2030. É este o ano que assinala o ponto de não retorno no que diz respeito aos efeitos das alterações climáticas, segundo cientistas internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU). Temos vindo a assistir, a um nível de aceleração ímpar nos últimos 100 anos, ao aumento das temperaturas, que tem implicações no incremento do degelo, assim como na subida do nível médio dos oceanos; à existência de ondas de calor e secas, assim como a ocorrência tanto de escassez de precipitação como de chuvas torrenciais, não esquecendo também uma maior tendência para se assistir a fenómenos como furacões e tufões; à queda na biodiversidade; a consequências humanitárias refletidas nas pessoas que tiveram de ser refugiadas devido a fenómenos associados ao clima ou, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), na poluição do ar que é responsável por sete milhões de mortes todos os anos a nível mundial. Assim, é imperativo reforçar a importância de se cumprir as metas ambientais estabelecidas, afinal, «não existe um plano B, porque não temos um planeta B», como avançou, em 2016, o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon. 

A primeira conferência mundial que visava estas questões aconteceu em 1972, em Estocolmo, ficando conhecida como Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, seguindo-se o Protocolo de Montreal, no Canadá, sobre substâncias que destroem a camada de ozono, assinado em 1987. Para Francisco Ferreira, presidente da Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável, uma organização não-governamental de ambiente com atividade nacional, o primeiro «grande salto» neste caminho deu-se quando se «deixou de falar de ambiente para se falar em sustentabilidade». A noção de desenvolvimento sustentável foi afirmada com o Relatório Brundtland, apresentado em 1987. Este foi coordenado pela então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, que viria «a inspirar a primeira grande conferência sobre desenvolvimento sustentável, a ECO-92, no Rio de Janeiro». «Diria que essa foi a conferência mais significativa de sempre, porque foram assinadas três convenções das Nações Unidas na área da biodiversidade, na área das alterações climáticas, na área do combate à desertificação, e traçou-se uma agenda até ao ano 2000. Essa conferência, em conjunto, depois, com a conferência que houve em 2015 [Acordo de Paris], em que se tratou a agenda para 2030 e em que se aprovaram os objetivos para o desenvolvimento sustentável», aponta Francisco.  

Em 2015, foi criado o Acordo de Paris, sucessor do Protocolo de Quioto (1997), aprovado por 195 países, dos quais Portugal faz parte, que visa descarbonizar as economias mundiais. Este marco representa a possibilidade de impedir consequências irreversíveis, em termos técnicos. Porém, António Guterres, secretário-geral da ONU, não deixa de alertar para os desafios políticos na sua concretização, uma vez que temos vindo a assistir a um mundo polarizado, em que os nacionalismos têm vindo a ganhar uma maior expressão. O Acordo entrou em vigor a 4 de novembro de 2016 e tem como um dos seus grandes objetivos a longo prazo dar uma resposta global à necessidade de travar o aumento da temperatura média do nosso planeta a níveis abaixo dos 2ºC, que, entretanto, já foram considerados insuficientes tendo sido apontado o novo objetivo dos 1,5ºC, sob pena de consequências irreversíveis para o planeta, como foi ilustrado num relatório publicado pelo Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC). 

No entanto, em dezembro de 2019 vimos surgirem notícias de como a maioria dos países, incluindo Portugal, não tinha cumprido o que constava neste Acordo. Segundo a Zero, num artigo publicado em dezembro de 2020, «a atual situação relativamente às alterações climáticas não é otimista: as emissões no período pré-pandemia aumentaram, e os impactos climáticos estão a intensificar-se. Mas há cinco anos a ideia de uma sociedade descarbonizada era impraticável. Hoje, qualquer país e empresa sensatos têm a prazo o objetivo de atingir a neutralidade climática. Tal não teria acontecido sem os objetivos ambiciosos do Acordo de Paris». 

No contexto português, a associação destaca como aspetos positivos, nos últimos cinco anos, o assumir da «intenção de se atingir a neutralidade carbónica em 2050», com a aprovação e desenho do seu roteiro, RNC 2050, em 2019, e a elaboração de um Plano Nacional de Energia e Clima para 2030; «a integração de uma forte componente de mitigação climática na Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 e no Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal»; a discussão para a aprovação de uma Lei do Clima; «o anúncio do fim do uso do carvão para produção de eletricidade em 2021 e os grandes investimentos em energias renováveis»; e «o compromisso de diversas empresas em atingir ao longo da próxima década a neutralidade carbónica». 
No entanto, existem também algumas tendências negativas que a Zero enuncia: «as enormes emissões recorde associadas aos incêndios florestais em 2017»; «a manutenção ou mesmo um aumento de 3% das emissões de gases com efeito de estufa entre 2015 e 2018»; e, «apesar dos apoios ao transporte público, o setor dos transportes, muito por via do transporte rodoviário individual, continua a representar cerca de um quarto do total das emissões do país».

A importância do conceito de desenvolvimento sustentável na relação com a herança cultural

Quando se passa a falar de um desenvolvimento sustentável deve pensar-se em sustentabilidade integrada no domínio cultural. Este conceito veio convidar-nos para uma reflexão em que o ambiente não existe separado de outras áreas do dia a dia, mas sim interligado com as restantes valências da nossa vida: «não tenho um domínio que é o ambiente, mas tenho um domínio que é a ecologia, com uma componente social, uma componente económica e uma componente da governança. A cultura está na interface de todas estas componentes e, portanto, não tem sentido estar a falar de querer atingir um desenvolvimento sustentável se não tiver em atenção aquilo que é a herança cultural de muitos povos que vivem, no fundo, numa relação, por vezes extremamente próxima, dos seus ecossistemas», clarifica Francisco.  Acrescentando, de seguida, que «quando nós olhamos para os 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável, a palavra cultura não está em nenhum deles, mas está, obviamente, de forma transversal na maior parte deles, porque há uma interligação direta entre aquilo que são os diferentes valores e perspetivas culturais e o nosso relacionamento, entre nós e com o ambiente». 

Perspetivando a cultura como componente, que pode e deve integrar um debate mais amplo sobre sustentabilidade, é percetível que a relação entre os dois conceitos tenha gerado, nos últimos anos, uma maior intrusão entre académicos e especialistas. Este facto possibilitou que a própria noção de cultura se moldasse numa perspetiva orientada pela sustentabilidade.

