Para melhor entender o panorama atual no universo das tatuagens em Portugal, a propósito da reportagem “Para sempre (não) é muito tempo - o corpo como tela da cultura portuguesa” publicada na Revista Gerador 28, procurámos ouvir diferentes vozes de uma nova geração responsável pela sua democratização. Um estúdio em Lisboa, uma tatuadora de Cabeceiras de Basto e um húngaro a viver e tatuar em Portugal — ou, por outras palavras, Fiasco, Matilde Salreta e Carlos Breakone - são três das muitas possíveis vozes desta geração que faz por dar a ver a tatuagem com outros olhos.

Partindo das referências da Coleção de Tatuagens do Instituto de Medicina Legal de Lisboa, presentes na exposição O mais profundo é a pele, com curadoria de Catarina Pombo Nabais, percebemos que o ato de tatuar não vem de agora, mas traz desde o início uma necessidade de gravar no corpo um determinado momento. O mesmo acontece num período posterior, com a Guerra Colonial, uma época marcada pelos “amor de mãe”, “saudade”, “Guiné” ou “Devo-te a vida”, recentemente reunidos no livro “Guerra na Pele” de João Cabral Pinto.

Mas se em tempos a tatuagem era associada ao crime ou à guerra, hoje, graças à facilitação ao acesso e à profissionalização do ato de tatuar, a perspetiva é totalmente diferente. A título individual ou em coletivos, os tatuadores dos nossos tempos têm algo a dizer e são cada vez mais vistos como artistas.

Fiasco Studio, Lisboa

Printscreen disponível via @fiasco.lisboa

O Fiasco Studio reúne Cíntia (Espirro), Luana (Lixo.Eletrónico), Catherina, Luis (Tattoos You Will Regret), Enrico e Ana (Ugly Tattoos). A ideia de se unirem num coletivo surgiu pelo “facto de as rendas estarem muito altas” em Lisboa, mas especialmente pela “vontade de interação com os colegas e a troca de conhecimentos”. “Convergir a singularidade de cada um num espaço seguro, comum e inclusivo” é, desde o começo, o seu mote.

Os elementos do estúdio de Lisboa sentem que se vai assistindo a uma mudança na forma como se olha para a tatuagem, “e Portugal não é excepção, principalmente Porto e Lisboa”. Ainda assim, “continuamos a ser minoria”. Com a ajuda das redes sociais, através das quais atuam enquanto coletivo e individualmente, notam que “a tatuagem evoluiu muito” e que a prática se torna “mais inclusiva, menos intimidadora e abrange uma variedade de estilos únicos que cresce de dia para dia”.

Se houve uma altura em que os golfinhos, as tatuagens tribais ou as “lower back-tattoo” eram tendência, hoje não vêem a existência de “uma tendência global”, mas antes “diferentes símbolos que se repetem em diferentes circuitos”. “Na necessidade de definir uma tendência, o experimentalismo, tanto na técnica como no desenho, parece-nos ser o mais indicado”, explicam.

De facto, a democratização do acesso é visível e, para o Fiasco, “basta olhar à nossa volta” para o perceber — “em bares, restaurantes, hospitais, empregados da função pública; ver pessoas com tatuagens passou a ser comum”, expõem. Ainda assim, “embora seja aceite por uma maioria, não quer dizer que o preconceito e a descriminação tenham sido erradicados. Existe uma grande diferença entre ter uma ou duas tatuagens ou estar coberto delas”.

Ser tatuador nos dias que correm é uma profissão viável, garantem. Dos “artistas autodidatas” àqueles que preferem seguir a formação tradicional - onde “um aprendiz, junto de um mestre, se agrega a um estúdio para aprender a prática” -  começam a ser muitos os jovens que vêem futuro na tatuagem.

Quanto aos tatuados, estão cada vez mais informados e têm mais possibilidades de escolher quem querem que eternize um desenho na sua pele, mediante o estilo ou o traço. “Cada vez mais a tatuagem celebra a arte e o colecionismo, ao invés da memória e do significado, prioritizando a escolha do artista à do desenho”, sublinham.

Podes acompanhar o trabalho do Fiasco Studio, aqui.

Matilde Salreta, Cabeceiras de Basto

Printscreen disponível via @matildesalretatattoo

Matilde contraria a tendência de associar a tatuagem aos grandes centros urbanos. Sediada em Cabeceiras de Basto, de onde é natural, começou a interessar-se “de uma forma gradual” pela prática que hoje constitui o seu meio principal de sustento. "Sempre gostei de Arte no geral, e de tudo o que possa ser apreciado dessa forma, mas não posso dizer que o meu sonho de infância fosse tornar-me tatuadora, porque nunca tive a necessidade de me cingir a uma só profissão. Contudo, aconteceu e desde que tatuo e abri o meu próprio estúdio adoro o que faço e não me vejo a abdicar do meu trabalho”, conta.

