Inspirado na cultura popular do Minho, o Teatro de Balugas nasceu, em 2007, como uma pequena companhia de teatro amador e da aldeia. Foi fundado com o propósito de recuperar a tradição de teatro popular em Balugães, no concelho de Barcelos, e é uma história de resiliência e continuidade, onde a cultura popular de gerações resiste nas mãos de um punhado de artistas anónimos que pisam o palco de balugas ou borzeguins – botas altas com atacadores –, de onde deriva o topónimo daquele lugar. É teatro feito na aldeia, comunitário e associativo, que pretende manter viva a identidade daquela localidade, enquanto espaço de criação, numa luta contra o desaparecimento do mundo rural.

Para esta companhia, acostumada a atuar em casas do povo, salões paroquiais e juntas de freguesia, os teatros municipais começam também a ser palcos habituais. No próximo verão, o grupo vai apresentar o espetáculo Pão Nosso, ao Mondial du Théâtre, no Mónaco, interrompendo assim um período de mais de 30 anos sem uma participação portuguesa, neste que é considerado o maior festival de teatro amador do mundo.

Umbilicalmente ligado ao noroeste peninsular, o Teatro de Balugas conta hoje com mais de 20 criações, com textos originais “muito identitários” da região do Minho. Porém, como explica, o diretor artístico Cândido Sobreiro, não é o teatro tradicional a que muitos estão habituados. “Nós tentámos fugir daquele registo etnográfico habitual, quase folclore.” O grupo pretende “mostrar que é possível fazer teatro amador de outra forma, sem ser o teatro amador de gargalhada fácil, que é um lado, às vezes, muito mais apetecível” pelos programadores culturais das câmaras municipais, explica. “Acho que nascemos, enquanto companhia de teatro amador, com o intuito de tentar mudar isso.” Para o também ator, encenador e dramaturgo, as pessoas gostam de ver o que é apresentado. “Se apresentarmos um trabalho com qualidade, as pessoas vão gostar e vão querer mais. E é também desse ato de cidadania cultural, de educar o público, que nasceu o Teatro de Balugas.”

O palco como “ato de resistência cultural”

“Nestes últimos seis, sete anos, temos abordado muito o teatro, fazendo do palco um ato de resistência e de ativismo, ou seja, abordando temas que são muito atuais para o Minho”, elucida Cândido Sobreiro. Exemplos disso são as três peças que esta companhia de Barcelos tem atualmente em cena, nomeadamente, A Furgoneta, Pão Nosso e Raposos.

O premiado espetáculo Pão Nosso, conta o autor do texto, retrata “o mundo rural que está a desaparecer e toda a sabedoria dessas pessoas de profissões que desapareceram completamente e que estavam ligadas ao mundo rural”, abordando até “o abandono dessas pessoas nas aldeias e a própria demência que é, muitas vezes, associada a essas pessoas que ficam isoladas”. Esta é uma criação onde se tenta mostrar o ciclo do pão, mas sem ser num registo etnográfico. “Não queríamos mostrar uma peça com umas senhoras vestidas de rancho folclórico, umas cantigas e o ciclo do pão como acontecia. Nada disso. Contamos a história de um homem, de um moleiro.”

A peça baseia-se numa história de amor: o moleiro apaixona-se por uma ceifeira que tem também dois pretendentes, um pedreiro e um gameleiro – pessoa que fazia as gamelas de pinho onde se amassava o pão. Através de uma história “completamente disfuncional” – “nunca sabemos se essa história é verdade ou não”, revela Cândido –, o Teatro de Balugas aborda de uma forma teatral e poética o ciclo do pão na aldeia, reconstruindo-o a partir de princípios diferentes não tradicionais e quase oníricos.

