulher no período do Estado Novo, porque o seu contexto assim o ditou. Regressou à cerâmica após a morte do marido e as suas pequenas estátuas surrealistas, com gestos quase grotescos, chamaram a atenção dos académicos da Escola Superior de Belas Artes do Porto. 

Olhando para trás, Helena de Freitas conta que “gostaria de ter apresentado artistas que trabalhassem com outras disciplinas”, à semelhança de Rosa Ramalho, mas que “não foi possível”. “Fiquei com imensa pena e com vontade de fazer mais exposições. Isto não é um ponto final, é um ponto de partida — para mim, foi. A Rosa Ramalho é um sinal na exposição; é uma sinalização de artistas que não são académicas, não tiveram uma formação artística, e são de um estrato social mais baixo. Mas que estão ao lado de outras, como por exemplo a Aurélia de Sousa, a Vieira da Silva, a Lourdes Castro ou a Paula Rego, que tiveram uma facilidade, pela sua condição social, de chegar onde, afinal, outras também chegaram, e com uma riqueza de trabalho que quisemos tornar articulável”, conta. 

No percurso da exposição, a condição da mulher artista surge para a questionarmos através de núcleos que exploram o seu lugar, a pluralidade do feminino, o corpo, o olhar, a palavra, a escrita, a casa, o político, as memórias coletivas. Segundo Helena de Freitas, houve uma procura por um outro lado destas artistas — talvez “o mais secreto” — que por força da ditadura permaneceu no silêncio, em alguns casos. E que ainda permanece, noutros. “Há muitas mulheres que, de facto, devido a uma estrutura familiar mais rígida, mais violenta, não conseguiram sequer afirmar-se enquanto autoras. A questão da autoria é uma questão importante, e a questão do olhar também. É, aliás, algo que atravessa a exposição toda: a mulher que sabe que é olhada durante séculos e que reivindica o seu pudor de olhar e de ser ela a representar”, diz a curadora. 

Num dos cantos, ainda da primeira sala, um bordado contemporâneo de Maria Antónia Siza Vieira rima com a obra The sick rose (2020) de Ana Vidigal; ambas subvertem a relação do doméstico com o bordado, da dona-de-casa-que-borda. Na sala de cima, As Mulheres do Meu País, de Maria Lamas, transportam-nos para as vidas das mulheres operárias, numa ala que funciona quase como o centro de toda a exposição — como se a intenção de igualar as mulheres vindas de diferentes contextos estivesse já ali. Ao lado, Grada Kilomba subverte as narrativas eurocêntricas e encara as feridas coloniais. E se Rosa Ramalho é um sinal da primeira sala, Grada sinaliza num momento final do percurso das histórias que faltam ouvir. 

Ambiente – Sala de Jantar (1971), de Ana Vieira, é uma das obras centrais do núcleo "A casa" / Fotografia de Pedro Pina

Que mulheres artistas? 

Illusions Vol. II, Oedipus, a instalação de Grada Kilomba que integra a curadoria de “Tudo o que eu quero” está datada de 2018. Foi apenas um ano antes que Grada inaugurou a sua primeira exposição em Portugal, na Galeria Avenida da Índia, e um ano depois que Memórias da Plantação - Episódios de Racismo Quotidiano foi editado em Portugal, pela Orfeu Negro, ainda que já o tivesse sido dez anos antes em Berlim, a cidade onde vive atualmente. A sua presença na exposição convoca, por isso, também, o silêncio. Grada Kilomba também não tem um percurso artístico tradicional, nem tão pouco nasceu num contexto privilegiado como outras das suas contemporâneas que se encontram na exposição. 

Sendo Grada Kilomba, junto a Filipa César, uma das artistas mais jovens da exposição — já que não foram incluídas artistas nascidas depois de 1980 — , a sua obra convida-nos a pensar na condição da mulher artista hoje. Helena de Freitas acredita que ainda hoje faz sentido pensar no lugar da mulher no circuito artístico e que “estas questões são importantes porque nos fazem refletir”; “até mesmo curadores, diretores de museus”. “Ainda estamos num tempo em que é preciso criar equilibrios”, diz.

