"Flor e Urso"

Obra literária de Matilde Campilho, originalmente publicada na Revista Gerador 26.

"Tenho andado às voltas com a memória. Temos todos, já se sabe: aos mortais o dom e o terror da reminiscência, aos deuses o dom e o terror das promessas. Isto de andar vivo é memória o tempo todo. Mas nestes dias tenho andado a girar em torno de uma memória muito específica. Não aquela esparsa que, por exemplo, nos acorda de manhã com a imagem de alguém que julgávamos estar morto e que às nove horas está mesmo ali à nossa frente. Com odor e tudo. Não é a lembranças que me refiro, tipo o gosto do manjericão que imediatamente me transporta para a pizzaria espanhola onde um dia fui muito mais que alegre. A memória de que falo, aquela que tem falado comigo a toda a hora, está bem mais relacionada com a palavra “decorar”. O que quero dizer é que agora de repente me acertam versos. Esparsos, sem ligação aparente ao verso que em teoria viria logo depois. Esta tarde por exemplo caiu-me em cima por horas e horas um do Auden. Aquele que sussurra: Time will say nothing but I told you so. Que coisa. Se me esforçar muito eu sei que esse é o primeiro verso de um poema que leva o título de “If I Could Tell You”. E se me esforçar um pouco mais sei que esse poema me agarrou primeiro por outro verso, um bem menos claro e menos ordenante do que o primeiro. Time will say nothing but I told you so é a frase que inicia tudo. O poema tem seis estrofes, de três versos cada um. À exceção da última, que carrega nela um verso extra: o poema acaba em quadra, e o verso que a abre foi o que me entrou pelos cabelos, há muitos anos atrás. Diz: Suppose the lions all get up and go. Eu era jovem, os leões que me circundavam eram jovens também, em todas as garras havia o desejo de arrancar e ir. As garras eram cardos, eram certos cabelos, eram mapas amarfanhados, eram suores noturnos e dias cheios de esplendor. Fui. Segurei-me a um verso que por uns meses me explicou o mundo, pus a mochila nas costas e parti. Para onde me movi eu já não sei, tanto pode ter sido um país tropical como uma cama de lençóis de linho. Tudo por causa de um verso. Mas agora, quase uma década mais tarde, dou por mim enredada num verso paralelo. Antes agarrava-me ao gesto inaugural, agora é um antigo portão que quer por tudo entregar-me a sua chave de marfim. Pelo dom da memória e da memorização, sem nem sequer explicar-me se com isso quer abrir um mundo novo ou fechar um outro antigo. Imagino que as duas possibilidades sejam viáveis, e até sincrónicas. 

Há um outro verso, de um outro poema, que volta e meia me entra pela cozinha ou pela sala. Em dias de sorte salta comigo para dentro de um autocarro, refila comigo com o pica-bilhetes, observa as estrelas a meu lado e sossega qualquer palpitação noturna. É de um poeta um pouco menos famoso do que Auden, mas nem por isso menos lúcido. Delmore Schwartz é o nome dele, e por acaso sei que de vez em quando usava o cabelo um pouco desgrenhado. Mas esse detalhe não importa. Porque para identificação e comunhão entre nós dois- embora meu cabelo nem sempre ande arrumadinho- eu escolho acima de tudo o tal verso. Diz: The heavy bear who goes with me. Zás. O poema é bem maior que esse verso único, mas é nele que eu me acho em tantos dias. O pesado urso que anda comigo. Que caminha comigo. Que come comigo, que chora comigo, que pede por favor comigo, que tropeça comigo, que sobe a edifícios comigo, que trepa corpos comigo, que se arrepende comigo, que respira comigo, que tem medo comigo, que deseja comigo. Que aperta os suspensórios comigo, que viaja comigo, que sente muita saudade comigo, que olha para esta coisa de passado e futuro comigo, e comigo não entende nada. O urso de Delmore é o meu urso. Agora que penso nisso, acho que foi pela pata do urso que cheguei ao verso de Auden: o tempo não te dirá mais nada a não ser eu disse-te. 
Tenho andado às voltas com a memória. Não sei se a culpa é de tantos livros na minha frente ou se é de tantos desejos na minha frente. Não sei se é por esta coisa de quase ter trinta e tantos anos, não sei se é por já ter tido uma pátria e depois outra e ainda outra. Não sei se é por escutar tantas canções. Também pode ser por causa das horas em silêncio. Pode ser responsabilidade da paixão que não vê maneira de sossegar. E do amor que a borrifa também. Pode ser por os últimos dias terem sido sempre um pouco iguais aos anteriores, ou também pode muito bem ser por causa da diferença entre eles. O tempo vai dizer, imagino. E imagino também que, o que quer que seja que diga o tempo, o urso estará pronto a lamber as suas palavras.

 Eu pensei que andava às voltas com a memória mas, agora que penso nisso, vejo que talvez seja a memória que anda às voltas comigo. Sem eu me dar conta ela colocou-me nas cavalitas do urso e, para que nada passasse despercebido, desenhou no chão nove palavras sobre o tempo. Em língua franca, para que tudo fosse claro. E agora eu dou por mim, noite e dia, lambendo o mel dos versos em qualquer lugar. No mel está a saudade. Está o fervor. Está o medo. Está uma vontade irreprimível. Estão as horas vagas, a pedra de sal, o bico do tucano, a cabeça de Gerião. De vez em quando até surge, à luz mansa da tarde, o rosto daquele morto que de manhã eu julgo vivo.  

Um dia alguém me disse que a poesia não faria nada por nós. Que o poder desconcertado da memorização faria menos ainda. Que os dias seriam sempre apenas dias, as noites apenas noites. Que a saudade passaria em três tempos & etc. Esse dia já passou e agora eu dou por mim, aos trinta e tantos anos, só sentada na sala. Aparentemente bastante quieta. Mas há um pesado urso sentado a meu lado, e entre colheradas de mel ele me sussurra um verso de Auden. Fala do tempo e fala de leões. Diz-me que nada do que é triste se repetirá, e que tudo o que é alegre se desdobrará. E eu respondo-lhe, indo buscar alguma memória que nem sabia ter, assim: Meu querido urso, Perhaps the roses really want to grow

E depois, mais uma vez, todos vamos dormir tranquilos: o urso, o tempo, o leão, as rosas, o mel, você, e eu."

É poeta. O seu primeiro livro, Jóquei, saiu em 2014. Vive e trabalha em Lisboa, onde tem um programa de rádio em parceria com Tomás Cunha Ferreira: o Pingue Pongue, na Antena 3.