Imagina que acordas e o dia que tens marcado com entusiasmo antecipado no teu calendário chegou: já está disponível o novo disco do teu músico favorito. Vais a correr para o telemóvel e, através de uma das múltiplas plataformas digitais, acedes ao canal desse mesmo artista e carregas no play. A tua reação às músicas pode ser simplificada num sistema binário: gostas, ou não. Mas o que está por detrás dessas músicas? Quais os agentes, processos e cuidados que tiveram de ser tidos em conta para que essas músicas fossem ao encontro dos mais variados ouvidos? Foi com estas e outras questões que se iniciou a aventura do Gerador pelo MIL, Lisbon International Music Network, o festival e convenção que invadiu o Cais do Sodré entre os dias 27 e 29 de março.

Todos temos uma relação mais ou menos próxima com a música. Uns fazem dela profissão, outros aprenderam a tocar um instrumento em criança, ou sempre tiveram curiosidade em ter aulas de música, ou são ouvintes fiéis, ou simplesmente dançarinos descomprometidos, movidos pelas diferentes batidas, ou cantores de chuveiro. Mas será que todos reconhecemos o valor da música ao ponto de a tomarmos como essencial no nosso dia a dia e identificarmos a necessidade de desenvolver uma política que proteja e ajude os artistas e intervenientes da indústria musical?

Na sua maioria, quando as pessoas ouvem uma música, desconhecem 99 % do processo que envolve fazê-la chegar até ao público. Tudo acontece nos bastidores da indústria musical e as pessoas não podem valorizar aquilo que não veem ou desconhecem. Por isso, e sendo o Gerador um ouvinte atento, partimos na aventura de, durante estes três dias, tentar desconstruir a indústria musical e descobrir algumas das pessoas e processos envolvidos no lançamento de uma música, ou disco.

MIL, o festival e convenção dedicado a pôr a música portuguesa na rota dos eventos internacionais

Cerca de duas semanas antes do arranque do MIL, fomos até ao seu escritório para falar com o Gonçalo Riscado, da CTL, que assume o cargo de diretor deste festival. Começamos a conversa com a complexa missiva de definir o MIL num parágrafo. “O MIL é um festival e convenção e tem como principal objetivo facilitar, impulsionar a internacionalização da música portuguesa, ou feita num país de língua portuguesa. É um ponto de encontro de profissionais e também um espaço de formação. O segundo objetivo é proporcionar formação aos profissionais na área da música, e não só, alargando a oferta que temos em keynotes, masterclasses e workshops.” Com a ressalva de que o foco destes três dias é a música, Gonçalo reforça que procuram abordar temas que interessam a todas as áreas da cultura.

Chegada ao MIL no Palacete dos Marqueses do Pombal, onde decorreu a convenção de 27 a 29 de março

“Paralelamente há uma preocupação muito grande em ter um festival de música para a cidade de Lisboa, dirigido a um público alargado que quer descobrir coisas novas. O MIL não é totalmente aberto em termos de tipo de música. Trabalhamos muito a música nova, emergente, num aspeto mais alternativo e que foge um bocadinho àquilo que está padronizado no comercial e que é recente. Portanto, é um festival de descoberta, no qual são muitos os artistas e as propostas, a grande maioria desconhecidos do público em geral, e isso não deve ser encarado como algo negativo, mas visto como uma coisa muito positiva, representando um desafio à descoberta de coisas novas que estão a acontecer”, colmata. Estes concertos destinavam-se a quem gosta de música e se sentisse disponível para descobrir coisas novas, mas também para os profissionais ouvirem e, durante estes três dias, poderem fazer negócios.

A música, para além de ser um conteúdo artístico, tem também de ser olhada como um produto cultural em que, por isso mesmo, importa ser encarada enquanto negócio. “A indústria da música é um negócio gigantesco. Envolve milhares de milhões de pessoas no mundo inteiro e nisso acho que não há que ter nenhum problema. Nós que gostamos da liberdade de criação não podemos ser contra o facto de ser um negócio e poder ser sustentável para uma cadeia enorme de pessoas.”

