Há uma semana, o Instagram foi conquistado por um duelo em formato stories em que se defrontavam a atriz Diana Nicolau e Chewie, mais conhecido por Chewbacca, que ficou célebre pela sua participação na saga Guerra das Estrelas. A dupla improvável andou pela cidade de Almada em busca da selfie perfeita, dando espaço a que todos votássemos no vencedor de cada batalha acedendo ao perfil @instiesgerador . Passaram por Cacilhas, pela Lisnave, pela Praça da Liberdade, pelo Teatro Municipal Joaquim Benite, pela Casa da Cerca e pelo Cristo Rei num despique renhido, mas sempre animado. Esta aventura culminou no passado dia 8 de fevereiro quando a Gala Insties Gerador chegou ao Fórum Municipal Romeu Correia, também em Almada, com o objetivo de premiar os melhores do Instagram em Portugal.

Foi no início da gala que a apresentadora, Diana Nicolau, chamou Inês de Medeiros, presidente da Câmara Municipal de Almada, ao palco. A presidente não escondeu a sua satisfação e expressou o desejo de ver em Almada “o berço para acolher todos estes movimentos, todos estes espaços”, por ser uma cidade “que reinventa novos caminhos”. E quem melhor para os retratar? “Quem retrata melhor a cidade são vocês (instagrammers), através das vossas fotografias.” Porém, a celebração começara algumas horas antes, mais precisamente quando o relógio marcava as 18 horas, com a inauguração da exposição Instameet Insties Gerador. Façamos scroll down no perfil que coloriu este dia, traçando a sua narrativa cronológica.

18h: Exposição Instameet Insties Gerador, as fotografias que nos levam a descobrir um novo lado de Almada

As portas de vidro abriram-se para revelar uma mostra de fotografia com obras de @filipesj@_jessica_reis@martanferreira@ritacordeiro e @teresacfreitas captadas no dia 16 de novembro no instameet, que levou estes cinco instagrammers a descobrir Almada. O desafio era claro: através do seu olhar curioso e das lentes certeiras, apresentarem um novo lado da cidade.

Ao entrar na galeria, víamo-nos circundados pelas dez obras que resumiam alguns dos momentos desse dia. Por entre geometrias, tonalidades apaziguantes e perfis expeditos, identificamos as instalações da Lisnave, do Teatro Municipal Joaquim Benite e os jardins da Casa da Cerca. Todos estes locais ganham a envolvência das várias vozes guiadas pelo olhar atento dos que visitam a exposição. Por entre os vários rostos, é possível identificar alguns dos autores destas obras, que vão trocando conversa com outros instagrammers e com visitantes.

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@_jessica_reis@teresacfreitas e @martanferreira na exposição Instameet Insties Gerador

Assim, confirma-se o ponto de encontro entre aqueles que costumam privar através de retratos traçados pelo seu olhar espelhado em perfis de Instagram. A exposição poderá ser visitada até dia 21 de fevereiro no Fórum Municipal Romeu Correia.

18h30: Go Chill Talks, as conversas que nos levaram a descobrir o percurso criativo e profissional de três instagrammers

Da galeria, os visitantes são conduzidos até à sala encabeçada por um púlpito e com várias cadeiras de madeira. Seguiu-se o momento em que três instagrammers foram convidados a preparar uma breve apresentação que lhes permitisse partilhar com uma sala cheia o seu percurso criativo e profissional.

O primeiro a apresentar-se foi @o_pinheirojose. Começou por revelar que, ao início, tirava fotografias como qualquer outra pessoa, mas que se começou a aperceber de que não queria continuar a “tirar fotos só por tirar”. Desta forma, começou a ganhar novas preocupações, que vão desde o sítio onde fotografa até à roupa que escolhe usar. Em 2017, começa a integrar o Photoshop no seu trabalho e, aliado ao seu gosto pela ilustração e espírito sonhador, começa a partilhar as imagens que caracterizam o seu estilo. Aliás, identifica como elemento principal das suas fotografias, a inclusão de nuvens, por estabelecerem uma relação direta com o sonho. Porém, frisa que este não é um caminho rápido. Até chegar a este reconhecimento pelo seu trabalho no Instagram, que lhe permitiu desenvolver alguns trabalhos como o cartaz do espetáculo A Reconquista de Olivenza, do encenador Ricardo Neves-Neves, demorou cerca de sete anos. Aponta que um dos aspetos positivos desta experiência é receber mensagens de pessoas de todo o mundo que dizem guardar as suas fotografias. Destaca ainda os amigos e laços criados a partir da sua presença no Instagram e a oportunidade de reconhecimento do seu trabalho.

