Esta quinta-feira está de regresso mais uma noite de copos entre ilustradores e gente que gosta de desenhar. O Drink & Draw nasceu em janeiro de 2018 e, após um período de pausa, regressa com a 21.ª edição para mais um ano de rabiscos nos Anjos 70.

Afonso Martins e Frederico Pompeu são os ilustradores responsáveis pelo projeto. Começaram por fazer sessões no Traça, onde tiveram a oportunidade de “materializar esta vontade de convívio à volta do desenho”. Entretanto cresceram e encontraram nos Anjos 70 o espaço para desenvolver conjuntamente novos eventos: “Colaboramos juntos porque temos objetivos semelhantes com este projeto, desde o início. O Afonso apresenta as sessões e trata da parte logística do evento, mas a vertente mais conceptual funciona como outlet criativo para os dois, dado que não existem restrições para o D&D.”

Estas edições mensais, entre conversas e copos, têm guias e exercícios temáticos criados para orientar cada noite:”Entre eles contam-se cães, a Internet em geral, a edição kinky (na última feira erótica do Anjos70), etc.”

Não é preciso saber desenhar. O foco principal do Drink & Draw passa pelo “aspeto criativo do desenho – quando não se sabe desenhar, inventa-se. E aí é que se torna interessante”. Segundo os ilustradores, os exercícios propostos “destinam-se a desbloquear os participantes para que percam o medo de desenhar. Existem exercícios colaborativos e outros mais desafiantes (como desenhar com a mão menos hábil ou de olhos tapados), mas todos têm como fim explorar o imaginário de cada participante, transposto para o desenho, sem olhar a resultados, mas sim ao processo. Aqui o desenho é um meio de expressão e de exploração: no D&D não há bons nem maus desenhos. Gostamos também de ter sempre uma parte musical que de alguma forma interaja com alguns exercícios. As sessões D&D são acima de tudo um momento descontraído e de convívio.”

Ao longo dos meses, algumas noites também têm integrado performances musicais associadas ao tema de cada edição. Recentemente por lá passaram  Nico Paulo, Matheus Paraizo, LEFT e a dupla de DJs Fuinki: “Costumamos ter convidados que tenham algo de próprio e fresco para dar e que se enquadrem com o tema da edição. Quer seja cantado ao vivo com guitarra, DJs, dueto de jazz com saxofone.”

Este ano, o Drink & Draw regressa renovado com novas propostas para a programação do Núcleo Criativo do Regueirão. A possibilidade de estender o projeto a workshops e de criar novas atividades que dêem mais visibilidade aos resultados das sessões são dois novos objetivos: “Nas próximas edições queremos fazer um revamp do formato, introduzindo alguma rotatividade do género de exercícios e dinâmicas que fazemos. Além do D&D, temos também vindo a pensar em várias possibilidades com diferentes formatos – workshops mais complexos e restritos (de teor conceptual ou técnico) estão a ser conversados. Além disso, queremos vir a dar mais visibilidade aos resultados que temos vindo a ter. Todas as edições têm boas surpresas.”

Para a próxima edição, no dia 6 de fevereiro a partir das 19h, Afonso Martins e Frederico Pompeu não revelam o tema para já: “Adiantamos que nesta edição vamos explorar alguns dos nossos “clássicos” para matar saudades, depois deste intervalo que fizemos. O resto é surpresa.” Podem encontrar algumas pistas na divulgação do evento.

A escolha dos materiais é livre e todos podem trazer os seus preferidos (canetas, lápis, pincéis, tintas, papel): “Contudo,  se houver preferências específicas, encorajamos os participantes a trazerem os materiais com que se sentem mais confortáveis.“

Em entrevista aos ilustradores Afonso Martins e Frederico Pompeu, o Gerador procurou perceber melhor a orientação e o estímulo criativo deste projeto que tem contribuído para o desenvolvimento de novos circuitos de ilustração em Lisboa.

G – O que orienta o trabalho que têm vindo a desenvolver ao longo de dois anos de Drink & Draw?

D&D – Sobretudo o desejo de valorizar, a longo prazo, a percepção do que é o trabalho criativo. Não o queremos fazer pondo o artista ou o desenho num pedestal – pelo contrário. Queremos mostrar o desenho como um utensílio: uma ferramenta para pensar. É impossível desenhar sem mostrar mais de nós: o desenho revela não só as nossas diferenças mas também as semelhanças e dá-nos acesso a outras formas de pensar, algo que é imprescindível para levar a vida de uma forma consciente e responsável. Quando gostamos de uma obra, no fundo estamos a gostar daquilo que um artista percepcionou sobre um tema, independentemente da técnica que escolheu.

G – Qual é o principal motivo que vos entusiasma a criação estas edições? 

D&D – O D&D, tal como o organizamos, foi o resultado do desejo mútuo de criar uma iniciativa que agregasse pessoas à volta do tema da ilustração. Talvez ao início julgássemos que este fosse ser um polo que interessasse sobretudo a outros artistas e ilustradores, mas com o passar do tempo (e com a afluência que tem vindo a ter) tornou-se claro que a parte mais recompensadora para nós era ver o resultado da interpretação que cada participante faz dos exercícios que propomos, independentemente do facto de terem um percurso na área ou não. Atualmente, vemos esta como uma oportunidade de introduzir às pessoas o que é o processo criativo, dando a situação e os pretextos para que isso aconteça, sem grandes regras ou restrições.

Este é um evento de entrada livre para sócios dos Anjos 70. As contribuições são livres, sendo utilizadas na compra de materiais necessários para as edições seguintes, “quer para continuarmos a conseguir experimentar formatos, desafios e convidados novos”.

Texto de Mafalda Lalanda
Imagem via Drink & Draw

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