Selecionado para festivais estrangeiros e galardoado, não só em Portugal, mas também em Espanha e Itália – Pão Nosso acabou por vencer o CONTE 2020 – Concurso Nacional de Teatro com o Prémio Ruy de Carvalho para melhor espetáculo, um feito considerável para uma estrutura com a dimensão do Teatro de Balugas. “É um concurso nacional, onde as companhias de teatro dos grandes centros do Porto e Lisboa acabam sempre por vencer e apresentar-se. Algumas já com técnicos e encenadores profissionais. O Teatro de Balugas não tem nada disso. Somos 100% amadores e começámos do grau zero”, refere o diretor artístico.

Desde a criação do texto à banda sonora, passando pelo vestuário, figurinos e adereços, tudo é feito pela companhia, que não tem nenhum membro profissionalizado. “Temos o nosso emprego e fazemos disto uma verdadeira paixão, mas, acima de tudo, um ato que é hoje, cada vez mais, uma arte e, com os tempos em que vivemos, um ato de resistência cultural”, afirma.

Já na peça A Furgoneta – que estreou no Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo –, dois irmãos decidem reformar o negócio do pai, “uma daquelas furgonetas que vendiam porta a porta nas aldeias do Minho”, transformando-a numa start-up, com encomendas online e por telefone, e a venda de muitos mais produtos. Mas esbarram-se com imensos problemas, narra Cândido. “Não há internet, não há rede de telemóvel na serra, e o que as pessoas querem é dois dedos de conversa e uma ajuda para escrever uma carta ou levar um medicamento.” Em palco, uma carrinha que roda sobre ela é o cenário, onde os irmãos se debatem com a desertificação do mundo rural e, ao mesmo tempo, com o “atentado” que a serra está a sofrer com a monocultura do eucalipto. “Tentamos mostrar que a serra está deserta de pessoas, mas vai também ficar deserta de natureza.”

A Furgoneta estreou, em 2020, no Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo
Teatro popular muito além da gargalha fácil

Se há dez anos, os espetáculos do Teatro de Balugas eram “uma gargalhada do início ao fim”, hoje não, garante o diretor artístico. Na primeira década, o grupo focou-se em criar público, desenvolver a companhia e mostrar a região do Minho, explorando o lado identitário de comédia, muito atual, com novos cenários – “Alguém que se lembrou de colocar uma portagem na aldeia, e o velhote que tinha um terreno do outro lado da casa já não podia ir, porque tinha de pagar portagem”. Com este tipo de cenários caricatos, o grupo procurava fazer rir, mas também alertar para a consciência social e política. “Valeu muito também pelos textos pacificamente revoltados, é obvio. Porque não há aqui nenhuma ideologia política, há sim uma ideologia cultural”, argumenta Cândido Sobreiro.

O público gostava desses textos mais cómicos e cenários cheios de adereços e figurinos, mas – devido ao que estava a acontecer ao território do Minho, a uma Europa, onde “as pessoas são cada vez mais extremistas”, e também graças à visibilidade que o grupo foi tendo – os elementos do Teatro de Balugas, que simultaneamente foram “crescendo enquanto artistas”, decidiram que estava na altura de dar outros contornos ao projeto. “Não vou dizer que não fosse sério, mas mais sério nestes termos: mais cultural, mais de ato de cidadania. Mostrar às pessoas que é preciso refletir, que é preciso conhecer o lado bom, o lado mau”.

Atualmente, a companhia prefere propor à reflexão, como acontece em Raposos. Inspirada em Vilarinho das Furnas e no que “aconteceu na barragem em Ribeira de Pena, em que as pessoas foram expulsas das suas casas antes quase de a barragem estar em construção”, a peça é um alerta sobre a propriedade da terra e os seus elementos naturais. A história fala de uma barragem abandonada na construção, onde o rio pressentindo tamanha clausura secou. Entre as árvores cortadas e a aldeia abandonada, os que ficaram, entre homens e bichos, tudo tentam para encontrar algum sinal de água, o bem elementar e agregador da aldeia. “É uma peça muito dura. Há pessoas que se emocionam. Nós próprios enquanto atores nos emocionamos. No fundo, colocamo-nos no papel daquelas pessoas, daquelas famílias, porque o ser humano, quando aguçado no seu território, é capaz das melhores e piores coisas, e Raposos é um bocado isso”, nota o encenador.

