Quando Rafaela Santos e André Fontes decidiram começar um projeto em Arouca, já havia algo a ligá-los a este lugar. Foi lá que André nasceu e cresceu, e foi também por lá que permitiu que a sua relação com a alimentação, e a reflexão em torno da sustentabilidade, crescesse também. Conheceram-se no Mercado Biológico Humus, quando André estava a vender pão e Rafaela se dirigiu à sua banca para comprar. Hoje, há já um ano, fazem pão e pensam juntos em modos de produção sustentável. O Lume Eco Project é o resultado dessa partilha.

Apesar de ter mantido sempre uma ligação com a sua terra natal, André estudou no Porto e viveu uns tempos por Itália. Rafaela sempre viveu na cidade, mas mudar-se para Arouca foi uma conexão com uma vida que sempre quis ter. “É muito engraçado porque tudo aconteceu quando duas pessoas que, à partida, tinham experiências e contextos diferentes perceberam que eram apaixonadas pelas mesmas coisas”, partilha Rafaela com o Gerador. Rafaela estudou Design de Moda, chegou a apresentar a sua coleção no espaço Bloom do Portugal Fashion e, na verdade, já na altura a sustentabilidade era uma preocupação central na sua vida. Nas mãos das modelos, pães artesanais. As pistas já lá estavam e, quando conheceu André, tudo se alinhou. 

“Tudo começou de forma muito natural e, de certa forma, sem estarmos à espera. Aconteceu muita coisa num curto espaço de tempo. Nós aproximámo-nos, acabámos por começar uma relação e, depois, a partir daí achámos que era importante e que tínhamos gosto em criar algo em que pudéssemos depositar os nossos valores e princípios, ligados ao que nos apaixona tanto, que é o meio natural, a alimentação, a agricultura, e muito daquilo que nós pensamos e muitas das questões que não víamos noutros projetos”, conta André. Começaram com “poucos recursos” e, pouco a pouco, vão conseguindo aumentar o campo em que trabalham. “Com muito trabalho e muita dedicação, como tem sido nestes últimos meses, temos conseguido construir o que temos hoje”, diz o co-criador do Lume Eco Project.

Rafaela e André vendem o que cultivam em cabazes de produtos sazonais

Sobre o que os une, Rafaela fala “na paixão não só pela alimentação, pelo sistema alimentar, pela pedagogia de todo esse aspecto” que “acabou por se fundir e por funcionar como uma integração dos dois meios num projeto que possa funcionar e que possa ser acessível a toda a gente”. “Não há uma linguagem que divida ou que faça inacessível o nosso produto, tanto a nível económico como a nível intelectual, o nosso discurso é para toda a gente. Focamo-nos muito nisso: não vendemos só um produto, temos uma preocupação em ter uma parte pedagógica e de ouvir as pessoas. E sermos mais abertos com os clientes do que normalmente se é nesta área.” 

Além do pão que utiliza cereais regionais cultivados exclusivamente em Portugal, em modo de produção biológico, com farinhas portuguesas, e de utilizarem processos manuais, cultivam alguns produtos que resultam em cabazes que distribuem ao fim de semana nas zonas de Arouca e Porto. Este contacto com os clientes permite-lhes receber feedback direto sobre os produtos, ir melhorando as suas técnicas e também educar informalmente quem desconhece as camadas da sustentabilidade que se relacionam diretamente com as escolhas tomadas no dia a dia. “Queremos criar relações que vão além da vertente comercial”, diz Rafaela, tanto sobre clientes como sobre produtores. 

De momento, têm de conciliar outros trabalhos com o que fazem no Lume; mas isso não é motivo para desânimo. “As coisas vão acontecendo de acordo com as nossas possibilidades. Há várias formas de construir as coisas e a nossa realidade é esta, começámos com pouco e de uma forma experimental, a forma que arranjámos de perceber se seria algo que resultava foi experimentar. Isso implica começar do 0, com muito pouco. E obviamente uma coisa que começa a ser muito experimental, não é sustentável financeiramente”, diz André. 