É assim que surge o conceito de sustentabilidade cultural, dedicado a aumentar o significado da cultura — como área — e a importância das suas características tangíveis e intangíveis nos campos locais, regionais e globais do desenvolvimento sustentável. Embora difícil de definir, de forma rígida ou exata, alguns autores têm vindo a sublinhar características que funcionam como princípios para este conceito, resumindo a sua aplicabilidade. 

Num estudo de 2016 da Universidade do Porto, Ricardo Nogueira Martins e Flávio Nunes destacam que este novo enquadramento deve, então, «reconhecer os valores culturais locais, a igualdade de direitos e a lógica cultural dentro das comunidades, nas políticas de planeamento e nas tomadas de decisão (...); enaltecer o papel da arte, da criatividade e das atividades culturais na óptica da vitalidade comunitária e na intersecção destas no planeamento dos espaços rurais ou urbanos; apelar a uma dimensão de sentido de lugar e de desenvolvimento local (...), entendendo o território como uma entidade; propiciar uma forma de vida sustentável baseada em escolhas éticas e no consumo de produtos e serviços em relação ao ambiente e às outras pessoas; e favorecer a aproximação bio-cultural.»

No relatório A Nossa Diversidade Criativa (Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento 1995), resultante da Década da UNESCO para o Desenvolvimento Cultural (1988–1997), a cultura foi reconhecida como um fator que desempenha não só um papel instrumental na promoção do desenvolvimento económico, mas também um papel central nas sociedades como algo a alcançar enquanto fim em si mesmo. Desta forma, a cultura acaba por se tornar num aspecto crucial para a sustentabilidade, não só pela sua capacidade de ilustrar como encaramos os nossos recursos, mas também porque se debruça sobre as relações humanas que estabelecemos ao longo dos tempos.

O impacto da noção de sustentabilidade nos conceitos tradicionais de cultura

«A sustentabilidade cultural no quadro da agenda do desenvolvimento sustentável da União Europeia reforça o significado da cultura nas políticas públicas de gestão urbana, nas suas características tangíveis e intangíveis, recentrando o entendimento de que a cultura é crucial para a aplicação de políticas de sustentabilidade já que desenha o modo como encaramos os recursos naturais e sobretudo como construímos as relações com o Outro». in MARTINS, Ricardo Nogueira; NUNES, Flávio (2016). A sustentabilidade cultural no âmbito das políticas de desenvolvimento sustentável da União Europeia: o papel da cultura nas distinções da Capital Verde Europeia. Grandes problemáticas do espaço europeu: repensar os problemas sócioeconómicos e ambientais, reposicionar as políticas de desenvolvimento territorial.Porto: FLUP, pp. 252-263

Ver a cultura como um pilar para o desenvolvimento sustentável é reforçar a relação de interdependência entre a mesma e a ação governamental e políticas públicas. Mas é também abrir a dimensão cultural para a sensibilidade impressa nos seus programas e obras. «Acho que quem trabalha na área da cultura tem uma sensibilidade que merece, precisamente, ser mais informada e formada nestas relações com os grandes problemas que a humanidade tem e com aquilo que pode e deve ser feito da parte de cada um dos agentes culturais para, não apenas interiorizar esses valores e essas práticas na sua atividade, mas também no passar desses valores e desses exemplos para o resto da sociedade», defende Francisco.

Desta forma, o presidente da Zero reitera a existência de uma dupla missão: um olhar sobre a conduta individual e em sociedade. «Há aqui uma relação direta de troca, de entrosamento e de trabalho conjunto para o enriquecimento de todas as partes» que assenta numa passagem de conhecimento através do alerta para a emergência das questões relacionadas com a sustentabilidade. 

Em termos individuais, esta reflexão implica desempenhar as atividades culturais, independentemente da área — seja no património, no teatro, na música ou na literatura —, com o menor impacto possível. Esta dimensão interna «tem que ver com a escolha de materiais, a forma como me desloco entre eventos, o pensar o consumo associado à minha atividade. No fundo, é o incorporar de boas práticas naquilo que é a gestão do património cultural ou a gestão das minhas atividades culturais».

Considerando, agora, a dimensão externa, atenta-se na oportunidade e missão de, enquanto agente cultural, «passar esses valores para os outros que participam, que são o meu público, que são aqueles com quem, no fundo, comunico». Aqui, o desafio é o de «conseguir usar este tipo de atividades para mudar o paradigma, para mudar a consciência que a sociedade tem de um planeta que enfrenta várias crises, como o aquecimento global e as alterações climáticas, como a perda de biodiversidade, como um consumo exagerado de recursos. Portanto, se eu conseguir fazer uma peça de teatro, um concerto de beneficência... até um olhar para peças musicais que têm inspiração vinda da própria riqueza do planeta e da dinâmica do planeta. Estava a lembrar-me d’ As Quatro Estações de Vivaldi, que [metaforicamente] estão em risco». Nesse processo, Francisco frisa ainda a importância para que o mesmo ocorra de forma sustentada em informações rigorosas e detalhadas.  

Para concluir este raciocínio, destaca o 17º Objetivo para o Desenvolvimento Sustentável — «Parcerias para a implementação dos objetivos» — no qual encontra um papel relevante para a cultura: «as tradições mudam-se, evoluem, mas a cultura é, precisamente, uma oportunidade também para o diálogo e para o entendimento». A título ilustrativo, aponta a questão das touradas, para a qual acredita que, tal como noutras questões, este tipo de diálogo em que nos posicionamos nesta visão mais abrangente e complexa e, por isso, às vezes também mais trabalhosa de pensar e de decidir consensualizar, pode fazer toda a diferença». 


Antes de pensar em sustentabilidade, penso em:
Por Salomé Lamas

VOZ 1 (robot): Consumir. Usar. Deitar fora. Desperdiçar. Depauperar. Esvaziar. Extenuar. Esfolar. Roubar.  Amputar. Liquidar. Esgotar. Pilhar. Devastar. Espoliar. Despejar. Saquear. Dominar. Arrancar. Extirpar.  Colonizar. Invadir. Extinguir. Cortar. Aniquilar. Poluir. Contaminar. Profanar. Mutilar. Vigiar. Destruir. 