Nesse sentido, o envolvimento político é crucial. “A questão da internacionalização da música, a questão da música popular, seja ela antiga ou moderna, sempre esteve um bocadinho fora do radar do investimento na cultura. Não era considerada alta cultura, portanto era desprezada, de alguma forma. Acho que, hoje em dia, se caminha para já não ser assim, e há muitos países em que já não é assim há muitos anos.” Por isso, Gonçalo vê como pontos essenciais para fomentar a indústria musical em Portugal a formação de profissionais e as redes dentro do nosso país de circulação.

Neste último ponto, Gonçalo destaca a importância de valorizar os clubes de música e os espaços de música ao vivo que são as pequenas salas onde os artistas podem tocar, circular, treinar, aparecer e ter contacto com o público. Acrescenta ainda que “a música não deve ser uma ferramenta que as câmaras municipais usam para oferecerem coisas gratuitas à população. Isso é muito complicado, porque sempre que por essas cidades fora se fazem os festivais de acesso livre e gratuito para toda a gente ir a qualquer momento e a qualquer hora, estamos a dificultar muito aquilo que são circuitos profissionais de indústrias de música. Quando as pessoas estão habituadas a não ter de pagar para ir ouvir música ou ver um concerto, depois torna-se difícil no dia a dia, na tal circulação regular das pequenas salas, elas existirem e isso é um erro. A meu ver, não só tem de existir a preocupação política para haver mais oportunidades de formação, de apoio à criação, mas também perceber que há um espaço para a intervenção pública a nível de animação das cidades e há outro espaço para o espetáculo e a circulação de artistas que deve ser respeitado. Isso não acontece e é um problema.”

No Palacete dos Marqueses de Pombal, aquando da convenção

A nível temático da convenção, a importância destas salas é um dos tópicos abordados. A ele juntam-se o papel das editoras, num período em que o circuito de venda e da produção física se alterou, a importância das playlists e de como hoje se consome música e se a faz chegar às pessoas, a importância do merchandising como uma extensão da banda e do contacto com o público, a importância de disseminar a imagem de uma banda, dicas e estratégias para gestores de carreira, entre outros.

Houve, ainda, outro tema que se destacou – a lusofonia. Gonçalo partilha que a forma como o som português tem sido ouvido lá fora é muito positiva e que somos vistos como um país criativo, com um som específico e como fazendo muito boa música. “Daí também ser interessante juntarmos os países de língua portuguesa, porque acho que há uma contaminação do que é a experiência e da parte da música produzida, mesmo a música tradicional, como nós vamos descobrindo e misturando. Acho que é muito bem aceite.”

Foi o tema “Lusofonia: Uma língua que pouco ou nada colabora” que juntou Selma Uamusse, Kalaf Epalanga, Fabiana Batistela e Wilson Vilares numa conversa durante a convenção do MIL. Uma das perguntas que surge, desde logo, é: que comunidade é essa que enche as salas e não a vemos? Pairando a ideia de que existe um mundo que pouca gente conhece, é deixada a garantia de que os artistas de países de língua portuguesa encontram espaço nas editoras estrangeiras e viajam por muitos países com o seu trabalho, mas continuam a encontrar resistência em Portugal para serem falados.

Selma Uamusse, Fabiana Batistela, Kalaf Epalanga, Luís Oliveira e Wilson Vilares (da esquerda para a direita), na conversa “Lusofonia: Uma língua que pouco ou nada colabora”

Selma realça a importância de cada artista se assumir de acordo com o seu país natal, garantindo querer que gostem dela como artista e não por ser africana, pois não é apenas mulher, africana ou uma pessoa com uma mensagem de intervenção. Kalaf pega nesta ideia e acrescenta que a língua não pertence a ninguém, pois as questões políticas e geográficas já passaram. “A ideia do português com sotaque, ou do mau português oprime, e é uma das razões para a nossa troca ser tão debilitada.” É Wilson quem remata esta ideia, defendendo que “a qualidade dos músicos está lá, assim como os números das vendas. Está na hora de perguntar porque é que ainda estamos aqui, porque é que ainda temos de investir para ir a Angola mostrar a nossa música, ou porque temos de lutar por um cachet de 50 euros. O debate está errado. A língua não está errada, mas sim as mentes que a controlam. Tem de haver mais pessoas a escrever, a cantar na televisão. A música africana não tem de estar só nos festivais na margem sul, tem de estar no centro.”

