Vicente. O autorretrato de Francisco. É assim que Francisco Vicente se intitula no universo musical. O jovem artista que se descobriu ao longo de 26 anos, passou por diversos registos musicais. Desde os ritmos brasileiros e africanos, passando pelo hip hop, rock e gospel, é no jazz que encontra o seu caminho.

Inspirado na vida e nas suas grandes aventuras, é através da sua identidade “fresca” que chega até ao público como a “brisa leve num dia quente”, ou, como os mais pequenos dizem, “que os leva a relaxar”.

Metamorfose é o tema com que se apresenta a solo, single do seu primeiro EP de originais, Meta, que representa um hino e conta uma história que nos chega através do seu mais recente singleAgouro e que promete não ficar por aqui, dando vida ao Morfose.

O artista, que é também professor de Educação Musical, fez uma viagem ao seu percurso musical em conjunto com o Gerador. Dos primeiros passos à passagem pelo The Voice Portugal 2020, Vicente reflete no melhor que a música tem para lhe dar.

Gerador (G) - Música. Em que momento da tua vida esta palavra te levou a envergar pelo universo musical?

Francisco Vicente (F.V.) - Desde criança, sempre fui muito ligado às artes e, desde então, fui desenvolvendo como caraterística muito importante que é o bem-estar, fazendo aquilo que gosto.  E, de facto, um dos problemas com o que os artistas se deparam muito é ‘se eu gostasse de matemática não questionava seguir matemática’, mas se gostas de arte ‘só o fazes como um hobbie e, depois, encontras o teu caminho’. E o meu percurso foi assim até ao meu 10º ano, que eu decido escolher Artes Visuais e faço-o até ao final do secundário. Chegado o final do secundário, é então que decido ir para a Faculdade de Belas Artes tirar a licenciatura em Design de Produto. Fiz o curso e apercebi-me de que a Arte, seja ela o desenho, o design ou a música, é arte. Vale tudo o mesmo. Então, o terminar o curso e perceber que está a trabalhar para uma vida igualmente penosa, no que toca às oportunidades de trabalho, desde sermos freelancers a todas as outras questões que implicam o trabalho de um artista hoje em dia, eu percebi que essas garantias profissionais do que era seguro ou não, na realidade, não eram. Então, decidi terminar a licenciatura e mergulhar na música. Estudei durante quatro anos jazz, na vertente canto, que valeram muito a pena! Acho que posso dizer que foi aí, neste curso e através da sua exigência, que encontrei a minha identidade como cantor e compositor. Eu sei e acredito muito que o jazz é a melhor escola, e eu que passei por muitos estilos musicais para estar seguro desta minha opinião, porque nos permite, a nós, cantores, vivermos a música como instrumento e deixamos de ter aquele medo do ‘não há letra, agora o que vou fazer?’, portanto, este trabalhar a voz abre-nos imensos caminhos e, no meu caso, por exemplo, encontrarmo-nos a nós próprios e à nossa linguagem. Fui, aos poucos, compondo, através da minha grande raiz no gospel, sendo que foi lá que comecei e usei esse mesmo trabalho de vozes para o meu mundo, ao vivo. Acho que a relação intervocal tem logo outra força. Fui-me encontrar tirando um bocadinho também do hip hop e, claro, do jazz. Eu gosto de dizer que eu me encaixo no jazz, mas não gosto de rotular a minha música porque gosto de trabalhar ao sabor do vento.

(G) - Como é que acontece esse momento de criação? O que te faz criar?

