Mulher dos sete ofícios, Joana Tadeu, já foi jornalista, consultora de gestão numa Big 4, e bancária. Ainda assim, foi quando ficou desempregada que se apercebeu que a sua verdadeira vocação passaria pela área da sustentabilidade. Hoje em dia, dedica-se ao minimalismo, tem três projetos virtuais, e é mãe da pequena Aurora.

Conhecida pelos seus, cerca de, 16.000 seguidores, no Instagram, @joanaguerratadeu, como ambientalista imperfeita, acredita que é através da imperfeição que melhor consegue transmitir os seus valores de ambientalismo, já que a perfeição não é acessível a todos. Com isto, é apologista da expressão de que menos é mais. “Se nós conseguirmos não deitar comida fora, e comer menos carne, podemos não fazer mais nada, e já estamos a fazer mais que a maior parte das pessoas do planeta”, revela.

Em entrevista ao Gerador, Joana Tadeu refletiu acerca do seu percurso de vida, explicou a aposta no minimalismo, falou acerca da “bonita” relação entre a sustentabilidade e a maternidade, sobre os seus projetos, atuais e futuros, deixando, ainda, algumas dicas por onde pode começar a pegada pela sustentabilidade.

Gerador (G.) – Joana, sei que és formada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Sei também que já foste jornalista, e consultora de gestão numa Big 4 e bancária. Com o tempo, acabaste por te tornar numa das cofundadoras da primeira rede e loja online portuguesa de curadoria sustentável, “A Montra / The Window”. Quando é que começaste a sentir esta necessidade de mudar de vida, e, por consequente, a aposta na sustentabilidade? Sentiste, desde logo, que a mudança foi bem aceite por aqueles que te rodeavam?

Joana Tadeu (J.T) – Não, não houve um momento. Imagina, os meus pais conheceram-se na Assembleia da República, o meu pai era dos comunistas, e a minha mãe dos verdes. E, por exemplo, eu lembro-me que queria comprar roupa de poliéster, da Bershka, e a minha mãe não me deixava comprar. Ou a minha mãe quando via made in Bangladesh dizer-me que tinha de comprar um made in Portugal. E eu ficava do género — que seca estar a ver etiquetas —, eu não entendia o porquê. Era tudo muito irritante para mim… Eu queria era estourar a mesada na Bershka, não queria saber se era ou não poliéster.

E, depois, nós fomos viver para Santarém quando tinha oito/nove anos, e os meus pais tinham uma quinta. A minha mãe fazia compostagem, tínhamos vários animais, e hortas, e tudo isso contribuiu para a minha visão do mundo. Depois, vim para a faculdade de Lisboa estudar, novamente, foi onde nasci, e fui para a FCSH, que tradicionalmente é considerada uma faculdade de esquerda, mas claro que há muita gente de direita lá… Obviamente que isso também há de ter contribuído para a minha visão do mundo. E eu acho que quando fiquei desempregada, e foi aí que fui parar a uma big 4, comecei a pensar que queria experimentar outra coisa. Depois, houve um momento em que pensei em criar a “The Window”, que foi um voltar às origens, e pensar o mundo como realmente penso. Depois, demorei imenso tempo até hoje, porque isto já foi em 2015.

Fotografia disponível via Instagram Joana Tadeu

(G.) – Desta transição, numa fase inicial, quais foram os principais obstáculos que enfrentaste para obter este estilo de vida mais sustentável?

(J.T) – Nada… Eu sempre achei, e continuo a achar, que não faz falta inventar produtos novos para sermos mais ecológicos, e sustentáveis. Eu acho que para sermos mais isto temos de consumir muito menos. E consumir de forma muito mais consciente. Acho que esta ideia de que é preciso criar todo um mercado alternativo está errado. Além de ser pouco democrático, porque estás a criar um mercado alternativo, estás a colocar a sustentabilidade como uma alternativa. E isso quer dizer que ela nunca vai ser massificada e acessível a todos. Portanto, isso nunca foi uma coisa em que eu acreditasse propriamente.

