Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Manual de Sobrevivência: O trabalho na cultura é trabalho

*Esta é uma crónica da Sara Barros Leitão, inicialmente publicada na Revista Gerador de maio….

Texto de Redação

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

*Esta é uma crónica da Sara Barros Leitão, inicialmente publicada na Revista Gerador de maio.

Passou mais de um ano desde o início da pandemia. Durante este período, ouvimos frequentemente que a cultura tinha sido uns dos sectores mais afectados. As salas de espectáculos foram as primeiras a fechar as suas portas, foram canceladas milhares de actividades culturais por todo o país, foram milhares os trabalhadores que ficaram sem qualquer protecção social. Agora, em que tudo começa a reabrir e a normalidade parece estar a chegar, é importante sublinhar que isso não significará a total retoma do sector, e que haverá ainda muitas centenas de pessoas que, durante os próximos meses, continuarão sem poder ou sem conseguir trabalhar.

Talvez nunca se tenha ouvido falar tanto de «trabalho» e de «cultura» na mesma frase como nos últimos meses. Com a paragem forçada de todo o sector, a organização colectiva tornou-se inevitável como forma de reivindicar direitos, protecção laboral e social.

Pela primeira vez, e de forma bem visível, a luta do sector da cultura irrompeu pelos telejornais, ocupou colunas de opinião, criou acções virais nas redes sociais, pôs em diálogo todas as estruturas representativas, ocupou por diversas vezes o espaço público com protestos, concentrações, vigílias. Organizaram-se fóruns de discussão, partilha de dúvidas e de informação. As exigências comuns e concertadas fizeram a pressão política necessária para o Governo criar um Estatuto dos Profissionais da Área da Cultura, não como forma de responder à emergência que vivemos, mas como reconhecimento de que é necessário estruturar o futuro de um dos sectores mais desregulados, precários e sem protecção.

No momento em que escrevo, o estatuto foi aprovado em Conselho de Ministros (a 22 de Abril de 2021), mas ainda não foi disponibilizado para consulta pública. Como várias associações têm dito publicamente, o Governo cortou o diálogo com as estruturas representativas na fase final em que se discutia a parte mais importante: a protecção social. Desse modo, deixou também de enviar às associações documentos com propostas concretas, espaçando cada vez mais as reuniões, e agendando-as por períodos cada vez mais reduzidos.

Apesar disso, soubemos que o Governo recuou em várias das suas propostas iniciais, por pressão das associações, pois corre o risco de fazer aprovar um estatuto impraticável, sem aplicabilidade à realidade do sector, e ao qual ninguém irá recorrer.

Já mais do que uma vez, em entrevistas e conferências de imprensa, foi dado a entender, seja pela ministra da Cultura, seja pelo primeiro-ministro, que o grande problema do sector da cultura é a informalidade nas relações laborais e que o desafio do estatuto é trazer as pessoas para dentro do sistema da Segurança Social, dando a entender que esses trabalhadores não contribuíam.

Este tipo de insinuações são perigosas e desinformadas. O problema do sector da cultura não é a falta de contribuições para a Segurança Social, até porque elas existem, são cumpridas, e representam uma enorme percentagem dos cachets dos trabalhadores. O problema do sector da cultura é a enorme precariedade a que está entregue: cachets e salários extremamente baixos, falsos recibos verdes, falsos outsourcings, desregulação, falta de contratos de trabalho, falta de protecção social nas eventualidades, impossibilidade de acesso a subsídios por não se cumprirem as condições de recurso.

Tudo isto podem parecer palavrões e temas assustadores. Não são.

Durante o último ano, estive reunida com centenas de trabalhadores da cultura, nas mais diversas situações. Percebi que são raros os trabalhadores que alguma vez viram um contrato de trabalho e a maioria acha que não tem direito a um. Tive várias conversas com trabalhadores que estavam convencidos de que o recibo verde era a única forma de executarem o seu trabalho, e apercebi-me da enorme confusão na utilização de termos como: intermitente, independente, freelancer, prestação de serviços, recibos verdes, trabalhador por conta de outrem, contrato de trabalho, protecção social, direitos laborais.

Se também tu tens dificuldade em saber o que significam cada uma destas palavras, e, sobretudo, todos estes assuntos parecem uma nuvem negra e tenebrosa, as próximas crónicas deste Manual de Sobrevivência são para ti.

Durante os próximos meses, tentarei, de forma simples e clara, explicar-te cada um destes termos e, sobretudo, tentarei esclarecer e analisar o que será a proposta de estatuto entretanto apresentada pelo Governo.

Estarmos munidos de informação clara e objectiva, e conhecermos os nossos direitos e deveres, são os primeiros passos para exigirmos o fim da precariedade.

Termino, então, esta primeira crónica dedicada ao trabalho para te falar sobre trabalho.

Não é por gostares muito do que fazes que o trabalho deixa de ser trabalho. A pior mentira que te podiam contar é que «se escolheres uma profissão que gostes, não trabalharás nenhum dia da tua vida». Errado.

Se trabalhas no que gostas e no que sempre sonhaste, és um trabalhador feliz, mas não és menos trabalhador por gostares do que fazes.

Ser trabalhador significa executar uma tarefa e ser remunerado por ela. E também significa ter direitos e obrigações. Sim, sei que pode parecer estranho, mas se és trabalhador, tens também direitos como o direito ao descanso, ao lazer, a férias, a ficares doente, a cumprires o luto pela morte de um familiar. E, na grande maioria dos casos, tens direito a um contrato de trabalho, que te dá acesso ao subsídio de desemprego, a subsídio de férias e de Natal, que te paga o seguro de acidentes de trabalho, que desconta para a tua reforma e que partilha com o teu empregador as tuas contribuições para o IRS e para a Segurança Social.

Trabalhadora e trabalhador, não desistas. Isto não é uma utopia. Isto é a lei.

Poderás estar a pensar que, ao exigires tudo isto, a consequência será que nunca mais queiram trabalhar contigo e que logo a seguir virá alguém que irá aceitar o mesmo trabalho por menos condições, por menor valor, por mais precariedade.

Dedicarei também uma crónica a explicar como tem de ser possível trabalhar na cultura com mais direitos e protecção, mas, até lá, segue o conselho do senhor de barbas cinzentas: uni-vos.

Associa-te às associações representativas do sector, junta-te ao sindicato, participa nas sessões de esclarecimento e nos fóruns de discussão.

Estamos à tua espera para começar a revolução.

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico

-Sobre a Sara Barros Leitão-

É do Porto, e atualmente trabalha como atriz, criadora, encenadora, assistente de encenação e dramaturga. Feminista, ativista por todas as desigualdades, incoerente e a tentar ser melhor, revolucionária quanto baste, é uma artista difícil de domesticar. É a autora da crónica «Manual de Sobrevivência» na Revista Gerador.

Texto de Sara Barros Leitão
Fotografia de Matilde Cunha

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

11 Março 2024

Maternidades

28 Fevereiro 2024

Crise climática – votar não chega

25 Fevereiro 2024

Arquivos privados em Portugal: uma realidade negligenciada

21 Fevereiro 2024

Cristina Branco: da música por engomar

31 Janeiro 2024

Cultura e artes em 2024: as questões essenciais

18 Janeiro 2024

Disco Riscado: Caldo de números à moda nacional

17 Janeiro 2024

O resto é silêncio (revisitando Bernardo Sassetti)

10 Janeiro 2024

O country queer de Orville Peck

29 Dezembro 2023

Na terra dos sonhos mora um piano que afina com a voz de Jorge Palma

25 Dezembro 2023

Dos limites do humor

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de João Alves sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0