(F.V.) - Como te estava a dizer, eu sento-me ao piano e gosto de não ter de cumprir requisitos. Sento-me e gosto de ver o que sai. Se for preciso, estou ali duas horas, só a navegar e, depois, vou tirando um bocadinho aqui e ali e constrói o vicente. Eu gosto de considerar o meu trabalho como um jazz fresco, isto é, pacífico, apaziguador, até porque as minhas grandes referências, ou pelo menos algumas delas, são o Jacob Collier e Bobby McFerrin. Eles viajam pela música que é uma maravilha! E, aos pouquinhos, eu gostava que o Vicente singrasse dessa forma. Eu prefiro encontrar uma plateia que viaje comigo a uma que saiba todas as letras da minha música. Nós, às vezes, sentimos muito mais a música quando estamos em silêncio, connosco próprios. A música é uma grande medicina. É uma grande companhia. Ajuda-nos a ultrapassar grandes contratempos e isso levou também a que o Francisco e, em simultâneo, o Vicente, nascesse, ouvindo o que lhe saía, desafiando-se, e compondo uma nota de cada vez. Até posso dizer que, por exemplo, as minhas gravações de voz vão até às 30 faixas de gravação. Escolher cada instrumento e nota ao pormenor torna o processo mais longo, mas é tão gratificante. O facto de ser tão longo também me permite que não tenha de o explicar, ou seja, as pessoas sabem em que mindset eu estava quando o escrevia. Procuro um universo que me permita chegar a todos. Eu gosto de dizer que a minha música se trata de uma brisa leve num dia quente.  

(G) –  Nascido numa realidade que se reinventa, o “Agouro” também abraça este processo criativo?

(F.V.) -  O “Agouro” nasce numa fase “morninha” do meu início de carreia. Eu planeei começá-la em 2020 e foi nesse preciso ano que tudo aconteceu. Ouve uma fase em que me fui um pouco a baixo. No final do verão, eu criei as V Summer Sessions, que foi uma maneira de poder cantar, chamar pessoas com quem não estava há muito tempo e mantermo-nos “fresquinhos”, porque é importante isso acontecer. Ele surge no final do verão, depois das V Summer Sessions, num momento em que estava receoso porque não sabia o que estaria por vir. Então, decidi que merecia escrever uma canção para mim mesmo. Para me dar um alento. Escrevi algumas frases e, em conversa com uma grande amiga minha que é professora e adora literatura, decidimos mostrar que esta realidade não vai continuar para o resto das nossas vidas. Isto vai passar. Há sempre, em última instância, a força de um touro que foge ao Agouro. Admito que se tratava também de uma autocrítica, mas a saber que posso quebrar e que, de alguma forma, a música e a cultura voltarão a reaparecer. Entretanto, quando estava a construir o tema, ligaram-me do The Voice e o meu 2020 acabou de uma forma muito inesperada, isto porque a minha prestação durou até dezembro. Agradeço imenso, porque trouxe-me imensas coisas e, uma delas, foi alta exposição televisiva que me deu um alento diferente. Coloquei em pausa o lançamento do “Agouro”, trazendo-o hoje.

Este single traduz muito do dia a dia atual de muitas pessoas. A saúde mental está a ter um peso enorme e eu acho que é bom relembrar às pessoas que têm força dentro delas. Há sempre um amanhã. Pode parecer muito fácil dizê-lo, mas eu sei que não é. Nós acordamos todos os dias e a forma como eu escolho deitar-me hoje, vai influenciar o meu acordar amanhã e o meu dia. Tudo nos irá acompanhar enquanto cá estivermos para contar a história. É nisto que é preciso refletirmos. O “Agouro” acarreta este peso e esta tranquilidade.

(G) –  É também através desta “brisa leve num dia quente que a tua identidade se faz ouvir. Sentes que é algo que vai andar sempre contigo?

(F.V.) -  Eu sempre fui uma pessoa positiva e gosto de enfrentar a vida com um sorriso e há coisas, de que eu me vou apercebendo, que se tornam mais leves só pelo simples facto de eu não lhe acrescentar o peso da minha consciência, ao saber que não estou bem. Esta força interior de que o “Agouro” fala é mesmo isso — “mesmo que seja a fingir, não vai ser a fingir para sempre” — e, ás vezes, tu sentes que o teu dia pode ser muito mais prazeroso quando te obrigas a um estado positivo. A não pensar constantemente no que pode ou não acontecer de errado. Terás sempre um escape, o importante é teres consciência disso. Foi aqui que me encontrei.

(G) – Dizes que Meta, o teu primeiro EP, é o início de uma história com o Morfose, o EP que se seguirá. De que forma alimentas essa história? O que te levou a criá-la?