 Com mais de 20 criações originais, o Teatro de Balugas já atuou em várias localidades do noroeste peninsular

Este era um dos objetivos do Teatro de Balugas: criar público, mas também mostrar que é possível fazer um teatro popular “completamente diferente, com um texto muito mais duro” e em que se abordam temas diferentes dos habituais. “Enquanto as pessoas levavam para casa uma barrigada de rizo, e até se esqueciam dos problemas e das coisas da vida, iam embora felizes, hoje em dia vão preocupadas no bom sentido. Vão preocupadas com uma causa, mais alertadas. E o território do Minho ultimamente tem sido tentativa de algumas dessas «tragédias». Porque o maior património do Minho, e de Portugal, é o seu território natural”.

Teatro de causa, mas despolitizado

Ainda este ano, a companhia amadora de Barcelos pretende apresentar Sem Rei Nem Roque, um projeto, coordenado por Cristina Faria, de investigação e criação teatral sobre a implantação no vale do Neiva da Linha de Muito Alta Tensão no Minho.

No último ano, relata Cândido Sobreiro, foi feito o registo fotográfico, vídeo, sonoro e oral, nomeadamente, das pessoas às quais foram comprados os terrenos por onde passará a linha, mas pelo preço que foi “imposto”. “Encontrámos pessoas que tinham uma ligação a esse território secular, já aquilo vinha dos tetravós, ou que era o único terreno que tinham para cultivo, ou o único terreno que tinham para lenha, para o inverno. E depois a paisagem cultural. A transformação natural do território é terrível para estas pessoas”, reforça.

Sem Rei Nem Roque tem como palco o território de Barcelos e Ponte de Lima, com incidência no vale do Neiva e as aldeias afetadas pela construção do projeto elétrico

Agora, a partir do trabalho de campo realizado, está a ser criado um espetáculo, mas o objetivo não passa por politiza-lo: “Não vamos estar nem do lado bom, nem do lado mau.” “Vamos mostrar o território das pessoas a uma comunidade de abelhas, que também está a desaparecer. E vamos mostrar como é que uma comunidade reage a estas tentativas”, revela Cândido, responsável pela dramaturgia, acrescentando que este será um alerta para a comunidade sobre a natureza. “Nós tentamos cada vez mais fazer do palco isso.”

Sem Rei Nem Roque é um projeto que a companhia quer levar, não a teatros ou auditórios municipais, mas a todas as terras onde a Linha de Muito Alta Tensão, no vale do Neiva, está a passar.

Manter o património teatral de Balugães

Quando o Teatro de Balugas foi criado, em 2007, em Balugães, ali não havia sequer um palco. Mas, como nos conta o diretor artístico do projeto, esta é uma aldeia com um grande património teatral, onde àquela data “o teatro estava completamente adormecido.”

Naquela localidade, nos anos 20 do século XX, havia a Tocata dos Davides, um pequeno grupo informal de música e teatro popular que percorreu o Minho, com autos religioso-profanos. Mais tarde, nos anos 40, 50, surgiu um novo grupo em que os membros, já com alguma escolaridade escreviam peças de teatro, o que, segundo Cândido, era raro naquele tempo, não só no Minho, mas no mundo rural em geral. “Uma das peças mais típicas e icónicas do teatro popular de gargalhada muito fácil, que andou muito ali nos anos 60, é o Médico À Rasca, que é de um autor de Balugães”, menciona o encenador, referindo-se à criação de Dídimo Mesquita, representada na última metade do século XX, por inúmeros grupos de teatro no norte do país. “E depois o teatro morreu, até que aparece, em 2007, o Teatro de Balugas”. Nessa altura, conta, não havia hábitos culturais, para além do futebol.

Com o regresso do teatro à aldeia, as pessoas foram-se aproximando, foram enchendo o salão da junta de freguesia, cada vez mais, até que, no verão, o espetáculo acontecia “de portas abertas com pessoas do lado de fora”, descreve. Com a adesão da população aos espetáculos teatrais, a própria junta de freguesia de Balugães acabou por fazer obras. Hoje existe um palco com rotunda negra, cortina, cadeiras e holofotes. “Fomos caminhando lado a lado. Fomos criando público, fomos criando estruturas e fomos criando companhia de teatro. E, hoje em dia, é uma marca da aldeia.”

Um projeto dedicado ao Minho

Oriundo da região do Vale do Neiva, no Minho – onde surgiu o Auto da Floripes, a mais antiga manifestação de teatro popular – o Teatro de Balugas é um projeto inteiramente dedicado ao Minho, embora cada vez mais ao noroeste peninsular.

Aliado ao projeto teatral, a companhia organiza o Festival de Teatro Palco de Terra e atribui anualmente o prémio com o mesmo nome, para reconhecer pessoas e instituições pelo trabalho realizado, no meio rural, no âmbito da criação artística sobre aquela região.

O Terreiro é uma festa de teatro popular que acontece a cada dois anos, na primeira semana de agosto, no adro da Igreja Românica de São Martinho de Balugães

O grupo de Barcelos coordena ainda o Borzeguim, uma plataforma de materialização artística da memória coletiva da aldeia de Balugães, com destaque para o Terreiro, espetáculo bienal de teatro comunitário, feito no adro de uma igreja românica, onde passa o caminho português de Santiago de Compostela. “O Borzeguim é uma pequena plataforma artística nossa, sem qualquer apoio financeiro, mas que tem o dever de registar todos esses espetáculos para memória futura”, elucida Cândido Sobreiro. Não se trata de um book do espetáculo, mas, sim, do registo da feitura do mesmo e do público presente.

Em 2013, foi lançado o desafio ao realizador Miguel Felgueiras, autor do documentário O Alto do Minho, que realizou um minidocumentário de 12 minutos sobre o Terreiro. Em 2016, foi feito um livro de fotografia documental com o Paulo Alegria. E, em 2018, o terceiro espetáculo foi documentado pela equipa da Divisão de Cultura e Museus do Município de Barcelos, para registo do projeto Património Cultural Imaterial, já que Barcelos foi a primeira cidade em Portugal e na Península Ibérica a integrar a rede mundial de Cidades Criativas, na categoria do Artesanato e Arte Popular reconhecida pela UNESCO. “Daqui a 20 anos, há um registo, há um livro de fotografias das pessoas, da aldeia, do adro, do público, há um DVD, que está online, no nosso canal Vimeo, e essa é a ideia do Borzeguim, é registar.”

Neste momento, o Teatro de Balugas está a trabalhar com o artista Francisco Dinis, que é compositor e videografo, para registar a aldeia num sentido mais lato, mais precisamente, o Caminho de Santiago nesta localidade. “É um trabalho muito mais eclético, muito mais diferente. Não sei se irá agradar muito à aldeia, porque uma coisa é um livro de fotografias e um vídeo, outra coisa é um trabalho plástico feito em vídeo e composição musical”, reflete o diretor artístico, relembrando que o trabalho da companhia também é o de educar a população.

“Nós entendemos que somos operários ao serviço de uma causa. Não estamos aqui para experiência profissional, e o teatro amador está a morrer à custa disso.” O encenador da companhia de Barcelos observa que, cada vez mais, surgem grupos de teatro que funcionam como ateliês ou atividades para as pessoas experimentarem a arte. “Não tenho qualquer problema com isso. O problema é que depois muito pouco fica depois disso. Muitas vezes fazem um, dois, três espetáculos com um encenador profissional, mas depois o projeto morre, e o que fica para a comunidade é muito pouco.” Para Cândido Sobreiro, o teatro amador acaba por ser também associativo e comunitário. “Tem de estar ao serviço de uma região, de uma localidade. É esse o nosso entendimento.”

Texto por Flávia Brito
Fotografias da cortesia do Teatro de Balugas

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