Aliás, eu comecei por defender o minimalismo, e até me definia como a minimalista, antes de me mudar para ambientalista imperfeita. Precisamente porque, para mim, a chave está em consumir muito menos, e produzir muito menos, para exigir menos ao planeta. É tão simples quanto isto. Portanto, não achei que era preciso encontrar alternativas. A maior dificuldade foi os presentes, até porque, entretanto, engravidei, e havia muito familiares a querer dar prendas à criança. E isso é que foi difícil de gerir. Era gerir os hábitos das outras pessoas quando te impactam. Mas, agora, já está tudo habituado. Já me conhecem e sabem o que me agrada ou não. Mas foi desafiante lidar, dois anos, com os presentes de natal, do aniversário, etc. Porém, é uma questão de sermos consistentes, e de sabermos falar com as pessoas, sem sermos injustos, ou mal-educados. Isso não adianta de nada. O importante é conversar sobre as coisas.

Fotografia disponível via Instagram Joana Tadeu

(G.) – Tal como referias, recentemente, sei que foste mãe de uma menina, de nome Aurora. Sabendo todos os gastos que implica a nível ambiental a vinda de um bebé, por exemplo, em roupas, fraldas, produtos, é possível aliar a sustentabilidade à maternidade? Se sim, de que forma?

(J.T) – Consumirmos o mínimo possível e, sempre que consumirmos, sermos o mais consciente o possível. Por exemplo, se o bebé vai usar a roupa 15 dias, que é o que acontece, porque eles crescem a uma velocidade absurda, não vale a pena estar a comprar roupa nova, ou pelo menos não tanta. Podes comprar uma peça especial porque vais ter um casamento, e queres levar a criança toda bla bla bla, e o resto pode ser em segunda mão. Nós usamos fraldas reutilizáveis… Aliás, eu tenho um podcast sobre maternidade e há um episódio em que falo sobre as fraldas, e tem lá as contas de quanto poupamos em fraldas alternadas com descartáveis. E qual foi o impacto das nossas descartáveis sendo que nós usamos umas de bambu, e não de plástico. E podem ver a poupança a nível financeiro e ambiental.

Depois, é muito isto de não encher a criança com coisas novas, porque não há razão. O nosso berço, a cama da Aurora, onde dormiu até aos dois anos, veio para nós em quarta mão, e está pronta para ir embora. Está ótima! É de madeira, super resistente, não há porque a deitar fora.

Quanto aos custos, eu posso dizer que a nossa filha nos custava, enquanto mamou, uns 20 euros por mês, malta! Eu acho que é muito isto… Depois, encontram um problema qualquer e, imagina, precisam de uma bomba de leite, e não têm. Podes alugar, não tens de comprar. Há várias coisas com soluções práticas que podes encontrar. Mas o mais pragmático é, sem dúvida, consumir menos. Eles precisam de muito menos coisas do que imaginas. Basta pensar que quando fui comprar as coisas, para a Aurora, o carrinho foi a única coisa que comprei. O carrinho e o ovo que dava para pôr no carro. Se fosse hoje, nem isso tinha comprado. Tinha comprado em segunda mão. Também se me casasse hoje, não tinha feito um vestido. Tinha usado um vestido que já existisse. Mas nós também vamos aprendendo, e vamos gostando de outras coisas.

Mas quanto ao carrinho, eu lembro-me de estar na loja e de perceber que os bebés não tinham uma cama. Tinham tipo três. Era a alcofa para o carrinho, era a alcofa para dormir, na sala, as sestas, era a cama de grades. Era o next to me para pôr ao lado da cama dos pais. Era a cama dos pais com uns rolinhos, no meio, para o bebé não ser atropelado pelos pais. Vais a contar e são logo cinco camas. Até que, a certa altura, me comecei a questionar se isto faria sequer sentido. Mas mesmo assim a minha filha teve duas camas. A cama de grades, e tinha um berço ao lado, da nossa cama, que foi um amigo que fez. Foi um presente. E, agora, é a caminha dos bonecos da Aurora.

Mas se se questionarem, claro que é possível. É tão possível como é um dever! Isto tudo é absorvido para os nossos filhos.

Fotografia disponível via facebook Joana Tadeu

(G.) – Atualmente, em boa parte, é através do Instagram @joanaguerratadeu que partilhas, com os teus seguidores, o teu dia a dia, bem como algumas dicas sustentáveis. Neste intitulas-te como uma “ambientalista imperfeita”. Podes falar um bocadinho sobre esta descrição?

(J.T) – Primeiro porque há duas coisas que os negacionistas, e as pessoas pouco amigas do movimento ambientalista, gostam de acusar os ambientalistas de serem. Uma é fundamentalista, e outra é moralista. Portanto, eu acho que em termos de marketing convém nós tentarmos, ao máximo, não ser uma coisa, nem outra. E, depois, acho que sermos imperfeitos nos torna melhores ambientalistas. Se tu normalizares o ser quase vegan, ou quase ser plastic free, ou quase não usar descartáveis, é muito mais amigável, para que todos tenhamos uma ideia de ambientalismo, para que todos apoiem a causa.