(F.V.) -    Eu já tinha o objetivo de, depois do Morfose, criar um álbum – o Metamorfose. A verdade é que, o facto de o país ter fechado, colocou muita coisa em perspetiva. Eu percebi que estava a correr atrás de uma coisa que não ia acontecer. Eu já estava a entrar numa onde de ‘eu tenho que acabar e a coisa tem de acontecer’. Parando o país, eu consegui encontrar paz e ganhar algum tempo para conseguir fazer prevalecer aquela máxima que eu trago comigo – o que surgir, surgiu. O improviso vai-me levar a uma coisa concreta. É certo que quando somos muito obrigados a improvisar vai-nos levar a coisas repetitivas e mecânicas. Eu senti que estava a entrar numa linguagem que não me deixava confortável com o que me ia saindo. Além disso, eu identifico-me com as três palavras que compõem o meu trabalho: “Meta”, “Morfose” e “Metamorfose”, que foi o meu primeiro single e já estava mais do que determinado. Eu quero também associar uma imagem gráfica feita por mim e porque não associar uma coisa à outra quando ainda vou a tempo. Daí também surgiram os postais que estão criados para cada um dos meus temas. A realidade é que é também por esta razão que nasce o Vicente.

(G) – Através do Vicente, acreditas que há ainda muito por dizer?

(F.V.) -    Eu sinto que tenho muita coisa por dizer e que precisa de ser dita e eu sabia que antes ainda não estava na fase de compor as minhas coisas da melhor forma possível. Dedicar-me a projetos que não se submetiam apenas ao meu nome próprio foi, sem dúvida, essencial para mim, enquanto artista. Agora, as coisas vão fluindo e saindo mais facilmente.

(G.) – O Morfose é o teu próximo passo, no entanto, vai chegar até nós de forma diferente…

Sim, o Morfose vai ser tema a tema. Precisa de mais tempo. Pretendo fazer aquilo que não consegui fazer totalmente com o Meta. O “Agouro” já está entre nós e será a introdução do EP. Sabendo quais são os restantes temas, eu acho que as pessoas vão estar altamente recetíveis aos temas mais tresloucados que vêm a seguir. Eu acredito que o “Agouro”deixa as pessoas com um mindset disponível a receber qualquer coisa que possa vir a seguir.

(G.) – As V Sessions são também parte do teu projeto musical. Já temos uma V Spring Sessions?

(F.V.) -    Sim, começaram no dia 21 de março. Este projeto teve uma recetividade incrível, até mais por parte dos meus amigos músicos do que propriamente do público. A quinta acabou no ano passado, quando comecei o projeto, e já tinha colegas a perguntar se iria ficar só por ali. Apercebi-me de que tinha criado algo engraçado e, por isso, decidi que vou correr todas as estações do ano, não sei é porque ordem. Depois, as Sessions continuarão. Certo é que parado não fico.

(G) – Atendendo à importância musical na vida da sociedade e a esta realidade que nos acompanha, a nível cultural, acreditas que a forma como a vemos terá outro impacto?

(F.V.) – Como tudo o que nos acontece, deixa marcas. “O tempo que passou, em sombras imprimiu. O que me transformou está bem preso assim, ao tempo que partiu”, não tenho como não citar estas palavras do Metamorfose. Com isto, o que quero dizer, é que me transformou. Eu acredito que sim, isto vai marcar-nos, mas também sei que quem gostava de música, passou a gostar ainda mais; quem não gostava de música, passou a gostar um pouco. Resolver a Cultura nesta pandemia é complicado. É a primeira vez que lidamos com isso. No entanto, acredito que se houvesse uma segunda vez, a Cultura não fosse ficar para trás. Pessoalmente, eu faço música, por mim, para os outros. E o “por mim” não muda, venham as pandemias que vierem. Eu vou sempre fazer música, arte, por mim e para quem me queira ouvir. Eu não me vejo a fazer nada sem ser arte.


Texto de Patrícia Silva
Fotografias da cortesia de Francisco Vicente

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