“Felizmente consigo viver bem apenas do trabalho que realizo no meu estúdio e acho que o facto de me encontrar num meio citadino não me prejudica em nada. Para além das pessoas daqui, ou das vilas vizinhas também costumo ter clientes de cidades mais distantes ou emigrantes que aproveitam as férias para tatuar comigo. Já tive pessoas de longe a deslocarem-se para tatuar propositadamente comigo e isso é muito gratificante”, confessa Matilde.

Ao contrário do preconceito que pudesse existir relativamente aos meios mais pequenos, a tatuadora nota que “em Cabeceiras de Basto a forma como as tatuagens são vistas tem melhorado bastante”. A prova viva são as pessoas que a procuram hoje e que em tempos diziam que nunca se tatuariam. "Sempre existiram vários preconceitos e estigmas nesta área, tanto em meios mais citadinos como nos meios mais rurais, mas desde o momento em que comecei a trabalhar até hoje noto que essas barreiras sociais e certas linhas de pensamento tem vindo a ser quebradas e que hoje em dia a maioria das pessoas já não associam uma tatuagem a algo ‘mau’ ou fora do normal”.

Na hora de tatuar, Matilde tenta ser sempre fiel ao seu trabalho: "Acontece bastantes vezes de quem me procura já ter uma ideia fixa daquilo que quer baseada em algo que viram noutra pessoa; tento sempre arranjar fora de não fugir à ideia do cliente, contudo, sem copiar o trabalho dos outros”. "Já me abordaram da seguinte forma: ‘’Quero fazer uma tatuagem, o que é que está mais na moda?’’. As ‘’modas’’ são passageiras, uma tatuagem é eterna por isso acho que não devia ser vista nesta perspetiva”, enquadra.

Podes acompanhar o trabalho de Matilde Salreta, aqui.

Carlos Breakone, Porto

Se no caso de alguns elementos do Fiasco ou de Matilde Salreta a tatuagem em Portugal e a sua evolução foi sendo acompanhada ao longo das suas vidas, o cenário altera-se com Carlos Breakone. Conhecido pelas suas tatuagens coloridas em grande escala, numa espécie de interpretação contemporânea do cubismo, Carlos, nascido e criado na Hungria, veio para Portugal pela primeira vez em 2009 para estudar na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Nessa altura “ainda estava a cinco anos de pegar pela primeira vez numa máquina de tatuar”.

“Lembro-me que o primeiro pensamento que tive foi que era muito mais comum ver pessoas visivelmente tatuadas, até as mais jovens”, recorda Carlos. “Reparei num forte trabalho tradicional, realismo e trabalho a negro nas pessoas… provavelmente havia muito mais do que isso, mas essas foram as coisas que me captaram o olhar”.

Dez anos depois vê a “cena portuguesa com uma perspetiva de dentro” e consegue notar melhor “a diversidade nos estilos e força”. “Estou certo de que é muito mais aceite ser uma pessoa tatuada, e de que há muito mais lojas de tatuagens e tatuados a trabalhar na cidade desde que este tempo passou”, nota.

O tatuador húngaro sente que, definitivamente, as pessoas procuram ter um pouco de arte no seu corpo quando escolhem ser tatuadas consigo. “Fico muito surpreendido regularmente com os elogios gentis que recebemos de pessoas que vêm à nossa loja especificamente ou apenas acabam por entrar. Torna o dia dourado”, explica.

Se no início lhe apareciam clientes com imagens que tinham encontrado na internet, com o tempo foi ganhando a confiança de quem o procurava e atualmente “90% dos clientes levam um tópico ou ideias base” e deixam o resto do trabalho entregue a si.

Podes acompanhar o trabalho de Carlos Breakone, aqui.

A opinião é consensual: cada vez mais pintar o corpo de alguém, para sempre, se aproxima de um ato artístico no qual o tatuado é a tela. Com estilos estéticos muito diferentes entre si, Fiasco, Matilde Salreta e Carlos Breakone são a prova viva de que o mundo da tatuagem se está a abrir.

Depois de conversarmos com Catarina Pombo Nabais, João Cabral Pinto e Alex Couto sobre a portugalidade presente nas tatuagens - uma conversa de duas horas que ficará apenas na memória de quem passou pela Central Gerador no dia 18 de janeiro - deixamos-te em arquivo três artigos que te permitem conhecer mais a fundo diferentes intervenientes da reportagem “Para sempre não é muito tempo — o corpo como tela da cultura portuguesa” publicada na Revista Gerador 28.  Podes recordar a entrevista a Nazaré Pinela aqui, e o artigo sobre o projeto Portugal na Pele aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Matilde Salreta

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