«Investir na primeira infância é como uma vacina para o desenvolvimento humano»
Maria Beatriz Linhares, pesquisadora no Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância da Universidade São Paulo
Tinha eu três anos quando uma educadora, não conseguindo pentear o meu cabelo, na creche, resolveu rapá-lo sem a autorização dos meus pais.
Agora, com 46, dei-me conta de que, sempre que me tocam no cabelo, sinto esse gesto quase como violento e violador da minha privacidade.
O que se passou comigo na primeira infância deixou no meu subconsciente um caminho de pedras que, só há pouco, consegui juntar. A infância – esse tempo de ser uma esponja que absorve amor, quotidiano, experiências do dia a dia e afetos, esse tempo das primeiras descobertas, mas também dos maus-tratos, da violência física e psicológica, da manipulação, da exclusão, do isolamento, do preconceito e do racismo – merece mais cuidado, atenção e reflexão.
Rodearmos as crianças de amor é crucial para que cresçam sentindo segurança para experimentarem, questionarem, tocarem, pesquisarem o mundo e, ao mesmo tempo, estabelecerem elas próprias etapas interiores e exteriores. O amor é fundamental para equilibrar o desenvolvimento ajudando na transmissão de valores e no estabelecimento de graus de confiança.
Darmos às crianças um chão seguro para as suas experiências, mergulhá-las no mundo da fantasia, da transformação, da construção e desconstrução, das perguntas, das cores e das palavras, dos livros, do concreto e do abstrato são ferramentas que lhes darão elasticidade, vocabulário, pensamento crítico, possibilidade de adquirir novos conhecimentos com mais facilidade, abertura ao mundo complexo e aos desafios.
Com uma rotina diária cada vez mais exigente, preenchida e cansativa, muitas famílias negligenciam as atividades ao ar livre, fora de casa, em contato com a natureza e com outras crianças. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, atualmente 350 milhões de pessoas estão diagnosticadas com depressão. Cerca de 1 a 2 % são crianças.
Os estímulos certos constroem relações equilibradas e ajustadas, emocionalmente e fisicamente, ao tempo. José António Pereira da Silva, professor catedrático de Reumatologia na Universidade de Coimbra afirma que «a nossa forma de gerir o stress e as emoções é, em boa medida, resultado dos nossos genes e das nossas experiências de vida, sobretudo dos primeiros anos de vida. Todos nascemos equipados para identificar a ameaça, mas temos de aprender que a segurança, o amor e a empatia também existem. E se algumas pessoas, por infelicidade, não tiveram esse ensinamento, se sofreram ambientes agressivos ou de negligência e abandono, não aprenderam a reconhecer a segurança, e assim se criam as condições para o tal enviesamento» [entrevista à revista Visão, 2023].
A sensação de abandono que bebés e crianças pequeninas experienciam quando passam muito tempo longe da mãe e do pai tornam-nos pessoas vulneráveis pela vida fora. Nas famílias, toda a responsabilidade quotidiana cria permanentes episódios de ansiedade que são sentidos e passados para as crianças. Estas passarão a viver como se o mundo fosse uma ameaça permanente. Não apreciam a vida, tornam-se permeáveis a doenças autoimunes ou dores musculares, por exemplo, causadas pela tensão acumulada.
É preciso, sempre, uma aldeia para educar e dar amor a uma criança. Um ambiente acolhedor, carinhoso, afetuoso, cuidadoso e com interações frequentes que permitam o desenvolvimento de todas as capacidades intelectuais, físicas emocionais, cognitivas e sociais.
É preciso uma Vida Justa e com tempo. E que esse tempo não seja permanentemente perdido nos transportes, em preocupações financeiras, na procura de casas mais baratas ou de um emprego melhor, mais bem pago, menos explorado, na pesquisa diária por preços mais baratos no supermercado; uma Vida Justa que permita que todas as crianças cresçam sem inquietações, com dignidade, cuidados de saúde, acesso à cultura e ao tempo precioso com a família.
Ao meu pai e à minha mãe, agradeço a coragem da indignação e a repulsa pelo ato que me contaram terem dirigido à educadora, não deixando passar em branco uma atitude branqueadora. Agora que comecei a juntar as pedras, é hora de começar a parti-las. Mas quanto tempo depois! E quantas marcas ficam para sempre!
- Sobre Ariana Furtado -
Ariana é Cabo-verdiana, cresceu em Portugal, e é professora do 1.º Ciclo e coordenadora da Escola Básica do Castelo, em Lisboa.
Co-autora de projetos como "Com a mala na mão contra a discriminação" ou "Ge(ne)rando polémica... ou antes pelo contrário". É também tradutora de vários livros infantis.