Após uma semana de (muitos) filmes, debates, workshops, concertos (e festas), a 27ª edição do Curtas Vila do Conde chegou ao fim e os grandes vencedores deste ano foram anunciados. Enquanto um dos pólos mais importantes para a mostra do panorama do cinema português, os vencedores da Competição Nacional são, desde logo, o grande destaque.

O mistério dos indivíduos que ocupam, que preenchem a tela e as paisagens remotas são uma das linhas que une os grandes vencedores desta Competição. Ave Rara, o primeiro filme de Vasco Saltão, foi o grande vencedor da Competição. Um filme inspirado no quadro A Queda dos Anjos Rebeldes, de Pieter Bruegel, que nos apresenta a história de um homem – ou, talvez, um anjo caído dos tempos modernos – que vagueia num universo reconhecível, mas repleto de mistérios, onde o real e o divino se encontram numa camada de confluência entre o divino, e o real (terreno).

O Prémio de Melhor Realizador da Competição Nacional foi atribuído a Mariana Gaivão, pelo filme Ruby. Um olhar sobre a vida de Ruby, sobre as paisagens magnânimas que a rodeiam no seu dia-a-dia, em Góis – que, na sua magnitude, nos aproximam do interior misterioso da personagem principal, que por elas vagueia – e da sua procura por algo: pelo seu cão desaparecido, pela sua melhor amiga (que deixará de fazer parte da sua vida) , da sua identidade, do seu “eu”. Um coming of age revelador, na sua simplicidade, da complexidade (e o mistério consequente) da personagem principal, que permite ao espectador observar os rostos, as expressões, os olhares daqueles que habitam neste universo fílmico, com um ritmo pontuado e acertado e com uma ambiência sonora de tremenda potencialidade para uma imersão – tão desejável, tão inevitável – de quem observa este espelhar dos desejos (nunca perdidos, nunca esquecidos) da realizadora.

Do mistério e dos locais remotos, passamos para um dos locais mais visitados e comentados no contexto cultural francês e universal: o Museu do Louvre. Mas não como o conhecemos, não como o vemos. O novo filme de Gabriel Abrantes, Les extraordinaires mésaventures de la jeune filme de Pierre, que esteve na Quinzena de Realizadores em Cannes, este ano, venceu não só o Prémio do Público, como foi também seleccionado enquanto o candidato do festival para os European Film Awards. Neste filme, as portas do Museu do Louvre fecham-se e um mundo  novo nasce: Les extraordinaires mésaventures de la jeune filme de Pierre combina imagens reais com animação, apresentando uma (nova) vida das obras de arte, que (re)nascem quando os olhares e os sujeitos humanos desaparecem.

O filme de Gabriel Abrantes venceu, igualmente, o prémio de melhor filme na categoria de Ficção, atribuído pelo júri da Competição Internacional, sendo que Purpleboy, de Alexandre Siqueira, conquistou o prémio de Melhor Filme de Animação. Purpleboy, filme que venceu também o Prémio de Aquisição, explora questões sociais e culturais dos tempos modernos, de relações familiares, da construção da identidade de género, e da própria construção e evolução de um indivíduo – neste caso, de um grão – que, tal como todos nós, se depara e se debate perante as expectativas e as normas da sociedade contemporânea.

A Competição Internacional deste ano foi, igualmente, um dos grandes destaques da edição deste ano, contando com a presença de alguns dos nomes mais sonantes do circuito dos festivais e do universo cinematográfico internacional, como Radu Jude, James Franco e Barbara Wagner. Los que Desean, de Elena López Riera, foi o grande vencedor da Competição. Um documentário que estreou em Locarno e que nos mostra o universo de corridas de pombos pintados, no Sul de Espanha.

 

Lista completa de vencedores:

Competição Internacional

Grande Prémio – Melhor filme em competição: Los que Desean (2018), Elena López Riera

Prémios para o melhor filme de cada categoria a concurso:

Animação: Purpleboy (2019)Alexandre Siqueira

Documentário “Manoel de Oliveira”: Demonic (2019)Pia Borg

Ficção – Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre (2019), Gabriel Abrantes

Prémio do Público Poças – Panique au Village – La Foire Agricole (2019), Stéphane Aubier, Vincent Patar

 

COMPETIÇÃO NACIONAL

Melhor Filme – Ave Rara (2019), Vasco Saltão

Prémio de Melhor Realizador – Mariana Gaivão – RUBY (2019)

Prémio do Público – Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre (2019), Gabriel Abrantes

Prémio Prize Movistar+ Prémio de aquisição – Purpleboy (2019), Alexandre Siqueira

Candidato de Vila do Conde para os European Film Awards – Les Extraordinaires Mésaventures de la Jeune Fille de Pierre (2019), Gabriel Abrantes

 

 

COMPETIÇÃO TAKE ONE!

Melhor Filme – Em Caso de Fogo (2019), Tomás Paula Marques

Prémio de Melhor realizador – Maria Teixeira – Inside Me (2019)

 

COMPETIÇÃO VÍDEOS MUSICAIS
Prémio Fujifilm – Mesa para Dois no Carpa – David Bruno (2019), Francisco Lobo

 

COMPETIÇÃO EXPERIMENTAL

Prémio Experimental – Suspended Island (2018), Jane Wilson, Louise Wilson

 

COMPETIÇÃO CURTINHAS

Prémio MAR Shopping Matosinhos – A Gata Butterboo BambouleATA BUTTERBOO (BAMBOULE) (2018), Emilie Pigeard

Menção Honrosa (M/3) – O Tigre Sem Riscas (2018), Raul Robin Morales Reyes

Menção Honrosa (M/10) – Crianças (Kids), Michael Frei (2019)

 

COMPETIÇÃO MY GENERATION

Nefta Football Club (2018), Yves Piat

 

Texto de Teresa Vieira
Imagem de “Ruby” (2019), de Mariana Gaivão

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