VOZ 2 (humano): O único direito é o direito ao lucro. Os náufragos. Os homens sagrados. A vida que é simples vida biológica. (pausa) 

Estamos todos na jangada.  

A água cobre-nos o corpo até aos joelhos. 

VOZ 1: Água. Ar. Fogo. Terra. (pausa) Homem.  

VOZ 2: O Homem transformou-se numa força geológica. E faz a Terra tremer de medo. (pausa) Mas é na Terra  que ele assenta os pés e constrói a sua casa. O Homem contamina o ar. (pausa) Mas é o ar que ele respira. Polui  a água. (pausa) Mas é a água que ele bebe. Cria as condições para que a fogueira alastre. (pausa) Mas, num golpe de vento, as chamas viram-se contra ele.  

VOZ 1: Auto-cegueira. Vontade direta de ignorância. Saber que não se sabe. 

VOZ 2: Saber que não se sabe que a última década foi a mais quente dos últimos anos. Saber que não se sabe que as calotes polares estão a derreter. Saber que não se sabe que o nível da água do mar está a subir. (Pausa)  

Centenas de milhões de refugiados. (Pausa) 

A produção de corpos dóceis para exploração não tem fim. O corpo do Outro não é um corpo. É coisa. O seu  espírito não é um espírito. É mercadoria. O Outro é irmão da Natureza, primeira coisa entregue para exploração  – até que nada exista além de construção humana. 

(Pausa) O Outro não é nada mais senão eu. Qual é o lugar na jangada para o Outro que eu sou? 

VOZ 1: Racismo sem raça. Extrativismo. Apropriação. Poder colonial. Colonialidade do poder. Raça igual a  ideologia e tecnologia. Ser desenvolvido igual a ser urbano e industrializado. Ser desenvolvido igual a longe da  Natureza. Olhos robóticos. Satélites. Identificação remota de recursos naturais. Ataque. Predação. Abstinência. A  solidão do predador. Ambiente protésico. A era da solidão.  

Extraction: The Raft of the Medusa (2019/2020)
Salomé Lamas  


O mergulho na relação entre sustentabilidade e cultura

A sustentabilidade como tema nas obras artísticas

«Como é que conciliamos a ideia de que o poder contemporâneo produz e valoriza a vida, ou  seja, a perspetiva biopolítica, com os estudos ambientais que mostram a degradação das  condições de vida? Como é que conciliamos o discurso eufórico que analisa o capitalismo  através da noção de “imaterial” (conhecimento, a poderosa teia cooperativa de cérebros de “intelecto generalizado”), com a necessidade de considerar materialmente a indústria do  imaterial e a sua pegada ecológica material? Será que estes pés materiais e cérebros supostamente imateriais não pertencem ao mesmo  mundo?» — são estas as questões que a cineasta Salomé Lamas, nos deixa, de seguida. 

Encontramos vários artistas/entidades que integram as questões relacionadas com a sustentabilidade, desde logo, como tema das obras que criam e que partilham com o público, por o encararem como missão. Como corpo em constante movimento de olhar atento aos mecanismos que vão operando no mundo, a cultura é o local que abriga os temas críticos que marcam a sociedade ao longo da história. Vemos isso bem presente na programação de espaços como a Fundação de Serralves, no Porto, ou a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, mas também de outro tipo de organismos culturais. 

Comecemos pelo exemplo do projeto artístico de origem teatral, sediado no Porto, Visões Úteis. Carlos Costa, co-diretor artístico do mesmo, partilha que: «apesar de valorizarmos o conceito, sobretudo nas práticas e não apenas na sua representação, a verdade é que este foi mesmo o mote para o nosso plano de atividades 2013/2016, induzindo, a partir de 2017, o exponenciar dos limites da nossa atividade. Em particular, em termos de obras criadas, podemos apontar "Validade" que, entre 2018 e 2020, acompanhou três turmas ao longo do terceiro ciclo do ensino básico em torno da sustentabilidade das relações pessoais, materiais de construção e universo digital; e a partir de 2019, e agora no domínio da programação, passámos a assumir um papel determinante no desenvolvimento do território da freguesia de Campanhã, para onde, entretanto, mudámos, enquanto parceiros da Câmara Municipal do Porto, para o programa Cultura em Expansão». Esta prática assenta na crença de que «a cultura, em particular a criação artística, é um gesto crítico, em que a todo o tempo se (re)constrói o mundo, e os seus produtos não só representam valores (uns em detrimento de outros), como lançam ondas de choque sobre os limites cognitivos e afetivos vigentes a dado momento. Deste modo, as opções estéticas dos artistas, e a inscrição destas na sociedade, tanto podem reforçar as relações vigentes (neste caso, de consumo) como optar por lhes resistir. No limite, quando um processo/produto artístico não sustentável assumir uma conotação negativa aos olhos de quem o cria/produz e de quem dele frui, nessa altura será insustentável não ser sustentável», explica Carlos. 

Também Sérgio Agostinho, em representação da Peripécia Teatro, cooperativa cultural sem fins lucrativos, diz que, ao reconhecerem o papel da arte como ferramenta de consciencialização, «acreditam que os objetos artísticos a surgirem no futuro serão um reflexo das alterações necessárias para uma nova forma de viver. Essa nova forma trará, necessariamente, uma nova forma de criar. No fundo, sempre foi assim: a Arte é criar algo que não existe tendo sempre como ponto de partida vários aspetos da nossa vida quotidiana». Partilha ainda que, embora o tema da sustentabilidade sempre tenha feito parte do seu horizonte, nos últimos anos «ganhou uma presença mais pujante, talvez por notarmos que há uma, cada vez maior, urgência em adotar medidas concretas para invertermos os efeitos nefastos da atividade humana». Como exemplos, aponta os espetáculos «ICEBERG – O Último Espectáculo» (2019) e «O Ensaio dos Abutres» (2020), este último em co-produção com a associação Palombar. 

