Depois de uma estranha sequência de acontecimentos escapei-me do laboratório por uma fenda. Ou por uma porta, não interessa.

Diminuto, indivisível, indestrutível – eu sou um PONTO DE VISTA.

Agora mesmo encosto-me num canto da sala. – Não nesse. Do outro lado. Isso. Aí. Um ponto de vista.

Tenho circulado imenso agora que sou livre.

Estive num mercado asiático e vi um pangolim espremer uma borbulha purulenta para cima de um morcego com uma ferida aberta. Ou terá sido o inverso? Já não sei. De qualquer das maneiras é nojento. Desculpem.

Mudei-me. Passaram a tossir demais ali.

Vesti umas coisas mais leves e frescas. Mais Europa.

Vim até Itália. Eu sou um ponto de vista posso estar onde quiser. Queria ir ao Carnaval.

Programei mal.

Digo-vos: as máscaras dos olhos passaram para a boca e agora são bem mais aborrecidas. Aqui não é para vestir leve e airoso. Aqui agora é para equipar à séria, se é que me entendem.

Instalei-me num canto do Hospital Central. Eu circulo por onde quero até nas alas restritas. Vi tipos com tubos que saiam pela boca e cujos peitos se insuflavam e recolhiam a um ritmo pouco natural. Achei que que não estava certo, aquilo, mas como sou só um ponto de vista e nada posso fazer, mudei-me de novo.

Madrid.

Aqui fazem filas para lhes porem cotonetes no nariz.

Como num drive-in de hambúrgueres. Vão de carro, abrem a janela e zumba! Cotonete no nariz. Esfregam bem e depois guardam num frasquinho que é depois muito bem guardado e etiquetado. Vejam bem. Sei disto porque vi. Sou um ponto de vista.

Resolvi espiar uma casa, sempre tive curiosidade de ver o que se passa nas outras casas. Entrei de mansinho pela janela das traseiras, que era a do quarto. Estava uma mulher a dormir. Confirmei as horas. Quarto da tarde. Está certo. É a sesta.

Avancei para a sala.

Relatório:

2 (dois) miúdos a jogar uma cena com dados

1 (um) adulto sentado no sofá

O adulto apresenta auscultadores a volta do pescoço, comando da televisão na mão e um livro no colo.

Ri-me daquilo.

Vejam bem: os miúdos já não suportam tecnologias. Enjoaram. Agora descobrem com entusiasmo os jogos de mesa. Os adultos, emocionados, assoberbados mesmo, felizes no fundo, por terem finalmente tempo para estar em casa nem sabem bem como aproveitar. Ou por onde começar. Ouvir música ou ver um filme? Ler um livro ou banho de espuma? O que fazer? O que fazeeeer?

Bem… Repetir esta pergunta duas vezes seguidas é entrar em estado de ansiedade. Cuidado.

O que fazer?

Três vezes é o sinal. É ordem para abrir uma garrafa de vinho a fim de acalmar.

O tipo levanta-se e vai à cozinha e volta a cheirar uma rolha. Vejo como tenta ali encontrar os aromas madeirados, frutados, fortes, fracos, doces, casca de árvore, casca de uva. Como não encontra facilmente isto tudo enfia o nariz dentro do copo cheio que também veio da cozinha.

Ah! Maravilhoso. Inala novamente a ver se nada escapou. Ah! Nada escapou. Bebe um trago.

Eu aproximo-me do copo para também cheirar mais de perto. Ninguém dá por mim. Sou um ponto de vista. Deixo-me estar ali por um bocado. O tipo finge que lê enquanto vai bebendo o vinho. Vou dar uma olhadela à estante.

Hum… Ok… Bem… Muito bem… Gosto… Hum… Certo… Oh-Oh.

Nos últimos quinze minutos não voltou a página. Está a pensar. Vejo daqui as ideias a tomar forma, primeiro um ponto brilhante que aumenta e depois há um momento em que o tipo olha para o vazio e faz um leve sorriso (se a ideia for boa) e de seguida, Pufff. Esfuma-se. Nuvem de gás. Ele não a apanha. Deixa-a ir.

Pena. Era boa, do meu ponto de vista.

E do vosso?

Um abraço,
Ponto
19 de Abril Vinte Vinte.

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