À recusa do passado segue-se a promessa do futuro.
Elina Guimarães, Discurso de abertura do II Congresso Feminista Português, 1928

Desde a implementação da República à Revolução dos Cravos foram vários os acontecimentos assinalados no tempo que contribuíram para a evolução de Portugal. Por volta do século XX a emancipação da mulher mostrava-se ser inseparável da luta de classes e das transformações económicas, sociais e culturais. No entanto, a voz das mulheres que se faziam ouvir durante esse tempo vivia do silêncio, ainda que estivessem ligadas, de alguma forma, à Democracia. A isto chamava-se “ativismo silenciado”. O jornal Público dedicou-se a percorrer arquivos e construir as vozes femininas que lutavam pela sua afirmação, mas que se perderam na memória de um país.    
O Gerador acompanhou esta evolução e foi nos recortes de arquivo, conteúdos noticiosos e recolha de testemunhos da atualidade que procurou perceber de que forma a Cultura contribui para a emancipação da mulher nas últimas décadas.

Em Portugal, a caminhada é longa. É no final dos anos noventa que se presencia os “maiores contactos” da mulher com o mundo da atividade política, da produção artística e das manifestações culturais nos mais variados aspetos, no entanto, este “pequeno passo” ainda estaria longe de complementar “a maneira masculina de abordar e desempenhar essas atividades”. Este pensamento é refletido em diversas teses dos Estudos sobre as Mulheres, As Mulheres na Sociedade e na Cultura, um dos mestrados da NOVA FCSH – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Cultura, nome feminino, ação de cultivar, conhecer, reunir e saber. Palavras do dicionário.

Definir o conceito de Cultura não é tão similar quanto a sua construção silábica. A cultura evoca interesses multidisciplinares, o que faz dela uma palavra que reúne diversos entendimentos. Utilizada em diferentes campos semânticos, substitui termos como “mentalidade”, “espírito”, “tradição” e “ideologia”. É a partir desta diversidade que o conceito “evolução” assenta que nem uma luva. No final do séc. XIX e nas primeiras três décadas do século XX, o desenvolvimento de novas formas culturais, novos espaços de convívio social e novas práticas de sociabilidade marcaram um acontecimento importante na história de Portugal: o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP). A organização de mulheres inserida no movimento feminista do início do século XX, registou a maior longevidade na história das organizações feministas em Portugal. Anne Cova, a investigadora auxiliar da Universidade de Lisboa, escreveu sobre as mulheres e a república e explica que “o objetivo do CNMP era o de federar as associações de mulheres em Portugal, tendo como efeito a heterogeneidade resultante dos grupos que aderiram. O CNMP tinha um programa muito abrangente de forma a suscitar o máximo de adesões e queria federar as associações ‘que se ocupam da mulher e da criança’ e de ‘coordenar, dirigir e estimular todos os esforços tendentes à dignificação e a emancipação das mulheres’. O Conselho português, no seu início, reagrupava vinte associações e no seu apogeu contava aproximadamente 1500 sócias”.

Sessão inaugural do Segundo Congresso Feminista e de Educação do CNMP (24 de Junho de 1928)

O Movimento de Libertação das Mulheres (MLM) é também um dos casos de celebração, no entanto, a história fez-se esquecer de tal. Numa reportagem publicada pelo Público, em 2006, Maria Teresa Horta, uma das fundadoras do movimento, explica que “O Movimento de Libertação das Mulheres (MLM) foi o único movimento assumidamente feminista”. Homenageava-se as feministas portuguesas dos anos 70 e 80 do século XX, num convívio organizado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). Fala-se em “esquecimentos” visto que o MLM é um movimento ignorado e que nunca foi muito conhecido. Oficialmente não tivera existido, sendo que nunca foi registado legalmente. “Viveu do ativismo de algumas mulheres e da sua capacidade de movimentação e de mobilização”, lê-se no artigo.

Hoje, são cerca de 436 organizações que defendem e lutam pelos direitos da Mulher. É dentro deste universo que a Cultura se integra num caminho “árduo” quanto a defesa da igualdade desses mesmos direitos em Portugal. É importante afirmar que, segundo as estatísticas da Cultura apresentadas no INE, ainda antes da realidade pandémica se aproximar, o emprego do setor cultural e criativo registava um total de 56,7% homens e 43,3% mulheres. Estes números que não se afirmam tão distantes “acabaram por se agravar atualmente”. Foram dimensões que Joana Cunha Pinto, bailarina de dança Contemporânea e uma das representantes da organização HeforShe Porto refletiu em conversa com o Gerador.

