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André Tecedeiro

"O corpo a marcar presença"

Obra literária de André Tecedeiro, originalmente publicada na Revista Gerador 37.

Em casa, a mãe diz que vai à mesma, que não pode faltar, mas que não há problema se o pai estiver cansado, se não lhe apetecer. O pai já de chave na mão, ora essa, só não podem ficar até tarde, mas claro que a quer acompanhar. A mãe pinta os lábios de vermelho e troca à pressa o conteúdo da mochila para a malinha preta, a condizer com os sapatos que só usa quando vai jantar fora. A filha acompanha os pais porque não tem outro remédio, mas pelo ar com que o faz, diríamos que é ela que, contrariada, os leva a passear. 

Já escurece, apesar de não ser tarde, e a baixa tem a aura docemente familiar dos fins de semana de novembro. As pessoas passeiam e parecem trazer nos olhos o crepitar das lareiras da infância. Daqui a um mês já não será assim, não haverá tanto Natal. Dezembro é um mês que rapidamente resvala para o caos, para o tempo a menos e para as más decisões. 

Os pais descem a rua com a firmeza de quem conhece o caminho, mas a filha vai dispersando o olhar em volta, pela rua, pelas pessoas, pelos seus pensamentos. Para em frente à loja das máquinas de café. Não bebe café e não se anuncia ali nada que lhe possa interessar, mas tudo na montra está salpicado por uma neve cintilante e um comboiozinho vermelho circula pelos carris que atravessam todo aquele universo. Quer ver todo o percurso que o comboio é capaz de fazer, quer ver como vai ele descer a colina de grãos de café e serpentear por entre a Easy Expresso e a Essenza 2.0, que só custa 179 euros. A mãe volta a dar-lhe a mão para a trazer para a pressa — “Depois vês isso melhor, agora temos de ir, estamos atrasados para o lançamento”. A miúda sabe que no regresso não vão parar ali. Os pais vão querer chegar rápido a casa ou a um restaurante ou irão regressar por outra rua que não aquela. Pode até acontecer que a montra já não lhe apeteça daqui a pouco, por estar cansada, impaciente ou por se ter esquecido do que ali lhe prendeu a atenção. 

Entram na livraria. Ah, era aqui que a gente vinha, pensa a miúda que se recorda de ali ter estado numa situação idêntica e de ter brincado com outra criança chamada Inês. Pergunta-se se a Inês também estará por ali hoje e olha à volta na esperança de a reencontrar. 

O ambiente da livraria é caloroso, há uma luz quente, um piano suave. As pessoas conversam em grupos dispersos pelo espaço, entre as bancas e as pilhas de livros que nunca ninguém abriu. Um homem serve de vinho os copos de pé alto que as pessoas trazem na mão como se fossem velas para iluminar os seus sorrisos e as suas palavras. As conversas misturam-se. Algumas palavras mais entusiasmadas sobrepõem-se em volume para logo serem cobertas por um silêncio ou uma gargalhada e todos estes sons e silêncios formam uma rede de musicalidade cintilante que se espalha por todo o espaço.

A mãe parece conhecer toda a gente e o pai segue atrás, cumprimentando de cabeça e dando apertos de mão. Conversam com os amigos num tom diferente daquele que usam para falar com a filha e diferente até do que usam para falar entre si. Os olhos da mãe brilham mais à luz da livraria e parece até esquecer-se de que a filha está ali. É estranho ver os pais assim, neste outro modo, tão diferente do que eles são na realidade, porque para os filhos os pais só são realidade quando estão no papel de pais. 

A filha, agora mais livre porque mais esquecida por uma mãe ocupada a pôr a conversa em dia, olha à volta. Os livros são todos novos, mas a livraria parece muito velha, com cheiro a sala de ballet e tetos em forma de bossas. Estar ali e olhar para cima deu-lhe a sensação de se estar dentro da barriga de um gigante de pedra. A menina solta a mão da mãe como que para poder ir mais longe nos seus devaneios e olha em volta para ver se mais alguém olha para cima. Ninguém. 

Ao fundo da livraria, uma mesa coberta por uma toalha de veludo vermelho. As garrafas de água e os microfones antecipam que alguém se irá ali sentar e falar. A menina tem muita vontade de experimentar o microfone, talvez até de cantar uma canção, mas tem onze anos e juízo, já não precisa que lhe digam que não pode, por isso tenta não pensar mais nisso, para que a vontade pare de lhe fazer cócegas na cabeça. Quando crescemos vamos deixando de precisar que nos digam o que temos de fazer, e em adultos quase toda a comunicação se faz sem palavras. Prova disso, bastou que dois homens se sentassem à mesa da toalha vermelha para que toda a gente ocupasse um lugar nas cadeiras dispostas em frente. Nem foi preciso uma palavra de ordem. Ou talvez tenha havido uma ordem sem palavras, porque toda a gente se sentou, calou e sorriu para bem receber de antemão as palavras que viessem a ser proferidas.