A título individual, existem também muitos artistas que têm vindo a tratar este tema nas suas obras. David Cachopo, fotógrafo, diz-nos que, «se pensarmos em termos de trabalho produzido, a sustentabilidade e a relação com a natureza, a invocação de uma consciência ecológica e relação com o mundo natural que nos envolve está muito presente em algumas das suas obras». «Acho que, para além do meu interesse pelo tema, existe talvez uma tentativa de compensar a minha pegada chamando a atenção a outras pessoas para as suas próprias pegadas ou despertando nelas uma consciência da envolvência natural que pode ser benéfica, em última instância, para o meio ambiente. Isto também é sustentabilidade. Se a pegada do meu trabalho se traduzir na redução das pegadas de quem se sente tocado por ele, então ele torna-se sustentável e talvez benéfico a médio prazo». 

Para a música Mariana Bragada, mais conhecida por Meta, é importante devolver ao mundo a cocriação da harmonia que encontra na natureza, pelo que, embora não se sinta no dever de criar sobre este tema, reconhece que, para si, é natural «falar sobre as minhas raízes, o mar, a lua, as sementes e terra, por exemplo, porque a forma como a Natureza é inspira-me imenso e aprendo muito com ela».

Joana Bértholo, escritora e dramaturga, tem no seu mais recente romance, Ecologia (2018), a prova de que esta é uma temática que a move e a impele a escrever.  «Esse é um romance sobre monopólios, lucro e mercado, não foi inadvertido que falasse desses temas para falar da nossa relação com a natureza. Acredito no papel da arte, das diferentes artes, em gerar formas de cultura mais amigas do ambiente. Pela literatura, pomo-nos no lugar do outro, refletimos, empatizamos, idealizamos lugares impossíveis. Podemos dar voz às plantas e linguagem aos animais. Parece-me haver uma curiosa contradição operativa: vejo os livros e a leitura como processos lentos, profundos, silenciosos, morosos; e o que as alterações climáticas pedem de nós, neste momento, é uma ação concertada e veloz. O planeta não espera. Ainda assim, continuo a acreditar que informação é poder, e que ler, exercitar o espírito crítico e estar bem informado fazem parte da transição desejável», partilha.  

O trabalho da artista visual Gabriela Albergaria apresenta uma profunda relação com o natural e a natureza nas obras que cria, como por exemplo na peça «Árvore cortada em cubos e montada em linha», algo que a autora vê como «entender a natureza como parte de nós, igual a nós, e não um objeto de uso e de exploração», acreditando ainda que o seu «trabalho abre diálogos necessários». Exemplo disso é o seu apoio ao trabalho dos departamentos de educação dos museus ao estar disponível para responder às perguntas dos alunos que vão ver as suas exposições. «Não há tempo mais precioso de continuidade da exposição como atender a esta faixa etária que, de facto, está muito mais atenta a estas questões do que a minha geração ou a geração anterior à minha», defende.

Raquel Albino, arquiteta e artista visual, reconhece como essencial a integração de temas relacionados com a sustentabilidade nas suas obras. «Na arquitetura, trabalho diretamente com a escolha de materiais e sugestão dos mesmos perante clientes que, muitas vezes, não têm conhecimento técnico sobre os mesmos ou não estão ainda abertos para esta consciencialização. Focam-se, muitas vezes, na questão estética e económica». No campo das artes plásticas, reconhece que «a reutilização de materiais é vantajosa a vários níveis: o acesso a essas matérias-primas é geralmente de baixo custo e de alto valor plástico, o que enriquece conceptual e plasticamente a obra; também gosto de trabalhar a ideia de levar o material até ao limite da sua vida útil, exigindo dele, transformando-o, testando as suas capacidades técnicas. Isso devolve-me não apenas conhecimento do que me rodeia, como me permite criar histórias por cima de histórias».

A sustentabilidade no ofício artístico do dia a dia 

Tal como a anterior reflexão indica, para além da integração do tema nas obras criadas, é inevitável atentar simultaneamente no impacto do próprio ofício artístico, independentemente do seu domínio, que surgirá, naturalmente, como uma extensão da preocupação, enquanto cidadão, de reduzir a sua pegada ecológica na sua vida, em geral, influenciando a sua forma de estar também em contexto laboral. Francisco Ferreira enuncia o conjunto de sete «erres» que considera «muito inspiradores daquilo que pode ser uma avaliação do que uma qualquer instituição, ou uma qualquer atividade, inclusive as culturais, podem fazer: repensar, recusar, reduzir, reparar, reutilizar, reintegrar e reciclar». Ademais, enumera alguns exemplos de medidas que podem ser adotadas pelas entidades e artistas: «desde o sistema de climatização da sala, aos materiais usados, o uso do papel, em que eu posso, em muitos casos, reduzir substancialmente, desde os bilhetes a todo um outro conjunto de burocracias associadas ao funcionamento de uma companhia ou de um museu».   

O Visões Úteis, desde 2009, assumiu uma taxa de carbono que os leva a «plantar as árvores necessárias para absorver o carbono libertado no ano anterior (eletricidade, viagens de avião e de automóvel); para isso, atualmente, a equipa desloca-se até à Serra de Valongo para, com o apoio de uma associação ambientalista, plantar as árvores em causa», explica Carlos, acrescentando que em 2020 passaram a consumir apenas energias renováveis na sua sede. Em 2021, comprometem-se a reduzir as viagens de avião e a transitar para veículos elétricos nas suas deslocações. Para 2022, projetam a redução da aquisição de materiais associada aos processos criativos, tendo como objetivo «atingir uma pegada carbónica zero entre 2028 e 2030». No caso da Peripécia Teatro, têm um protocolo, desde 2018, «com o ICNF/Parque Natural do Alvão, o qual prevê a realização de ações concretas de promoção da biodiversidade e de sensibilização para a importância de reduzirmos o nosso impacto negativo no ambiente». Tal implica, por exemplo, a abolição do uso de copos e talheres de plástico em confraternizações após os espetáculos, o uso de garrafas pessoais reutilizáveis para artistas, produtores e técnicos, aquisição de tecnologia LED nos materiais de iluminação ou a plantação, no seu espaço de criação, de arbustos autóctones com bagas. «Atualmente, sonhamos com um futuro onde temos um espaço de criação próprio com neutralidade carbónica. Um centro de criação onde o saldo das emissões de carbono, desde o início do processo criativo até à estreia, é zero. Até lá, compensaremos as emissões de carbono de viagens, daremos prioridade a recursos e serviços locais, evitaremos viagens de avião e daremos formação e sensibilização ambiental a todos os elementos da nossa equipa», partilha Sérgio.

