Por vezes, as tarefas que exigem maior concentração pedem também companhia sonora de fundo, e quando damos por nós lá estamos no YouTube a ouvir aquela playlist que dura quatro horas e tem o nome de “ambient chill louge relaxing music”. Encontramos nestas playlists uma mistura de downtempo trip hop, acompanhado de batidas sampladas cujas frequências nos ajudam a pensar melhor.

Divergindo do termo original chilling em inglês, chill ou chillin’, hoje conotam numa linguagem informal tudo o que provoca um estado de espírito satisfatório que tira partido do ato do pouco fazer, relaxar, por assim dizer.

Inspirado num animé japonês Tonkatsu DJ Agetarou,que conta a história de um jovem, Agetarō Katsumata, de uma família de especialistas em tonkatsu, prato típico japonês de porco panado frito, que ao fazer uma entrega especial num clube noturno descobre que ser DJ e ser chefe de tonkatsu partilham a mesma essência, leva-o a tentar desenvolver ambas artes.

É de um dos momentos da série apresentada por Abdel ou “Maze”, que Hugo Silva, mais conhecido como Jordam entre os amigos, nos tempos em que era federado em basquetebol, dá nome ao coletivo The CHILL OUT Experiment. Entre acasos e encontros, os outros membros foram-se juntado: Joaquim “Kim” Ferreira, por ser seu irmão, Renato Pires, batizado de “Lil Piri”, por ser irmão de um colega de curso do Kim, Nelson, ou Nelsoniq nome de produtor, levado pela dança ao encontro de Hugo, mas também “Maze”, o fotógrafo do coletivo, e Fábio Marques Monteiro ou “Fabz”, o DJ com as vibes mais mexidas.

Apesar de serem um coletivo, mantêm uma identidade individual bastante definida. Um evento de break dance levou Hugo em ERASMUS para a Polónia enquanto concluía a licenciatura em Turismo e Gestão. Cresceu a ouvir música africana, pelas suas origens, mas há cerca de 4 anos virou-se para sonoridades que influenciaram e que são a base do hip hop, como o jazz e o soul, apesar de, por vezes, se inspirar em Céline Dion, para produzir as suas próprias músicas. Nelson, aos 17 anos, entrou na Escola Superior de Dança e com o coletivo juntou os dois mundos num só. Enquanto Renato, com queda para o desenho, ingressou no curso de Pintura na Faculdade de Belas-Artes, mas rápido se cansou da retórica universitária trocando os estudos pelo trabalho. Sempre sentiu necessidade de se expressar musicalmente através do canto, e com Hugo desenvolveu projetos que ninguém sabe “e que ninguém precisa de saber”, disse Hugo, em conversa com o Gerador. Apesar de o hip hop ser o grande elo de ligação entre todos, Kim tem um passado mais alternativo. Teve uma banda de metal nas Caldas da Rainha, onde tirou Design de Ambientes, mas sente-se mais influente como gráfico e ilustrador, sendo ele o criador da linha gráfica do coletivo. “Sempre fiz música mais para mim, mais na onda de rock alternativo e tento juntar a ilustração e o grafismo com o CHILLOUT, numa espécie de bolo”, confessou-nos Kim. O último elemento do grupo é Chilla, a pequena mascote que representa e acompanha o coletivo no seu conjunto.

Apesar das individualidades criativas, seja na dança, na música ou nas artes gráficas, todos levam o nome do coletivo para todo o lado: “mesmo tendo um set em nome individual, peço sempre para meterem o nome do coletivo no flyer. Levamos sempre o coletivo connosco”, confirma Nelson ao Gerador.

Porém, a ideia do coletivo aparece com o formato Rhythm Roulette do canal de YouTube Mass Appeal, que consiste em vendar artistas enquanto escolhem vinis, para mais tarde num estúdio mostrarem o seu processo de criação. Serviu de base para a composição de um dos projetos do coletivo, “Chop, Cook & Drop”, que, na primeira edição, levou Sam the Kid ao espaço Resistência Lisboa para mostrar ao público o desvendar de algumas das suas músicas. “Mas ao contrário do Mass Appeal, em que está tudo calado, nós vamos fazendo perguntas. É um bocado aborrecido para quem não percebe, mas a ideia, no fundo, é fazer um call out às pessoas que também consomem esta cultura e fazê-las perceber o que a compõe” – explica Renato – “se fores mais ao fundo da questão há muitas coisas escondidas num beat e quando as descobres ganhas outro respeito”.