[...] ser verdadeiramente mulher não é, como para muitos, ocupar-se apenas de frivolidades, de bagatelas ou então não ter no mundo senão a preocupação da rotina doméstica. Repudiamos tanto a boneca fútil como a serva embrutecida. Para nós, a verdadeira mulher é aquela moralmente forte, intelectualmente culta, que dentro da sua esfera, qualquer que ela seja, cumpre conscientemente a sua missão social.

Elina Guimarães, Discurso de abertura do II Congresso Feminista Português, 1928

Considerado um veículo de expressão, comecemos pela Dança, algumas das vezes “gritante” no que toca às fragilidades da expressão, ou melhor, da mulher.    
Joana, uma mulher cujas primeiras pisadas já mostravam o seu envolvimento com a dança, começou a sua formação através do ballet e, posteriormente, dedicou-se ao contemporâneo. A sua relação com o ballet não foi totalmente escolha sua, no entanto, sentiu que foi algo “extremamente natural”. Oriunda de um seio familiar que, em algum momento da sua vida, abraçou a dança, sentiu que ao longo do seu crescimento, no geral, a escola clássica impunha um padrão “obrigatório” em torno da mulher e bailarina que tinha de ser — “foi muito difícil, principalmente, na altura do secundário. Já nessa altura, fiz um ensino vocacionado em dança. Além de ser muito puxado, era muita carga horária. É certo que sabia para o que ia. Imaginava que fosse uma espécie de Fame (filme), a dançar pelos corredores”, conta-nos. Foi lá que percebeu que aquilo era para “ser a sério”. E o que é “ser a sério”? Segundo Joana, não se trata de uma pressão constante, no entanto, era-lhes exigida uma maturidade que requeria a consciencialização de um prazo do “artista”, “tínhamos de estar conscientes, obrigatoriamente, assim como os atletas de competição de um prazo que nos está muito mais próximo do que em qualquer outra profissão. Muitas vezes, via os meus colegas a ‘ter vida’ e eu não os podia acompanhar porque ou tinha ensaio ou aulas até mais tarde”, explica.

A esta realidade aliava-se o “padrão do corpo, da magreza.” Começavam a surgir questões como “o que é que comeste?” e as “obrigações dúbias com o que não devias comer”. Esta realidade faz também parte da construção cultural da mulher em torno das artes. É também importante assumir a perfeição estrutural e visual em torno do que deve ser uma bailarina? A esta questão indireta, Joana responde com uma memória: “tenho sempre a recordação do que uma professora chegou a dizer a uma das minhas colegas. Após essa rapariga afirmar que sentia que aquela escola tinha destruído o seu sonho de ser bailarina, pela dureza e rigidez que implicava, a professora olhou para ela, tentou desconstruir aquela ideia e acabou por lhe dizer — ‘sentes que agora estás mais perto do sonho ou da realidade?”, afirma.

A jovem de 24 anos explica-nos ainda que, muitas das vezes, o problema surge na forma como se “pinta” a dança, “bonita, de tutu, ser levada por um menino bonito…”. No entanto, não se trata somente disso. No caso do ballet, Joana defende que deveria de ser acompanhado com algum tipo de terapia mental. “É difícil, porque estamos quase sem roupa, em frente a espelhos e sempre a olhar para eles no sentido de corrigir, no sentido do que pode estar melhor, mais direito e isso, numa pessoa que ainda se está a formar, aos quinze anos, pode ser muito destrutivo”.

Fotografia José Caldeira, peça Cor de Burro quando Foge

A ideia de que no ballet as personagens são “sempre princesas indefesas ou mulheres que morrem de amor, desgosto ou ficam à espera do príncipe” foram algumas das questões com as quais não se identificava e que a acabaram por levar até à dança contemporânea. Foi nesta altura que começou a criar as suas noções mais críticas e feministas e que questionara o porquê do ballet se debruçar nesta “fragilidade feminina”. Explica-nos que na dança contemporânea estas bases ainda acontecem e, por essa mesma razão, sente que ainda existem “muitos problemas” para serem falados e debatidos no cerne da dança e das temáticas que alimentam a sua história.

A questão do género no universo da Dança é também um assunto ainda muito presente. Atendendo que o ballet, ao longo da sua evolução, sempre foi caraterizado pela vasta lista de nomes de bailarinas, contrariamente ao que acontecia com os bailarinos, no entanto, no que toca aos cargos de direção de Companhias de Dança ou no ramo da coreografia, a realidade é outra, a “norma ainda segue aquela visão clássica do poder. E o mesmo acontece com situações relacionadas com o racismo, entre outros temas”, reflete.