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@o_pinheirojose na Go Chill Talks

Seguiu-se @clara.nao com uma apresentação repleta de humor e com uma partilha sem pudores. Conta que sempre cresceu com a ideia de que tinha de ser a “menina bem-comportada” e era esse o papel que desempenhava no seu dia a dia, embora houvesse “coisas cá dentro que precisava que saíssem cá para fora”. Foi em Erasmus, em Roterdão, que começou timidamente a pensar que teria de mudar alguma coisa. Decidiu concentrar-se no desenho/ilustração, enquanto ia fazendo outros projetos profissionalmente. Afinal, “uma gaja tem de se sustentar”. Porém, ao passar por um desgosto de amor descobriu um novo alento para desenhar, ocupando-lhe todas as madrugadas. A conclusão foi a de que em pouco tempo tinha preenchido alguns cadernos com desenhos, dando origem a uma fanzine: Post Break-Up Sex Zine. “Desenhar os problemas funciona? Para mim, funcionou”, afirma. No entanto, deixa a ressalva de que não precisa de estar deprimida para criar e que já percebeu que a felicidade a leva a escrever mais, enquanto momentos em que se sente enraivecida a levam a desenhar mais. Em 2018, após muita pesquisa, começa a explorar o lado feminista nas suas publicações, o que a levou a perceber que estava a criar uma possibilidade para as pessoas não se sentirem sozinhas ao verem a sua partilha. Sente que criou uma comunidade de pessoas que confiam nela ao ponto de partilharem experiências consigo. O maior ganho do seu trabalho é mostrar que não somos assim tão esquisitos por sentirmos determinadas coisas e proporcionar um espaço para sermos ouvidos, numa altura em que nota ser uma oportunidade cada vez mais rara.

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@clara.nao na Go Chill Talks

Para fechar as talks, @nicanorgarcia ocupou o púlpito mostrando alguns exemplos de como se pode contar histórias com uma sequência de poucas imagens e recorrendo ao minimalismo. A seu ver, o minimalismo não tem de ser “um elemento num fundo rosa”, mas sim captar algo concreto que prenda a atenção das pessoas. Do gosto pela arquitetura, passou a arquiteto, para depois se aventurar a fotografar o resultado desta arte. Partilha que tenta documentar edifícios como meio de entender aspetos concretos. Para isso, é-lhe importante identificar e captar geometrias que podem resultar em coletâneas temáticas como a apresentação de uma série de fachadas ou até retratar o topo dos edifícios. Afinando o olhar é possível desvendar dicotomias de interior/exterior, assim como explorar opções de dimensão incluindo, por exemplo, a figura humana nas fotografias com um único propósito – o de retratar a escala dos edifícios fotografados.

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@nicanorgarcia na Go Chill Talks

Findas as conversas e cessados os aplausos, os visitantes começaram a descer a rampa que dava acesso ao átrio e que servia de ponto de encontro e pretexto para conversar. Alguns minutos depois, a atenção dirige-se, ao fundo, para o Dr. Bayard Quiztagram, em que nove grupos testaram os seus conhecimentos relativos às galas dos Insties Gerador.

21h: EA em Fermentação, o concerto que testou a química entre o jazz e o hip hop

Anunciados os vencedores do Quiztagram pelo apresentador André Imenso, viu-se o palco mudar de vestes, preparando-se para receber um concerto que testou a química entre o jazz e o hip hop.

Para representar o lado jazzístico, tínhamos o contrabaixista André Rosinha; do hip hopMaria, do coletivo, Monster Jinx. Ainda antes de estrearem um concerto único, a plateia viu-se delimitada por cientistas vestidos a rigor e uma mesa coberta de recipientes de laboratório coloridos com vinho EA. E, quando menos se esperava, vemos nuvens de fumo branco a abandonarem os gobelés! Ouve-se ecoar os primeiros beats de Maria e o arco do contrabaixo não tarda a juntar-se. Enquanto a conversa musical dá os primeiros passos, os cientistas distribuem tubos de ensaio com vinho pelo público. Dá-se o início da fermentação.

 

Num primeiro momento, temos a impressão de que a componente eletrónica nos canta uma história, enquanto o contrabaixo lhe servia de base. Quando a passada rítmica aumenta no electro pads, a dedilhação do contrabaixo é contagiada. As vozes geradas pela componente eletrónica encontram resposta e conforto nas deixas do contrabaixista.