A Biblioteca Joanina, na dependência da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, também tem vindo a implementar boas práticas de sustentabilidade. «Em novembro de 2005, iniciamos um projeto de digitalização, financiado pelo Estado e pela própria Universidade, nascendo a Biblioteca Digital de Fundo Antigo da Universidade de Coimbra (Alma Mater)», conta João Gouveia Monteiro, diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. No que diz respeito à conservação das obras, existe uma equipa de higienização responsável pelas mesmas e, em 2017, foi adquirida uma câmara de anoxia, «um método de desinfestação ecológico que usa um gás inerte (azoto) para causar a morte dos insetos por asfixia e desidratação, sem efeitos nocivos nos materiais (papel e encadernação)».«Numa tentativa de sensibilização e envolvimento da sociedade civil na recuperação de obras patrimoniais, foi criado o projeto “SOS Livro Antigo” para angariação de mecenas interessados em colaborar financeiramente no restauro de obras valiosas que se encontram em mau estado de conservação», acrescenta. 

Junto dos artistas com quem fomos falar, são várias as práticas sustentáveis que os mesmos procuram trazer para o quotidiano da sua atividade. David Cachopo avança que, apesar do seu gosto pela fotografia analógica, devido ao impacto nocivo que a técnica tem para o ambiente, deixou de fotografar nesse formato. Porém, confessa ainda «carregar o peso» da fotografia instantânea, que tem impacto devido aos químicos utilizados e ao plástico das embalagens, procurando compensá-lo com a reutilização dos cartuxos onde vem o filme e reciclando os restantes materiais. Reduz os seus testes de prints e procura ser sustentável no envio dos seus livros. Destaca ainda o consumismo como «um dos piores inimigos da sustentabilidade», pelo que não é um «consumidor ávido do último modelo de câmara no mercado». 

Enquanto música, Mariana Bragada costuma ir para os concertos usando transportes públicos ou num carro partilhado. Usa sempre uma garrafa de água reutilizável e é vegetariana. Quando em viagem para concertos, denota uma preocupação em fazer as refeições em restaurantes locais, dormir em alojamentos locais, e procurar criar uma ligação com a comunidade de cada local por onde passa. Destaca ainda o movimento «Slow Movement», «criado pelas Rising Appalachia dos EUA, baseado no esforço de criar práticas mais sustentáveis durante as tours e nos próprios concertos, minimizando a sua pegada ecológica onde podem». Não deixa de salientar o potencial das plataformas e criações de cada artista como meio de «trazer mais luz a estes assuntos». 

Joana Bértholo conta que, na primeira edição do romance Ecologia, «teve várias considerações ecológicas no seu processo de produção, da imposição na página ao papel, e isso refletiu-se no preço ligeiramente agravado». Quanto à alternativa digital, avança que «não está demonstrado que os e-readers sejam uma alternativa mais verde ao livro em papel», pelos minerais raros envolvidos na sua produção. No que concerne o quotidiano da escrita, «não tem emissões carbónicas nas deslocações para o trabalho; o custo energético de ter uma pessoa sentada ao computador, ou a ler, é baixo; e só imprimo documentos em último recurso». 

O trabalho de Gabriela Albergaria guia-se pela escolha de materiais que se relacionam com a natureza e na sua reciclagem, pelo que as suas peças são efémeras — o «tempo de vida pode oscilar dependendo da resistência da matéria usada». «A minha decisão em usar o material desta maneira, sem me preocupar com a forma perene, prende-se com o respeito pela vida normal da matéria», afirma. Por outro lado, procura usar materiais locais e evitar o transporte de peças. 

No caso de Raquel Albino, há o esforço para escolher materiais produzidos e distribuídos nacionalmente, promover técnicas tradicionais e aproveitar o máximo de materiais da construção original, no caso das remodelações. 

A sustentabilidade nos espaços culturais

Também a atenção à própria estrutura dos espaços culturais pode marcar uma diferença significativa no que diz respeito à aplicabilidade de práticas mais sustentáveis no dia a dia das entidades culturais. 

No que diz respeito à própria construção dos espaços, os Espacialistas acreditam «numa economia da criatividade baseada em estratégias de utilização culta e consciente dos recursos que temos à nossa disposição, independentemente dos meios de produção de cada projeto, e não na especulação pecuniária marcada pelo consumismo desenfreado, que caracteriza a nossa época de seres pechisbeque». Dessa forma, projetam um «edifício feito à nossa imagem e semelhança, pensado como um corpo (coletivo), com consciência e imaginação, capaz de questionar e questionar-se para que serve, de que carne é feita. Qual a sua duração, os seus níveis de “rexistência” aos usos do tempo, e se na sua génese existe a capacidade de manutenção, substituição ou renovação. Que seja a casa de todas as perguntas e im(perm)anências». Isto poderá ser concretizado através de, por exemplo, «pre/ocupações materiais, de cariz económico, técnico, energético e ecológico como a instalação de painéis solares ou a criação de espaços verdes nas fachadas e coberturas». «Do ponto de vista material, os principais cuidados que temos passam pela procura, arquivo e reutilização constante de objectos i/móveis, que antes de tudo são boas ideias, que encerram histórias de corpo, espaço e tempo, capazes de potenciar continuamente novas formas de uso do pensamento e da imaginação e constituírem-se como serviço educativo.  Sempre que possível usamos materiais de baixos custos, de fabrico próprio ou de mão de obra local, como aconteceu no project room: “Tijolo Burro”, que esteve em apresentação no MAAT, no âmbito da exposição coletiva Playmode, em 2019».

