Após vários adiamentos devido à pandemia, o espetáculo “Nós em tempos sós”, que junta o contrabaixista e cantautor Aníbal Zola à artista plástica Rita Ravasco, vai finalmente acontecer, no dia 19 de junho, no Hard Club, no Porto.

Os dois artistas conheceram-se no ano passado, durante o período de quarentena, quando, a convite do Gerador, prepararam um espetáculo online, em direto, em que fundiram as suas linguagens, som e vídeo. "Nós em tempos sós" nasce da vontade de levar essa experiência para um palco físico.                             

Aníbal Zola fala, ao Gerador, deste espetáculo "desafiante", no qual, para além das ilustrações em formato vídeo, de Rita Ravasco, contará ainda com uma formação em trio, fazendo-se acompanhar por Juan de la Fuente, nas percussões, e Romain Valentino, na guitarra, bandolim e cavaquinho.

Gerador (G.) – A ideia deste concerto, “Nós em tempos sós”, surge depois de um espetáculo online. Como é que dessa experiência despertou a vontade de criar este concerto?

Aníbal Zola (A. Z.) – Acho que esse espetáculo que fizemos online, a convite do Gerador, correu muito bem e tanto eu como a Rita ficámos com vontade de experimentar, de levar aquilo a um palco verdadeiro e expandir aquilo.

G. – Neste concerto, vais apresentar composições novas e peças desenvolvidas especialmente para este evento, num processo de interação de som com imagem. Como foi esta experiência de criação e em que é que difere de estar apenas focado no som?

A. Z. – Este espetáculo, no fundo, vai ser dividido em duas partes. A primeira parte vai ser um processo parecido com o que fizemos em abril do ano passado, online, em que, no fundo, liguei várias músicas minhas, fazendo assim uma viagem, e a Rita foi, por cima disso, pintando, fazendo a parte das artes plásticas, por cima, e fui-me adaptando também a isso. Foi um processo assim. Neste espetáculo, decidimos fazer isso também, com uma viagem ainda maior do que fizemos em abril do ano passado. Vai haver também uma segunda parte que é o processo contrário, em que ela fez uma viagem visual sem áudio, enviou-me e eu fiz uma composição totalmente nova para acompanhar. Agora estamos em processo de pormenorização, de melhorar isto, de aprimorar.

G. – Há algum desafio neste tipo de criação? Nunca tinhas feito nada do género…

A. Z. – Nunca tinha feito. Desta vez, há outra diferença, vai ser em trio o espetáculo. Eu a tocar contrabaixo e a cantar, um rapaz que toca várias cordas – bandolim, guitarra e cavaquinho – a cantar também, e um percussionista. O desafio, no fundo, é acertar, é as coisas baterem certo. As coisas têm um determinado tempo, mas, às vezes, é variável, é mais livre, pode demorar um bocadinho mais aqui, um bocadinho mais ali. [O desafio é] também tentar chegar ali a um compromisso em que consigamos estar livres, mas ao mesmo tempo funcione bem com a imagem.

G. – Há espaço para improviso neste caso?

A. Z. – Há algum espaço para improviso, na mesma. Mas é controlado, é tudo muito controlado.

G. – Neste espetáculo, vamos também ouvir várias canções do teu último disco, que saiu há sensivelmente um ano, amortempo. Podes-nos falar um pouco deste trabalho?

A. Z. – É um disco de canções em português. Eu sou contrabaixista, principalmente. É essa a minha formação e a minha experiência passada. Também gosto de escrever canções. Então é um disco de canções em português, feito por um contrabaixista. Neste disco, decidi convidar uma data de pessoas para completarem esta sinergia de contrabaixo e voz, que, às vezes, é muito fixe, mas, às vezes, também fica muito vazia.

É um disco que, musicalmente, faz uma viagem por vários sítios no mundo. Passa pelo Brasil, passa por outros sítios da América do Sul, como a Argentina. Tem algumas referências portuguesas também. É assim uma viagem, musicalmente. E depois, em termos líricos, as músicas andam à volta de três temas, que é tempo, amor e morte. Daí o nome amortempo. Amor e tempo têm a morte lá no meio.

G. – Deixa-me perguntar-te o que faz um artista em tempos sós?

A. Z. – Uma das coisas foi esta, conhecer gente nova através do Gerador. Foi uma coisa muito engraçada que aconteceu nesta quarentena. Daí o nome do espetáculo. Podemos ser nós, mas podem ser nós, de cordões a atarem-se uns aos outros. Mas além disso, é agarrarmo-nos à composição, à criação, a produzir coisas novas. Tem sido isso que tenho feito, durante este período.

