Em maiode 2020, o Gerador esteve à conversa com artistas, curadores e galerias de Arte Urbana, onde o ‘gritode expressão e a forma como impactava e representava a realidade pandémica que se vivia nos levou a momentos chave na reportagem “Arte Urbana: as ruas estiveram vazias, mas não foi um momento de silêncio”. Passados nove meses, retomamos esta conversa.

Hoje, em que estado se verifica a Arte Urbana? De que forma afeta o espaço público, cultural e psicológico da sociedade? AkaCorleone, Tamara Alves e SMILE são alguns dos artistas que nos dizem acreditar que a Arte Urbana e o contacto com a mesma traz consigo uma lufada de ar fresco para quem vive em distanciamento. E, agora, de que forma acontece?
De volta a casa, em dias distantes das ruas, a arte dxs artistas não confina. 

Tanto quanto sabemos, em Portugal, a bagagem de projetos e iniciativas é vasta. Os artistas que escolhem a rua como tela, a partir das suas casas ou das paredes que transformam, revelam um impacto não só no espaço público como social. Já colocadas em ‘cima da mesa’ as fragilidades e a sustentabilidade cultural das artes, voltamos a refletir sobre a Arte Urbana vivida num contexto que veio para ficar.

Do FALU – Festival Artístico de Linguagens Urbanas, o primeiro festival de arte urbana das Caldas da Rainha; do Leiria, paredes com história: ARTE PÚBLICA ao Muro18 , a Arte Urbana manteve-se em ação. No entanto, nem sempre foi assim.

Apesar de ser uma das “vertentes” mais libertas, uma vez que não precisa de um espaço ou galeria para se apresentar, a possibilidade de sair para produzir nem sempre foi permitida.

Em “residência artística”

Tamara Alves, artista visual e ilustradora, conta-nos que na primeira fase de confinamento não tinha mãos a medir para o trabalho, “havia muita coisa a acontecer”. Foi nesta segunda vaga – a atual – que sentiu a fadiga a chegar: “torna-se difícil inspirar-me em casa onde o meu contacto com o exterior é, literalmente, a janela”.

Tamara Alves, fotografia de cortesia da artista

Sem acesso ao apoio estabelecido para o setor cultural, teve oportunidade de continuar a trabalhar a partir de diferentes métodos, nomeadamente, prints, serigrafias entre outros formatos via online. “O artista que pinta na rua, nunca pinta só na rua, isto porque são multifacetados e conseguem produzir também a partir de outros meios. Tu tens de trabalhar para te conseguires manter e receber algo. O apoio anunciado foi apenas uma notícia esperançosa. Quando para o pedir é extremamente complicado”, explica.

No caso de AkaCorleone, o seu ano foi uma “montanha russa”. Entre períodos de inatividade por cancelamento de projetos e confinamento “sucederam-se momentos de trabalho intenso por necessidade própria ou do mercado de trabalho, que procura sobreviver com estes momentos de desbloqueio e que resultou em muitos convites para projetos diferentes”, partilha.

Desde o início da pandemia que tentou lidar com a situação como uma “residência artística”. Assim como Tamara, o artista conta-nos que procurou usar o tempo livre que tinha para explorar ideias novas, “experimentar técnicas diferentes, mas, acima de tudo, libertar-me das ‘regras’ da linha convencional do meu trabalho como artista, permitindo-me criar com menos pressão e mais espontaneidade”. Este foi o ponto de partida “incrivelmente libertador” que o levou a uma exposição a solo em que está a trabalhar atualmente.

AkaCorleone, fotografia de cortesia da artista

Tendo a “sorte” de conseguir trabalhar regularmente nos últimos meses com galerias, acabou por não recorrer a nenhum apoio: “acredito que estes apoios devem ser atribuídos a quem está com dificuldades reais e imediatas. Eu sinto que a regra devia sempre ser a de ajudar quem mais precisa e quem está mais desprotegido. No caso da Cultura, quem está mais precário, a recibos verdes, quem não tem contrato, quem não recebe um ordenado fixo, quem perdeu o trabalho, quem ficou sem qualquer atividade porque o seu sector ficou paralisado. Este conjunto de situações devia ser a prioridade para a sustentabilidade da cultura”, completa.