Kalaf aproveita ainda para refletir sobre a antiguidade presente nos média e a preocupação em ver pessoas, parte integrante da tomada de decisões, que não têm consciência da cultura contemporânea. Refere ainda a falta de sangue novo nos média e de uma visão que demora a reciclar, dando o exemplo das suas idas à Antena 3, em que continua a ver as mesmas pessoas. “Isto é grave porque quando procuro apoios preciso de pessoas que entendam essas linguagens, que a pessoa que está a receber não torça o nariz. As coisas estão a envelhecer, e todos somos culpados disso. Não sei se é uma questão de investir na educação, ou mudar as coisas nas nossas casas, no nosso dia a dia. Pensar a cultura nos nossos quatro países de afinidade começa por aí, o que conseguimos operar no imediato.”

Na conversa “Lusofonia: Uma língua que pouco ou nada colabora”

É por entre temas variados e que evidenciam a música enquanto produto cultural, que envolve milhares de pessoas, que o mote para levantarmos o véu dos agentes envolvidos na indústria musical se levanta. À pergunta de quem são estas pessoas por detrás dos artistas que tanto acarinhamos e que tornam possível a sua música chegar até nós, Gonçalo diz, desde logo, que é capaz de se estar a esquecer de alguma coisa, pois não só é um negócio que envolve muitas pessoas, como é uma área com muitas especializações e em que existe a contaminação de áreas que, à partida, poderiam estar separadas. “Provavelmente, antigamente a edição era só a edição, hoje em dia editar é distribuir, é vender espetáculos, e ao longo dos tempos e das décadas esta ideia do formato da música, como ela circula, vai-se alterando e vai mexendo com uma série de coisas neste equilíbrio da indústria, mas os setores e as áreas de intervenção são estas – os artistas, quem gere a carreira dos artistas, quem vende os espetáculos dos artistas, portanto os agentes, os managers, as editoras, as salas de espetáculos, os promotores de espetáculos, seja através de festivais ou de promotores. Depois todas as áreas, hoje em dia fulcrais, de marketing e comunicação, mas também tudo o que tem que ver com a gestão de direitos, os direitos de autor, os direitos conexos.

Primeiras pistas lançadas, o Gerador embrenhou-se no MIL, propondo-se descobrir alguns destes intervenientes durante os dias da convenção. Foram 72 horas de aprendizagem, durante o dia, e descoberta de artistas, nos seus concertos, à noite. Cruzámo-nos com produtores, editoras, agências de comunicação, assessores de imprensa, managers, jornalistas e artistas. Cada um deles explicou o seu papel na indústria musical, abrindo o leque de temas e complexidade que existe por detrás de uma só música.

O Produtor, uma espécie de psicólogo artístico

Eram 11 horas, de dia 27 de março, quando entrámos no primeiro workshop do MIL, sobre produção musical, pelo Manuel Faria. Um dos slides que saltou desde logo à vista dizia que havia duas formas de analisar música: amadora ou profissional. Para um amador, existem duas variáveis, gosta ou não da música que está a ouvir. Mas é quando se chega ao ouvido profissional que a lista de elementos a analisar parece inesgotável: o ritmo, o arranjo, a qualidade do som, a estrutura da música (que é a parte mais importante da análise) e a intensidade emocional. Neste último elemento, é quando se fala em construir um solo e aí importa olhar para fatores como o volume, ritmo, limites do espectro sonoro, harmonia, distorção e novos instrumentos. Demasiadas palavras que, provavelmente, nem sabemos ao certo do que tratam, correto?

O trabalho de um produtor musical não começa em estúdio aquando da gravação de um disco. É ainda numa fase de pré-produção que o produtor se deve encarregar de conhecer o ego do músico para, depois, conseguir acompanhá-lo no processo de criação da melhor forma. Antes de irem gravar um disco, os músicos compõem a música, apresentam-na aos produtores nos primeiros ensaios, desenvolvem a música, têm o primeiro ensaio de gravação, prosseguem com mais ensaios para limar pormenores que ainda não estão no ponto e, finalmente, ficam prontos para gravar. É durante o primeiro ensaio de apresentação e de gravação que os músicos mais se sentem aborrecidos e desmotivados e que o produtor deve intervir para lhes dar ânimo para continuar.