G. – Há quem fale que, no mundo da música, e das artes, em geral, esta pandemia contribuiu para uma indústria mais próxima e colaborativa. Reveste nesta ideia?

A. Z. – Eu sentia que, mesmo antes da quarentena, já tentava ter um bocado essa abordagem, de tentar incluir pessoas com quem gosto de trabalhar no meu projeto. Como sou baixista, também já estou habituado a ser sideman, a colaborar com outros, em projetos de outras pessoas. Portanto, já sentia isso antes. Não sinto que a pandemia tenha feito isso, mas não quer dizer que não tenha feito. Os duetos em direto do Gerador são um bom exemplo disso.

G. – Qual é que achas que foi o maior impacto que a pandemia teve na tua arte e naquilo que fazes?

A. Z. – O impacto maior, obviamente, foi a falta de concertos, a falta de espetáculos. Tinha lançado o meu disco, em fevereiro de 2020, e tinha uma data de concertos marcados, algumas coisas até bastante apetecíveis e ainda se estavam a marcar coisas. Estava a prever ter um verão muito bom, no ano passado, e foi tudo um bocado por água abaixo. Outras coisas aconteceram também. Tive oportunidade de participar no Sim São Paulo, do Brasil, e fui eu que concorri. Fui selecionado entre mil e tal candidaturas. Fiquei um bocado impressionado. Ou seja, coisas boas aconteceram na mesma. Não me posso queixar assim tanto, mas obviamente que tive um verão fraquinho, quando estava a contar ter um verão bom.

G. – Este espetáculo foi adiado três vezes. Qual é o impacto disto para um artista? Faz-te, agora que vais subir ao palco, estar mais ansioso, mais motivado ainda? É uma mistura de sensações, porque é também um regresso aos palcos?

A. Z. – É um mix de sensações. Com o Aníbal Zola, ainda não toquei este ano. O último concerto que fiz, se não me engano, foi no espaço do Gerador mesmo, em novembro ou dezembro do ano passado. Mas já toquei este ano, com o Palankalama, que é outro projeto de que faço parte, e a semana passada toquei no Maus Hábitos, com os Les Saint Armand, também vamos regressar aos palcos. Portanto, a parte de tocar ao vivo já voltou para mim. Claro que tenho pica de voltar com o meu projeto e, sim, vai ser um mix de sensações, especialmente, porque, durante este ano, a partir de determinada altura, acabei por me ligar mais à parte da composição, de escrever coisas novas. Então, às vezes, as coisas que estão para trás, não é que percam sentido, mas uma pessoa começa a perder um bocado a pica de pegar nelas. Apetece é tocar coisas novas, mas, ao mesmo tempo também, é preciso dar vida às antigas. Esse processo, se calhar, vai ser assim um mix feeling, mas acho que vou chegar ao palco e vou ter muita vontade, porque também é um espetáculo novo e desafiante. É super desafiante, por isso, estou com muita vontade.

G. – Nunca foi uma opção fazer este espetáculo, por exemplo, através das plataformas online? Não é, de todo, a mesma coisa?

A. Z. – Já tínhamos feito isso. Isso era repetir o que já tínhamos feito, que correu bem! É verdade. A ideia deste espetáculo era fazê-lo ao vivo. Era transpor aquilo que foi feito online para ao vivo. Portanto, fazer online perdia um bocado o sentido da proposta. A proposta era transpor uma coisa que apareceu na quarentena, forçosamente online, para ao vivo, e continua a ser.

G. – O que esperas deste concerto?

A. Z. – Espero uma casa cheia e espero que funcione bem, que vai funcionar. Este fim de semana, estive em residência com o trio e estou bastante satisfeito com o que estamos a fazer. Acho que vai ter um resultado interessante para quem for ver. Acho que é uma forma de apresentação, tanto de música, como de artes plásticas bastante original, bastante diferente. Acho que vale a pena ir ver o espetáculo e estou com expectativa. É um concerto, mas, ao mesmo tempo, é como se fossemos ao cinema. Vai estar uma banda a tocar e uma peça vídeo a passar ao mesmo tempo. Em termos de performance, para mim, vai ser uma experiência nova. Porque as pessoas não vão estar a olhar para mim, não é? E estou habituado a isso, quando vou tocar. Neste espetáculo, não. As pessoas vão olhar para o vídeo.

Texto por Flávia Brito
Fotografia de Catarina Carvalho

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