Mesclado por Joel Neto 

Estas são as escolhas do escritor Joel Neto: músicas que nos levam às terras bonitas dos Açores e outras canções emblemáticas da música portuguesa. Espreita aqui ;-) 

“No Teu Poema”, de Carlos do Carmo

Perguntem-me um dia exactamente qual é a melhor canção da música popular portuguesa, a canção mais acabada, em que a melodia e a letra mais cabalmente se fundam numa coisa só, e eu direi provavelmente “No Teu Poema”. Só para ser absoluto, isto é. O mérito é de José Luís Tinoco, compositor e letrista, mas também do próprio Carlos do Carmo. Não gosto de vê-lo ao vivo, pois parte sempre da presunção (errada) de que tem imensas coisas a conversar com o público. Mas, como intérprete, é inigualável, ao mesmo tempo intuitivo e deliberado, não deixando um só pormenor ao acaso. Comovo-me sempre quando alguém faz da obra um tributo ao trabalho.

“Caracol”, de Carlos Medeiros – ouvir aqui ;-) 

Deixem-me ser definitivo nisto também: a música açoriana tem um “melhor disco de todos os tempos” – e esse disco é “O Cantar Na M’Incomoda”, de Carlos Medeiros. São vinte anos de pesquisas, à procura de temas do cancioneiro popular caídos no esquecimento – e, no fim, são nove canções (ou nove cantigas) reinterpretadas segundo muitos dos conceitos do jazz, com sincopizações, desacertos e desconcertos, para mim, rigorosamente brilhantes. O tema de abertura, “Caracol”, narrativa sobre um homem que persegue um caracol que anda a comer-lhe as couves, é qualquer coisa de inesquecível. Mais ainda na versão a solo do que, mais tarde, com a Brigada Victor Jara.

Clandestino (Deolinda)

Às vezes desgosto-me um pouco com a pose pública de Ana Bacalhau. Ainda que tenha estado na origem da formação da banda, aquele tom panfletário, mais próximo da auto-validação do que da verdadeira essência da esquerda urbana, aborrece-me bastante. Mas trata-se de uma grande cantora, como aliás se trata de uma grande banda. Os Deolinda mudaram muitos paradigmas (estéticos e de relação com o público) e “Clandestino” é um dos seus temas que mais me cantam, pela infinita ternura que há naquele amor proibido. Ternura e subversão: não conheço mais bela combinação de factores.

“Regasu (Seiva)”, de Mário Rui (original de Orlando Pantera)

Posso considerar a música de Cabo Verde música portuguesa? Talvez não deva: então deixem-me alargar o conceito a música de língua portuguesa (ou quase). Se alguma coisa conseguiu empobrecer o universo da música cabo-verdiana, foi o desaparecimento prematuro de Orlando Pantera, há uns anos, a escassos dias de viajar para Lisboa a fim de gravar o seu primeiro disco. Felizmente, vários músicos foram recuperar as suas composições. De “Regasu (Seiva)”, conheço pelo menos três versões relevantes: a de Mayra Andrade, já demasiado moderna para conservar a chama; a de Leonel Ferreira, que ouvi ao vivo mas não sei se está gravada; e a de Mário Rui, com arranjos datadíssimos, transpirando anos 70 por todo o lado e, no entanto, absolutamente mágica.

“Dreams”, de Luís Bettencourt

Conhecemo-lo às vezes apenas como “o irmão mais velho de Nuno Bettencourt”, quando muito como “o irmão mais velho que Nuno Bettencourt diz ter-lhe ensinado tudo”. A verdade é que Luís Bettencourt deu, nos anos 70/80, um importante contributo ao desenvolvimento da música açoriana e portuguesa, mesmo se cantada às vezes em inglês. “Dreams” passava quase todos os dias na televisão, por volta das cinco para as oito da noite, a queimar tempo antes do Telejornal. Ouvi-la é como regressar à mesa de jantar da infância. Não pode haver nada mais encantador  do que isso.

“My Inspiration”, pelos DixieGang

Gosto tanto dos DixieGang que, quando me casei, as primeiras coisas que escolhi foram o lugar e a banda da festa: um monte alentejano com um terreiro dançante e os DixieGang ao vivo. Há alguma coisa no dixieland, o mais festivo dos estilos do jazz antigo, que me enche de alegria. O mais provável é que seja o facto de a música jorrar pelas paredes abaixo, de forma torrencial. Mas também pode ser, neste caso em particular, o clarinete de Paulo Gaspar. “My Inspiration” é um standard, mas a sua versão é absolutamente delirante.

“Sou Do Fado, Sou Fadista”, de Ana Moura

Penso que, nos últimos anos, toda a gente terá escolhido a “sua” fadista. Eu comecei por Mafalda Arnauth, mas acabei por aborrecer-me com a pose de diva (e, aliás, com as letras que ela própria escreve, algo banais). Converti-me a Ana Moura, e o disco “Guarda-Me a Vida Na Mão” tem bastante responsabilidade nisso. “Sou Do Fado, Sou Fadista” é um dos melhores temas. Ainda por cima tem, no refrão, um momento de enorme desconforto, em que parece que vamos passar para sétima mas nunca passamos, criando uma espécie de “tempo fraco” que simplesmente nos tira o tapete. Brilhante.

“Espalhem a Notícia”, dos Clã (original de Sérgio Godinho)

Não sou uma autoridade em alegrias da paternidade, mas imagino que sejam assim, como diz este “Espalhem a Notícia”. Sérgio Godinho é um dos grandes criadores da música pop portuguesa e Manuela Azevedo uma das suas grandes intérpretes. Acontece que Sérgio Godinho não tem a voz que gostaria de ter e que Manuela Azevedo não tem as canções que precisava, pelo menos feitas pelos Clã propriamente ditos. Juntar os dois, com os Clã por trás, dá naquilo. Deus os abençoe a todos.

“Foi Por Ela”, de Fausto

Não sei se é uma figura de estilo, se é apenas estilo. A verdade é que as “discordâncias temporais” de “Foi Por Ela” são um dos mais belos e inventivos recursos estilísticos de que me consigo lembrar na canção portuguesa. De Fausto Bordalo Dias, há sempre dezenas de temas que podem escolher-se. Mas: “Foi por ela que eu já danço a valsa em pontas” – só este verso justificava tudo. Uma grande canção de um génio absoluto.

“Fado Sete-Estrelo”, por Mariana Abrunheiro (original de José Medeiros)

Mariana Abrunheiro, que é originalmente uma actriz, destacou-se como vocalista dos Madredeus nos tempos da Banda Cósmica, mas antes disso já cantava com José Medeiros, cineasta, compositor e músico que, na verdade, foi a melhor coisa que alguma vez aconteceu à cultura pop dos Açores. “Fado Sete-Estrelo” fez parte da banda sonora de uma das séries televisivas de Zeca. Hoje, quando ele sobe ao palco, um dos momentos mais esperados da noite é sempre esse em que se lhe junta Mariana para o cantar.