Afro quê?
Penso que todos já ouvimos falar do termo afroamericano, e do termo afro-europeu? No meu caso nunca o tinha utilizado, apesar de que tudo me identifique diretamente com o conceito: nasci em Portugal e tenho origens cabo-verdianas. Vi este conceito há umas semanas quando entrei numa livraria e deparei-me com o livro Afropean: Notes from Black Europe do britânico Johny Pitts. A partir do momento em que contactei com este termo, as reflexões na minha mente não viam fim.
Desde cedo tive contacto com a identidade e cultura afroamericana que é amplamente valorizada do outro lado do Atlântico. Esta está relacionada com a criação de géneros musicais como o Jazz, os Blues ou o movimento Hip Hop e ainda com personalidades importantes como os ativistas Dr. Martin Luther King Jr, Angela Davis ou Malcolm X, no desporto com o pugilista Muhammad Ali e, na política, com o 44º presidente da história dos EUA, Barack Obama.
Os EUA são um país com uma enorme influência por todo o globo e com um povo com uma forte ligação à sua pátria e cultura. Aqui a cultura afroamericana é trazida para primeiro plano como forma de reclamar o seu reconhecimento perante o resto da sociedade, sobretudo pelo contexto histórico e social no qual está inserida.
Através da internet e efeitos da globalização nós, jovens, somos constantemente influenciados pela cultura afroamericana e americana em geral, no entanto não assumimos verdadeiramente o que é a cultura afro-europeia. A meu ver, existe certa invisibilidade quanto àquilo que é e representa a identidade afro-europeia.
Identidades
Os meus pais imigraram de Cabo Verde para Portugal em 1989. Eu nasci em Lisboa e fui criado na linha de Sintra, lugar onde tive os melhores anos da minha vida e onde conheci os amigos que me acompanham até hoje. Esta é uma zona do país conhecida pela sua multiculturalidade e onde vivem outros Odaires que, tal como eu, têm raízes africanas e nasceram ou vieram para Portugal na sua infância.
Durante a minha infância tinha um grupo de amigos com origens diferentes. Éramos portugueses e cabo-verdianos, guineenses, santomenses, angolanos. Europeus e africanos. Enfim, os nossos contextos eram tão diferentes e semelhantes ao mesmo tempo e, um dos grandes problemas que enfrentávamos era o facto de não sermos reconhecidos como portugueses por uma parte da sociedade portuguesa, mas também não sermos reconhecidos como africanos nos países onde temos as nossas raízes.
Na verdade, sinto-me integrado nas duas culturas. Na cabo-verdiana pelo contacto com a minha família e com a cultura em si: a culinária, a música, o criolo cabo-verdiano. Passei 22 anos da minha vida em Portugal, também vivi uns tempos em França, mas sempre me senti português. Nunca passou pela minha mente sentir-me um ou outro, estive sempre entre os dois e, por isso, choca-me o facto das pessoas não acreditarem ou não se conformarem pela minha primeira resposta sobre aquela que é a minha nacionalidade e acrescentam “… português? Mas tu és preto, de onde vens verdadeiramente?” ou então têm a clássica abordagem de tentar adivinhar “de onde venho realmente”.
Em Cabo Verde, apesar de estar ligado à cultura, também não sou visto pelo resto da minha família, nem pelo resto da sociedade cabo-verdiana como um indivíduo cabo-verdiano. Quando lá estive em 2013 era mais considerado um turista. Muitos dos meus familiares que residem em Cabo Verde comunicam comigo em português, sendo que esta não é a sua primeira língua. Na verdade, esforçam-se para facilitar a comunicação, mas vejo esta adaptação como um indício de que não me vêem como cabo-verdiano.
Estas reações impactam-me e criam no meu quotidiano conflitos sobre aquela que é a minha identidade de africano e europeu, de português e cabo-verdiano. Tanto num país como noutro, não sou realmente levado em conta por aquilo que sou.
Durante toda a minha vida cresci a olhar para a televisão e a não me ver nem a mim, nem a pessoas como eu representadas neste meio. As únicas áreas nas quais conseguia encontrar essa representação era na música e no desporto. Aí via pessoas semelhantes que eram reconhecidas pela sociedade, mas noutras áreas, como a política ou o cinema, não era fácil encontrar essa representação.
Ainda hoje em dia, para uma parte da sociedade portuguesa, somos considerados apenas africanos até conseguirmos alcançar feitos que realmente interessam para a nação, como Marcelino da Mata, o militar mais condecorado do exército português ou Éder, o jogador de futebol que marcou o golo da vitória no Europeu de futebol de 2016. Este problema identitário é ainda hoje actual e atravessa a mente de muitos os jovens afro-europeus um pouco por toda a Europa. Sentimos ser x, mas a sociedade vê-nos como y. Esta questão vai para além da dimensão social e das noções legais das nacionalidades, atravessa igualmente a dimensão psicológica e emocional de cada jovem.
No meu caso, nasci cá, mas tive a nacionalidade apenas aos 5 anos e, por ter a nacionalidade, consegui praticar futebol federado. Este não era o caso para muitos dos meus amigos que foram impedidos de o fazer porque não tinham nacionalidade portuguesa, apesar de terem nascido em Portugal ou terem emigrado ainda em crianças. Ainda hoje é surreal pensar que tinha amigos talentosos que foram privados de fazer o que gostavam.
Ser um jovem afrodescendente em Portugal significa carregar nas costas duas identidades culturais nas quais nos perdemos devido às reações exteriores que têm impacto no nosso interior. Esta dualidade significa lidar com problemas de racismo estrutural que constituem degraus altíssimos pelos quais temos que ultrapassar com ou sem ajuda.
A cultura afro-europeia em Portugal assume contornos de invisibilidade imposta por uma sociedade que insiste em não valorizar os afrodescendentes que são também eles parte da cultura portuguesa. Hoje em dia existe algum progresso neste tema graças a personalidades como o artista e ativista Dino D’Santiago que tem tornado visível a cultura africana em Portugal e o projeto Lisboa Crioula que também a mostra como exposto no seu website “Lisboa de nome, Crioula de apelido, filha da mistura de muita gente”. Assim, através de diversas iniciativas socioculturais as mentes têm vindo a ser despertas e sensibilizadas para temas relacionados com esta multiculturalidade.
O desenvolvimento de projetos pelas associações e o trabalho daqueles que realmente têm espaço e oportunidades para dar a voz aos que se sentem invisíveis pode contribuir realmente para uma mudança de mentalidades e, para que cada um de nós, jovens afro-europeus, oiça cada vez menos “vai para a tua terra” numa terra que também é nossa, e, em muitos casos, é a única que conhecemos.
-Sobre a Odair Alvarenga-
Odair Alvarenga tem 23 anos e vive em Rio de Mouro. Após a sua licenciatura em Serviço Social no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa partiu para Bordéus no sudoeste de França para embarcar numa aventura de um ano com o Corpo Europeu de Solidariedade. Para si nada se compara a uma caminhada a ouvir Hip Hop dos anos 90 ou uma boa noite de inverno a ver Masterchef no sofá. Incerto quanto ao seu futuro, mas determinado a procurar o melhor caminho para si.