“A cultura é um bem essencial e faz parte dos nossos direitos” — esta máxima lançada por Luís Ferreira, programador e diretor artístico do Festival Bons Sons, parece em primeira instância resumir uma ideia já conhecida. Porém, a verdade é que a cultura, em termos institucionais, à semelhança de outras áreas da sociedade portuguesa, nem sempre encontra o mesmo nível de valorização.

Tendo como ponto de partida a reportagem Formar cidadãos, formar públicos: que caminho(s) para a cultura em Portugal?, publicada no número 26 da Revista Gerador, ouvimos seis intervenientes do universo cultural português. A partir destes testemunhos, procurámos produzir uma reflexão acerca das suas vivências e experiência profissional pondo o panorama cultural nacional como pano de fundo.

Ficam desde logo patentes desafios como a descentralização e a representatividade na programação, assim como a dificuldade de integrar circuitos já estabelecidos num trabalho em que a reinvenção e a adaptação são fatores fundamentais para a mudança de paradigmas.

Carla Chambel (atriz), Tomaz Hipólito (artista), Né Barros (coreógrafa), Luís Ferreira (diretor artístico), Filipa Frois de Almeida (arquiteta e fotógrafa) e Selma Uamusse (cantora) formam um grupo suficientemente heterogéneo para falar da área. Para uma reflexão coletiva, decidimos perguntar: “Enquanto artistas, sentem-se representados?”

Carla Chambel, atriz

Para a atriz, é consensual que a programação cultural se tem diversificado. Carla destaca a quantidade e qualidade de oferta para os diferentes públicos, inclusive os mais jovens — como já havia sido destacado neste artigo. “Existe uma proliferação enorme de formas de pensar e criar”, realça.

Enquanto atriz, Carla acredita que “o maior desafio será cada criador encontrar o seu lugar, perceber onde é que se encaixa ou se existe de facto a vontade de ter um rótulo.” No caso dos programadores, os desafios passam pela gestão de “artistas representativos da identidade cultural”. Acredita que os espaços devem “tocar nas pessoas» e, assim, estimular a relação com os públicos.

Tomaz Hipólito, artista

Pela sua experiência ao expor e contactar com outros países, Tomaz Hipólito considera que em Portugal “existe a perspetiva genérica de que o estado deve ser o grande catalisador da cultura”, o que nem sempre se verifica noutras geografias. “O que vemos noutros países é exatamente o oposto. A sociedade civil e as empresas são os grandes catalisadores”, sustenta.

O artista levanta ainda outras questões no que toca à arte contemporânea. Mais do que na aposta na diversidade, é na “forma de comunicar que se pode fazer com que as pessoas saiam da zona de conforto para se tornarem mais ecléticas.” Só desta forma é que um programador consegue alargar “o espetro de públicos”, evitando que se trabalhe “exclusivamente para nichos”. Para se mudar o paradigma, “a forma de comunicar deve ser menos abstrata, sobretudo na arte contemporânea”, defende.

Né Barros, coreógrafa

Para Né Barros, o papel de mudar mentalidades não está na mão do artista; é uma questão que se prende com a política e a educação. Sensibilizar as pessoas para “o gosto de imaginar e de ter contacto com aquilo a que não estão familiarizadas” deve fazer parte de uma aproximação a potenciais públicos.

Nos grandes centros, a aposta deve ser feita em “microprojetos mais plurais”. Já nas periferias, o desafio é a aproximação às dinâmicas locais. Um diálogo entre a inovação e a herança deve ser encontrado.

“Acho que é um trabalho local; as coisas não podem ser feitas à distância. Tem de existir projetos feitos a longo prazo e quotidianamente”, conclui.

Luís Ferreira, diretor artístico

Com um trabalho centrado essencialmente em zonas mais periféricas, como Ílhavo ou a aldeia de Cem Soldos (Tomar), Luís defende uma abordagem que passe por “criar momentos de contacto e contágio que devolvam a cultura às pessoas”.
A ocupação das ruas pelas pessoas desencadeia um encontro propício ao questionamento, tornando o espaço público num local privilegiado para a cultura. “A cultura é um bem essencial e faz parte dos nossos direitos enquanto seres humanos termos acesso a esse bem, sendo este um aspeto fundamental do envolvimento entre a criação e a fruição”, realça. Além disso, as estratégias de programação devem ter um fio condutor, para que os projetos ocupem o seu “lugar de fala” e sejam entendidos pelos recetores, deixando de parte “os mitos” que aqui possam ser associados.

Filipa Frois de Almeida, arquiteta e fotógrafa

Também para Filipa o envolvimento com o território e as pessoas é imprescindível, de forma que o incentivo ao público seja eficaz. «Se não se conhecer o terreno e quiser, simplesmente, espalhar uma ideia, esta não irá funcionar», salienta. Despertar curiosidade nos jovens e incentivar os adultos a avaliar as suas práticas culturais são pontos fulcrais para que as consigam “reinventar e adaptar”.

“Se integrarmos as pessoas na cultura – e isso tem-se visto nas escolas, onde tem havido um trabalho maior de consciencialização – o público irá sentir-se convidado a fazer parte da obra”, destaca.

Selma Uamusse, cantora

Nascida em Moçambique, Selma Uamusse vive em Portugal desde os 6 anos e trabalhou como engenheira até se dedicar por completo à música. Conhece o panorama cultural português desde cedo e destaca a (falta de) representatividade que muitas vezes se deteta na programação.

“É fundamental vivermos numa sociedade que se entende, independentemente de etnias ou idades”; a perspetiva levada à cultura por Selma passa por incluir nas programações aqueles que ainda permanecem à margem da indústria cultural. Só assim é que poderá existir uma ‘cultura de respeito’, na qual os artistas consigam expor o seu trabalho de uma maneira fiel àquilo que é o seu objeto artístico”. Defende que nessa relação de respeito “a preservação do património artístico e cultural” não pode ser esquecida.

“Falta mais espaço para se poder criar de uma maneira livre”, acrescenta. E é essa uma das bandeiras da música que leva consigo para o palco.

 

A importância de estudar a cultura portuguesa

As entrevistas a estes seis intervenientes foram realizadas no contexto da apresentação do estudo Barómetro Gerador Qmetrics. Para estes fica a ideia comum de que é fundamental ouvir os portugueses sobre a importância da cultura no país, à semelhança de outras áreas.

Carla Chambel refere inclusive que “este estudo pode ser um guia para vários sistemas de trabalho dentro da cultura para orientar produtores culturais e para pensar que lugar ocupam na programação”. Mais do que para os intervenientes culturais, Luís Ferreira destaca a importância de estudos que se foquem na cultura para “diagnosticar problemas” e ajudar a criar uma consciência comum, para que “escolas, órgãos de comunicação social, os espaços culturais e as associações possam criar em conjunto”.

Quando questionados sobre o conhecimento dos portugueses sobre a sua cultura, ressalta a dificuldade primeira de definir e decifrar a amplitude do tema, embora exista “um aumento da autoestima cultural nos últimos anos”, segundo Carla.

 

A reportagem Formar cidadãos, formar públicos: que caminho(s) para a cultura em Portugal? encontra-se na Revista Gerador 26, que podes comprar aqui, e sai na íntegra em gerador.eu no dia 1 de setembro.

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Andreia Mayer

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