Nesse sentido, a curadora assume que “Tudo o que eu quero” é “uma tomada de posição”, mas também “uma tomada de consciência”. “É importante o que se pode estudar e trabalhar a partir da construção desta exposição. Eu própria tive um caminho, uma aprendizagem nestes dois anos em que preparei a exposição com o Bruno. Nós já não somos os mesmos, nem eu nem ele. Há um conjunto de dados que aprendemos e que podemos transmitir e que serão certamente transformadores, tanto para nós como para o público que vê esta exposição e que se espera que fique a pensar. Ainda há pouco tempo vi um artigo cujo título era ‘faz ainda sentido fazer exposições sobre artistas mulheres?’ E, de facto, faz, ainda faz sentido, porque nós não nos podemos esquecer que a história das mulheres nas artes é uma história muito recente. São séculos de esquecimento e de inexistência, de secretismo, de trabalho interior doméstico, e foi preciso muita resiliência para chegar aqui. E não é nada que seja, já, adquirido.Todas as pessoas, de todos os géneros, têm de estar integradas numa dinâmica normal. Estamos num século e num tempo em que achamos que as coisas estão garantidas, mas vivemos num mundo ocidental. Há outros mundos e há outras realidades em que as coisas se passam de uma maneira muito diferente.”

Tendo como premissa a exposição e a pergunta que interpelou Helena de Freitas —  ‘faz ainda sentido fazer exposições sobre artistas mulheres?’ —, mas também os vídeos que funcionam como um convite à reflexão a partir da temática e não tanto das obras em específico, o Gerador procurou convocar o olhar de três mulheres que, de alguma forma, estão ligadas ao circuito artístico. Filipa Bossuet, jovem artista e jornalista, sente que “é sempre muito importante” reunir mulheres numa exposição para pôr em perspetiva as suas obras; “mas pensar nas especificidades desse grupo de mulheres é revolucionário” — algo que não encontrou em “Tudo o que eu quero”.  “Acho crucial pensar-se de que mulheres se está a falar para além da nacionalidade, isso torna o debate mais rico, porque, com ou sem intenção, a arte traz conversa, debate e questionamentos”, sobretudo em espaços que “historicamente são brancos”.

Wash and go (1998) de Joana Vasconcelos contrasta com os capotes de Pronomes (2001) de Ana Vieira / Fotografia de Pedro Pina

Na perspetiva de Hilda de Paulo, artista transfeminista decolonial e curadora, esta exposição — a que chama de CISposição — “poderia ser extremamente importante se em sua construção não fossem utilizada as mesmas ferramentas CIScoloniais de sempre, que foram (e ainda são) constantemente aplicadas seja em qualquer outro tema de exposição”. Hilda identifica uma problemática comum a grande parte das exposições e questiona quem pode entrar e porquê. Quais são os critérios? “Pensando, então, a partir das ondas de descolonização dos museus que acontecem em alguns lugares da Europa nesse momento, a começar que ‘artistas portuguesas’ não deveriam ser ‘artistas de Portugal’ no título dessa CISposição? Porque ‘artistas de Portugal’ carrega uma pluralidade de pessoas que vivem em Portugal. Já ‘artistas portuguesas’ carrega um atravessamento ainda muito salazarista ao dar uma ideia muito falsa de uma certa portugalidade, de uma certa unidade geográfica, e, simultaneamente, há a CIScolonialidade do dia a dia que ainda vai ditar a ideia de que só pode entrar e pertencer nessa CISposição um recorte muito específico de quem é CISnacionalizado e de quem não é”, sugere.

Enquanto artista transfeminista, Hilda levanta mais uma questão: “não podemos nós travestis e mulheres trans ser também mulheres?” Para alargar a sua reflexão, que surge de dentro para fora, a artista transfeminista decolonial e curadora cita o livro Transfeminismo de Letícia Nascimento, transfeminista brasileira: “não é a nossa ‘anatomia biológica’ que produz o gênero, mas o gênero, como indica Judith Butler, é o próprio processo pelo qual os corpos se tornam matéria.” 

“Com isso, é necessário a gente entender que mulher é uma situação histórica, o que significa que mulher só tem sentido em dado momento da história e a partir de determinadas práticas de género. À vista disso, nota-se que mulher não é uma ontologia, ou seja, não há essência, não se nasce mulher, mas se pode funcionar, sim, como mulher. Então, o que é uma mulher? Não é possível responder essa pergunta, porque, desse modo, remete a ser uma essência constante, visto que mulher é funcionamento. Por isso, a pergunta deve ser: ‘Como funciona aquilo que, em dado momento do tempo, se chama mulher?’ Desse lugar, sim, se consegue descrever as práticas sociais que constituem esse sujeito mulher em dado momento do tempo, porque trata-se muito mais de tecnologia do que uma ontologia. E por ser justamente uma tecnologia em que nós nos aproximamos do funcionamento de nossas práticas sociais e do funcionamento da sociedade em relação a nós. Sendo assim, a CISposição ‘Tudo o que eu Quero: Artistas Portuguesas de 1900 a 2020’ deveria ter estudado melhor as experiências das mulheridades e feminilidades levando em conta sua pluralidade para além das somente experiências cisgéneras — em grande maioria, experiências cisgéneras brancas — apresentadas”, analisa.

