Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Marta Guerreiro

Calendário(s)

Eu tenho um calendário que me regula e desregula.  O meu calendário não tem como…

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Eu tenho um calendário que me regula e desregula. 

O meu calendário não tem como unidade o ano nem o mês. Poderia considerá-lo parente próximo do calendário lunar, e assim poderia numerar, aproximadamente, os meus dias dentro de cada ciclo da fase da lua. Mas não é bem assim que ele se organiza. O seu encaixe é muito autónomo e, por vezes, até desregulado, mas mesmo assim considero-o um calendário porque vai seguindo padrões, mesmo que não sejam totalmente mensais. E é um calendário porque não deixa de ser um sistema de contagem de tempo. 

Mas porque não o considero calendário lunar, já que existe quem defenda que um calendário lunar não se encaixa dentro de outros e por isso se vai compensando adicionando meses para se realinhar às estações do ano? E tem tudo a ver comigo, e ainda assim fico na dúvida se não será o meu apenas lunar. 

Assim, de há uns tempos para cá, comecei a anotar algumas acções, sensações e emoções que sinto diariamente, visto que estas me estavam a angustiar por não as entender (e continuo sem as entender totalmente). As minhas anotações estavam sempre ligadas ao meu ciclo menstrual e ao calendário lunar. 

Reflecti em como achei que as minhas mudanças não estavam diretamente ligadas às alterações climáticas, à má gestão do país, do mundo e dos recursos naturais, à pandemia que se vive e até à minha alimentação, decidi centrar a minha reflexão em MIM. E não é que até deu resultado?

Percebi que este meu calendário sofre influências externas, sim, mas as principais parecem-me internas, bem como a sua gestão. 

O meu calendário está intensamente ligado às minhas necessidades e funções orgânicas. Se o colocar lado a lado a outro calendário percebo a real diferença, o meu não tem dias e meses, tem fases. Estas minhas fases que, podem ser denominadas como períodos, seguem-se e em determinados momentos sobrepõem-se, tornando a minha vida um pouco mais complicada. Mas, incrivelmente, quando cada uma dessas fases se afirma e destaca das outras dá-me tanta energia e força que quase consigo ser uma Super Mulher. (Espero que tod@s tenham calendários com fases assim!)

As fases do meu calendário estão sempre a mudar e não sofrem influência com a chegada ou partida das estações do ano, elas conseguem ser dominantes! Fico estupefacta por o meu corpo ter uma vontade muito própria e conseguir sobrepor-se a muita coisa, incluindo as estações. Entenda-se corpo como tudo o que em mim ocupa espaço físico e não só! Por isso, percebi desde logo que o meu calendário não é gregoriano. O meu calendário é o meu, e ainda não tem nome.

É um calendário com tempos muito próprios, que me identifica e personifica. E depois de entender isso fiquei mais tranquila. Agora o meu exercício é outro: estar mais atenta à minha “agenda” e isso auxilia-me muito. Claro que ajudava se fosse um calendário mais pragmático, que tivesse um sistema de anotação próprio, gerasse automaticamente lembretes e notas internas sobre as minhas alterações e necessidades físicas, emotivas e até calóricas e as fizesse chegar a mim a às pessoas mais próximas com alguns dias de antecedência (só para nos irmos preparando). Com essas indicações eu conseguiria criar regras pessoais e sociais que, em certas situações, organizariam os meus comportamentos e me tornariam outra pessoa! Seria mais mecânica e menos espontânea. Não quero!

Agora que já sei que o tenho vou, manualmente, tirando notas, agendado estados e emoções, e como sempre, sem controlo. 

O meu calendário regula-me e desregula-me e já percebi que também o consegue fazer a quem está perto de mim. 

Ahh… Em relação à má gestão governamental em Portugal e no mundo, ainda não consegui fazer grande coisa, mas já agendei no meu calendário.

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

12 Maio 2026

A real decadência europeia

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

7 Abril 2026

Valério e Gonçalo vão à luta

24 Março 2026

Um mergulho na Manosfera

10 Março 2026

Depois vieram os trans

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

10 Fevereiro 2026

Presidenciais e Portugal – algumas notas

27 Janeiro 2026

Museu dos sapatos

13 Janeiro 2026

A Europa no divã

24 Dezembro 2025

Medo de assentar

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Diogo Cândido sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0