Manuela Pedrón Nicolau e Jaime González Cela lançaram uma exposição online intitulada de “La Gran Conspiration”, onde mostramobras artísticas à distância de um clique.

No total são cinco os artistas contemporâneos em exibição: Clara Montoya, Agnés Pe Señala, Marc Vives, Paco Chanivet e Francesc Ruiz. A exposição está disponível através da lagranconspiration.com, a partir de ontem, dia 16 de dezembro.

Em entrevista ao Gerador, Manuela Nicolau, Jaime González, e Marc Vives refletiram sobre o propósito do projeto e sobre o campo das artes visuais.

Gerador (G.) – A “La Gran Conspiration” é uma exposição produzida em contexto digital que reúne obras de artistas contemporâneos criados especificamente para este formato. Como é que surgiu a ideia de criação deste projeto?

Manuela Nicolau (M.) – A ideia base surgiu de nós estarmos a navegar pela Internet, e começámos a apercebermo-nos da existência de muitas propostas online anteriormente reunidas em espaços físicos. Com isto, acabámos por ter esta ideia de passar a exposição para um lugar virtual. E, então, fomos vendo as ideias de exposição que iam surgindo, e o espaço surgiu muito como uma forma de experimentação.

Nasceu muito como uma adaptação face à urgência do online. Ainda assim, acabou por ter a vantagem, ou mesmo uma ideologia de distribuição, em que essa dicotomia do online/offline acaba por não estar tão fechada. É um conjunto de material que se cria desde o analógico para o digital.

Jaime Cela (J.) –  E, também, porque ultimamente dedicámo-nos muito à educação na arte e à mediatização. Inicialmente, falámos com os artistas que pensámos para esta obra, e questionámo-los sobre como fazer obras de arte que funcionassem no contexto online, especialmente criadas para isso. Apeteceu-nos falar com artistas distintos, e cada um respondeu a essa questão

(G.) – Porquê o título “ La Gran Conspiration”?

(J.) –  Há vários motivos… Em primeiro lugar, pareceu-nos que ficava na mente, e em segundo, era um bom título. E isso também tinha um sentido de clickbait em que as pessoas iriam ter a tentação de clicar.

E, também, a conspiração era algo a que estávamos a dar voltas, e pensámos, em curto prazo, nas teorias da conspiração como uma espécie de contracultura de todos os tipos, não especificamente de um grupo social ou político.

E, depois, o sentimento de que vai ser impossível saber tudo porque é tudo tão complexo no mundo, e então essa sensação é quase como uma meta contínua, e isso leva à ideia de que há sempre uma conspiração por detrás. Ainda mais agora num momento em que há tantas conspirações. Pareceu-nos mesmo que existia um clima ideal para este tema.

(G.) –  Que temas vos foram prioritários de incluir nesta exposição? E porquê através da plataforma online?

(M.) –  No princípio, esse planeamento foi mais pelas intuições do que pelas teorias, também mais a pensar nas experiências que iríamos poder dar, e também pensando nas temáticas não como base teórica, mas com base nos artistas que convidámos. Assim, e pensando no trabalho de Marc, não nos interessa muito o trabalho dele enquanto performance, que teria que ver com a forma como pensa a performance, na forma de contacto, do número de pessoas, entre outras.

Ou seja, pensar a obra à distância quase também como uma forma de conspiração, de uma obra distante que tem de ser contada de alguma forma.

(G.) – O projeto conta com a colaboração de cinco artistas contemporâneos: Clara Montoya, Agnés Pe Señala, Marc Vives, Paco Chanivet e Francesc Ruiz. Face ao panorama de artistas nacionais, por que razão estes, em particular, despertaram uma maior atenção em vocês?

(J.) –  A proposta consistiu em pensar com os artistas uma exposição em que a web seria o espaço que combinaria todas essas peças. E, lá está, começamos por fazer essa pergunta aos artistas de como criar obras sem estar numa sala presencial. E que tipo de dinâmicas distintas podiam arranjar os artistas para que as obras funcionassem num contexto online. No caso de Marc, era o que estava mais centrado na performance, no corpo, na voz. No caso de Clara, o seu trabalho é mais centrado na escultura e nas máquinas. E, depois, com o Ruiz que trabalha muito com o cómico, e o cómico expandido. Era outro ramo que nos apetecia ver em contexto digital como Agnés, com um trabalho com a experimentação sonora.

(M.) – O objetivo principal é dar a conhecer estes artistas espanhóis, e não tanto internacionais.

(G.) –  Para as pessoas que anseiam visitar esta exposição, qual a plataforma onde a poderão aceder? Em que dias estará disponível?

(M.) –  Podem visitar através da lagranconspiration.com, a partir do dia 16 de dezembro.

(G.) – A “La Gran Conspiration” tem algum custo associado?

(M) – Não, todas as atividades são totalmente gratuitas! Como são atividades públicas, não faria sentido cobrar.

(G.) – Para a realização do projeto contaram com algum tipo de apoios?

