"A Mentira da arte"

Obra literária de André Neves, originalmente publicada na Revista Gerador 31.

Vagueio errantemente pela cidade nesta glamorosa tarde de verão. Os pe-quenos pardais cantam jubilosamente, enquanto o brilho alaranjado do sol começa a dar mostras do seu vigor. O céu pinta o rio com um tom tão resplande-cente que não há ave que se prive de, no seu dorso, refletir o brilho azulado da água cristalina. A placidez do ambiente contrasta com o frenesim no qual se en-contram todas as pessoas que por mim passam, assemelhando-se a marionetas ambulantes, comandadas por um sujeito constituído por números e ponteiros. A natureza derrama uma lágrima sempre que os relógios não nos permitem admirar a sua beleza, nem que seja por breves instantes. O tic-tac dos relógios transforma os homens em máquinas com momentos específicos para sentir e, quando deixam estes de sentir porque soou um tic-tac a mais, deixam de ser homens. Entre a calçada moída e os sapatos transeuntes, reparo num pedaço de jornal sujo e rasgado. Prontamente o apanho, e nele leio que uma companhia de teatro procura atores para representar Hamlet. Ainda ontem à noite fui o príncipe Hamlet sobre o banco onde costumo pernoitar. O sangue da arte não pode ser menos do que pó das estrelas, é essa a única explicação para que um sem-abrigo se sinta um príncipe através de meras palavras. Caminho até à mo-rada indicada pelo jornal e chego sem dificuldade ao meu destino. A porta está entreaberta. Entro cautelosamente e insiro-me na fila, nem grande nem peque-na, que porventura me separa da oportunidade de comer nos próximos dias. Um calor abrasador, motivado tanto pelo clima próprio da época quanto pela aglomeração de gente num espaço exíguo, mancha-me de suor a camisa já ama-relada. Chega, enfim, a minha vez. Tento disfarçar o tremor que me percorre as pernas ao contemplar a sumptuosidade do jurado – alto, espadaúdo, de sem-blante fino e cabelo grisalho. Tem a aparência de um nobre, tanto pela postura altiva como pelo refinado traje, e ainda pelo seu típico e arcaico anel aristocrá-tico. Julga que vou observar a sua investida, pergunta, olhando-me de soslaio. Porque não, retruco, fitando-o. Porque descreio em criaturas míseras, vocifera altivamente, balançando a cabeça para trás num jeito efeminado. Como pode o senhor conjeturar que me incluo nessa categoria, pergunto. Até um olho mío-pe o perceberia, responde com desdém, O menino não passa de um sandeu!

Apresentar-se perante mim de pele imunda e vestes esfarrapadas... Pelo amor de Deus! Sabe porventura quem foi o senhor meu avô? Que verme petulante me saiu este plebeu horroroso! Saia-me da frente, não impurifique este chão com os seus pés encardidos! Uma dor surda entranha-se-me no corpo. Sinto-a enraivecida, fitando-me tão intensamente que me despe. Contempla-me som-briamente a alma, penetrando-a de seguida como quem com uma farpa pene-tra um toiro, afogando-me num tempestuoso inferno. Olho para paredes sujas e rachadas vendo-me. Sinto que cadeiras coxas têm as minhas pernas. Sou uma porta cansada de bater infindavelmente, obrigada por um vento inacabado. Um desespero enlouquecido em mim cresce, no entorpecido e no grotesco me faz ver, me faz sentir. Doente me torna a consciência de que este ódio lancinante me transforma a nobre alma em plebeia. Que consciência tão aterrorizadora quan-to as trevas da cave do demónio! Ah, consciência que me tornas fétido! Morre! Morre e contigo leva aquele fidalgo pretensioso! Morre!

Saio e percorro o caminho inverso ao que trilhei para aqui chegar. Por vezes na vida há que voltar atrás, já com a consciência de que uma das frentes é mais retrógrada do que o ponto inicial, e depois intentar percorrer uma trajetó-ria divergente, na esperança de que o destino de tal rumo seja mais clemente. A tarde vai-se metamorfoseando em noite e o céu torna-se ainda mais belo, tal como o ledo cantarolar dos passarocos que esvoaçam dançando à volta do velho banco onde me aconchego, do meu velho banco. Talvez somente granjeie ser o príncipe Hamlet em cima de ti, penso alto. Arrefece de repente, e ape-nas me mantenho minimamente aquecido porque não me esqueci de trazer as mantas da casa de onde me despojaram. Um homem perde o pai e a herança e já não é ninguém. O seu nome era Jorge, um pequeno comerciante de gado. Trabalhávamos e vivíamos juntos. Era um bonito homem, tanto de pele quanto de caráter, mas tinha um temperamento eminentemente prático. Em fevereiro, a doença que o levou começou a fazer-se sentir cada vez mais intensamente, até que a sua vitalidade declinou por completo e, em poucos meses, morreu. Tentei salvar o que era nosso, mas não fui bem-sucedido. Ao meu inexistente jeito para negócios se uniu uma terrível praga que nos colheu mais de três quartos do gado, e o nosso património foi sepultado. Jamais esquecerei o seu rosto, mar-cado pela mágoa e encharcado em lágrimas. Viu o seu único filho perder, em quatro meses, o que construíra numa vida. E, ainda assim, entre o estado febril e a agigantada angústia, teve tenacidade bastante para me dizer que não me preocupasse, que iria correr tudo bem porque ainda tinha os meus poemas e o hipotético sustento que eles me trariam. Depois de terem estas palavras saído dos seus lábios, adormeceu para não mais acordar – foi como se contrariasse toda a teoria por si defendida em vida antes do suspiro que o conduziu à morte. Em tempos mostrei-lhe a minha poesia, mas, segundo ele, o trabalho só é tra-balho quando dá dinheiro. Provavelmente as suas últimas palavras resultaram de um delírio proveniente da febre que lhe assolou o juízo nos últimos dias, ou então de uma visão divina entre a passagem da tirania dos vivos para a demo-cracia dos mortos – um local maravilhoso e plácido, utópico, visto por Ivan Ilitch, em que cada ser é tão valorizado que o simples vislumbro da sua proximidade dá a um cego vista. Gosto de pensar que as suas palavras foram o efeito dessa contemplação luminosa, mas não creio em ideias quiméricas. Enfim, já vai sen-do tarde. Não será fácil que o sono tenha mais força do que a dor, pois embora a insensibilidade do meu pai me magoasse, ele era a pessoa de quem eu mais gostava no mundo. E eu não gosto de muita gente.

Nasceu em Lisboa, no dia 29 de novembro de 1999. As tardes passadas na biblioteca pública de Sobral de Monte Agraço foram a semente que fez crescer o seu amor pelas palavras, amor esse que, desde a adolescência, materializa em versos e prosas. Estuda na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e é redator no Jur.nal – o jornal oficial dos estudantes dessa instituição. Foi o vencedor do concurso de escrita NOVA Storytellers, da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, com este texto publicado na Revista Gerador 31.

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