Lançaram o seu primeiro álbum homónimo em 2016 e, passados dois anos, os Urso Bardo têm mais música nova para nos dar — é de sua vontade fazê-lo já em Outubro com a edição de  ‘Vida e Morte de D. Antónia’. Eles são o  Ricardo Antunes, na bateria; Ricardo Canelas, no baixo e  Filipe Palha com  Tiago Pedroso nas guitarras. Numa simbiose perfeita, deixam transparecer através da sua música a melancolia  e a saudade, que tão bem conhecemos do fado, aliadas à carga enérgica do rock. Actualmente está a decorrer uma campanha de crowdfunding para quem desejar ajudar e, claro, para quem quiser muito saber que história de vida a D. Antónia tem para nos contar. Como, no Gerador, gostamos de espalhar o amor pela cultura portuguesa, deixo aqui o link para quem souber ter o ‘coração sentimento’ no ouvido e, assim, contribuir. Agora atenção, que vamos conhecer os sentidos da música de Urso Bardo.

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Pode ajudar a criar a estrutura que serve de base a essa evocação. Mas é um equilíbrio delicado: demasiada racionalidade pode confinar e sufocar toda a emoção de um tema.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Acho que nenhum dos Urso bardo é muito dado à dança. :) Como espectadores de música consumimos dentro da nossa bolha pessoal, com o mínimo de intervenção possível do mundo exterior. Esta forma de ouvir exige, por vezes, alguma concentração que faz com que seja difícil fazer mais do que bater o pé ou abanar a cabeça.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Pode ser qualquer coisa. Música feita com alma, com paixão, com sensibilidade. Pode ser qualquer estilo. Pode ser música tecnicamente complicada, mas que te chama a atenção e que, por isso mesmo, te prende e te faz ir ao encontro do que a banda ou intérprete quer expressar.Ou, então, pode vingar pela sensibilidade e acessibilidade e, por isso, facilmente levar-te a sítios. Nada disto é palpável, mas sente-se. E os “gatilhos” são diferentes de pessoa para pessoa.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Sem dúvida. Especialmente quando falamos de música como a nossa ― instrumental. Uma das coisas que nos dá gozo é sabermos que cada um de nós faz um filme diferente para a mesma música (e cada ouvinte também), ou por vezes o contrário. Sem nos termos apercebido, chegamos à conclusão de que a nossa imaginação foi para sítios muito similares. O facto de não haver uma voz a contar a história faz o cérebro conceber uma conexão para o que está a ser ouvido.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sempre. Todas as nossas músicas me levam para algum lado que, como disse anteriormente, não é necessariamente o mesmo sítio para os outros elementos da banda. Mas tenho videoclips imaginários na cabeça para a maior parte dos nossos temas. Muitas vezes estamos a compor e cada um diz para onde a imaginação o está a levar ㅡ a(s) parte(s) seguintes, são sugestionadas pelo que veio antes.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Seria provavelmente rural. Escala de castanhos, verde. Passarada.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Não há só uma música mais especial, há muitas. Cada uma tem o seu “paladar”.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Tal como na pergunta anterior, muitos e muitas. Não dá para dar uma resposta específica.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Claro que sim. Acho que já aconteceu a toda a gente não gostar de uma certa música, até que um dia passa um bom momento com amigos e essa mesma música está a tocar de fundo. A partir daí, passamos a associar a música àquele momento e, quando a ouvimos, somos transportados para lá de novo. Em outro espectro, penso que também está provado que certos tipos de música ajudam à concentração e ao estudo.

Fotografia por Jorge Campos
Entrevista por Ana Isabel Fernandes