(M.) – Sim, todo o apoio de instituições públicas, e culturais, que dependem do ministério de assuntos exteriores. A “La Gran Conspiration” pertence ao programa Ventana, que promove projetos artísticos online.  

(G.) – No total, são cinco os artistas que vão estar em exibição, tal como referi anteriormente, sendo um dos nomes o de Marc Vives. Marc como encaraste o desafio de participar na exposição da “La Gran Conspiration”?

Marc Vivés (M.V) – Bem! Na realidade, creio que sou especialista em lugares estranhos, nos últimos anos, e este ano ainda mais estranho foi. É o ano da loucura. Digo estranho, mas na realidade, como já deves ter ouvido, é como tudo. Então, estas últimas semanas que já estamos a ver a web, acho que se entende muito bem a composição destes cinco artistas.

(G.) – A obra que nos vais presentear online tem o nome de “Pou”. Qual foi a fonte de inspiração para a criação desta obra?

(M.V) – Eu acho que a inspiração é o próprio trabalho. Eu sei que tens sempre maneiras com que gostas de pegar nos trabalhos e de fazer as coisas à tua maneira, mas tens vezes em que te tens de guiar aos recursos e às regras daquele trabalho.  

Neste sentido, pusemos em marcha uma máquina que ainda agora vai começar.

Claro que também está essa intenção de seguir a trabalhar o que estás a fazer, mas a partir de outro lugar. Esta coisa da Internet, encarei-a como uma espécie de fantasia que funcionou de outra maneira, e que, de repente, serviu para conectar mesmo que não tivesse nada que ver com aquilo que queria fazer inicialmente, mas o nome continuou a ser o mesmo — “Pou”, ou seja, um poço onde pode cair e retirar coisas. Toda esta coisa obscura e clandestina fez-me pensar a Internet como uma plataforma atrativa.

(G.) – No site da exposição lemos este curto resumo quanto ao teu projeto: “Marc Vives remezcla los archivos sonoros que circulan en la Red como antídoto a la saturación visual.” Sentes que a sociedade, cada vez mais, tende a desvalorizar o registo sonoro?

(M.V) – É uma grande pergunta! Sim, até porque nos meus trabalhos, que estou agora a desenvolver, estou-me a tentar afastar, ainda mais, deste ruído visual. O que estou a desenvolver é principalmente trabalho com a voz.

(G.) – Numa entrevista para o blog Fernando Gandasegui referiste o seguinte: “Me gusta lo expositivo porque tengo un oficio, pero me siento como un diseñador de interiores.” Será que poderias explicar melhor esta ideia?

(M.V) – Quando chega a hora de levar os meus trabalhos para a terra há estúdios com estruturas arquitetónicas, até parece que o espaço começa a falar. Neste caso do “Pou”, também é um pouco isso, também são os espaços que falam.

Até pela parte de desenhar o projeto através de um papel, e ver que tudo encaixou na perfeição. Quando chega a hora de o montar, tudo encaixa.

Comecei a meter a voz nos projetos para me arriscar ainda mais.

(G.) – No seguimento referiste, ainda, que “300 euros, 1000 euros, 300 euros, 1000 euros una obra nueva, 1000 euros una performance… Y cuando hablo de 1000 me parece el mejor de los escenarios. Nada es tan sencillo.” Sentes que a área das artes visuais não tem grande creditação por parte da sociedade?

(M.V) – Claramente, em Espanha, o artista visual e muitas das disciplinas de artes estão despreciadas. Eu cheguei a chatear-me em bares por as pessoas não saberem sequer o que é ser artista, as pessoas não entendem. A presença dos artistas e da arte está num lugar muito estranho. Não se respeita. Não se valoriza o trabalho que fazemos.

A sociedade, não digo que não entenda, até porque entende que exige tempo, mas obviamente não temos o respeito para nada. Projetos como estes são mesmo muito excecionais.

(G.) – Clothilde e Samir encontram-se, de momento, a preparar um projeto artístico intitulado “Uma prenda para Marc Vivés”, resposta que se consubstancia num passeio sonoro e visual como elogio à experimentação e liberdade circulando entre o tecnológico e o artesanal. De que forma vês este processo de criação que surge como resposta, ou inspiração, de um trabalho iniciado por ti?

(M.V) – O processo, na realidade, não é nenhum. Eles resgataram esta parte mais visual, mas ainda não sei muito sobre o projeto em si.

(G.) – Quais as expetativas para a exposição online?

(M.) – Por um lado, a ideia é seguir a experimentar para o evento crescer, até aprendermos mais acerca da web. Que o projeto jogue entre o online e o offline, e que propicie até mais diálogo. O que mais gostamos disto é que é uma exposição que pode chegar a muitos sítios.

(J.) – Este projeto é uma espécie de minimuseu. Pode ser interessante até para as pessoas que não têm acesso a arte contemporânea, ou que nunca visitaram uma exposição.

O programa EP COLAB 2020, promovido pela AECID – Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, Embaixada de Espanha em Portugal e o Gerador, é um programa de atividades digitais que pretende colocar em contato artistas e entidades culturais espanholas e portuguesas. Descobre mais aqui.

Texto de Isabel Marques