"VISTA DESARMADA"

Obra literária de Lígia Soares, originalmente publicada na Revista Gerador 29.

A nódoa cai nas calças enquanto os olhos acompanham a realidade, nada de mal nisso. 

Os olhos vêm as pessoas cá fora do nosso corpo das nossas calças, a viverem aquilo que olhamos sem o mesmo apego que temos à nossa própria vida, às nossas próprias calças. Sem o recurso mental de achar que significamos alguma coisa, ou mesmo, sem sensações. 

Pessoas são realidades com sensações que não sentimos. Apesar de sabermos que podemos interpretá-las, sabemos também que são enganos de um cérebro sem corpo e sabemos que são meras associações e que não teremos de as sentir. E podemos assim vê-las, as pessoas, tão mais bem inseridas nesse lugar em que acontecem só por não sermos nós próprios.

Tão próprios que nunca conseguimos estar totalmente. 

Inseridos. 

Tal como pensamos e falamos, agora, como se não nos pertencêssemos, ou como se fôssemos um plural, como se fôssemos a mesma cabeça.

Como se alguma vez uma cabeça pudesse pensar mais do que os seus próprios pensamentos e pensasse também os pensamentos dos outros. Como se pudesse. Incuti-los. 

Realmente incuti-los até não haver mais distinção entre um e outro. 

Tudo a mesma coisa. 

Tanto lutámos por isso. 

Não foi?

Como se pudéssemos. Como se pudéssemos. 

Como se pela força da vontade a que chamamos medo de sermos diferentes ou estarmos sozinhos, pudéssemos apagar completamente a diversidade, a luta pela incompreensão. Como se pudéssemos ser tudo e todos muito iguais e, por isso, um ser muito simples, muito amiba ou ameba ou lá o que é. 

Tudo muito simples e quem complica vai preso.

Tantas coisas que foi preciso olhar para perceber.

Parece que quando não olhamos não percebemos, mas não é verdade, às vezes o olhar simplesmente cai no outro, assim, como um véu ou um manto que apaga o fogo da solidão. Mas em nenhum momento nos é completamente garantido que compreendemos os outros. 

Olhamos, olhamos e depois deixamos de olhar e começamos a emitir opiniões, como se tivéssemos tornado aquilo sobre o qual queremos opinar uma coisa fixa, estática, imutável. 

É como uma morte. 

Opina-se e mata-se. 

Ou melhor, mata-se para poder opinar. Vivo não dá. Não dá. 

E as coisas vivas ficam ali mudas para não estragarem a opinião de algum sabichão não vá ele matar a sério a vida que ainda sabemos existir. 

Calada. 

Por vezes a luta entre essa rua agitada da realidade e a preguiça interior. Repulsa física. Outras, e cada vez mais comuns, o alastrar da consciência.

Como explicá-la. 

É uma coisa muito chata que nos chega quando olhamos as coisas e ao mesmo tempo pensamos essas mesmas coisas em vez de nos conseguirmos simplesmente entreter. Então as coisas começam a relacionar-se insistentemente como se alguma coisa tivesse alguma coisa a ver com outra coisa e, por muito que tentemos evitar tal processo, ele constitui-se em si mesmo, trepando como tijolos em fiável arame acima, trincando a espinha dorsal como se fosse um pacote de bolachas, vértebra  a vértebra, até se instalar nas nossas cabeças.

Aí sim, tomba cansada.

E nós com ela.

Cansados, pouco entretidos e com uma sensação de entorpecimento. Perfeitamente justificada pela inação. Sensação que antes não sentiríamos e agora, já não conseguimos evitar. 

E então desviamos mais uma vez. 

Queríamos começar sempre por nós, sempre.

Existência em combustão espontânea, sempre a arder de desejo, sempre belo. Fogo contínuo e vermelho de saúde.  

Mas não, somos muitos e todos sabemos que o fogo apaga o fogo. 

Deitamo-nos na areia a tentar um bronzeado mais firme, mais duradouro. 

Tudo isso em comparação com os outros. 

A linguagem fez-se por comparação. Não temos culpa. Sabemos que somos diferentes das árvores porque nos comparámos, e assim queremos ficar. Diferentes por comparação, isto é, mais bronzeados com mais firmeza e por mais tempo. Se não estamos perdidos. 

Teremos de olhar tudo do início, tudo outra vez. Como cientistas. Como aqueles que continuam a abrir hipóteses, a perguntar porquê.

Todos muito infantis se olharmos para eles do ponto de vista sexual e dizem que emocionalmente imaturos também. 

Os cientistas, quem é que quer saber deles? 

Dizem tudo tão explicadinho, tudo com tanta falta de estilo, e depois querem ser ouvidos. Não fora algumas estrelas de Hollywood que se vão dando ao trabalho de os divulgar na internet entre uma ou outra fotografia na carpete...

E elas também olham para nós, e nessa altura queremos sentir que somos vistos porque às vezes sentimos que não. 

Sim, a nossa vida não é só olhar, há pessoas que são feitas para ser olhadas. Pelo menos assim o sentimos. Eu sinto assim quando olho, sinto que não fui feito para ser olhado, mas os outros sim. Todos. 

Ou porque não sabem que estão a ser vistos e diluem-se nos olhos como na vida, ou porque só sabem que estão a ser vistos e retiram a sua vida para a enfiar numa qualquer imagem. 

Para quê continuar a comentar a imagem. Para quê? 

Só existem estas duas possibilidades. A possibilidade 1 e a possibilidade 2. Aquilo que não sabe ser visto e aquilo que só sabe ser visto. 

A vida como um calquito à espera de ser destacado, mas pequeno demais para uma vista desarmada. 

Coreógrafa e dramaturga portuguesa, tem vindo a questionar o espaço cénico como um espaço distanciado em trabalhos apresentados nacional e internacionalmente em programas de teatro e dança contemporânea. As suas peças Romance (2015), Cinderela (2018) e Civilização (2019) estão editadas pela Douda Correria. Cinderela ganhou o prémio Eurodram 2018. Encontra-se atualmente a escrever para o projeto de teatro Professar com o Teatro Meia Volta e Depois à Esquerda Quando Eu Disser.