Entrada no Palacete dos Marqueses do Pombal, onde decorreu a convenção do MIL

Manuel Faria destaca quatro pontos que fazem um bom produtor: a comunicação, o comportamento, a confiança e a atitude. Deve ser um bom ouvinte e com capacidade de perceber e comunicar com o artista. Nunca perdendo a noção de que a estrela é o músico, um dos fatores mais determinantes no seu comportamento é a linguagem corporal. A confiança não deve cair no extremo, mas sim servir de guia. Os bons artistas sabem o que querem, apenas precisam de orientação. Por fim, a atitude de um produtor deve ser sempre a de fazer as coisas acontecer, arranjando soluções para todos os obstáculos.

Porém, grande parte do trabalho do produtor é feita na gravação da música, dirigindo-a. A metáfora do vidro dos estúdios é um dos aspetos a que o produtor deve prestar atenção. O artista está sozinho na sala a gravar e, pelo vidro, vê uma série de pessoas rodeadas de máquinas que podem estar a rir-se, ou cansadas, e isso pode levá-lo a um estado de insegurança, por não saber se ele é a causa ou não desse comportamento. Cabe ao produtor gerir essas emoções de parte a parte, deixando o artista o mais confortável possível. Assim, outra das grandes tarefas é perceber qual o intervalo de tempo em que o artista está no auge do seu potencial e concentração para gravar, não o levando à exaustão e frustração de tentativas sem fim.

Depois da gravação, segue-se o processo de mistura, em que o produtor vai pegar nas várias gravações e juntar os instrumentos, polir os sons e corrigir o que tiver de ser corrigido. Este é um processo que pode chegar a demorar três dias, para se terminar uma só música.

As editoras, o negócio cuja matéria-prima é a arte

Quando chega a altura de falar em editoras, normalmente associadas ao papel de gravar e distribuir um disco, não existem receitas ou modelos fixos para o negócio com os artistas. Da receita, aos serviços oferecidos e até ao papel que cada editora assume no percurso musical do artista, muitas são as alternativas. Por isso, fomos falar com o Afonso Rodrigues da Sony Music, que integra trabalhos de artistas como Áurea, Capitão Fausto, Cuca Roseta, Catarina Munhá ou Dino D’Santiago, e o António Loureiro, mais conhecido por Tope, da RedMojo, que inclui trabalhos de artistas como April Ivy, Blaya, Neev ou Virgul.

Afonso Rodrigues, AR na Sony Music

Afonso começa por destacar que uma empresa discográfica, como qualquer empresa, tem de ser algo rentável, porque é um negócio. “A questão aqui é que a tua matéria-prima é arte e, portanto, tens de ser muito cuidadoso na forma como negoceias. Não é igual a transacionar qualquer outro tipo de produto. Acho que o papel da empresa discográfica deve ser encontrar valores, portanto, encontrar artistas que produzam algo, que no sentido da direção daquela companhia discográfica, seja relevante e, depois, obviamente tentar, da melhor forma possível, potenciar esses valores. Ou seja, dar condições aos artistas para eles crescerem, terem visibilidade e para eles chegarem aos sítios onde eles ambicionam chegar.” Na Sony, ocupa o cargo de artistas e repertório (AR), ou seja, faz a contratação de novos artistas, acompanhamento de carreiras, escolha de repertório e produção de discos.

Tope diz-nos que a RedMojo é mais do que uma editora, sendo o que se pode chamar Production House, “uma empresa que constrói tudo, desde pegar no artista, gravar o artista, tem estúdios próprios, fazer todo o processo de carreira do artista. Ou seja, fazer o disco, os singles, projetar o concerto, desenhá-lo, produzi-lo. É um negócio a 360º. Todos os aspetos de um artista são controlados por um único sítio.” Não deixam, no entanto, de estabelecer ligações com parceiros estratégicos de várias áreas. Dá-nos o exemplo da contratação da agência Beware! para com eles trabalhar a promoção de artistas. Vê o grande benefício do seu negócio na detenção de poder em todos os setores. “Não estou dependente de arranjar um estúdio para ir gravar, ou não preciso de ir à procura de um produtor que se encaixe naquele projeto específico. Tens uma forma de controlar tudo, e o artista, em vez de ter um manager, uma label, uma agência, etc. etc., e ter 10 contratos, deixa de ter esses contratos e tem um único sítio onde faz tudo. É diferente pelo facto de termos uma equipa de produtores que produz diariamente. Trabalhamos a um nível muito elevado. Temos os artistas que temos e conseguimos criá-los, não do nada, porque são sempre alguém, mas conseguimos posicioná-los no mercado e hoje em dia são artistas de referência.”

