"Sociedade de desaprendizagem"

Obra literária de Cláudia Lucas Chéu, originalmente publicada na Revista Gerador 34.

Quando perguntei à mãe das crianças se iam à escola, olhou-me com desdém e iniciou um longo solilóquio: «Ir à escola não tem qualquer finalidade aqui, para nós. Preferimos a arte ao ensino. Não se cria arte para produzir outra coisa, percebe? É só porque sim. Não há um objectivo. É lúdico e é um luxo. Não há um ganho na instrução; por exemplo, ninguém estuda Filosofia porque quer ser muito culto. Isso seria aprisionar um exercício livre. Não se estuda para adquirir competências ou eficácia. É claro que estamos sujeitos à lógica da produtividade, mas temos de ser nós a desenhar os limites. Os limites são a nossa potência, a nossa libertação. Aprender não deveria ser progredir, estabilizar ou acumular conhecimentos; pode muito bem significar voltar atrás, perguntar em vez de responder, suspender as convenções habituais, criar um espaço de recuo.» Depois sentou-se no chão, ao pé da fogueira, e fez um gesto para que me sentasse também. Obedeci. Estava verdadeiramente impressionada. Sem saber o que pensar. A mãe prosseguiu o solilóquio, fazendo aqui e acolá algumas perguntas, mas que não passavam de pura retórica. «Nós, na nossa comunidade, acreditamos que desaprender é abrir o caminho para perguntar, para compreender o que não sabemos. Acreditamos também que este será o modelo social para um futuro próximo – desaprender, desobedecer. E não falo em anarquia, repare. Nem mesmo do ponto de vista biológico. Veja como estas meninas são o exemplo da biologia que não corresponde às ordens naturais vigentes. Uma biologia que desobedece às convenções preestabelecidas. Estas meninas são naturalmente desobedientes.» Enquanto nos despejava com entusiasmo a sabedoria do grupo, as meninas – duas rapariguinhas com cerca de três ou quatro anos, com um aspecto semelhante – faziam uso dos seus fortes dentes de leite alimentando-se de uma maçã enorme, enquanto um rapaz do mesmo tamanho brincava de forna estranha com um prego, espetando-o na terra. As rapariguinhas falavam como se tivessem bastante instrução, com um vocabulário vasto. Perguntei que idade tinham, a mãe respondeu-me treze meses. Não acreditei. Só o rapaz, pelo seu comportamento, parecia corresponder a essa idade. «Nós, adultos, não ensinámos nada às meninas. Acreditamos que o génio está dentro delas, que a linguagem nasceu com as raparigas, intrinsecamente, compreende? Portanto, se já nascem com tudo, atingimos um ponto em que é necessário desaprender.» Não, eu não compreendia. Olhei para a mãe, para o seu companheiro – um homem ossudo e antipático – e para as crianças, profundamente perdida, mas tive o atrevimento de fazer mais uma pergunta. «Porque lhe chama comunidade? Pelo que vejo são uma família.» «O conceito de família está completamente ultrapassado. Acredite que o nosso modelo biológico e social será um dos paradigmas das próximas décadas. O paradigma é não haver paradigma.» Que raio estaria a acontecer? Que espécie de comunidade era aquela? O novo ser humano era uma menina precoce, sobredotada? A nova família era a ausência de família? Senti-me dentro do espírito da sociedade de desaprendizagem, tinha muitas perguntas e nenhuma resposta. A mãe continuou a falar, à luz da lareira que tinha perdido a força do lume. À excepção da luz da fogueira e da lua cheia, num céu desafogado de nuvens e farto em estrelas, não tínhamos mais nenhum ponto de iluminação. Tentei aceder à lanterna do telemóvel, mas a bateria tinha falido. «Nunca uma época foi tão favorável às mulheres. Na infância, os olhos caem-lhes como dentes de leite para darem lugar a outros mais fortes e com mais alcance. E é algo que só acontece às meninas. Os rapazes mantêm os mesmos olhos da nascença até à morte. É algo que já acontece há algum tempo, mas a ciência não quer confirmar e divulgar o facto. Tratam-no como uma bizarria, mas já há demasiados casos para ser considerado uma deformidade. No último ano acompanhámos uma quantidade considerável de casos. As meninas são grandes, precoces e com olhos de figo – é assim que lhes chamam. Os primeiros olhos de leite são verdes, depois amadurecem, escurecem e caem. Como os figos. E durante a noite nascem-lhes novos olhos, grandes e claros.» A lareira estava prestes a extinguir-se. Tive medo e vontade de desaprender o que acabara de ouvir. Não fui capaz. Fiquei calada e não perguntei mais. 

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

Nasceu em Lisboa, em 1978. É escritora, poeta e dramaturga. Escreve contos semanalmente para o Público e colaborou com as revistas Vogue, Elle, NIT, Gerador, entre outras. Tem publicados vários textos para cena, como Poltrona – monólogo para uma mulher. Em prosa poética, publicou o livro Nojo. E em poesia, Trespasse (2014) e Pornographia (2016). Em 2017, foi publicado o seu livro Ratazanas (poesia), pela Selo Demónio Negro, em São Paulo (Brasil). Publicou, em 2018, o seu primeiro romance Aqueles Que Vão Morrer, e Beber Pela Garrafa (poesia). No ano seguinte, lançou ainda A Mulher-Bala e Outros Contos (contos) e Confissão (poesia) em 2020. É fundadora, juntamente com Albano Jerónimo, da companhia TN21.

Compra aqui a tua Revista Gerador 34: