"Contentores"

Obra literária de Isabela Figueiredo, originalmente publicada na Revista Gerador 35.

Ando ao lixo. Vivo dessa atividade e dá perfeitamente para me manter. As pessoas deitam tudo fora. Tenho muito por onde escolher. Vivo com pouco. Vivo bem. Tenho hábitos frugais. Há quem precise de sinais exteriores de riqueza: casas de luxo, carros, roupas. Eu nunca senti esse apelo. 

Costumo dar a minha volta aos contentores entre as duas e as cinco da manhã, o mais tardar. Não preciso de relógio. Quando se acendem as primeiras luzes nos apartamentos sei que a engrenagem voltou a funcionar. Os empregados aprontam-se para o dia de trabalho. É a minha hora de recolher. Paro, esfrego as mãos uma na outra, aquecendo-as, equilibro o peso pelos sacos cheios de bagatelas e regresso a casa seguido pelos meus cães.

Gosto da noite. A noite lava a vida. No ar limpo da madrugada tudo se sente melhor. Aproveito bem esses momentos. Vejo os funcionários abrirem as portas dos prédios. Escuto-as bater após o efeito retardador do êmbolo, seguindo-se o ruído metálico dos motores dos carros que custam a pegar sob a fina geada. Escuto os passos que ecoam a caminho das paragens, sempre apressados. As pessoas chegam à rua e inspiram fundo o ar gelado que desperta a traqueia e influi no cérebro. Adaptam os corpos à temperatura exterior. Vão acordando à força. 

Ao chegar à porta do prédio com os sacos, olho sempre para o mesmo sítio: a janela da minha vizinha no rés-do-chão, ao meu lado. Procuro o vulto que costuma espiar-me. Lá está ela. Mudou-se para aqui há poucos anos. É uma mulher misteriosa, de quem nada se sabe. Pouco aparece. Nada diz. Nem bom dia nem boa tarde. Pergunta o preço, paga, vai-se embora. Todos falam dela nas costas. Os homens alcunharam-na de matadora, as mulheres acrescentam que tem má raça e, pior, é fressureira. Muito alta. Rosto duro e alheado. Passo largo e rápido, ligeiramente paquidérmico. Não é feia. Tem cara de adolescente. Prende a franja nas têmporas com ganchos. Veste-se como uma freira que não usa hábito. Suscita curiosidade. Percebo o seu vulto na janela, perscrutando-me a alma através da renda das cortinas. Quando saio para as voltas aos caixotes tem as luzes acesas. Pertence aos que não respeitam as horas convencionais. Como eu.

Não entro logo. Fico um bocado em pé no passeio, frente ao prédio, para ela me ver. Ofereço-lhe cinco minutos de espetáculo. Sei que estou a ser visto e não desgosto.

Ela é tão misteriosa para mim, como eu para ela. Também a espreito no café do bairro. Vejo-a em pé ao balcão, bebendo a bica à mesma hora do que eu. Não olha para ninguém. Fixa os olhos nas garrafas de aguardente, licor e uísque expostas nas prateleiras frente ao balcão. São as mesmas há décadas. Parecem ter perdido o teor alcoólico. Servem para segurar cascatas de raspadinhas de várias cores e preços. Quando a máquina de eletrocutar insetos apanha um mosquito e zumbe, ela não se volta. Ninguém se volta. Os homens falam alto. As poucas mulheres procuram as mesas perto da porta. Não é sítio para elas. Costumam sentar-se na pastelaria dos Anjinhos, que se chama assim porque é propriedade de dois irmãos-gémeos que nunca casaram. Ernesto dos Anjos e Francisco dos Anjos. Ali ficam na conversa miúda sobre a vida dos outros.

Ao chegar ao prédio, pouso os sacos no chão e sacudo as mangas do casaco, depois o peitilho. Baixo-me e aperto os atacadores. Esfrego de novo as mãos, longamente. Coço o cachaço e o lombo dos cães. Deixo-me estar agachado, acarinhando-os. Soltam-se nuvens de pelo fino que esvoaça. Ergo-me, encosto-me à parede e fumo um cigarro. O único do dia. Não gosto de fumar, mas aprecio os gestos associados. Acendo o cigarro. Seguro-o entre os dedos. Sorvo o fumo que não engulo. Imagino o meu rosto côncavo nas bochechas. Há gestos que são obras de arte. Fascinam-nos. Encontramos neles uma magia que carrega em botões escondidos no nosso instinto. Qualquer coisa animal. Qualquer coisa de sexo e poder. 