António Loureiro, mais conhecido por Tope, da RedMojo

O trabalho de uma editora é mais do que gravar um disco e distribuí-lo por blogs, influencers, playlists de Spotify ou YouTube, passando por encontrar e receber o artista e, se necessário, aconselhá-lo. No entanto, a forma como uma editora se relaciona com um artista é variável e depende do tipo de apoio que cada um procura. “Há artistas que chegam a uma editora e têm um disco feito. Está acabado, a ideia está lá, sabem com quem querem trabalhar, as canções estão desenvolvidas. Há outros artistas que chegam às editoras e têm uma canção à guitarra acústica para converter numa música de dança ou numa gravação com orquestra. Portanto, se calhar vais ter de encontrar um produtor, ou músicos para gravar com ele. Portanto, os processos são muito distintos de artista para artista e de estilo para estilo”, explica Afonso.

No trabalho levado a cabo por uma editora, estão envolvidas muitas pessoas. “Envolve desde o AR, que pode ou não ser responsável por descobrir o artista e acompanhar o artista do ponto de vista mais artístico, envolve as labels que trabalham diretamente na parte prática da coisa, envolve os promotores que depois vão delinear toda a estratégia com o artista e acompanhá-lo em tudo aquilo que forem ações de promoção”, enumera Afonso.

Um dos temas mais discutidos quando se houve falar em editoras musicais é as receitas geradas. Mais uma vez, a divisão de receitas proveniente de um disco ou músico pelas várias pessoas envolvidas no trabalho não é linear e é discutida caso a caso. Mas definir as percentagens que cabem a cada interveniente pode ser um processo complexo. Há que contemplar as editoras, mas também os produtores, agências de promoção de artistas, agências para venda de espetáculos e os próprios artistas. Nestes últimos, têm de ser ainda discutidas divisões entre quem escreveu a letra, quem compôs a canção, quem fez o refrão que é a parte mais caraterizante da música, ou até quem incluiu aquele instrumento que foi fundamental para a sua identidade. “Em tudo, quando entra mais alguém, pensa sempre que há uma fatia de receita. Há serviços que são contratados. Se vou fazer um vídeo contrato um serviço. Ele vale x, eu pago, e está feito. Agora, no campo dos produtores já é diferente. Na parte de criação de conteúdo, já é completamente distinto, e eles, sim, os compositores têm uma fatia – depois já tem que ver com os direitos de autor. É muito variado e complexo. Do 100 % da música, quanto é que merece cada parte? Eu fiz a letra quase toda, mas eu fiz o refrão e o refrão é o principal. Se calhar, levo 15 e tu 30. Mas ela fez toda a batida… Isto é uma coisa de monetização de royalts, que também tem que ver com a venda, mas que é um negócio paralelo”, clarifica Tope.

Hoje em dia, a maior parte da receita não vem da venda de discos, “aquilo que há um tempo era um fator importante na indústria, hoje em dia é uma ferramenta à margem do que tu ganhas nas plataformas digitais que vendem, esses ficam com uma margem tão grande e tu ganhas tão pouco dali que não é por aí”, completa Tope. As maiores fontes de receita para as editoras vêm da publicidade, comissão dos concertos e tournées. No entanto, a percentagem que fica do lado da editora depende do investimento que faz em cada artista. “A percentagem de receita tem sempre uma relação direta com a percentagem de investimento. Portanto, se a label investe muito, a sua percentagem de receita, provavelmente, vai ser maior. Se não investe muito, não vai ser tão grande. Depende do tipo de contrato”, esclarece Afonso.