SMILE, o artista e pai, viu-se na necessidade de ficar com os seus filhos em casa e, em época de confinamento, o apoio em questão foi solicitado, chegando meses depois e com um valor irrisório.
O artista concorda com as palavras de AkaCorleone quando o mesmo afirma que a “sensação que dá é que os apoios nunca chegam a quem mais precisa, chegam a quem tem a capacidade formal de aceder a estes apoios, chegam às instituições com mais peso, mas não chegam a quem trabalha para elas sem qualquer apoio ou rede de segurança.”

SMILE foi também um dos artistas que, mesmo a partir de casa, conseguiu desenvolver alguns trabalhos e projetos que, se estivesse na rua a pintar e a criar, “talvez” não o conseguisse fazer.

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas, pessoas em pé, calçado e ao ar livre
SMILE1art, fotografia de Bernardo Moreira

Durante os últimos meses, a “suspensão” e a incerteza, principalmente no contexto das artes, mostraram-se decisivas, não só para a estrutura (geral na cultura) como para os próprios artistas. No caso da Arte Urbana, presenciaram-se novas formas de arte pública, não só a nível nacional como internacional. Os três artistas acreditam que tal foi extremamente visível: “acho que qualquer coisa em contexto influencia. A arte reflete os dias de hoje e, a arte urbana, acho que o faz especialmente em contexto. Estamos numa altura em que não é possível ir a museus, galerias, nada … e a única forma, talvez, de chegar até à arte é, por exemplo, fazer um circuito de arte urbana que, se calhar, é das poucas artes que está acessível nos dias de hoje”, explica Tamara.

O artista AkaCorleone afirma ainda que “com estas mudanças dramáticas torna-se necessário pensar noutras formas de intervir. A utilização de ferramentas digitais para aproximar as pessoas da arte, a intervenção artística mais consciente da realidade, do ambiente, dos desafios económicos… eu acredito que estes momentos mais complexos são importantes para redefinir prioridades, para encontrar outras abordagens, acho interessante o desafio de repensar a intervenção no espaço público.”

Num olhar mais pessoal, SMILE reconhece que “pode ser positivo e negativo, no sentido em que há pessoas que não gostam ou não se identificam com a arte urbana. A relação que criamos através da pintura com as pessoas se permitir que o seu dia tenha ficado melhor, mais feliz … isso já é motivo de orgulho”.

A arte urbana como reflexo do estado da Cultura

Sobre as manifestações artísticas nacionais e internacionais, os artistas reconhecem que foi algo direto na consciência e no discurso artístico, mas também indireto no conceito final a nível visual.

No caso de AkaCorleone, a pandemia influenciou dramaticamente o seu trabalho “não só pelas mudanças que originou, como na necessidade de abordar a temática de isolamento, perda de direitos, desconhecimento e preocupação pelo futuro. Acredito que estamos a viver um momento singular da condição humana e que, como artistas, temos a obrigação de ajudar a lidar com todas estas questões, de sermos uma voz construtiva e de criarmos algo que permita registar este período, para poder ser estudado, podendo aprender com estas experiências”, afirma.
De forma geral, consegue observar que esta realidade impactou muitos criativos e artistas, sendo que se interessou pelos registos sobre o tema.”

Tamara acredita também que este reflexo foi visível, ainda que pouco, porque sente que são “poucas as paredes que estão a surgir”, “agora temos o festival Mural18 dedicado a ajudar artistas de arte urbana da área metropolitana de Lisboa e isso é bom. Descentraliza também para o resto e o intuito é ainda apoiar artistas que trabalham na rua ou que estão a surgir na área e isso também é importante”, afirma.

Já SMILE sente que a nível visual isso não aconteceu no seu trabalho, isto porque a sua pintura e filosofia estão voltadas para um “outro universo” que lhe traga felicidade. No entanto, acredita que, dum modo geral, em Portugal, “surgiram algumas coisas nesse campo, mas não sei se fazem a força necessária”, reconhece.

A esta reflexão juntou-se Hugo Cardoso, responsável pela Galeria de Arte Urbana (GAU) do Departamento de Património Cultural da Câmara Municipal de Lisboa e Ricardo Romero, diretor artístico das Riscas Vadias, associação responsável pela realização de diferentes festivais e galerias relacionados com a Arte Urbana, em Leiria.