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Maria no concerto EA em fermentação

Rosinha marca o tempo com o bater do pé. Subindo o olhar para as teclas coloridas a laranja, verde e rosa do pad de Maria, ultimamos o olhar no acenar compassado da sua cabeça, em uníssimo com a marcação do primeiro. De repente, Maria condensa o tempo transmitindo a sensação de quem respira fundo. Os músicos entreolham-se esboçando um sorriso.

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Maria e André Rosinha no concerto EA em fermentação

O pad tinge-se de verde, e as vozes permutam. Agora parece ser a eletrónica que assume o chão da música, permitindo o voo da linha melódica do contrabaixo, guiada pelo olhar marcado de Rosinha. Ambos tecem um ambiente musical capaz de nos guiar numa viagem ao nosso âmago em que tomamos contacto com o que nos tem vindo a aflorar o espírito. É por entre reflexões várias que recebemos os estalidos assumidos de um vinil que é posto a girar. Demarcam-se os riffs (conjunto de notas que se repetem numa música, servindo-lhe de base), quer do loop, quer do pad ou do contrabaixo. Os músicos voltam a levar-nos pela mão no percurso proposto. Agora a base tonal fixa-se numa nota entoada pelo contrabaixo. A melodia de “”, uma das músicas que integra o último disco de Rosinha – Árvore – , torna-se protagonista do diálogo. Introduzidos os beats de Maria, a linha melódica desta música vai-se repetindo até ser invadida pelo caminhar dos dedos de Rosinha pelo braço do contrabaixo. A harmonia do casamento entre o jazz e o hip hop fermenta, e a música eterniza-se nos aplausos que a celebram.

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André Rosinha e os cientistas no concerto EA em fermentação

21h30: A gala de entrega dos Prémios Insties Gerador, conduzida pelas histórias da Diana Nicolau e a música da Rita Redshoes e PZ

Findo o concerto, arrumam-se os instrumentos e dirigem-se os passos para o auditório do Fórum Municipal Romeu Correia, que acolheu a gala guiada pela Diana Nicolau. Durante a entrega de prémios houve espaço para que a atriz partilhasse histórias, incluísse momentos humorísticos e até se partilhasse a perícia gímnica de alguns na concretização da famosa roda, que todos tivemos de, pelo menos, tentar fazer nas aulas de educação física. Dois dos momentos fortes da gala foram as intervenções musicais. A primeira a subir a palco foi Rita Redshoes, que se mostrou feliz por voltar aos palcos e prometeu um novo disco ainda este ano. O segundo momento musical ficou a cargo de PZ que, com a sua postura e passos de dança característicos, todos surpreendeu por, após cantar “Deixei de Ser um Tótó”, cantar ainda “Croquetes”.

Depois de uma noite repleta de gargalhadas e aplausos, ficamos a conhecer os vencedores dos Insties Gerador 2020. @eyes.of.rita foi a vencedora da categoria Go Chill Melhor Foto Criativa. @zevitro, o vencedor da categoria Melhor Foto Minimalista. @boleiasdamarta, a vencedora da categoria Melhor Retrato. @alex_cabral02, a vencedora da categoria EA Melhor Foto. @birdcageliving, o vencedor da categoria Melhor Instagrammer. @jc_copas, o vencedor da categoria Melhor Mural. @joselourenco, o vencedor da categoria Dr. Bayard Melhor Arte. @mad.streets, o vencedor da categoria Melhor Conteúdo Nacional e @joanusi, o vencedor da categoria World Academy Instagrammer a Seguir em 2020. Os premiados foram escolhidos pelo júri composto pela Fundação Calouste Gulbenkian, as escolas artísticas Ar.Co e ESAD Caldas da Rainha, o Gerador, a gnration, o Clube de Criativos de Portugal e a Câmara Municipal de Almada. Para além destes, houve ainda menções honrosas. A @controlportugal foi distinguida como Melhor Marca no Instagram, a @bumbanafofinha como Perfil com as Melhores Histórias e a @fundacao_serralves como Melhor Entidade Cultural no Instagram.

A festa não terminou com o fecho da gala, prolongando-se no Musicbox Lisboa com o dj set energético, de Nuno Lopes. Na hora de cada um retornar ao seu lar, é possível que o último pensamento que tenha ocorrido antes de se cair num sono profundo, tenha sido a urgência de “descentralização da cultura” e a promoção da visibilidade dos artistas que têm como tela os perfis de Instagram, tal como alguém referia no seu discurso de agradecimento. Acima de tudo, permanece o ressoar de duas perguntas: O que nos move? E o que ganhamos em apostar em nós?

Texto de Andreia Monteiro
Fotografias de Diana Mendes

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