Fui convidado pelo Gerador a escrever uma crónica para cada mês do ano de 2021. Fiquei tão contente que quis logo aceitar, mas antes disso fiz uma curta pesquisa no Google, só para ter a certeza de que sabia o que era uma crónica. Antes de clicar no primeiro resultado da pesquisa, tentei organizar, para mim, uma definição simples: uma crónica é um tipo de texto que pode ser lido em jornais ou revistas, mas que não precisa de ter cariz informativo. Não estava errado, mas percebi que havia muito mais para saber sobre crónicas.

Existe uma definição antiga e uma definição moderna da palavra. Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa de 2008, da Porto Editora, a palavra era usada na antiguidade clássica para definir uma narração de factos históricos segundo a sua ordem temporal. Só mais tarde veio a ser associada a um estilo literário mais ligado ao jornalismo do que ao relato histórico. Na sua definição moderna, a crónica pode ser um texto crítico, um comentário ou uma narração de acontecimentos reais ou imaginários. Caracteriza-se, muitas vezes, pela liberdade criativa que permite ao escritor ou escritora, mas não deixa de ter de respeitar algumas regras, mais ou menos formais, nomeadamente em termos de extensão e densidade. Há quem diga que uma boa crónica não pode ser muito longa, para não cansar o leitor ou a leitora, e que não deve ter raciocínios muito rebuscados ou de difícil compreensão. Que deve evitar a violência informativa das notícias diárias e promover a boa disposição de quem lê, nunca desfazendo a importância das temáticas atuais.

Estava finalmente esclarecido e disse que sim. Só faltava escolher uma fotografia de rosto para aparecer no topo da página e escrever uma pequena biografia, que na verdade é também uma espécie de crónica à moda antiga: factos sobre a minha “História” profissional organizados por ordem cronológica.

Todas as histórias são importantes. Sejam ficcionais ou factuais, é nelas que a memória confia para se fixar no tempo. O teatro é o meu lugar preferido para contar e ouvir histórias. É uma expressão livre, que pode provocar e fazer pensar, mas que não tem de viver apoiada nos factos. Um pouco como escrever crónicas. Ainda assim, há momentos em que os factos precisam de ocupar o espaço da ficção e fortalecer a arte como arma de afirmação histórica e política.

No documentário AmarElo - É tudo pra ontem (Netflix), do artista brasileiro Emicida, o palco do Theatro Municipal de São Paulo transforma-se num lugar onde a verdade pretende ser reestruturada e devolvida a um público que, até então, nunca ali tinha entrado. O cantor e ativista, para além de apresentar em concerto as canções maravilhosas do seu último álbum (AmarElo), decide revisitar os últimos cem anos da cultura negra brasileira. Do samba ao rap, da abolição tardia da escravatura às manifestações do Movimento Negro Unificado, o racismo estrutural do Brasil é confrontado com a entrada histórica de corpos negros numa das mais prestigiadas salas do país. E é neste olhar para o passado que percebemos a necessidade de não deixar morrer as vozes que, naquele mesmo palco ou cercados pela polícia na escadaria do teatro, se insurgiram contra o racismo e a desigualdade social. Somos, assim, convidados a olhar para ontem, um ontem distante, mas não menos decisivo na compreensão do presente.

É triste pensar que, em Portugal, os centros culturais também contribuem para uma insistente romantização do passado colonial. Normaliza-se a não aceitação da cultura negra como parte importante da definição da sociedade portuguesa. Esse ontem de que Emicida fala no seu documentário, que exige uma reflexão abrangente e responsável, continua a ser alvo de interpretações anacrónicas que apenas refletem as vivências e aspirações de um grupo restrito, silenciando todos os outros. Nos dias que correm, é imperativo que se assuma o perigo de uma história única e incompleta. Os palcos nacionais precisam de ser ocupados por factos e ficções que reflitam as vivências e aspirações dos grupos marginalizados, silenciados e ignorados pela sociedade. Histórias como Aurora Negra, de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema, que fizeram tremer em êxtase as fundações do Teatro Nacional D. Maria II, provam o quão urgente e necessária é a presença negra nos maiores edifícios culturais do país. Histórias como a de Emicida que, noutro hemisfério, quis homenagear o passado difícil, mas orgulhoso, da arte negra, plantando a semente de esperança que irá definir o futuro dos seus descendentes. Histórias que aproximam tempos e pessoas. Histórias que precisamos de ver e ouvir, ler e escrever. Histórias que existem há séculos, mas que ainda não conhecemos. Histórias que respeitem a cronologia das lutas que começaram ontem, mas que ainda são importantes de mencionar hoje. Histórias que o Google tem dificuldade em encontrar, mas que se podem contar de várias maneiras, seja em livros, documentários, peças de teatro, ou crónicas.

-Sobre Marco Mendonça-

Marco Mendonça nasceu em Moçambique, em 1995. É licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Estreou-se nos The Lisbon Players. Em 2014, começou a trabalhar com a companhia Os Possessos. Estagiou, entre 2015 e 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, onde participou em espectáculos de Tiago Rodrigues, João Pedro Vaz, Miguel Fragata e Inês Barahona, entre outros. Em 2017, trabalhou numa criação de Tonan Quito e fez o seu primeiro espectáculo com a companhia Mala Voadora.  Em 2019, estreou-se como autor e co-criador em "Parlamento Elefante", projeto vencedor da primeira edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Atualmente, integra o elenco de “Sopro” e “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues.

Texto de Marco Mendonça
Fotografia de Joana Correia
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