Obra Poética 1948–1988 (1988, 1.ª edição)

Não há nada que fique por dizer quando se escolhe escrever em verso, em poesia. David Mourão-Ferreira foi um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do XX. António Carlos Cortez é um poeta do século XXI, já galardoado com o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes 2017. Tenho em mãos duas antologias, a que António Cortez escolheu – Obra Poética 1948-1988 (1.ª edição), de David Mourão-Ferreira – e a que António me ofereceu – A Dor Concreta, de 2016, do próprio. A palavra doutro remeteu para a palavra do primeiro, e só não foram amigos porque o tempo não quis assim.

Ambos nasceram em Lisboa. Encontrei-me com o António Carlos Cortez no coração da cidade, no Príncipe Real, na Livraria da Travessa. Chão brasileiro, é uma livraria importada, mas a palavra é à portuguesa, as histórias trocadas também. É ali que António está a dar um curso sobre cultura portuguesa e brasileira. Os encontros não acontecem por acaso, e o António já lançou uma outra antologia no Brasil, O Tempo Exacto (Poesia 1999/2015)­, com a editora Jaguatirica. A primeira confissão foi que gostava de escrever canções, de entrar no meio dos fadistas, dos cantores. Não por causa de David, mas tal como David. A conversa já estava em marcha.

“O David Mourão-Ferreira é um autor que normalmente é associado a uma grande poesia erótica, amorosa, e é verdade. Se nós nos lembrarmos de poemas iniciais dele, nós reconhecemos isso. A par de um tratamento muito rigoroso da linguagem, há um universo que é marcado pelo erotismo. “Fui à praia, e vi nos limos/ a nossa vida enredada;/ ó meu amor, se fugirmos,/ ninguém saberá de nada.” (Libertação, 1–4). Este tipo de construção do verso, às vezes quase tradicional, com redondilha, ao mesmo tempo tem imagens muito acutilantes, muito sensuais. Eu gostei, e gosto, de uma definição de poesia do Octavio Paz, que o David Mourão-Ferreira também gostava muito, que diz que “a poesia é uma erótica verbal”. E eu acho que a linguagem poética tem um grande potencial erótico, na verdade. Não é por acaso que desde Petrarca, pelo menos ou até antes, se diz que os poetas são grandes amadores, no verdadeiro sentido da palavra”. O erotismo de David Mourão-Ferreira encontra-se no erotismo de António Carlos Cortez, ambos amadores, quiçá, na mesma praia, nos mesmos limos.

NAS AREIAS

Nas areias inscreveste
o teu registo
(fui eu as areias que pisaste)
e agora que te vais
como uma sombra
nas águas que vão
depois de serem    terra
como desaparecem as tuas marcas?

António Carlos Cortez
À Flor da Pele, 2008

Escolher uma antologia como obra de referência é escolher uma vida. E António Carlos Cortez escolheu a vida e a poesia de David Mourão-Ferreira, um homem que “introduzia a modernidade na tradição”, como disse Urbano Tavares Rodrigues, de quem David era muito amigo. Por isso, consciente e inconscientemente, António escolheu-se também a si, ao seu início, à sua formação. Como nos separamos de quem nos fez a pessoa que sempre quisemos ser? “O David Mourão-Ferreira tem um lugar capital e fundador porque eu comecei a ler poesia muito jovenzinho, criança mesmo, motivado por um poema do David em especial, o poema Maria Lisboa, que era um poema que estava num manual escolar da terceira ou quarta classe. E eu lembro-me desse poema e respondi a esse poema, fazendo uns versos muito toscos num caderno que ainda guardo. Mais tarde, aos 14/15 anos, vim ouvir a Amália Rodrigues a cantar esse fado do David. A minha adolescência foi um período de muitas leituras, e o David Mourão-Ferreira ocupava muito essa actividade. Então, entre os meus 17 e 22 anos, fase de formação, eu li tudo quanto o David Mourão-Ferreira publicou e fiquei sempre muito marcado, muito definido, por uma arte da poesia, que é clássica no caso do David, de um recorte muito rigoroso, do verso, do metro, do desenho estrófico, e de uma dimensão também musical, de forma melódica, imposto pelas aliterações, o gosto pelas assonâncias, pelos jogos de palavras próximas. Tudo isso me fascinou muito na altura por causa de um certo ritmo encantatório, e apesar de depois ter havido outras leituras, o David Mourão-Ferreira ainda hoje regressa com uma luz nova […]. Tem um lugar, de facto, fundador na minha poesia.”

Parece uma descoberta nova perceber que os olhos não têm idade para brilhar. O nosso encontro foi marcado pelas pessoas que deambulavam pela livraria, estávamos reservados numa sala interior, mas sem restrição ao que conversávamos. E foi marcado também pela doença da época, do Inverno. António estava engripado, o olhar não. Não traçámos A Secreta Viagem, como fez David Mourão-Ferreira naquela que foi a sua primeira edição poética, em 1950, nessa altura codiretor, a par com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo, da revista Távola Redonda. A obra teve a epígrafe de Cecília Meireles, epígrafe essa que dizia: “A arte de amar é exactamente a arte de ser poeta.” E respeitando o que David dizia “a biografia ajuda, mas não explica”, avancemos. António Cortez lê-nos o que alimenta o poeta, o poema. A Secreta Viagem, de David Mourão-Ferreira.

 

Aonde iremos ter? O horizonte é grande, e o António traz-nos uma nova estação do ano, desta vez não pela doença, antes pela palavra. “No caso de David Mourão-Ferreira, ele não é só um autor do amor e do amor erótico ou do amor às vezes sexual, ele é um grande poeta do amor erótico e do amor perto da morte. Aliás, há um poema dele muito conhecido onde justamente esse binómio amor e morte são muito óbvios. É o Outono.”

OUTONO

Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono… Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará…)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo…

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto…
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol-posto…

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo…?
Seria Outono…
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

David Mourão-Ferreira
Obra Poética, 1980

“Eu encontro-me nessa poesia do David porque eu julgo que a minha poesia começou por ser davidiana, os meus primeiros poemas são muito davidianos. O primeiro livro sobretudo, Ritos de Passagens, que publiquei em 1999, vinha muito com essa marca do David Mourão-Ferreira, das furtivas ligações, as jangadas desmanteladas, as camas da tua vida, tanta cama, tanta história, tanta cama, tanta vida [referência ao poema Ladainha Horizontal]. Isso também estava no meu primeiro livro”. A palavra doutro remeteu para a palavra do primeiro, e só não foram amigos porque o tempo não quis assim. De novo, tanta palavra, tanta história, tanta vida. “Há aqui coincidências muito interessantes. Eu sou amigo da Teresa Martins Marques, que é a responsável pelo espólio do David Mourão-Ferreira e que, quando me conheceu há para aí vinte anos, me disse uma coisa muito curiosa: “Você, a sua poesia [eu tinha publicado um primeiro livrito] é muito David Mourão-Ferreira e, mesmo quando você diz algumas coisas, lembra-me muito o David.” Eu fumei cachimbo durante dois ou três anos um bocadinho influenciado pela figura do David, e depois deixei. […] dá-se o caso de a primeira pessoa que leu poesia minha criticamente, que fez crítica ao meu primeiro livro, ter sido o Urbano Tavares Rodrigues, eles eram grandes amigos. Eu acho que me daria muito bem com o David Mourão-Ferreira, porque é o tipo de homem e de ser humano que eu aprecio, de uma grande cultura, de um grande requinte e um homem que, sendo professor na universidade, não era um académico sensaborão, não era um académico adiposo, era um homem suficientemente versátil para escrever letras de fados, para ter de facto mil e um interesses para além dos muros da academia”. Este último traço, em especial, apazigua António Carlos Cortez, que tem em mãos uma tese de doutoramento por terminar, sobre Poesia Contemporânea – Gastão Cruz, tal como David Mourão-Ferreira não acabou a sua tese. Haja outro Capital.

 

Capital acumulado. O capital acumulado de tempos, de espaços, que não é necessariamente o capital deste poema de David, marca a escrita de António Carlos Cortez. Uma escrita que pode vir da realidade, que afinal é muito, porque engloba o que vivemos, o que podíamos ter vivido, o que imaginamos e o que não conseguimos imaginar. “O real e o irreal misturam-se na poesia, não é? Nós não sabemos bem onde começa a ficção e onde acaba a realidade. A páginas tantas, quando escrevemos um poema, essas duas linhas – a linha da vida e a linha da vida do poeta, a vida empírica e a vida ficcionada – cruzam-se e misturam-se. No caso daquilo que eu tenho vindo a escrever, há pelo menos uma motivação. Há várias motivações, mas o encontro com a própria poesia, os meus poemas são muitas vezes sobre a própria poesia, sobre o próprio fazer da poesia.” Pedro Mexia refere isso mesmo sobre António Carlos Cortez, no texto de apresentação que fez para a obra A Dor Concreta (2016): “Há um hiato entre o facto e o poema, e esse hiato é o próprio poema. Menos do que poesia sobre a poesia, trata-se de poesia sobre a poetização, que é um esquecimento através do fingimento.”

