Começo este texto com uma declaração de intenções, uma vez que escrevo sobre um projecto do meu amigo Gonçalo Pôla e porque colaborei em vários eventos dos Encontros de Alvito, enquanto músico, DJ amador e fã. É nesta última qualidade que escrevo.
Os Encontros de Alvito são organizados pelo Clube da Natureza de Alvito com a colaboração de cada vez mais voluntários. Nascem da ideia de voltar à terra, a partir da oliveira milenar que existe em frente ao castelo e onde podemos encontrar uma instalação áudio com as histórias de várias gerações locais que falam da sua vida e do trabalho no campo. Não é um evento que pretende colonizar o espaço, as pessoas da terra são colocadas no centro deste acontecimento e, a partir deste local carregado de simbolismo, somos convidados a explorar a vila, por onde se estende este diálogo entre as pessoas, a terra, as tradições e o futuro – no castelo, na Praça da República, no pelourinho, tanques, biblioteca, nas adegas onde se canta, nos pátios das casas onde se toca e dança, ou nos cafés.
Alvito é uma pequena vila situada entre Évora e Beja, no coração do Alentejo, e é atravessada pela velhinha estrada nacional 257, que liga as duas capitais de distrito, rota que há muito perdeu a sua importância estratégica, confirmando o isolamento típico de uma vila alentejana do interior. Tem várias características que a distinguem e que têm constituído motivo de atração de gente vinda de todo o lado ao longo dos séculos.
Circundada por oliveiras milenares, o seu próprio nome remete para a palavra olivetto, ou olival traduzido do latim, e é a partir da oliveira que os Encontros se aliam à arte, ligam o saber tradicional à ciência e pretendem ser uma resposta efectiva ao olival superintensivo, que recentemente passou a dominar a produção local de azeitona e a paisagem do Alentejo, reflectir sobre como a comunidade pode combater os efeitos da seca – a água era precisamente o tema da segunda, e mais recente, edição –, estimular, acordar, mas também ser um veículo para a cultura local.
A primeira edição dos Encontros de Alvito aconteceu em Outubro de 2021 e manifestou-se como um acontecimento cultural inédito, devolvendo um brilho de outros tempos à histórica vila, acolhendo concertos, performances, cante, dança, teatro de rua, um espectáculo de artes circenses, oficinas para crianças, uma emissão constante da Rádio Miúdos e uma série de conversas fundamentais no pátio da biblioteca, onde se discutiram temas como ecologia, agricultura intensiva ou ciência, com especialistas como o pai da agricultura sintrópica Ernst Gotsch, o professor Jorge Gaspar, a investigadora da FCT Patrícia Vieira, o professor José Tribolet, entre muitos outros.
O fim-de-semana trouxe um número respeitável de pessoas de fora para as acomodações, restaurantes e cafés da vila, numa escala humana equilibrada, provando ser uma oportunidade económica para uma vila estrangulada pelo seu isolamento, bem como um acontecimento para a própria população que, apesar de alguma relutância em envolver-se, beneficia inegavelmente de uma nova dinâmica cultural, havendo a preocupação em convidar os grupos corais, bandas, artistas e DJ locais, bem como promover a colaboração de artistas em formato de residência – característica fundamental para o desenvolvimento da cultura local. O objectivo não é usar a vila como cenário para albergar um acontecimento para pessoas de fora.
Mas não basta organizar concertos e conversas ou estimular esporadicamente a economia para fazer realmente a diferença. Cada vez mais se ouve falar em compensar pegadas carbónicas, vivemos na altura em que até grandes petrolíferas têm o descaramento de se apresentar como «verdes» e com o aparecimento, nos últimos anos, de vários festivais cuja temática central é a sustentabilidade. Também agora os grandes festivais, que na generalidade baseiam toda a sua estrutura logística em plástico descartável e lixo generalizado, aderiram a este tipo de comunicação.
Ainda bem que o tema sustentabilidade conquistou o seu lugar no mainstream, mas, por vezes, fico confuso quando contacto com alguns destes projectos directamente, uma vez que depois parece não existir nenhuma ligação real nem prática com o assunto, apesar de aparentemente este ser o tema central do cartaz.
Responder à agricultura intensiva de forma positiva tem de ser feito através de uma ligação real à terra, de sensibilizar os mais novos para a agricultura, para o desenvolvimento sustentado do interior, do país e das nossas vidas, não basta fazer um festival. É preciso encontrar uma resposta prática. É aí que entra a dimensão mais importante dos Encontros de Alvito, aquela que acontece todo o ano, fora do festival em si.
O Parque dos Encontros, o grande projecto satélite que ganhou um subsídio dos Bairros Saudáveis (trazendo um investimento substancial para a criação de um novo equipamento revolucionário na vila) e que envolve um circuito de manutenção, a criação de uma floresta com várias técnicas de agro regeneração e hortas comunitárias, em terrenos cedidos pela câmara municipal, junto à escola profissional. Esta é uma estrutura-chave nesta equação, uma vez que a floresta pretende ser um laboratório, um ponto de encontro para aprendizagem, um agregador da comunidade, um espaço para ser usufruído pela população e uma fonte de alimento que pretende vir a abastecer a cantina da própria Escola Profissional, que tem um currículo muito meritório e reconhecido na área da restauração e hotelaria.
É essencial destacar que o festival quer encontrar projectos alinhados na mesma filosofia, promovendo a colaboração e fortalecendo assim o objectivo comum.
O objectivo final não é expandir o cartaz do festival com nomes caros, a utopia é encurtar as cadeias e reduzir a dependência externa, caminhando para a autonomia alimentar da vila.
Este é o tipo de projectos que pode ter um impacto realmente transformador na comunidade a longo prazo. Viva os Encontros de Alvito. Viva o Futuro.
*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico
- Sobre Benjamim -
É um escritor de canções, músico e produtor que gosta de dançar, apesar de assumir não ter muito jeito. Em 2020, lançou Vias de Extinção, um disco que começou na pista e acabou a ecoar no vazio que a pandemia criou, terceiro álbum depois de 1986 — disco bilingue a meias com Barnaby Keen lançado em 2018, — e Auto Rádio, em 2015. Como produtor, já trabalhou com nomes como Joana Espadinha, Cassete Pirata, Lena’Água, B Fachada, entre outros.