Afonso Rodrigues, ao fundo, durante a conversa “Signed, Sealed, Delivered: Record Labels Today”

O acesso de novos artistas a uma editora pode ser feito de duas maneiras, ou o artista envia o seu trabalho à editora, ou é descoberto por ela. “Eventualmente, o que devem tentar fazer primeiro é tentar que a sua música ganhe um bocadinho de tração. Ou seja, tentar começar a tocar ao vivo. Quando as pessoas começam a tocar ao vivo e são boas, começa a haver um burburinho. As pessoas das editoras estão todas muito atentas a esse tipo de burburinhos. Portanto, a melhor maneira, diria eu, para chamares atenção para ti próprio é através do teu trabalho. Se começares a ter algum buzz, alguém vai estar atento, reparar em ti e pedir para ir almoçar, ou lanchar, ou beber uma cerveja depois do teu concerto”, aconselha Afonso. Quanto ao género musical, esse não é um tema aquando do estabelecimento de um contrato com a Sony. “Do nosso lado, o que procuramos é talento e talento existe em todos os géneros musicais. Estamos abertos a trabalhar com artistas de qualquer área, estilo.”

Tope explica que, quando descobrem um artista, este até pode não ter quase nada construído. “Podemos criar de raiz qualquer coisa à imagem daquilo que estamos ali a ver e que achamos que pode ser interessante. Ou pode já existir uma coisa que nós gostamos de produzir. O processo é muito normal – descobri-lo, produzi-lo e editá-lo. É um processo normal de preparar o live dele, toda a carreira, como sai, que imagem vai ter, o posicionamento no mercado do produto é fundamental. Um dos primeiros passos que temos de fazer quando temos um produto é perguntar – isto é para onde? Quem é que vai gostar desta música? É para ali que se trabalha toda a comunicação, imagem, meios sociais. Basicamente, o processo é este, mas agora é muito mais simples do que era antigamente. Antigamente, era difícil, as edições eram mais complicadas. Hoje em dia, os miúdos chegam a gravar em casa. Antigamente, isso era impossível.”

Hoje em dia, qualquer pessoa pode ter um estúdio em casa, produzir as suas músicas e partilhá-las nas plataformas. “Aquele aspeto que as labels tinham que era conseguirem pegar no teu produto e vendê-lo, pô-lo nas lojas, hoje em dia, já não precisas de vendas físicas. Podes fazer contratos em determinadas plataformas e pões no iTunes, Spotify, fazes um vídeo caseiro e disponibilizas no YouTube e já está. Lançaste a tua coisa. Foste registar a tua música sozinha, não precisaste de ninguém e fazes tudo. Esse processo, hoje em dia, podes fazê-lo”, aponta Tope.

No entanto, tanto Tope como Afonso vêm na contratação de uma editora uma mais-valia de investimento, dependendo dos objetivos de cada um. “Queres chegar a um público mainstream que precisa de investimento na ordem das dezenas ou centenas de milhares de euros em gravações de discos, com produtores de renome, features com artistas que já têm perfis internacionais, queres chegar a uma audiência global, queres fazer um videoclipe que vai custar na ordem das dezenas de milhares de euros? Aí, provavelmente vais conseguir através de uma major. Tudo depende de qual é o teu plano, o tipo de música que fazes e a quem queres chegar”, clarifica Afonso.

As agências de comunicação, as cumpridoras dos sonhos dos outros

Tal como Gonçalo havia dito, uma das componentes fundamentais, hoje, da indústria musical é a comunicação. É neste domínio que entram em ação agências de comunicação, nas quais podemos encontrar agentes, assessores de imprensa ou managers que acompanham os artistas.

Numa primeira paragem, cruzamo-nos com a Beware!, que se identifica como um gabinete de gestão, comunicação e relações públicas na área da cultura. Primeiro, travámos conversa com o Luís Bandeira, que nos passa o seu cartão em que surgem em destaque as seguintes expressões: comunicação, assessoria de imprensa e marketing digital. Diz-nos que trabalha com o Nuno Chanoca nesta agência de comunicação. “Em termos de agência de comunicação, a ideia é sempre que tu cries um plano de comunicação, sendo que vais trabalhar ou no lançamento de um disco, ou numa data de um concerto ou, por exemplo, de um festival. Por norma, são estas três situações que ocorrem mais. A ideia é criares um plano de comunicação para que, uns meses, ou semanas antes do evento, durante e após, o público em geral saiba que aquilo aconteceu ou vai acontecer através dos média.”