Encontramos um exemplo de como a forma de conceber um edifício é, desde logo, um primeiro passo importante para a sustentabilidade no edifício da Biblioteca Joanina, que possui algumas condições que favorecem a conservação do seu acervo bibliográfico. «As paredes exteriores do edifício têm uma espessura com cerca de dois metros, a porta principal foi feita em madeira “angelim”, a estanteria do piso nobre foi executada em madeira de carvalho favorável à conservação dos livros, permitindo preservar melhor o espólio bibliográfico», enumera João Gouveia Monteiro. Já para o controlo e medição da humidade e temperatura, importantes para a conservação do acervo bibliográfico, a Biblioteca «está envolvida num projeto com a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra de monitorização das condições higrotérmicas, de partículas e de luz natural, que permitem a aferição das condições climatéricas no interior do edifício».

O caso da Fundação Calouste Gulbenkian também merece destaque, tendo sido o primeiro monumento nacional com painéis solares. «A introdução deste sistema solar térmico, em 2017, é uma aposta interna da Fundação Gulbenkian nas energias renováveis e enquadra-se no programa de eficiência energética que tem vindo a ser implementado desde 2007.  Nos últimos anos, a substituição do sistema de iluminação por LED permitiu reduzir para 1/5 o consumo energético em relação ao que acontecia anteriormente. Refira-se que a introdução de deteção automática para a iluminação em “espaços mortos” também contribuiu para esta melhoria. Para além da energia limpa e da eficiência energética, temos vindo a aplicar medidas concretas de redução de recursos, tais como a eliminação de plástico ou a diminuição do consumo de papel; o incentivo à mobilidade sustentável por parte de funcionários e visitantes; a introdução de opções alimentares mais sustentáveis no nosso refeitório e a organizações de eventos sustentáveis, entre outros», partilha Filipa Saldanha, subdiretora do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Sustentável, que «resulta da integração do Programa Gulbenkian Coesão e Integração Social (PGCIS) e Programa Gulbenkian Sustentabilidade (PGS), procurando demonstrar que uma visão mais holística destas áreas temáticas permitirá o desenvolvimento de respostas mais inovadoras e com maior potencial de impacto».  

Outro destaque vai para a Fundação de Serralves, que atenta na relação entre cultura e sustentabilidade desde o seu primeiro dia. Por um lado, estão enquadrados num espaço de 18 hectares maioritariamente verdes, por outro, procuram refletir sobre o modo como expressam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas nas suas atividades, procurando a convergência com os seus pressupostos e a sua comunicação e participação aos diferentes públicos. «A Fundação implementou um sistema de gestão ambiental, e, em 2013, obteve o registo no Sistema Comunitário de Ecogestão e Auditoria (EMAS) tornando-se, assim, a primeira fundação cultural portuguesa a obter o registo no Sistema Comunitário de Ecogestão e Auditoria (EMAS), depois da certificação pela norma NP EN ISO 14001. Por outro lado, a Fundação promove um conjunto de relevantes eventos, que têm proporcionado um vasto contacto da população com os domínios de intervenção de Serralves, como o Bioblitz, o Serralves em Festa, a Festa do Outono, entre outros. Neste contexto, e pese embora a Fundação venha implementando medidas, no âmbito da organização destas iniciativas, com vista a uma progressiva sustentabilidade, identificou como relevante o aprofundamento deste processo, ampliando as vertentes a acautelar, através da implementação da Norma ISO 20121 — Sistema de Gestão dos Eventos Sustentáveis, através de uma visão integrada com três grandes pilares de atuação: ambiental, económico e social. Trata-se de um processo gradual que se iniciará em 2021 — o qual considerará a especificidade da atual conjuntura pandémica e da incerteza que lhe está associada — com vista à certificação da gestão sustentável de eventos», esclarece a Fundação.

A mobilidade ao serviço da cultura

Ao longo dos últimos anos, a mobilidade tem sido o setor onde se tem assistido a algumas das mais importantes mudanças no que toca aos hábitos de utilização de transportes. Um pouco por todas as urbanizações portuguesas, começam a vislumbrar-se formas de incentivo à utilização de veículos elétricos, mais investimento em transportes públicos e a criação de alternativas, de que é exemplo a implementação de ciclovias para o uso de bicicletas.

As emissões de gases poluentes, para além dos efeitos que podem ter na saúde pública, são um dos elementos mais destacáveis na origem das alterações climáticas, sendo que a utilização do automóvel é responsável por grande parte desse fenómeno. Numa perspetiva a longo prazo sobre aquilo que devem ser as cidades do futuro, tal cenário não se coloca, o que em última instância terá um efeito destacável na forma como a própria cultura poderá ser servida de transportes.

Para isso, Francisco Ferreira sublinha que terá de existir, desde logo, um fomento do uso dos transportes públicos por parte das instituições culturais, visando, por exemplo, «as deslocações dos atores, dos músicos e de todos os que se tenham que deslocar profissionalmente». Por outro lado, o próprio planeamento municipal «deve garantir que quem participa consegue ter essa oportunidade de baixar a sua pegada».

Referindo, por exemplo, o incentivo que por vezes é feito por operadoras de transportes para os grandes festivais de música, o responsável acredita que o mesmo devia acontecer com a restante oferta cultural. «A pessoa podia comprar um bilhete de teatro e com esse bilhete ter a deslocação garantida até ao local em autocarro ou metro», sustenta.

Já em 2020, a cidade de Viena, na Áustria, apresentou um programa piloto que permite aos seus residentes obter acessos gratuitos a espetáculos e museus se optarem por usar o transporte público, bicicleta ou deslocar-se a pé. Em Portugal, a instalação de ciclovias nas principais cidades e o investimento na melhoria da rede de transportes públicos prometem mudanças a longo prazo, algo que as próprias instituições culturais poderão aproveitar a seu favor.

Os selos verdes como ferramenta de gestão ambiental

Atualmente, o mercado coloca ao dispor das organizações diversos instrumentos de gestão ambiental. É neste contexto que têm surgido diferentes tipos de certificações ambientais (também conhecidas como ‘selos verdes’). De acordo com Manuel Duarte Pinheiro, docente do Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa, este tipo de selos funciona como «base voluntária para o apoio ao desenvolvimento do projeto na procura do bom desempenho ambiental, de sustentabilidade, bem como na sua operação».