NO TEXTO

Serás hoje texto
espectro eu
além do texto
o desejo concreto
e nada abstracto
do que fomos

Bem vistas as coisas
em texto torna real
a ficção parcial
do que em nós morreu

É esse o problema central
do poema e seu
funcionamento:
fixa o eixo do sentido
esse submerso
corpo sideral onde
(amor ou morte)
o que fomos vive
e o que não somos sofre

António Carlos Cortez
O Nome Negro, 2013

Tudo é cheio, tudo é farto, tudo é intenso, tudo meio, tudo parco, tudo denso. A aproximação dos opostos numa linha, basta querer. David Mourão-Ferreira entendeu a sua arte, por considerar que a coisa mais extraordinária era a vida, “estarmos vivos e lidarmos com a vida”. E deixa o seu testamento em verso: “Que fique só da minha vida,/ Um momento de palavras./ Mas não de prata Nem de cinza,/ Antes de lava Antes de nada” (Testamento, 1–4). António Carlos Cortez, aos 43 anos, nel mezzo del camin, como intitulou Olavo Bilac, sente que o mais extraordinário são os encontros humanos, com pessoas raras que ensinam a viver melhor. E isso é raro, mas é a vida, é estarmos vivos, é lidarmos com a vida. A palavra doutro remeteu para a palavra do primeiro, e só não foram amigos porque o tempo não quis assim.

David Mourão-Ferreira foi poeta, crítico, ensaísta, contista, novelista, romancista, cronista, dramaturgo, tradutor, conferencista, polemista, diretor de jornais e revistas literárias, secretário de Estado da Cultura. António Carlos Cortez é poeta, crítico de poesia, ensaísta, professor, investigador, é consultor do Plano Nacional das Artes e do Clube UNESCO para a Literatura em Portugal. David escreveu muitas obras, outros tantos ensaios, deixou alguns contos, poucas peças de teatro e um romance, que lhe levou mais de 50 anos a escrever, a idade em que publica Um Amor Feliz. António, já leva catorze livros de poesia, várias editoras, duas antologias, uma coletânea de quinze anos de ensaios sobre poesia moderna e contemporânea, e não descarta escrever um romance, mesmo que lhe leve mais de 50 anos a escrevê-lo. Mas será assim que devemos lembrar David? E António?

David Mourão-Ferreira: “Devemos lembrá-lo como uma das grandes vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX, como um poeta absolutamente conhecedor da tradição ocidental. E não só ocidental, oriental também. […] Para quem goste de poesia bem calibrada, de uma linguagem extremamente apelativa, sedutora, para quem queira redescobrir uma certa elevação no idioma e ao mesmo tempo essa elevação não significar um poeta distante, há qualquer coisa de profundamente tocante na poesia de David Mourão-Ferreira. […] Para mim, que não o conheci pessoalmente, ainda que o tenha vislumbrado, o David Mourão-Ferreira é um querido mestre, um homem inspirador como professor, como ensaísta, como poeta, são as três facetas do David que eu mais reconheço, no sentido em que são essas três facetas nas quais me divido também.” António Carlos Cortez: é um amador da vida, dos encontros, da cidade de Lisboa, mesmo descaracterizada, para quem a música assume um papel salvador, como banda sonora de muitos versos e suspiros. Nas suas próprias palavras, tem “a poesia como tensão verbal, rigor e liberdade, acto de memória; poesia como linguagem criadora de mundos, marcando os ritos de passagem desta vida, a qual, nas águas tempestuosas das relações humanas, se faz um barco no rio do tempo”.

Hoje é dia 23 de fevereiro. Amanhã, 24, serão noventa e três os anos que distam do dia do nascimento de David Mourão-Ferreira. António Carlos Cortez homenageia-o em qualquer altura, com intenção e sem intenção, porque já é parte. E ensina-nos: “quando não esperas nada/ o som concreto/ do poema cresce e tu recebes/ o nada em tudo/ e recomeças” (Poesia, 13–17). A palavra minha, que recomeço, esperará a próxima viagem. Secreta ou não.

Texto de Rita Dias
Fotografia de António Carlos Cortez