No campo da dança contemporânea as narrativas também se perpetuam e é então que se levanta a pergunta — “o que é que mudou?”. Hoje, ainda existe a necessidade de fazer as versões universalmente conhecidas nos diferentes registos, como é o caso do Lago dos Cisnes e da Giselle e, na visão da bailarina, trata-se apenas de perpetuar a mulher como um ser frágil e débil, tornando-se num ser imaterial, conhecido como Willis, que reúne todas as mulheres que morreram por amor. No entanto, essa desconstrução chega a acontecer nos dias de hoje, mostrando “as Willis fortes e com garra” a nível internacional, ainda que de forma mais isolada. Para além desta ideia de desconstrução, Joana apela também à consciencialização da importância da Dança inclusiva, quer para xs bailarinxs quer para xs espetadorxs.

Sobre o olhar da emancipação em contexto real e pandémico, a jovem acredita que há determinados grupos que podem, de facto, ter ficado muito afetados, no entanto, “a dança e as artes da performance são uma área tão precária que nem se consegue perceber se houve, ou não, alguma progressão. É doloroso, mas é real”, afirma.

Reinventar. Os artistas reinventam-se. E a sociedade permite-se a isso?

Ao longo das últimas décadas, a importância de falar sobre a Mulher e o seu posicionamento na sociedade tem-se vindo a reinventar nas peles dxs mais diverxs artistas nas diferentes artes. Recordar quem não teve voz pela realização de dez mulheres também se pode afirmar como reflexo de tal. Contado por Mulheres é um projeto da produtora audiovisual UKBAR Filmes e da RTP1 que tem como objetivo “colmatar uma assimetria no acesso das mulheres realizadoras ao meio audiovisual". A iniciativa inédita no audiovisual português conta com a participação de Anabela Moreira (atriz), Ana Cunha (realizadora e atriz), Cristina Carvalhal (encenadora e atriz), Daniela Ruah (atriz e realizadora), Diana Antunes (realizadora), Fabiana Tavares (realizadora), Laura Seixas (realizadora), Maria João Luís (atriz e encenadora), Rita Barbosa (realizadora e artista) e Sofia Teixeira Gomes (produtora e anotadora).

Com o objetivo de acompanhar as realizadoras num processo de internacionalização, as histórias provêm de dez obras portuguesas do século XX, atribuídas a cada uma das realizadoras:

  • Anabela Moreira – Há-de Haver uma Lei, de Maria Archer (adaptado por Manuel do Ó Pereira)
  • Ana Cunha – A Traição do Padre Martinho, de Bernardo Santareno (adaptado por Cláudia Clemente)
  • Cristina Carvalhal – Os Armários Vazios, de Maria Judite de Carvalho (adaptado por Marta Pais Lopes)
  • Daniela Ruah – Os Vivos, o Morto e o Peixe Frito, de Ondjaki (adaptado por José Pinto Carneiro)
  • Diana Antunes – O Pio dos Mochos, inspirado na obra Contos Vermelhos, de Soeiro Pereira Gomes (adaptado por Raquel Palermo)
  • Fabiana Tavares – Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho (adaptado por Vasco Monteiro)
  • Laura Seixas – Serpentina, de Mário Zambujal (adaptado por Rui Vilhena, João Duarte Silva e Vinicius Dias)
  • Maria João Luís – A Hora dos Lobosinspirado na obra Alcateia, de Carlos de Oliveira (adaptado por Mário Cunha)
  • Rita Barbosa – Jogos de Enganosinspirado na obra Pequenos Burgueses, de Carlos de Oliveira adaptado por Martim Baginha Cardoso)
  • Sofia Teixeira Gomes – Vizinhasinspirado no conto Vizinhas, de Teolinda Gersão (adaptado por Ana Brito e Cunha e Valéria Carvalho).

Foi a partir deste novo projeto que Mário Cunha, o coordenador de argumentistas responsáveis pelas adaptações, explica que, apesar dos dez contos diferentes, nem todos são protagonizados por mulheres, no entanto, existe em si a importância de mostrar as personagens femininas como determinantes na história, como foi o caso da sua adaptação.

Numa fase inicial, o objetivo era que a equipa de argumentistas, em que o mesmo se insere, fosse paritária, ou seja, completa por cinco homens e cinco mulheres, no entanto, o mesmo não foi possível devido a desistências do momento. E, por essa mesma razão, a equipa acabou por ficar composta por um maior número de homens.

O projeto que estreia em meados de setembro tem como base dar oportunidade a jovens realizadoras ou que se estão a estrear na realização, através de um canal público, e dessa forma permitir uma maior inclusão das mulheres na realização em Portugal e, posteriormente, a nível internacional.