Em comum, estas certificações têm o intuito de assegurar que determinada instituição tem efetivas preocupações ambientais. «As instituições culturais são tal como as escolas, um exemplo,  nomeadamente na dimensão ética, na procura do posicionamento de contributo para os desafios como as alterações climáticas (e de reduzir as emissões de carbono), redução dos consumos de recursos, contributo para a biodiversidade, inclusividade, entre outros», salienta o docente, acrescentando que se este papel for sendo assumido, poderá funcionar como «elemento facilitador e até essencial para uma ideia de sustentabilidade que seja efetivamente estrutural».

No entender de Manuel Duarte Pinheiro, cabe a cada instituição ou sala de espetáculos escolher uma certificação com base na tipologia e especificidade da sua oferta. «As salas de espetáculos, com a presença do público, obriga a dispor de elevadas exigências de renovação do ar e conforto. Os museus também têm elevados requisitos na qualidade do ar, nas condições de temperatura e humidade, o que significa necessidades energéticas significativas», adianta.

Por outro lado, realça, os edifícios com carácter histórico terão sempre o desafio de encontrar soluções que mantenham intacta a sua identidade, ainda que a eficiência energética seja um fator «essencial para assegurar a viabilidade operacional das instituições» no futuro, sintetiza.

O futuro das cidades e territórios sustentáveis

Em 2020, Lisboa foi distinguida pela Comissão Europeia com o galardão de Capital Verde Europeia, destacando o trabalho que o município tem vindo a desenvolver, mas também as metas que se pretendem alcançar no futuro. O exemplo da capital portuguesa coloca em destaque um outro debate evidente que se prende com o pensamento sustentável relativamente às cidades e aos territórios moldados pela densidade populacional.

No centro daquilo a que vários autores chamam a nova crise urbana, as boas práticas ambientais e a necessidade de se orientar o planeamento territorial numa perspetiva sustentável funcionam como elementos decisivos no futuro que é deixado às novas gerações. Os esforços são redobrados pelos diversos setores, seja pela arquitetura, pelos transportes ou até mesmo pela cultura.

Foi também este pensamento que ajudou a desencadear vários projetos, nomeadamente o Museu da Paisagem, surgido em 2015, e funcionando somente de forma digital. João Abreu, um dos investigadores que integra a equipa deste projeto, salienta que «compreender a teia de ligações que cada indivíduo tem com os ecossistemas e a necessidade de um compromisso social e cultural no modo como se exploram os territórios é essencial para a promoção de paisagens saudáveis».

«Quando me refiro a paisagens saudáveis não penso apenas nas questões ambientais, mas em todas as vertentes que se esperam de um espaço habitado e vivo. Acredito que uma tensão justa entre as forças económicas, ecológicas, sociais e culturais são a solução para a criação de paisagens vivas, saudáveis e sustentáveis. A missão do Museu da Paisagem é em grande medida a promoção dessa tensão, fornecendo a cada cidadão ferramentas de leitura e interpretação da paisagem que habita e transforma. Depois, caberá a cada um o exercício da sua cidadania», acrescenta.

Para o investigador, a verdade é que os ecossistemas culturais não são muito diferentes dos biossistemas na sua forma de funcionamento. «Quanto maior for a biodiversidade, mais produtivos são os ecossistemas. Não será por acaso que as cidades são espaços de grande criatividade e expressão cultural. Mas a cultura não depende só da interação social, depende também da interação com o meio que habitamos».

A partir destas premissas, é possível, então, falar do conceito de paisagens culturais, no qual os agentes culturais podem perceber como a sua atividade tem de estar intimamente relacionada com as comunidades e com os territórios que lhes são próximos. Nas cidades do futuro, norteadas por um pensamento sustentável, a «sustentabilidade cultural é também a sustentabilidade ambiental», sendo que a cultura acaba por ter sempre um papel pioneiro, pela sua capacidade intrínseca de «despertar e influenciar os restantes sistemas», sublinha.

Seja através de uma gestão energética mais eficiente dos edifícios, da transição digital, ou da melhoria das redes de transportes, o paradigma é de mudança, algo que, em última instância, terá um impacto profundo no modo de ocupar o território. «Temos aqui uma oportunidade de reajustar a tal tensão entre os sistemas económicos, ecológicos, sociais e culturais. Este fenómeno poderá reduzir a pressão urbana dentro das cidades e permitir um progressivo aumento da biodiversidade e espaços naturais e, simultaneamente, contrariar os fluxos de despovoamento e permitir um sistema social e económico mais equilibrado nos territórios do interior», sublinha João Abreu.

Sobre esta síntese seria igualmente possível destacar o trabalho de tantos artistas que já é conduzido segundo estas premissas. Destacamos, a título de exemplo, o trabalho d’Os Espacialistas, que esperam alcançar essa mesma meta, onde a «cultura e sustentabilidade se fundem numa espécie ecológica e económica da criatividade humana e de gestão dos recursos materiais e humanos disponíveis, tendo sempre em atenção que um edifício à semelhança do corpo humano, tem vida e duração própria e todo um comportamento performativo, físico-temporal, que tem de ser antecipado/imaginado o mais possível aquando da sua projecção».

O que dificulta a implementação de práticas sustentáveis?

Nestes passos que marcham rumo a um futuro mais sustentável, não deixam de existir algumas dificuldades no que diz respeito à implementação de algumas práticas. Carlos Costa destaca que, «no contexto de uma micro-organização que constantemente se desgasta com o presente», uma das maiores dificuldades que têm sentido é «encontrar o tempo e  ânimo para pensar e acarinhar o futuro». Já Sérgio Agostinho frisa a falta de financiamento para as artes. «Quando temos orçamentos apertados tendemos a concretizar os projetos sem ter margem orçamental, nem tempo útil, para ponderar alternativas mais sustentáveis», clarifica.

David Cachopo confessa que não é fácil encontrar informação sobre os melhores procedimentos na sua área de trabalho, notando ainda que «a tecnologia não quer evoluir no sentido da sustentabilidade, mas antes no sentido do lucro». «Um shift na forma de construir as ferramentas tecnológicas, implementando, por exemplo, a construção modular ou uma mais fácil reutilização de materiais, e torná-los mais duráveis, poderia reduzir muito o impacto da indústria no meio ambiente e na redução do lixo eletrónico».