Quando um dos homens começa a falar, a menina percebe logo que nada daquilo vai ter qualquer interesse. Olha à volta e repara na estante dos livros para crianças. Segreda ao ouvido do pai e ele acena-lhe que sim, que pode ir buscar um livro. O pai olha para o homem que fala ao microfone, mas de vez em quando dá espreitadelas furtivas ao telemóvel. A filha vai buscar o livro e volta a sentar-se, cruzando os tornozelos por debaixo da cadeira, bicos dos pés apoiados no chão. Vê primeiro todos os desenhos do livro e só depois regressa à primeira página para começar finalmente a ler. 

O homem que falava dá a palavra ao outro, que depois de agradecer ao público ali presente, ao editor e à livraria, começa a ler poemas do livro que tem nas mãos. A menina levanta os olhos do seu livro e fica por momentos a observá-lo, estranhando o tom que a sua voz toma quando começa a leitura do poema. 

O homem que tinha falado primeiro tensiona os lábios e o sobrolho e aproxima o queixo do peito, como se estivesse atento não ao poema que o outro lê mas ao interior do seu próprio coração. A sua mão segura levemente a haste dos óculos que repousam na barriga rija e ampla.  A avó diz que aquelas barrigas são bombas-relógio, ataques cardíacos em potência. A menina lembra-se disso e observa-o com atenção, avaliando um eventual perigo de explosão. 

Algumas palavras do poema sobressaem, mas parecem soltas, e desorganizadas: miragem, retina, espanto, almeja. A menina desinteressa-se e mergulha no seu livro ilustrado. É desconcentrada por um aplauso, mas enquanto pensa se deve ou não bater palmas, logo recomeça outro poema: cidade, virtude, imundo, informe. 

A menina regressa ao seu livro, que tem fadas, flores e frutos e já nem nos aplausos levanta a cabeça até à chegada daquele poema com palavras como noite, beijo esquivo, coxas nuas e outras que ela nem quer assumir que ouviu. Arrebita as orelhas e levanta os olhos discretamente, deixando o rosto ainda voltado para o livro. É o velho truque de colocar os órgãos dos sentidos em alerta, absorvendo tudo, como espíritos que se elevam do mundo, deixando cá em baixo o corpo a marcar presença.  Ela quer ver que cara o homem faz quando lê aquelas palavras e perceber se ele não cora, se não tem vergonha de as dizer tão alto, à frente de tanta gente. Não entende totalmente o poema, mas tenta retirar significados pelo sentido, pela cor das palavras. Sente que dali poderão vir boas pistas para os mistérios que anda a tentar desvendar. A menina fica muito paradinha, como quando finge que está a dormir, mas sente que a mãe se remexe na cadeira a seu lado, como que para sacudir qualquer cinza que aquelas palavras a arder possam ter soprado sobre o seu corpo.

Foi só neste momento que comecei a reparar nelas, na mãe e na filha e que me comecei a lembrar de coisas que eu mesmo vivi. Um dia, teria uns doze anos, descobri com horror que o caderno que tinha acabado de comprar para escrever as minhas histórias, um caderno pautado de folhas agrafadas que tinha na capa a fotografia de um campo de alfazema, trazia na contracapa um poema de amor. Quando o li, mesmo estando sozinho no quarto, senti o rosto a aquecer e percebi que tinha de me desfazer imediatamente daquele poema incendiário, mas ao mesmo tempo sentia que não podia desperdiçar assim palavras com tamanho poder. Arranquei rapidamente a capa do caderno, dobrei-a até onde a força me permitiu e escondi-a numa latinha que atirei para trás da fileira dos livros. Anos depois, voltei a desdobrar a folhinha amassada e percebi que ao contrário do que a minha memória tinha registado, não se tratava de pornografia mas sim de um soneto da Florbela Espanca.

O poeta termina a leitura e varre o público com o olhar. Noto que os seus olhos se detêm um pouco mais nos da mãe da menina, que desfaz de imediato a direção do olhar e remexe os ombros e o pescoço. Tem a mala apertada sobre o colo e as duas mãos pousadas sobre ela, como que para impedir que pombas levantem voo das suas coxas. 

O poeta fecha sonoramente o livro e esmaga-o entre a mão e a mesa. Com este gesto sublinha que tudo foi dito e que tudo ficou registado.

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