Sobre a GAU e o Hugo, o seu caminho com o Gerador já se cruzou na última reportagem em que abraçávamos o mesmo tema. Hoje, conta-nos que já estão a ‘montar’ o festival Muro deste ano e uma das grandes dificuldades é a questão da internacionalização de artistas, “há artistas internacionais que pretendíamos trazer cá, este ano. Já nos foi necessário adiar o mesmo – normalmente acontecia em maio – para junho porque suspeitamos que será uma altura em que já se possa andar em espaço público e, agora, esta questão da incerteza de voos e de deslocação está a dificultar a construção da programação, um pouco mais aberta, dentro das temáticas relacionadas com o festival. É, de facto, a maior dificuldade ou desafio em relação há nove meses”, afirma.

Ainda a trabalhar na “neblina” a questão de espaço público, Hugo diz-nos que, no caso do festival, não ficamos colocadas as intervenções, no entanto, ainda existe a possibilidade de “as pessoas não usufruírem das obras se as pessoas não conseguirem deslocar-se para o espaço público para usufruir também das programações paralelas”, completa. 

Ricardo, diretor artístico da associação e artista, conta-nos que a “nível de galeria, a pandemia veio troca-nos as voltas e todo o trabalho que tínhamos feito em 2019 quase que foi anulado em 2020 porque, efetivamente, programar num espaço fechado e numa pós-pandemia, naqueles meses que vivemos, foi muito complicado. Por exemplo, nós em 2019, na galeria, fizemos cerca de sete exposições e entre 2020 e 2021 fizemos duas.”

Em termos de festivais, como Riscas Vadias, a associação realizou três festivais em 2020, tal como no ano anterior. Este ano, programam cerca de quatro,” a organização deste número de festivais tem sido por opção, isto porque atuamos também nesta zona de Leiria. A pandemia, a este nível, não teve tanto impacto, contrariamente à galeria”, completa.
O artista explica ainda que os festivais que fazem não passa por ter muitas pessoas, “nós vamos, essencialmente, para ter contacto com as comunidades e intervir no espaço público, ou seja, nós continuamos a ter esse campo de ação sem haver a necessidade de grandes limitações. Efetivamente, quando os artistas estão na parede, ainda que não seja algo individual, é um trabalho que pode ser feito à mesma”.

No campo temático e nas reflexões dos artistas, visualmente, no que toca ao estado da Cultura, Hugo sente que existiram mais intervenções relacionadas com uma temática ligada às máscaras e a situação pandémica do que com a Cultura: “não houve uma afirmação política relacionada com a Cultura, pelo menos, em termos de obra. O que houve foi a conversa, ou seja, este chamar a atenção. Há muitas estruturas culturais e muitos artistas da arte urbana que não refletiram isso numa obra, mas fizeram-no como artistas e comunidade, desde o papel da Cultura, da arte urbana e até mesmo a reflexão da arte urbana como espaço público e saúde mental das pessoas, ou seja, a importância da arte urbana na saúde mental das pessoas que saem à rua”, explica.

Já Ricardo reflete ainda que “como artista e consumidor, eu acho que se sentiu uma grande vontade de, alguns artistas, trazerem esses temas, quer fosse em forma de agradecimento, crítica ou como uma simples chamada de atenção. Acho que sim, em termos de comunidade, estes mesmos artistas tentaram também dar voz a quem não tem, no entanto, não é uma coisa que me tenha influenciado a mim, como artista ou programador. No caso, não senti muita necessidade de o fazer porque é um trabalho que tenho feito ao longo dos anos mas, existiram artistas que quiseram representar agradecimentos, até mesmo aos profissionais de saúde, e isso é de louvar. É algo completamente válido”.

A oportunidade de ter uma obra de arte “à porta de casa” e a possibilidade de poder pensar aquela questão, naquele momento com aquela obra é a base geral que, quer os artistas quer os diretores, acreditam fazer-se ouvir e sentir mais do que nunca.

A Arte urbana na tela digital

A importância das redes sociais e do digital foi algo que, desde cedo, marcou a Arte Urbana no seu todo. Desde a partilha do local para que o público encontre a obra à sua exposição, acredita-se que este é também um processo essencial à “voz” da arte dos artistas.

