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Um Natal diferente

Nas Gargantas Soltas de hoje, Mariana Souza traz-nos uma reflexão sobre o sentido do Natal.

©Luís Lopes

Nunca fui uma pessoa muito entusiasmada com o natal e com toda essa seita que começa a pôr decoração de natal e a usar ugly Christmas sweaters assim que acaba o Halloween. Sempre me pareceu algo ridículo. Mas a verdade é que, por mais que a ideia de ser uma mini grinch sempre tenha sido algo que me atraia, dezembro teve a sua magia. A ideia de que com o fim de novembro todos os problemas desaparecem porque é natal é contagiante e, realmente não há altura do ano em que ser solidário e partilhar mensagens de amor estejam tão em alta como esta. Parece que há uma correlação entre montar a árvore de natal e ser-se boa pessoa e amar o próximo. Ironias de lado, realmente as luzes de natal e o cheiro a canela nas ruas e padarias acompanhado da felicidade extra, que de certa forma é um pouco contagiante, acabavam por trazer ao de cima o entusiasmo e bom humor até da pessoa mais resmungona. Penso que podemos considerar que há um efeito dominó, de tanto dizer “boas festas” vamos acabar por gostar e tirar as meias de natal da gaveta. 

Em uma autorreflexão, que só realizei porque fui desafiada a escrever este texto, percebi que este ano, talvez pela diminuição do número de horas em que as luzes de natal vão estar ligadas, sinto uma falta de entusiasmo geral em relação ao natal. A primeira justificação que encontrei foi o facto de ser mundial, porque a única coisa que o bom português gosta mais do que de comer é ver futebol então poderia ser apenas um esquecimento. Contudo, em conversa com amigos, pessoas que me rodeiam e até mesmo com senhoras que fazem as minhas viagens de autocarro serem mais agradáveis percebi que não há esquecimento, mas sim ansiedade. Desta vez as luzes de natal não são brilhantes o suficiente para fazer esquecer a ansiedade e os problemas. A guerra à porta e a inflação que segue a mesma está a causar danos na carteira dos portugueses e na sua saúde mental. De certa forma a estabilidade socioeconómica a que nos acostumamos e que nos deixava seguros está a ser abalada. 

O natal, principalmente depois da crise de 2008, voltou a ganhar o seu lado extremamente consumista. É visto como uma altura de extravagância e caprichos em que nos podemos permitir luxos que no dia a dia não somos capazes. Essa narrativa veio, de um ano para o outro, mudar completamente. Com a subida das taxas de juros, dos preços, das rendas e preço do gás mais uma conta aqui mais outra ali e deixamos famílias sem saber de onde tirar dinheiro para comprar o bacalhau para a ceia quanto menos para comprar os famosos miminhos de Natal a que acostumamos todos os tios e primos a receber. No outro lado da moeda vejo uma sociedade extremamente materialista, fomentada pelas redes sociais, que ainda não se apercebeu da realidade financeira que o país vive. Ainda nem em dezembro vamos e já é trend publicar listas de prendas de natal com valor médio de 500 euros. O que pode parecer inocente, mas acaba por criar uma nuvem de expectativas que não são possíveis de cumprir. Acabamos por nos pôr em uma situação de autoexigência quer por termos a ilusão de que podemos atingir a perfeição demonstrada nos filmes de natal ou por querermos que isso nos seja proporcionado acabando por levar a insatisfação e ansiedade. 

A canção da Mariah Carrey deixa então de ser motivo de sorriso e começa a ser sinónimo de fazer contas à vida porque vem aí o natal e, este ano, o subsídio não dá para tudo. A data por si só já acartava alguns incómodos, mas este este ano, além de termos de explicar o porquê de não gostarmos de passas

no arroz e de termos de responder as perguntas chatas sobre a nossa vida pessoal e afetiva por parte daquele familiar que apesar de só vermos uma vez por ano, sentimos a necessidade de agradar, também temos que lidar com a ansiedade de não ter dinheiro para os presentes de natal que, na verdade, nem queríamos dar. Isto é a sociedade materialista levada ao limite. As festas de fim de ano são assim cada vez mais encaradas como uma conta para pagar ou um pneu furado que temos que arranjar e não como um período de diversão, descontração e celebração. A geração à rasca está cada vez mais à rasca e o natal acaba por ser uma data que nos relembra disso e deixa cada vez mais de ser associado à família e amor, mas sim a drama e ansiedade. 

Sugiro então um natal sincero, com limites definidos, a saúde mental em primeiro lugar e sem custos que não podemos pagar e, principalmente, sem estourar o limite do cartão de crédito. Em um par de anos já não nos vamos lembrar de que o jantar de natal foi pota e não polvo ou de que a garrafa de vinho que bebemos na ceia não era uma reserva francesa e muito menos de que a camisola que levávamos vestida não era da nova coleção. Vamos lembrar-nos das bolachas que fizemos com aquela pessoa que tanto gostamos, dos jogos e gargalhadas ou, em alternativa do voluntariado que escolhemos fazer ou até simplesmente do facto de já termos visto o Sozinho em Casa aproximadamente cinco mil vezes. O ponto é que chegou o momento, empurrado pela crise ou não, de deixar o consumismo de lado e aprendermos a criar memórias, viver bons momentos a fazer aquilo que realmente queremos da forma que nos é permitida. Memórias são sobre sentimentos e momentos que criamos e não sobre coisas que compramos. Não é possível para todos passar a data de forma neutra, mas dá para passar sem ansiedade financeira e medo. Precisamos de pôr as nossas necessidades emocionais em primeiro plano e ser o mais honestos possível quanto a isso. Não há maneira perfeita de fazer algo e, no fim do dia, o que importa é que nos sintamos leves e emocionalmente satisfeitos e isso não se compra.

-Sobre a Mariana Souza-

Apesar da sua localização nunca ser exata, cresceu em Constância, uma vila pequena, mas encantadora no Ribatejo. Sempre foi “uma rapariga das causas” o que fez com que o voluntariado e as causas humanitárias fizessem parte da sua personalidade desde a adolescência. 
Licenciou-se em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa e, durante toda a licenciatura e mesmo agora, no ano seguinte à mesma, esteve sempre envolvida em projetos de voluntariado internacional e nacional. 
É uma das co-fundadoras da Youth Cluster e tem como objetivo tornar não só o voluntariado internacional como diversas oportunidades como estágios remunerados e formações acessíveis a todas as pessoas.

Texto de Mariana Souza
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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