Foi no final do mês de junho, período  em que os espaços culturais começavam a desconfiar sem medos, ainda a caminhar para a certeza de que a “Cultura é segura”, que o Teatro Nacional 21 (TN21) apresentou O Corpo de Helena. A peça com texto de Paulo José Miranda, encenada por Cláudia Lucas Chéu, foi criada no e para o online, e serviu de ponto de partida para a criação de um Fundo de Apoio à Criação para jovens artistas formados em Artes Performativas no último ano letivo (2018/2019). De entre cerca de 15 propostas, Teatro à Faca, Miguel Jerónimo e Teatro Bastardo venceram, e apresentaram as suas criações no passado fim de semana, também no e para o online. Assim surgiu o Ciclo 2+1

Tornou-se, com o passar do tempo, cada vez mais inegável que o setor cultural passa por fragilidades que com a pandemia ficaram a descoberto. Em junho, em entrevista ao Gerador a propósito da estreia d’O Corpo de Helena, Albano Jerónimo enumerou-as: “estas dificuldades são diárias, são permanentes e têm que ver também com o facto do estado da nossa cultura neste país, neste momento, que reflete exatamente a fragilidade imensa desta profissão, destes agentes culturais, de todas as áreas – técnicos, produtores, realizadores, atores, enfim. Todos nós estamos a atravessar um período pantanoso onde a indefinição reina, onde contactamos e lidamos com uma ausência permanente de um pensamento de fundo sobre a cultura, portanto, tudo isto ganhou outro fôlego. Veio à superfície com outra força. Esta também é uma das dificuldades, em que nos deparamos com dificuldades concretas de vida e em que as nossas vidas, não só mudaram para todos, os nossos hábitos, os nossos horários, a relação com a nossa família, com as nossas profissões, tudo isso, mas sobretudo a nossa condição de estarmos aqui, fazermos aquilo que fazemos e porque fazemos e como fazemos. Portanto, todas estas dificuldades estão a levantar estas poeiras todas e estão a fazer-nos pensar, querer mudar as coisas e, no fundo, apelar a uma nova ordem, um novo pensamento e novos caminhos”. E foi também por isso que decidiram criar bolsas de apoio à criação. 

Um trampolim para criar sem constrangimentos

A ideia era oferecer “à sua escala uma resposta a uma nova geração de artistas (que não pode desistir ainda antes de começar)”. Este Fundo de Apoio à Criação vem de um montante de 500€ retirado do orçamento d’O Corpo de Helena, e foi completado com os contributos dos espectadores que, ao longo da apresentação da peça, doaram algum dinheiro. Foi assim que o TN21 chegou a um total de 1500€, que perfez 500€ para distribuir por três vencedores do open call feito posteriormente. “Penso que é fundamental esta entreajuda entre pares sempre. Agora ainda mais, são tempos difíceis a todos os níveis”, diz Cláudia Lucas Chéu ao Gerador, acrescentando ainda que sentiram que deviam ajudar, uma vez que foram “apoiados pelo Fundo de Emergência” e sentiram a “urgência de dar continuidade a outros projetos”.

O processo de seleção partiu de Cláudia, Albano Jerónimo, Luís Pluto e Francisco Leone, que compõem a direção artística da companhia. Foi tida em conta “a consistência da ideia apresentada, mas também a consistência do próprio projeto artístico de cada grupo”, como conta Cláudia Lucas Chéu. “Além disso, foi importante verificar se as propostas se adequariam ao modo online, uma vez que os projetos seriam apresentados desta forma e seguindo a lógica do projeto que deu origem às bolsas: O Corpo de Helena”. 

Fechadas as propostas de Teatro à Faca, Miguel Jerónimo e Teatro Bastardo, começou um processo de ensaios acompanhado pelo TN21, também exclusivamente através de reuniões semanais online. Cláudia explica que “não faria sentido assistir presencialmente, uma vez que os espetáculos foram criados para o dispositivo digital”. Com uma câmera e um computador a fazer a mediação, ensaiou-se à distância, mas não se ficou necessariamente distante. 

Teatro Faca, Miguel Jerónimo e Teatro Bastardo: três gestos da nova geração do teatro português

A página no Facebook do TN21 tornou-se a sala de espetáculos para transmitir as três peças que usaram o Zoom como palco. No dia 19, “BALL”, do Teatro Faca, estreou pelas 22h00, e o mesmo aconteceu nos dias que se seguiram com “Natal em Miami”, de Miguel Jerónimo, e “Providentia”, do Teatro Bastardo. A utilização do meio foi usada da forma que mais fez sentido a cada um dos espetáculos — fosse através de várias janelas que davam a sensação de multi-espaço ou de uma câmera estática que tornava o espectador numa espécie de voyeur, mostrando desta forma que o digital pode também ser palco de diversidade. Os aplausos surgiram em forma de reações espontâneas, comentários e partilhas; não houve cortinas a fechar, mas houve uma tela negra a indicar o fim. 