AkaCorleone, fotografia de cortesia da artista

No caso de AkaCorleone, o artista defende que, num período em que muitos estavam habituados a trabalhar em formatos que se tornaram incompatíveis com a pandemia, “houve uma necessidade de nos reinventarmos, de nos mantermos ocupados, ativos e relevantes. Estas formas alternativas de canalização da criatividade são não só importantes do ponto de vista de sustentabilidade financeira como de exploração artística, de comunidade, de sobrevivência da cultura, não só para quem cria, mas para quem consome, para quem sente a necessidade de usar os instrumentos culturais como forma de combate à crise social e económica criada pela pandemia”. A esta questão digital juntou-se ainda os meios técnicos utilizados como serigrafias, prints, entre outros.

Tamara revela que, de uma forma, os artistas eram e são multifacetados e que isso foi também uma forma de aliar o seu trabalho a diferentes formas. No entanto, a questão da partilha constante da obra nas redes sociais é algo que considera “mais além”: “a arte urbana vive muito das redes sociais. Não só a arte urbana, mas as redes sociais são uma janela para o mundo. Mesmo assim, eu acredito que há gente que se desloca para ir ver as peças ao vivo e, isso, deixa-me feliz”.

Hugo Cardoso vê também as redes sociais como algo extremamente positivo e aliado à manifestação da arte urbana, “isto é algo positivo porque permite não só chegar a lugares mais remotos como na dinamização e partilha”, afirma.

Portugal: como ‘vive’ a arte urbana atualmente?

A esta questão, direcionada aos artistas, as respostas não estavam na ponta da língua, no entanto, as vozes e letras que nos chegaram foi de um percurso que ainda se encontra em desenvolvimento, de forma dedicada e pronta a explorar o que a arte lhes tem para dar.

AkaCorleone diz-nos que “a arte urbana, de um ponto de vista geral, está num momento de introspeção e de reinvenção necessária para a sua sustentabilidade. Após uma explosão e crescimento global desta corrente criativa, devemos pensar qual é o futuro do meio, de que forma vamos intervir… como artista multidisciplinar em Portugal pergunto-me: quantos mais murais existem para pintar? De que forma podemos intervir no espaço público de forma mais permanente, deixando um legado mais consistente desta corrente artística? Como podemos ser mais conscientes e socialmente ativos na nossa prática? São questões que me intrigam, mas que me motivam a procurar novos caminhos, a encontrar novas formas de dialogar com quem entra em contacto com o meu trabalho.”

Tamara Alves, fotografia de cortesia da artista

Já Tamara reconhece que “tudo tem um ciclo e, depois do boom da arte urbana, é normal que acabe um pouco, no entanto, isso é bom para filtrar, chegarem pessoas novas, para os que já estão a pintar também evoluírem. Eu sinto que está a chegar uma nova fase. Eu espero que os artistas que surjam tenham uma consciência, um conceito, algo a dizer. Espero que isso não se perca, porque a necessidade de estar constantemente a ter as redes sociais atualizadas, a pressão, pode gerar uma necessidade mais automática e robótica.”

Ricardo Romero, o artista, diz-nos que a Arte Urbana, nos últimos anos, passou por coisas muito positivas, no entanto, “nós muitas vezes olhamos para o passado, projetamos o futuro e esquecemos o que está a ser o nosso presente, ou seja, acho que está a acontecer tudo demasiadamente rápido. Nós, artistas, somos também os culpados disso porque, efetivamente, queremos aproveitar e fazer mais e mais. Muitas vezes, não temos essa capacidade de reflexão. Parar e pensar no que estamos a fazer, no presente. É importante não ter muita pressa de querer fazer tudo e perceber também o crescimento que a Arte Urbana tem tido, quer artisticamente quer pela aceitação”.

Quanto a SMILE, “sinceramente, acho que a arte urbana vive muito bem, apesar de, por vezes, as oportunidades recaírem sempre nas mesmas pessoas, mas é necessário estares no lugar certo, à hora certa, com a pessoa certa. Tudo tem o seu porquê. Trabalhar e ir à luta é o essencial”, partilha. 

Sobre os olhares de quem a trabalha, cria, imagina e programa, a “Arte Urbana é pensada em todos, para todos e com a informalidade imensa de tornar a arte em algo nosso, de quem vê e de quem cria”. Palavras que se ouviram na voz de um jovem que passava na esquina entre a Rua de Santa Justa e a Rua do Carmo, ao ver Dois novos Pelicanos, de Bordalo II.

Texto de Patrícia Silva
Fotografias da cortesia dos artistas e via Unsplash

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