O pão está no centro do projeto Lume

O que virá no futuro não é certo, mas Rafaela e André estão seguros de que este é o caminho. Sobre a consciência dos consumidores, também não querem adoptar uma postura negativa e pessimista: “acho que o caminho passa por existirem cada vez mais projetos como o nosso e outros que estão a surgir, que possam de alguma forma chegar às pessoas. Que sejam projetos verdadeiros e que no início possam servir de complemento”. “Não têm de ser projetos gigantes, só precisam de ser verdadeiros. E se houver cada vez mais, vamos também conseguir chegar mais rapidamente às pessoas. Para nós, na nossa pequena bolha, deixa-nos já muito felizes perceber que até chegar até nós, algumas pessoas nunca consumiram pão com estas características, isento de pesticidas tóxicos e feito com farinhas e cereais portugueses ,e com a nossa existência, passou a ter à mesa todos os dias esse tipo de produto. Se mais projetos como o nosso passarem a existir, certamente vamos ter cada vez mais pessoas com essa consciência”, acrescenta André. 

Enquanto Rafaela e André estão por Arouca a experimentar outras formas de fazer pão, Aline Domingues trata das suas vinhas e produz vinho biológico na aldeia de Uva. Até há relativamente pouco tempo, Uva era o lugar onde vinha com os pais no verão e nas restantes férias, já que viviam em França. Ainda por França, o interesse pelo vinho surgiu; trabalhou num bar de vinhos “para aprender a servir”, mas sentiu uma lacuna na “parte biológica” e inscreveu-se no mestrado em Processos de Fermentação no Vinho, Queijo e Cerveja, em Dijon. Em 2017, o avô ofereceu-lhe um excedente de vinhas porque queria “ver como fazia” e deu-se nesse momento um primeiro sinal para o que viria a ser uma mudança de vida. 

Com o excedente do avô, fez apenas 100 garrafas de vinho. “Era só uma experiência e não correu muito bem”, conta entre risos. “Habituei-me a vir aqui, conheci alguns jovens e percebi que conseguia ter uma vida social. Comecei a gostar desta vida, das vinhas velhas, as castas, e no final foi assim que decidi ficar”. Pouco depois, criou a Menina D’Uva

Aline mudou-se para Uva para produzir o seu vinho

O vinho que produz, e que faz praticamente sozinha — tendo apenas a ajuda do pai e do namorado em “certas tarefas em que é preciso algum esforço físico” — vende-se em lugares como o Época Café e o Manna, no Porto, e na Mercearia Prado, em Lisboa. Da pequena aldeia de Uva, as garrafas de vinho branco e tinto, onde não existem produtos químicos e sulfitos, viajam para grandes cidades, dando a conhecer de forma indireta a localidade onde os produz. E no produto, tudo remete para esse lado manual — da textura do vinho ao rótulo. 

“Até agora não havia pessoas interessadas por este tipo de vinho, mas acho que está a mudar — sobretudo em Lisboa, no resto do país nem tanto, ainda que no Porto estejam a começar também a ser divulgados em algumas lojas e restaurantes. Também porque em Portugal tens grandes quintas, de há 200 anos, e as pessoas estão habituadas a comprar esse tipo de vinho”, partilha Aline. Mas as coisas começam a mudar. 

Todos os passos no processo de fazer o vinho Menina D'Uva valorizam o que é natural

Rafaela, André e Aline são exemplos de resistência no mundo da alimentação. Mudarem-se para o campo representou uma mudança, também, do estilo de vida, mas não estão sozinhos. É nas pontes que criam que vão fazendo a diferença. 

Durante esta semana convocamos novamente as vozes da reportagem “O que comeres, dir-te-á quem podes ser — estórias de resistência entre o campo e a cidade”, publicada na Revista Gerador 33. Este é o primeiro de três artigos que sairão na quarta-feira e na sexta-feira. Sabe mais aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Lume Eco Project

Se queres ler mais reportagens sobre a cultura em Portugal, clica aqui.