Este é um artigo ligeiramente diferente do costume. Enquanto que os jornais e televisões se têm ocupado da vinda do Papa a Portugal no contexto da Jornada Mundial da Juventude e muita tinta tem corrido (e bem) sobre o eclipsar da laicidade em Portugal, opto escrever sobre outra coisa. À primeira vista, talvez pareça um artigo mais descafeinado, pouco político. Farei para provar o contrário: aqui estamos, agosto chegou, o azul do mar, o verde das árvores e o amarelo do sol tornam-se predominantes. Muitos escolhem chamar a este mês a silly season, mas talvez seja precipitado: não há nada de silly em descansar à beira-mar entre leituras.
Enquanto me sento a escrever este artigo debato-me com uma indecisão: o que será um livro de verão? Será o livro que mesmo lido no pico do inverno mais rigoroso nos transporta de volta para o calor e o sol? Ou talvez seja o livro, que mesmo se passando nas estepes russas ou nas montanhas de Yorkshire, nos consome de tal modo que só pode ser lido quando não há mais nada na to-do list? (tendo para a segunda hipótese).
Numa obra publicada a título póstumo e intitulada de O Jardim do Éden, Hemingway leva-nos numa viagem pela Côte d’Azur, acompanhando Catherine, David e Marita. É indiscutivelmente um livro de verão com as suas descrições de bronzeados e cabelos loiros do sol e banhos no mar. Talvez seja este livro um ótimo companheiro para a praia, não só pela sua aura veranil e ociosa, mas particularmente porque, de forma praticamente única na obra de Hemingway, nos revela uma personagem mulher que não aceita ser secundária, ocupando todo o espaço da nossa leitura. Quando o li, já há muito tempo, apercebi-me, pela primeira vez, de que não tinha mais vontade de ler livros em que as mulheres não pudessem ser personagens principais.
Ao largo de Nápoles, surge uma pequena ilha chamada Ischia, onde, algures nos anos 1950 do mundo de Elena Ferrante, encontraríamos Lénu e Lila a passar o seu verão. A tetralogia da Amiga Genial, remete-nos para esse mundo da infância, do calor e da azáfama napolitana, das férias e do mar mas, sobretudo, para o mundo da amizade entre duas mulheres. Em 2020, nesse verão da pandemia, comecei o primeiro volume desta história, todos os outros se seguiram rapidamente. Hoje, olhando para esse verão, talvez as memórias mais especiais que guardo dele tenham sido as horas que passei neste universo de Lénu e Lila, em Nápoles, em Ischia ou Milão e, sobretudo, na constatação de que poucas coisas podem ser mais comoventes do que a amizade entre duas mulheres que quiseram ser mais do que lhes estava destinado.
Se não queria mais ler livros em que as mulheres não fossem mais do que uma espécie de cenário humano para os dilemas dos heróis masculinos tão angustiados, comecei a aperceber-me (consideravelmente mais tarde) que queria ler mais mulheres. Não é possível que a definição de “clássico da literatura” pudesse ser só masculina. Por isso, no verão passado, dediquei-me a ler algumas dessas mulheres clássicas da literatura. Jane Austen e a sua incontornável Elizabeth Bennet ou Charlotte Brontё que nos trouxe Jane Eyre. Mas, mais que tudo, o verão de 2022 foi, para mim, aquele em que conheci Catherine Earnshaw, personagem principal de O Monte dos Vendavais, escrito por Emily Brontё. Contrastando com o calor do nosso verão, este livro traz-nos, por entre as adversas paisagens inglesas, uma personagem que recusa as amarras da vida tradicional das mulheres no século XIX e que desafia códigos morais e de conduta vitorianos. Quer na prosa, quer na poesia, as mulheres clássicas existem e vivem até hoje nas linhas de Emily Dickinson ou Sylvia Plath.
Sem ocupar mais parágrafos, deixo algumas sugestões avulsas para tentar fazer alguma justiça à tarefa a que me propus. Deborah Levy, autora inglesa, é a escritora da maravilhosa trilogia Living Autobiography, na qual nos transporta para o mundo frenético de uma mulher que simultaneamente escreve e é posta em causa por um mundo masculino e cria duas filhas. The vanishing half, de Britt Bennett conta-nos a história de duas gémeas afrodescendentes, nos EUA, e das suas vidas separadas pela violência da condição de mulheres negras. Tantos nomes se poderiam aqui adicionar para completar uma biblioteca de verão: Elizabeth Strout, Joan Didion, Margaret Atwood ou Ali Smith.
Aqui ficam, tal como prometido, algumas sugestões para as leituras deste verão (exemplos de uma longa lista impossível de completar). Também as escolhas de livros que fazemos para levar na nossa sacola para a praia são políticas: escolhemos ler mulheres ou contentamo-nos com uma biblioteca masculina? Importamo-nos com livros dos quais estão ausentes personagens com densidade que não sejam homens brancos? Importamo-nos que as histórias de amor sejam sempre heteronormativas? Pouco ou nada escapa à política, as leituras de verão, mesmo entre as ondas do mar, as deslocações de avião ou a calma do campo, também nunca lhe poderão escapar. Posto isto, resta-me desejar: boas leituras!
-Sobre Leonor Rosas-
É doutoranda em Antropologia no ICS onde estuda colonialismo, memória e cidade. É licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Fez um mestrado em Antropologia na mesma faculdade. É deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Marxista e feminista.