Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Texto de Leitor

“Gooooolooooo!”: símbolo da (des)igualdade sexual

A Carta do Leitor de hoje chega-nos pelas mãos de Leonardo Camargo Ferreira.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Para milhares de milhões de pessoas por todo o mundo o futebol é representativo de festejo, aproximação, união. Uma prática que, pelas suas liturgias, cria um vínculo cultural entre nações através de rivalidades momentâneas ou da lealdade desportiva. E, no final dos campeonatos das mais variadas categorias, existem sempre os choros, a baba e o ranho das equipas perdedoras e a comoção alegre e efusiva dos jogadores que alcançaram o triunfo. O futebol contém, por isso, uma dimensão estética que se alia a uma dimensão comunitária: precisa “de oferecer espectáculo de arrastar e entusiasmar multidões” (Sachi, 2006, p. 46).

Contudo, não nos podemos esquecer que a bola não rola no vazio. Ela circula por entre os limites de um campo que é, também ele, e como afirmaria o sociólogo Pierre Bourdieu, um campo social, onde os jogadores são igualmente atores sociais e indivíduos presentes em lógicas de estruturação de toda a dinâmica do desporto mais conhecido mundialmente. Assim, pelo seu alcance praticamente sem fronteiras enquanto produto da globalização, torna-se imperativo pensar na influência política que os valores disputados entre duas balizas podem ter na configuração das múltiplas sociedades existentes.

De todas as esferas nas quais podemos observar o impacto do futebol nas relações humanas decidi optar pela igualdade sexual. Ou, melhor, pela sua inexistência. No fundo, trata-se de pensar até que ponto nesta atividade física emergem lógicas de distinção que são contraditórias e representam as escolhas de um poder desigual que (ainda) se pretende instituído. O que me motivou para esta reflexão foi uma imagem que um contacto meu partilhou nas raras histórias que vejo dentro da app WhatsApp: 

A conjugação entre futebol e masculinidade tem sido um motor para o reforço de uma identidade de género quase exclusiva. Na construção de género que o futebol representa “a masculinidade, como na ampla maioria das esferas da cultura, ocupa um lugar privilegiado” (Bandeira, & Seffner, 2013, p. 247). Durante muito tempo as mulheres não o puderam praticar e as razões oscilavam entre a desculpabilização biológica (pela suposta ausência de força e resistência por parte daquelas) e, porventura, a extrapolação da esfera privada a que a mulher deveria dedicar as suas energias, dado a exposição a que o futebol e os atletas estão sujeitos. Por outro lado, assumia-se que todos os jogadores eram heterossexuais, fruto da aplicação de uma visão homofóbica do mundo, pois o desvio àquele cânone representaria uma perda na condição masculina e, portanto, por extensão, do direito a uma participação igual num desporto garante do verdadeiro ser homem.

Apesar dos avanços que foram dados, por exemplo, a partir de revelações de vários jogadores da sua homossexualidade, o futebol é, ainda, uma prática do homem heterossexual, alicerçada em aspetos de linguagem (e.g.: o uso do palavrão como vocabulário do “macho”) ou mesmo ligados ao modo como determinadas entidades da comunicação social exploram aprofundadamente a vida pessoal de certos atletas tendo como principal eixo os seus relacionamentos amorosos e a presunção da sexualidade daqueles. E esta heteronormatividade adquire destaque em aspetos tão singelos como a celebração dos golos por parte dos jogadores. Quando a bola entra numa das balizas, a reação mais comum é a do marcador sair a correr pelo relvado e outros colegas de equipa se atirarem para cima dele, o abraçarem e, até, o beijarem, como forma de agradecimento pelo esforço e pela eficácia de colocar a equipa mais perto da vitória. Esses momentos apresentam-nos a beleza da empatia humana; porém, parecem acontecer num vazio circunstancialmente permissivo. Repare-se que estas homoafetividades são possíveis e coletivamente perdoadas nestas alturas ou pela exaltação e a euforia da conjuntura e/ou pela utilidade que os jogadores que pontuaram exibem, como se de objetos de prazer se tratassem. A vida em campo é, assim, desagregada da vida íntima, processo em que a primeira se torna muito mais um ritual prestado aos deuses torcedores e aos organizadores dos campeonatos do que uma legitimadora dos mesmos sentimentos e comportamentos que acontecem no resguardo da privacidade.

Estas dissemelhantes formas de tratamento são um exemplo claro dos paradoxos das sociedades globalizadas que têm como base o conflito entre a defesa dos direitos humanos e a lógica mercantilista das coisas. Como podemos visualizar naquela imagem, a proximidade física e homossexual está sempre presente nos festejos futebolísticos, mas fora das quatro linhas é vista por muitos ainda enquanto, no mínimo, uma anormalidade. Isto não só contribui para a ampliação de desigualdades sociais atentatórias do respeito pela diversidade como também nos diz muito sobre a maneira redutora como a homossexualidade é concebida. Os homoafetos são mais do que a expressão sexual de duas pessoas LGBTQ+, na medida em que todos nós temos momentos de aproximação e de identificação com elementos de pessoas do mesmo sexo. A homoafetividade é, da mesma maneira que a heteroafetividade, uma manifestação natural do ser humano, sendo, antes de tudo, uma demonstração de carinho, de preocupação e de amor. 

Por tudo isto reforço a necessidade de entendermos o futebol como um sistema que, não funcionando na brancura da vacuidade, antes é um símbolo da (des)igualdade sexual, podendo tanto ser um código de violência como um marco de desenvolvimento social. Cabe a cada um de nós aproveitar a visibilidade deste desporto como uma promoção da festa duradoura da democracia e da igualdade.

Se quiseres ver um texto teu publicado no nosso site, basta enviares-nos o teu texto, com um máximo de 4000 caracteres incluindo espaços, para o geral@gerador.eu, juntamente com o nome com que o queres assinar. Sabe mais, aqui.

Texto de Leonardo Camargo Ferreira

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

3 Outubro 2024

Carta do Leitor: A esquizofrenia do Orçamento

12 Setembro 2024

Carta do Leitor: Por filósofos na sala de aula

29 Agosto 2024

Carta do Leitor: GranTurismo de esplanadas

22 Agosto 2024

Carta do Leitor: Prémios, diversidade e (in)visibilidade cultural

1 Agosto 2024

Carta do Leitor: Sintomas de uma imigração mal prevista

18 Julho 2024

Carta do Leitor: Admitir que não existem minorias a partir de um lugar de (semi)privilégio é uma veleidade e uma hipocrisia

11 Julho 2024

Carta do Leitor: Afinar a curiosidade na apressada multidão

3 Julho 2024

Carta do Leitor: Programação do Esquecimento

23 Maio 2024

Carta do Leitor: O que a Europa faz por mim

16 Maio 2024

Carta do Leitor: Hoje o elefante. Amanhã o rato

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Iniciação ao vídeo – filma, corta e edita [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Gestão de livrarias independentes e produção de eventos literários [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Ensino superior: futuro ou espaço de incerteza?

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0