Refletindo a importância do Guionismo e do Argumentismo no papel da educação cultural e social, Mário partilha uma experiência pela qual passou, na análise de uma série de uma época passada: “há uma situação em que um homem está entre duas mulheres, ou seja, tem uma relação dupla e é tratada de uma forma muito crítica. Uma forma em que nos anos oitenta, aquilo, faria sentido na mentalidade daquele tempo, mas, quando eu tive contacto e li aquilo em jeito de análise, percebi de imediato que o público não queria ver aquilo, daquela forma tão crua. Não vai querer ver duas mulheres a serem completamente usadas por um homem – que é dessa forma que está escrito – mas sim ver o ponto de vista das mulheres que serão personagens fortes, com uma personalidade ainda mais forte”, afirma. É nesta ótica que se entende que a forma como se olha para as mulheres na ficção “é diferente”.

Fazendo um apontamento rápido sobre o seu telefilme - A Hora dos Lobos - presente no projeto, Mário fez uma reflexão constante tratando o tema com especial cuidado, “pensando do ponto de vista da mulher”. Contando com a ajuda da produtora Pandora da Cunha Telles e a realizadora Maria João Luís, repensaram sobre o que seria o olhar de uma perspetiva feminina sobre uma personagem que vive tanto da sua identidade.

O argumentista que participou em novelas portuguesas defende ainda que é totalmente a favor de equipas de argumentistas paritárias, não só em termos de género, “porque é bom termos argumentistas de idades diferentes, por exemplo. Temos um leque de personagens que temos de abranger e, da mesma forma que eu não sei tão detalhadamente como a linguagem jovem se utiliza agora, o mesmo acontece com personagens mais maduras. No caso das mulheres, eu acredito que é essencial existir uma perspetiva feminina”, continua.

Reconhecendo que a ficção e o audiovisual são sobre natureza humana, “eu sou muito crítico de haver censura e não se tratar de determinados assuntos. Eu acho que é tratando-os que nós podemos refletir sobre eles. Há um pouco a corrente, hoje em dia, em que se pode normalizar comportamentos que não consideramos positivos, no entanto, eu não acho que evitá-los o previna. Considero mais importante abordá-los do que evitá-los. Enquanto criador de ficção, eu acho que não me compete dizer às pessoas quem é o correto ou o errado, mas sim refletir sobre os assuntos”. Não conseguindo desassociar-se da sua identidade e valores, Mário reconhece que isso também faz parte neste propósito de abordagem social e cultural — “eu não farei uma ficção que apresente a violação como uma coisa gloriosa, por exemplo. É algo sórdido, violento e que transforma a vida de uma personagem. O meu objetivo é mostrá-lo como sendo algo ‘nojento’ e toda a consequência dos seus atos. É desta forma que damos ao espectador os elementos para que pense sobre esta questão”, acrescenta.

É ainda no campo da ficção que recordamos a Escola de Mulheres, companhia de teatro criada nos anos noventa e a sua importância na emancipação feminina. Normalmente, as mulheres eram apenas convidadas para fazerem trabalhos de atrizes. Raro era as mulheres serem chamadas para assumirem lugares de chefia, de dirigir espetáculos ou companhias. É com a necessidade de combater esta ausência e de afirmar a sua premissa que a Escola de Mulheres se edificou, assinalando um ponto de viragem no tempo.

HOMEM-AGEM peça apresentada na Escola de Mulheres

Composta por impulsionadoras como Fernanda Lapa, Cucha Carvalheiro, Isabel Medina, Cristina Carvalhal, Marta Lapa, Aida Soutulho e Conceição Cabrita, as sete mulheres que há cerca de vinte e cinco anos pensaram em privilegiar o trabalho feminino, enaltecer as mulheres no Teatro em particular, tinham como objetivo “revelar e trazer a cena textos de muitas mulheres dramaturgas, o trabalho das produtoras, das encenadoras, das técnicas”, partilhou Ruy, diretor artístico, em entrevista ao Gerador.

Hoje, as oportunidades ainda escasseiam. A “revolução” acontece com o objetivo de pensar a igualdade como uma máxima ao invés de uma caminhada constante que não entrará em vias de extinção. E as autoras portuguesas que o digam:

Há quantos annos eu lucto na imprensa pelo desenvolvimento e melhor cultura das faculdades sentimentaes e mentaes da mulher e pela comprehensão mais ampla das suas necessidades de espirito!

Virgínia de Castro e Almeida, A Mulher, 1913

Texto de Patrícia Silva
Fotografia de Rita Andias, peça Coração

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