Francisca Portugal, curadora emergente, diz ao Gerador que, antes de mais, “a produção da exposição 'Tudo o que eu quero' trouxe para primeiro plano a importância da reflexão sobre o género e as suas multiplicidades”. “As artistas expostas têm, de um modo coletivo ou individual, um valor inquestionável como criadoras, pensadoras, inventoras, entre outras, e representam, com grande distinção, um testemunho da arte portuguesa”. Contudo, “deixando de parte a matéria prática das obras”, salienta dois pontos que neste momento de balanço considera importantes de refletir: “o desfavor da diversidade cultural bem como a falta de representação de jovens artistas”. “Em ambos os assuntos converge a noção de mulher, da sua tentativa de a definir e de a materializar como um conceito linear, fixo e indissociável”.  

“A exposição da Gulbenkian deveria refletir a multiplicidade do género através da arte, presente na prática artística de Pedro Neves Marques e Diana Policarpo, por exemplo, que se distinguem pela sua abertura e pesquisa sobre os estudos do género. Há que destacar também artistas como Gisela Casimiro e Tatiana Macedo que trabalham sobre a representação do legado colonial e o corpo negro contemporâneo”, acrescenta Francisca Portugal.

A jovem curadora alerta para a percentagem de mulheres curadoras e artistas, hoje: “é, sem qualquer das dúvidas, dominante”. “Segundo os números indicados pelas DGES (que podem ser consultadas, aqui) o número de estudantes a ingressar no ensino superior é, acima da média, identificada como do ‘sexo feminino’. Deste modo, é interessante pensar se, de um modo geral, o mundo artístico ainda é visto como maioritariamente masculino — não penso que assim seja”. Francisca sugere a realização de um estudo demográfico sobre “as artes em Portugal e a sua evolução, desde, por exemplo, 1900, sobre o seu público, os financiamentos, os ordenados, a percentagem de compras, tipos de instituições, espaços de trabalho em cidades como Porto e Lisboa”. “A Associação de Artistas Visuais em Portugal — AAVP iniciou já esse caminho”, ressalva. 

A obra de Gabriela Albergaria, numa quase-simbiose com a arquitetura do edifício e da paisagem da Gulbenkian, encontra ao fundo a pintura de Maria Capelo / Fotografia de Pedro Pina

Neste caso em específico, da exposição “Tudo o que eu quero”, Francisca esperava que houvesse “ocasião para discutir de forma conjunta sobre ser artista hoje (não setorizado e sem preencher cotas)”. “X artistx não têm género, deu-nos a gramática ser um substantivo comum”. No circuito artístico português, em geral, Filipa Bossuet acredita que “o grande desafio é o de sempre”: “que exista diversidade e representatividade nos espaços”. “Hoje, a luta contra o Tokenismo é um dos grandes desafios”, completa Filipa. Já para Hilda de Paulo, é “urgente DESESSENCIALIZAR o género e interromper discursos TRANS-EXCLUDENTES”. “As nossas TRANS*existências em Portugal não são invisíveis: são apagadas. Porque procurar igualdade de gênero no campo das artes visuais em Portugal não pode, não deve, ser somente entre homens CIS e mulheres CIS”, diz, por fim, a artista transfeminista. 

Frederico Delgado Rosa, antropólogo, diz, a certa altura, no seu vídeo de declarações para a exposição “Tudo o que eu quero”, que “estas mulheres [artistas] têm um papel na história das mentalidades”. Todas estas vozes que surgem tendo como ponto de partida “Tudo o que eu quero” fazem, também, parte da construção das mentalidades do agora. E uma exposição pode ser muito mais do que uma reunião de peças, um ponto de partida para o diálogo e um debate que não se fecha no espaço museológico.

“Tudo o que eu quero”, exposição incluída no Programa Cultural da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, vive na Gulbenkian até ao dia 23 de agosto. A entrada é gratuita.

Nota: As palavras em maiúsculas nas citações de Hilda de Paulo surgem desta forma por uma questão de leitura, a pedido da mesma.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de Pedro Pina da cortesia do Museu Calouste Gulbenkian

Se queres ler mais reportagens, clica aqui.