Para melhor conhecer estes projetos e a forma como foram pensados, o Gerador colocou uma questão a cada um.  Nas suas palavras ecoam dimensões de uma nova geração do teatro português, que persiste desde o primeiro dia da sua existência.

Teatro à Faca 

“’BALL’ oferece-lhe uma gama de experiências que lhe devolverão a vitalidade necessária para superar a monotonia dos seus dias”. “BALL” surge da monotonia gerada pela pandemia? Como foi montar este espetáculo?

O “BALL” é um projeto em incubadora há cerca de três anos, mas que nos pareceu sempre megalítico para a nossa realidade enquanto companhia. Evidenciada pelo contexto pandémico, a ideia que parecia ser ficção científica transformou-se num conceito desejável na situação em que nos encontramos. Pareceu-nos, então, o momento ideal, ou até necessário, para trabalhar neste projeto, ainda que numa fase muito primária. Montar este espetáculo foi um rodopio. Muitas ideias, muitos testemunhos, muita vontade de criar, condensados num processo curto e intenso. Construir um mundo diferente em casa é sempre estranho; é reabitar as divisões às quais nos habituámos com situações fora do comum, e pessoas que não lhe pertencem. As paredes brancas da casa, sempre as mesmas, a ganhar outra forma, transformadas noutro sítio, e do ponto de vista de uma câmara, que é também dezenas ou centenas de possíveis pessoas a espreitar para dentro da nossa intimidade. Conceber um espectáculo nestas condições parece-me um exercício simultaneamente artístico e de hospitalidade, num misto de criador e anfitrião.

Miguel Jerónimo

Na sinopse de “Natal em Miami” encontram-se referências a diversas pessoas — de Bernardo Pinto de Almeida a Eduardo Lourenço, de Tereza Coelho a Jean Baudrillard. Reuni-las numa peça em que estás sozinho é uma forma de ir contra essa solidão?

A solidão não me fragilizou, nem me desprotegeu. O que eu queria, o que eu desejava, era estabelecer radicalmente a matéria do meu estudo, da minha investigação, e apresentá-la como uma experiência que encontra tanto os seus limites, técnicos e morais, como as suas margens, aquilo que não deve exceder. O texto de Bernardo Pinto de Almeida distrai o leitor do que não é essencial, e, portanto, chama a atenção para o que em cada instante é a verdade, ou poderia ser: houve ou não houve Natal em Miami? Jean Baudrillard é, com “O Crime Perfeito”, uma referência desejada. Trata-se da história de um crime – do “assassínio da realidade” – de uma “ficção desreguladora,” insituável na tipologia clássica do discurso, comenta Silvina Rodrigues Lopes, tradutora do texto. Eduardo Lourenço comentou a obra de Bernardo Pinto de Almeida. O seu comentário crítico foi importante para descobrir a voz que se ouve no texto – disciplinou-me essa descoberta. Tereza Coelho é a pessoa a quem Bernardo Pinto de Almeida dedica “Natal em Miami”. É também a pessoa cujo nome aparecia impresso nas muitas leituras que fazia na biblioteca da minha cidade natal, no Algarve. O seu nome era diferenciador. Foi sobretudo isso que me fez cativo do texto: o seu nome, outra vez. A estas pessoas, chamei-as e elas não vieram porque já estavam lá. Foi tudo muito evidente. Eu nunca estive sozinho.

Teatro Bastardo

“Por acreditar num teatro que para fazer a diferença tem de ser diferente, novo, que não se acomoda ao tempo e ao espaço e que cresce como parte da sociedade do futuro” descreve-vos. Em que sentido é que “Providentia” entra nesta descrição e reflete o que o Teatro Bastardo é?

A “Providentia” emerge quando a pandemia começava a afogar o mundo. Surge em resposta à bolsa de criação do Teatro Nacional 21 e numa tentativa de manter a companhia à tona, numa altura em que ainda mal se conhecia o que nos puxava para baixo. Foi desse desespero para nos mantermos vivos enquanto companhia que nasce este espectáculo online. O Teatro Bastardo estava longe de imaginar que o seu primeiro espectáculo fosse transmitido em directo pelo Facebook na plataforma Zoom, mas como ficar inerte perante esta nova realidade não era uma opção, fomos ao desafio. Fechámo-nos entre quatro paredes com um computador e uma câmara que apontava para uma mesa de jantar e, dois meses depois, aparece um ricochete da sociedade antiquada que deixámos do lado de fora. É a sociedade das normas, do consumo imediato, das máscaras, dos preconceitos, das rotinas e das repetições que asfixia e que nos leva até ao dia da “Providentia”.

As três peças de teatro estreadas na semana passada mantêm-se na página do TN21, para que se possa assistir sem ter de pagar bilhete e ver as vezes que se quiser. 

Texto de Carolina Franco
Fotografias da cortesia da TN21

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