É provável que não nos lembremos ao certo da primeira tatuagem que vimos na pele de alguém. Talvez tenha sido um “amor de mãe” no braço do tio que foi soldado na Guerra Colonial, o rosto do filho daquele senhor, que víamos naquele café a que íamos sempre, e que espreitava pela camisola, ou até os três pontos na mão do vizinho, junto ao polegar, que só se tornavam visíveis quando abria a porta do prédio — há uma maré de opções. A preto ou a cores, com ou sem preenchimento, mais ou menos figurativas, as tatuagens acompanham a história de Portugal de uma maneira em sempre evidente.

Se em tempos a tatuagem era associada ao crime  — e o Instituto de Medicina Legal chegou até a fazer um levantamento do tipo de tatuagens na zona de Lisboa que mais tarde resultou na exposição O mais profundo é a pele, com curadoria de Catarina Pombo Nabais —, hoje tatuar o corpo está mais próximo de querer ter uma memória eternizada na pele, com o traço do tatuador que mais sentido fizer relacionar com o conceito. Em comum com o passado e o presente da tatuagem em Portugal estão os elementos que se decide tatuar, entre eles aqueles que logo se associam à portugalidade.

Portugal na Pele: documentar(-nos) através da tatuagem

Alexandre Couto é um desses casos em que o amor à literatura portuguesa (e não só) inevitavelmente se transpôs para um desenho eterno e, quase sem se aperceber, tinha várias tatuagens que de alguma forma se relacionavam com o país. A palavra “Orpheu”, a Cruz de Cristo, a pasta dentrifica Couto ou o Luiz Pacheco à porrada com o Herberto Helder são algumas delas. Com Maria Rita, companheira de projeto e de vida, pensou e lançou Portugal na Pele, um projeto guardado na gaveta durante três ou quatro anos que viu a luz do dia em 2019.

“Só o Alexandre tem umas seis tatuagens relacionadas com Portugal, eu tenho mais uma, e tínhamos tido esta ideia há uns três ou quatro anos. Depois começámos a ver que tínhamos mais amigos que também tinham tatuagens que tinham a ver com Portugal e pensamos que era fixe fazermos este projeto documental, porque de certeza que nos iam começar a aparecer coisas super interessantes”, explica Maria Rita.

A sensibilidade fotográfica de Maria Rita uniu-se ao à vontade e capacidade de escrita de Alex e começaram a documentar o Portugal na Pele que iam encontrando através de uma conta no Instagram. Primeiro através de amigos, depois amigos de amigos, até chegarem a desconhecidos que de alguma forma tropeçam no projeto e querem dar o seu contributo para este levantamento.

Mariana Alemão tatuou a Severa pela admiração pelo fado vadio e o imaginário da Mouraria

Mas este interesse não é puramente visual. Segundo Alexandre, “há uma condicionante geográfica na  percepção” que ambos têm. “Eu sou de Setúbal e a Maria também é da margem sul, que são zonas onde aprendes a conviver com tatuagens diariamente. E a malta acaba por tatuar algo que tenha significado; há muito a ideia de que a tatuagem tem de ter um significado, tem de ser algo simbólico. Parece que uma tatuagem não é tão fixe se for algo aleatório ou sem significado. Esse significado muitas vezes vai pingar para coisas que nem sempre são as mais óbvias, mas que têm esse peso nacional, que nos permite tirar reflexões. E quando falávamos sobre o projeto, no início, pensávamos que era uma compilação ou um arquivo, mas também pode ser analisado no futuro”, explica Alexandre.

É nessa profundidade que surgem questões como os limites da nacionalidade ou dos nacionalismos, do que cabe ou não cabe no projeto. “Eu acho que uma das coisas mais interessantes no Portugal na Pele pode ser mesmo essa subtileza. Algo pode ser inocente ou ter um significado mais patriótico, mais denso”, diz Alexandre. Maria completa a ideia com uma série de questões: “Mas não deixa de ser Portugal. Não deixa de ser a nossa vida. Até que ponto é que nós temos o direito de julgar isso? Se estamos a fazer um projeto documental, à partida não podemos julgar, vamos ter de documentar tudo”.