Fumo para me integrar no cenário. Para me tornar invisível. O cigarro camufla. E enquanto fumo permito que a vizinha imagine sobre mim o que quiser. Tudo o que sou é para ela. Ela é um mistério. Eu gosto de mistérios. O que pensará ela de mim? A verdade interessa? O que é a verdade?

Apago o cigarro, entro e fecho a porta. Os cães dirigem-se à tigela de água, no chão da cozinha. Encho uma caneca com café. Deixei-o na garrafa térmica. Sento-me na cozinha no banco de fórmica, com os sacos à volta. Início a seleção criteriosa do material recolhido, separando o que quero para mim do que posso vender na feira. Quando eu era pequeno, o lixo eram vísceras e espinhas misturadas com talos de legumes e caroços de fruta. O lixo de hoje é rejeição. As pessoas deitam fora objetos intactos. Não os querem mais. Procuram novidade. Querem a nova coleção. A vida dos objetos não é longa.

Só recolho objetos que deixam ao redor dos contentores. Não sujo as mãos. Há mais recolectores como eu. Todos buscam algo. Cabos ou peças de eletrodomésticos. Peças de mobília. Latas. Vidro. O lixo é um bom negócio. A matéria-prima foi abandonada, está livre de direitos.

Fascina-me poder aproveitar e reutilizar, como fazia a minha avó. Ela guardava restos de cordel, de fio de metal, de madeira, retalhos de pano que serviriam para algo, mais tarde. Tudo tinha uma utilidade. As coisas sabiam esperar. Um dia seriam necessárias e estavam ali à espera, mesmo que tivessem esperado vinte anos. O tempo não era rápido. Encontro soluções para reaproveitar o que quer que seja. Viciei-me em reabilitação. Vejo nas coisas o que são, mas também o que poderão vir a ser, limpas, viradas do avesso, acrescentadas. Dou à luz. Sou um homem-mãe. Maravilha-me ir falando com as coisas: “não te quiseram, quero-te eu. Vou dar-te um brilhozinho. Não me custa nada.”

Às terças e sábados ponho-me bem cedo a caminho da Feira da Ladra, com uma seleção de livros, discos, CDs, DVDs, caixas de madeira e madrepérola, naperons, malas, bibelots, molduras e velharias. Tudo o que recolher nos caixotes ou me vier parar à mão sobrevive, mantendo a graça, a beleza, a utilidade. Ando com uma chave de parafusos e um alicate para desapertar puxadores antigos em móveis que abandonam antes de serem recolhidos pela camioneta dos monos. Ajoelho-me e recolho preciosidades. Tudo o que seja antigo tem valor. A beleza sobrevive. Há beleza num caco de louça partido com uma flor pintada! Tem serventia. Tem uma história. Tenho clientes fixos que veem nos objetos o mesmo que eu. Compram esses fragmentos de louça a que outros chamam cacos. Guardam-nos em coleções que só eles compreendem. Os herdeiros hão de um dia deitar fora essa beleza. Os meus clientes sabem que será assim. O futuro pertence aos que chamarão lixo aos seus tesouros. Esses que se arranjem com as dores do tempo, como os meus clientes tiveram de se arranjar com as suas. Outros recolectores salvarão os cacos que vendi aos meus clientes, perpetuando o ciclo eterno da beleza. Para bem de todos, desejo-o muito.

Nascida em Lourenço Marques (Moçambique), veio viver para Portugal em 1975. Estudou Línguas e Literaturas Lusófonas, Sociologia das Religiões e Questões de Género. Foi jornalista no Diário de Notícias, tendo-se estreado no já extinto suplemento DN Jovem, em 1983, e é professora de Português. É a autora de Conto É Como Quem Diz, novela que recebeu o primeiro prémio da Mostra Portuguesa de Artes e Ideias, em 1988, de Caderno de Memórias Coloniais (2009) e A Gorda (2016). É possível encontrar outros textos seus no blogue Novo Mundo. As suas principais áreas de interesse são: estratégias de poder, de exclusão/inclusão, colonialismo dos territórios, géneros, corpo, culturas e espécies.

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