Para Mariana Bragada, um dos principais desafios reside na criação de merchandising sustentável, que é uma das formas que os ouvintes têm de apoiar o seu projeto. No entanto, nota a necessidade da criação de «leis que suportem o planeta sem que o indivíduo tenha constantemente o acesso dificultado/mais caro a este tipo de práticas/consumo alternativo».   

Joana Bértholo esclarece que «escrever não é um ofício muito poluente – publicar sim». A impressão de um livro não é uma solução ótima em termos ecológicos. «É feito em papel, o que pode implicar o abate de árvores, normalmente branqueado com químicos poluentes e impresso com tintas, regra-geral tóxicas, e o seu ciclo de vida costuma ser limitado (à exceção de bibliotecas e alfarrabistas, a maioria dos livros são usados, lidos, uma única vez)». No entanto, não deixa de sublinhar que «o livro compensa de diferentes maneiras», «pela informação que veicula, o hábito da leitura, a importância do sonho e da imaginação». Mais uma vez, é apontado o papel da indústria e das soluções que a mesma apresenta: «isso só mudará quando a indústria oferecer tintas sem químicos e papel sem branqueamento, por exemplo, a preços similares aos seus equivalentes tóxicos».  

Já Raquel Albino aponta a pouca consciência face ao que acontece ao lixo e as suas consequências ambientais. «A maior parte das pessoas querem algo "aqui e agora" e o mais barato possível!»

Qual o papel que nos cabe? 

A adoção de uma postura de atuação sustentável é vista como um dever das instituições culturais pela Fundação de Serralves: «Como instituições farol e estruturantes das nossas sociedades, obviamente devem ter essa postura. É essa uma das suas funções principais, de afirmação, mais do que da sua responsabilidade social, da sua cidadania». A Gulbenkian partilha esta crença, acrescentando que «as instituições têm um papel importante na sensibilização dos seus públicos para a adoção de comportamentos mais sustentáveis» (Luís Jerónimo, diretor do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Sustentável). O exemplo pode ser dado de muitas formas, nomeadamente através da digitalização das folhas de sala, criação de QR codes, a existência de bilhetes eletrónicos ou, no caso de Serralves, com a integração no projeto Google Arts & Culture e a disponibilização do acesso ao seu arquivo. 

David Cachopo também partilha esta visão: «Mais do que criar cultura que se relacione diretamente com o tema da sustentabilidade, acho que TODA a cultura, devido ao seu poder comunicativo, deve passar princípios de sustentabilidade ao seu público através do exemplo. Não só é uma forma mais subtil de criar hábitos a quem não os tem, mas também uma forma mais eficaz de chegar ao público alvo».  O alcance da meta da sustentabilidade tem tanto de coletivo como de individual. É um caminho que se compõe por micro-revoluções, em que a ação de cada pessoa tem impacto, pois todos somos agentes de mudança. Nesse sentido, para além de um ativismo coletivo, importa afirmar um ativismo individual, que cabe ao espectador/consumidor de cultura.

Apesar da importância do estabelecimento de políticas e decisões globais que visem a sustentabilidade, as mesmas serão sempre insuficientes enquanto a ação dos indivíduos, integrados em diferentes comunidades, não se mover na mesma direção. Da mesma forma que empresas e entidades podem medir a sua pegada ecológica, cada indivíduo pode medir a sua, fazendo um exame de consciência no reflexo das práticas do seu dia a dia. Se uma das formas que os espaços da cultura e artistas têm de mobilizar o seu público é pelo exemplo, também o espectador pode assumir essa conduta. Dar o exemplo enquanto espectador já é uma marca de ativismo sustentável que imprimirá um contributo significativo no coletivo — desde a escolha de como se deslocar para um espetáculo, à opção de não imprimir bilhetes (quando possível). 

O pensamento que norteia o conceito de sustentabilidade, tal como exposto no início desta reportagem, vai para além das questões ambientais. Será também importante integrar a sustentabilidade enquanto conceito global, no qual nos integramos como espécie que compõe a diversidade do planeta Terra. Como exemplo desta transversalidade, podemos enunciar os âmbitos, enumerados por Carlos Costa, no que diz respeito à forma como o Visões Úteis entende este conceito: «quanto ao sentido estético e político do projeto em si e à necessidade vital da sua permanente transformação; quanto aos afetos que agregam a equipa e que permitem ultrapassar as constantes adversidades; quanto ao respeito pelas condições laborais dos que aqui exercem atividade; quanto a opções de gestão que antecipam problemas e não abdicam de uma perspetiva de longo prazo; quanto ao impacto ambiental da atividade em si, considerando a pegada de carbono como um custo de produção cuja compensação devemos».

Não podendo esquecer o período de inúmeras dificuldades que o setor da cultura atravessa, é numa nota final, da entrevista que concedeu ao Gerador, que Joana Bértholo nos diz: «se estamos a usar uma definição de sustentabilidade muito ampla, também merece atenção a questão da sustentabilidade económica e social da prática artística. É muito válido – e bonito – afirmar que as artes desempenham um papel essencial na formação de sociedades mais sustentáveis, e muito contraditório desprotegê-las, desconsiderá-las num orçamento de estado, por exemplo. Este desamparo sente-se na ausência de um debate político sério em relação à cultura, na falta de apoio a artistas e técnicos, na parca educação para a literacia artística, que equivale a não formar públicos futuros. Se a cultura e os seus agentes lutam para se manter, falamos de insustentabilidade. Por isso, não vejo como estanques a questão ecológica, da questão social e cultural, começando pela importância devida à educação.» 

O caminho é longo, no amplo conceito de sustentabilidade, mas tal como concluiu Mariana Bragada na sua conversa com o Gerador, «o que importa é dar o primeiro passo». Avancemos. 

*Esta reportagem foi inicialmente publicada na Revista Gerador de fevereiro de 2021.
Texto de Andreia Monteiro e Ricardo Ramos Gonçalves
Design de Hugo Henriques e Carla Rosado

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O Sobressalto é o projeto do Gerador e da ZERO que une a cultura e o ambiente, criando ferramentas para a transição verde e promovendo reflexões e debates junto da comunidade cultural. Um dos seus eixos é a criação de conteúdos jornalísticos, como este, dedicados à sustentabilidade nos meios do Gerador. Sabe mais aqui.