Se puderes ser imperfeita no trabalho, junto da comunidade, da tua família, dos teus amigos, tu consegues muito mais transmitir os teus valores de ambientalismo do que se transmitires a ideia que ser ambientalista é difícil. E que só funciona se fores perfeito. Então, acho que é por aí. Além de que se fores perfeito não deixas espaço para evoluir, nem para a aprendizagem. E isso é estúpido porque vai sempre haver espaço. Havia coisas que eu dizia, nas minhas primeiras palestras, que não digo agora porque percebo que eram erros, ou imperfeições. Só que na altura não as conhecia. Além de que o perfecionismo não vai ser sustentável a longo prazo. Mas olha, se acham que a perfeição funciona, vejam a série “The Good Place” e conheçam o Dan, é o que tenho a dizer.

Fotografia disponível via Instagram Joana Tadeu

(G.) – Contas já, no Instagram, com quase 16.000 seguidores. Quando é que te começaste a aperceber do impacto que estavas a ter nas redes sociais? Sentes que houve algum post que te tenha posto na ribalta?

(J.T) – Acho que não! Foi muito orgânico… Eu comecei a mexer no Instagram a pensar que ele era um sítio público em que as pessoas podiam ir à procura de informação, em 2016. Não houve um momento do — agora é que vai ser.

Mas houve uma coisa que contribuiu muito para o crescimento do Instagram, a pandemia. E a quarentena, do ano passado, em março, porque comecei a fazer diretos todos os dias, isso fez-me crescer mais depressa. Mas não foi aí que comecei a fazer um Instagram com propósito.

Fotografia disponível via Instagram Joana Tadeu

(G.) – Nele dás ainda destaque a três projetos teus. O podcast “#puericooltura”, “O Chá Das Cinco”, e o “#impactfluence”. Podes explorar um pouco em que consiste cada, e como surgiram?

(J.T) – Olha o podcast “#puericooltura” é um podcast sobre parentalidade.  A ideia surgiu-me quando estava grávida, porque eu só queria ouvir histórias de parto e não havia um sítio onde encontrasse essas histórias. E, então, um ano depois da minha filha nascer, decidi lançar um podcast e entrevistar três mães, para que elas contassem como foi a gravidez, os partos, e os pós-partos. E onde falássemos de tudo. O primeiro episódio é sobre o nascimento da minha filha. E, depois, ao início, intercalava com entrevistas e comigo a falar sozinha, e acabou por trazer o que me perguntaste à pouco. Como se cruza a maternidade com a sustentabilidade. Há um episódio sobre o minimalismo, em que eu explico como podemos ser pais minimalistas, e uma série de temas deste género. Mas, depois, começou-se a transferir mais para as entrevistas. Eu diria, agora, que até é mais um podcast de entrevistas a mães. Basicamente, podemos ouvir mães a falar sem filtros.

Depois, surgiu o Chá das Cinco. Foi do género — como me vou manter sã durante a quarentena? Então, no primeiro dia de quarentena, na primeira semana de março, lancei os diretos diários que eram o chá das cinco, às cinco. E surgiram com a Joana Limão, que foi a primeira convidada. Lembro-me de lhe dizer que precisava de fazer algo, porque já estava farta de estar em casa, e ainda nem a quarentena tinha começado. Começámos a falar as duas, decidimos fazer a primeira live, e chamar-lhe o chá das cinco. Depois, começámos a fazer mais, e já fizemos para aí 90. Entretanto, com o fim da quarentena, era suposto ter acabado, mas como tivemos, logo, esta, depois decidi trazer o chá das cinco de volta. Agora, já não é todos os dias porque isto é tudo muito lindo, mas é cansativo gente. E faz-me respeitar os Baiões, as Fátimas, os Gouchas, as Júlias Pinheiros da vida, porque, malta, isto é exigente.

Depois, o “#impactfluence” surgiu quando parei com o chá das cinco, a primeira vez, porque queria continuar a fazer diretos, mas só uma vez por semana. E queria que fossem, apenas, projetos que tivessem impacto positivo no planeta, ou nas pessoas. E o nome para a rúbrica surgiu em discussão com uma amiga. Depois, eu gosto de inventar nomes como já perceberam… E chegamos ao impacto influência, impactfluence. E, olha, ficou mesmo impactfluence. E é todas as quintas às nove.