“Tens duas vertentes aqui. Aquela que se calhar é a nossa, que gostamos tanto de Portugal que o temos na pele, e a de quem gosta ainda mais que nós e leva isso a um nível extremo. Mas Portugal está lá. Ainda não nos chegou nada disso, por isso ainda não tivemos o confronto”, sublinha a fotógrafa.

“Numa vontade contra-corrente, decidi crivar, na minha pele, a palavra “Lusitano” “, explica Luís Graça ao Portugal na Pele

O Instagram como difusor de um trabalho documental

O Portugal na Pele é um projeto que vive na e da vida real, mas habita no Instagram. A opção de Alexandre Couto e Maria Rita deveu-se ao facto de este ser “a rede social que permite chegar a mais pessoas” e “porque este projeto não ia para a frente se fosse só feito pelos amigos”. “Acho que o Instagram é o meio mais fácil de propagar a mensagem, mas a ideia é fazermos um site quando o projeto estiver mais sólido e depois evoluir, quem sabe, para um livro”, conta Maria Rita.

É um facto que o Instagram tem sido, nos últimos tempos, também o meio difusor de novos tatuadores e estúdios de tatuagem. É nesse sentido que Maria e Alexandre vêm nesta rede social não só um meio de difusão do trabalho documental que fazem, mas também a melhor forma de chegar a desconhecidos: “enviam-nos fotografias de tatuagens que já viram, ou o perfil de alguém que conhecem que tem uma tatuagem que se enquadra. Também é por lá que conseguimos ver um estúdio de tatuagem com trabalhos que se relacionem, e contactar diretamente a pessoa”, explica Maria para dar contexto.

Da palavra ao desenho figurativo, Maria e Alexandre já conversaram com pessoas que tatuaram Portugal na pele por diferentes motivos. Fernando Pessoa, Éder, António Variações, Camões e Severa são algumas das personalidades que fazem parte do mural da conta que gerem no Instagram, e que se encontram lado a lado com galos de Barcelos, um corvo, uma traineira e um golfinho a saltar dentro de um carreto. “Eu sei que há uma pessoa que tem a letra da FMI do José Mário Branco e eu adorava chegar lá”, confessa Alexandre.

Cláudia Oliveira cresceu com António Variações a servir de banda sonora à sua vida

A tatuagem como reflexo do tempo em que vivemos

Provavelmente daqui a algum tempo vai ser possível identificar tendências no conteúdo e na forma das tatuagens em Portugal, mas os significados vão sempre variar. Tatuar uma Cruz de Cristo hoje não será o mesmo que tê-la tatuado há 100 anos, ou que tatuá-la daqui a 20; tal como não representará o mesmo para contemporâneos que a decidam tatuar no seu corpo.

Ainda assim, Alexandre acredita que ” o tempo muda mas os símbolos ficam”. “Falar com outras pessoas que tenham a mesma tatuagem também nos ajuda a interpretar o tempo. Não só eu falar do Éder porque há uma tatuagem que foi feita por causa dele, mas eu poder ter a liberdade de ter uma tatuagem com a Cruz da Ordem de Cristo e poder falar sobre ela”, diz o co-fundador do Portugal na Pele.

Sobre o futuro pouco podem dizer, mas quanto ao presente, Alexandre Couto e Maria Rita vão continuar a documentá-lo enquanto puderem, por Portugal fora. Podes ir acompanhando as estórias desta viagem, aqui.

Valdano Carvalho tatuou “nó” para desfazer o nó que tinha na garganta

Hoje às 19h30 o Portugal na Pele junta-se a Catarina Pombo Nabais, investigadora e curadora da exposição O mais profundo é a pele, e João Pinto, autor do livro Guerra na Pele, para uma conversa sobre A Portugalidade nas Tatuagens, na Central Gerador.

Podes recordar a entrevista a Nazaré Pinela que, tal como Portugal na Pele, integra a reportagem “Para sempre não é muito tempo — o corpo como tela da cultura portuguesa” publicada na Revista Gerador 28, aqui.

Texto de Carolina Franco
Camões no braço de Tiago Estevão / Fotografias de Maria Rita

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal, clica aqui.