Chop, Cook & Drop com Sam the Kid

O segundo projeto do coletivo é o Chillin’ Takes Practice, que pretende promover o chillin’ de outros artistas nacionais e internacionais através de vídeos, tornando o coletivo numa plataforma de partilha e difusão de artistas, no qual já participaram a bailarina Maria Antunes, Pedro Freitas e Carlton. “O objetivo é sacar coelhos da cartola, queremos dar a conhecer pessoas que são interessantes e que não têm muito reconhecimento”, diz Renato. “O Chillin’ [Takes Practice] quer mostrar pessoal a fazer a sua arte. Mas não queremos que seja só focado em bailarinos. Estamos a desenvolver um projeto supersecreto que vai juntar música e cozinha, por exemplo, que estamos a tentar explorar da mesma maneira que exploro a ilustração e tento fundir isso com o coletivo”, acrescenta Kim. Mas para Hugo “seria engraçado mostrar o potencial de cada um e, apesar de os vídeos que estamos a fazer agora serem todos em Lisboa, no final do mês vamos ao Porto para uma battle e tencionamos gravar por lá, com os mais diversos artistas”.

 Chillin’ Takes Practice com Pedro Freitas

Para além destes dois projetos, o coletivo organiza também festas. As primeiras começaram por ser numa sala/quarto de um dos membros, em que “até penduramos o GoPro do Kim com fita-cola”. Depois, os espaços tornaram-se maiores, passando para hostels da cidade de Lisboa nos quais alguns dos membros trabalhavam, criando um espaço de intercâmbio cultural entre locais, turistas e hip hop.

Sendo filhos de primeira ou segunda geração de emigrantes, as suas origens mesclam-se com a cultura portuguesa assim como a cultura estrangeira à qual não podemos escapar. “É como sair à noite em Lisboa, já não tens sítios só para locais, há sempre uma mistura de culturas. Estamos aqui também para dar a conhecer o que é o hip hop para além do óbvio, mas sim o que acontece todos os dias, como um open mic nos Anjos70… São as pequenas coisas que mostram essa essência, e nós também queremos beber um pouco disso. Estamos a tentar mostrar que há espaço para todos”, afirmou Renato.

Nelson acrescenta ainda que há uma “massa cinzenta” que os entrelaça e que é composta por um bocadinho de todos, e é isso que une o coletivo, principalmente na linhagem dos seus sets em festas. Apesar do facto de a maioria das festas serem em hostels, é um “acaso fortuito, tudo o que servir ao nosso propósito estamos interessados, também fizemos uma Laundry Session, em que levámos para a lavandaria as mesas de mistura, os vinis e o material todo. E como não havia álcool, o pessoal ia à mercearia ao lado, e toda a gente ficou contente”, contou Kim ao Gerador. “O mais importante nas nossas festas é divertirmo-nos a passar música do que propriamente fazer render”, concluiu Renato.

Para além de espaço, há também uma grande liberdade de criatividade que o coletivo promove, desde a abertura do espectro artístico dos seus projetos à produção musical. Hugo confessou-nos que um dos momentos mais engraçados foi ter passado a sua versão da música “Despacito” no bar “36”, no Bairro Alto, em que toda a gente se surpreendeu com a introdução e depois com a originalidade da sua versão. O alinhamento musical das suas festas apenas “tem de fazer sentido”, afirma Nelson, “sentido no que sentimos, para o público, do espaço e do dia”.

Quanto ao futuro, sonham em terem um espaço próprio para terem liberdade de produção, com estúdio, espaço para merchandising, ateliê e sobretudo as suas festas. Mas antes disso, Hugo confessa que o desejo primordial é terem uma editora em nome próprio que lhes permitisse gravar os seus próprios vinis e de artistas que encaixem no grupo. “O processo também parte de ir à procura de quem tem vontade, mesmo que não tenham know how, falo por mim, que não tenho muita experiência, mas também o que me deu vontade de me lançar nisto foi juntar-me a pessoas que também estão neste caminho e que querem partilhar ideias. Acaba por ser a mesma génese que se aplica a outros também”, concluiu Renato.

The Chill Out Experiment apresenta-se ao mundo como um espaço livre para criação e divulgação de artistas cuja essência é sentirem-se satisfeitos com a sua própria música, dança, comida, arte. Chillin’ já não é estar satisfatoriamente aborrecido, é estar satisfatoriamente pleno com a sua própria arte.

 

 

Texto de Rita Matias dos Santos
Fotografias de The CHILL OUT Experiment

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