Fotografia disponível via Instagram Joana Tadeu

(G.) – Para as pessoas que querem começar, agora, um percurso pela sustentabilidade por onde pode começar a sua pegada?

(J.T) – Comer menos carne! É ciência! A coisa que mais causa efeitos de estufa é o desperdício alimentar, e a segunda coisa é a agropecuária. Portanto, se nós conseguirmos não deitar comida fora, e comer menos carne, podemos não fazer mais nada, e já estamos a fazer mais do que a maior parte das pessoas do planeta.

Fotografia disponível via Instagram Joana Tadeu

(G.) – Desde há muito que se ouve rumores que o minimalismo e a sustentabilidade exigem muita capacidade monetária. Consideras esta afirmação verdadeira?

(J.T) – Acho que são temas elitistas, mas que não são caros. Ou seja, vês pelo meu Instagram, em que milhares de perfis são iguais a mim. Obviamente que isto é elitista, porque estamos a falar de mulheres brancas, com educação superior, de classe média, alta. Portanto, é um movimento elitista nesse sentido, e não tenho dúvidas nenhumas. Aliás, uma das minhas missões, que gostava de conseguir, era conseguir democratizar, não sei bem como, este movimento. E torná-lo realmente diverso e mais justo. Mas não é preciso gastar mais dinheiro. A chave é consumir menos! Agora, há muitas ideias à volta do minimalismo e da sustentabilidade, que implicam investimento. E investimento é uma coisa que quem é pobre não pode fazer. E é uma coisa que os elitistas têm dificuldade em perceber. Imagina, a questão do copo menstrual, que não é caro, mas tu podes não ter esses 20 euros… Mas, se tiveres um euro, tu vais comprar os tampões. Não vais esperar 20 meses até teres dinheiro para comprar o copo menstrual…

 Acho que quando vivemos nesta bolha elitista esquecemo-nos do que é não ter 20 euros. É um investimento gigante. Nós temos de ter consciência disso. O próximo projeto que vou anunciar tem muito que ver com isto, fiquem atentos. Não é um projeto meu, mas é um projeto que fui convidava a pertencer. E espero que ajude a democratizar estas soluções. Não é que seja monetariamente exigente, mas é um mindset diferente, não é massificado, e enquanto não for massificado não é justo.  

Fotografia disponível via Instagram Joana Tadeu

(G.) – Que projetos gostavas, ainda, de alcançar no futuro?

(J.T) – Ai, tanta coisa! Não posso falar muito deles, porque estão mesmo quase a sair. Mas, olha, estou agora a trabalhar num curso com vocês, sobre a cultura e a sustentabilidade, que em princípio sairá na próxima temporada. Eu vejo a cultura como o 4º pilar da sustentabilidade, porque acho que a cultura é uma forma mais democrática de consciencializarmos mais pessoas. Se a cultura estiver acessível a todos é uma forma de conseguirmos chegar a todos. Depois, este projeto, de que falei há pouco, mas do qual não posso dizer mais nada. A intenção é levar aquilo que ainda são alternativas a pessoas que, em princípio, não teriam acesso a elas. Depois, há um projeto que está em andamento, há muito tempo, mas que também não posso falar muito sobre ele. Depois, tenho um projeto cultural, meu, que vai ser desenvolvido ao longo do curso. O meu website também está quase a ser parido, finalmente. O pessoal está todo à espera dele há três anos. Depois, a Minimalista não morreu, e vai ser um projeto que não é só meu. E também está para breve. Depois, tenho uma masterclasse para criar, que em princípio vai ser transmitida dia 20 de março, e também estou a desenvolver uma outra formação sobre comunicação e impacto.

Quero fazer mais! Quero escrever mais crónicas. Quero ir para a televisão. Quero fazer mais projetos culturais e ajudar mais pessoas.

Fotografia disponível via Instagram Joana Tadeu

*O Sobressalto trata-se de um projeto do Gerador, em parceria com a ZERO, que pretende unir a cultura e a sustentabilidade.
Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via Facebook Joana Tadeu

O Sobressalto é o projeto do Gerador e da ZERO que une a cultura e o ambiente, criando ferramentas para a transição verde e promovendo reflexões e debates junto da comunidade cultural. Um dos seus eixos é a criação de conteúdos jornalísticos, como este, dedicados à sustentabilidade nos meios do Gerador. Sabe mais aqui.