Luís Bandeira, agente de comunicação na Beware! e Pinuts

Para além desta função, conta-nos que tem a típica agência de artistas nacionais, a Pinuts, em que é agente de cerca de 17 artistas, em que 7 são nacionais e 10 são estrangeiros. “Neste caso, sou a única pessoa que existe na agência, portanto faço tudo. Ou seja, vou à procura dos artistas que me interessam dentro do meu gosto pessoal, em primeiro lugar, e depois falo com eles diretamente ou com os agentes deles lá fora, depende. E tento trazê-los para cá. Por regra, trabalho quase sempre em exclusivo para Portugal. Às vezes, pode acontecer trazer uma primeira vez cá e depois, como a coisa corre bem, é a própria agência a dizer que fico com os artistas em exclusivo. A ideia é essa – trazer música nova para cá.” Depois de ter os artistas consigo, tem a função de lhes marcar concertos, garantindo que as condições técnicas dos locais são boas. “Mas o que eles querem é tudo a mesma coisa – tocarem e que um maior número de pessoas os veja, cada vez mais”, conclui.

É então que passamos a bola a Nuno Chanoca, o manager geral da Beware!. Diz-nos que a sua função é a de promotor, ou seja, assessor de imprensa. “Divido os meios com o Luís Bandeira – rádio, televisão, imprensa escrita, Internet. Ainda temos o Mihai Antonosciuc que também participa com contactos aos meios locais e algumas nets. Primeiro, elaboro um plano com as necessidades dos artistas e os targets que as duas partes acham que devem receber a informação do produtor que estão a lançar. Acima de tudo, é um produto, porque é uma criação que vai ser comercializada, que deve ser partilhada com pessoas. É lógico haver uns determinados meios de comunicação que devem ser contactados. Além dos meios tradicionais da comunicação, elaboramos também um plano para gestão de redes sociais e outras ideias.”

Nuno Chanoca, o manager geral da Beware!

Neste trabalho de contacto com os média, encontra algumas dificuldades devido ao elevado número de estruturas a comunicar os diferentes produtos musicais. “Antigamente era um suporte físico, e com o digital qualquer um pode lançar, não é preciso uma editora. Hoje em dia, uma agência, o manager ou a própria banda pode comunicar. Não precisas da estrutura. Como tens todos estes agentes, acho que encheram muito mais os canais. Há menos meios e menos jornalistas. Se há menos jornalistas, temos uma pessoa a receber 300 emails num dia. Como é possível uma só pessoa filtrar toda esta informação? Acho que, por um lado, temos mais liberdade, mais oferta, mas ao mesmo tempo também temos menos espaço para comunicar. Então tens de comunicar por ti próprio, pelas redes sociais, etc. etc.” Nuno salienta ainda a importância do instinto, em detrimento dos números que aparecem num excel. “O teu feeling, acho que também deve ditar um bocadinho as coisas, como quando te apaixonas – não é um excel. É um instinto. Acho que estamos a usar muito o excel e pouco o instinto.”

Mais tarde, cruzámo-nos com Ana Paulo, a fundadora da empresa de agenciamento, management de artistas e de produções culturais na área da música, Fado in a Box. A empresa, que agencia nomes como Júlio Resende, Salvador Sobral, Cordel, Luca Argel ou Toty Sa’Med, tem como missão fazer a música viajar em Portugal e pelo mundo e, por isso, sentámo-nos à esplanada de um café na rua Rosa com a Ana, poucas horas antes de começarem os concertos do dia, para descobrirmos mais sobre o seu trabalho.

Embora tenha sido pensado como um projeto nacional, já tinham possibilidades de internacionalização dos artistas em vista. “Porque no início, quer o Júlio, quer o Salvador, sempre me pareceram talentos com possibilidades internacionais muito fortes, e isso está neste momento a dar provas. Mas, sim, inicialmente a nossa ideia era explorarmos o mercado português, dar à música portuguesa um contributo forte, porque acreditamos muito no talento e nos projetos do Júlio e do Salvador, mas o mundo é muito grande. Não nos podíamos centrar só aqui. Portugal acabou por ser um ponto de partida, até porque quer o fado, quer o cante alentejano, foram erguidos a património da humanidade e têm, felizmente, dado cartas lá fora.”

Ana Paulo, fundadora da Fado in a Box

Na Fado in a Box, a Ana desempenha as funções de criação de new business, coordenação dos departamentos de booking, comunicação e produção da empresa, mas acima de tudo cumpre a função de management junto dos artistas. “Diz respeito à gestão de carreira, implementação de novas ideias, contactos com parcerias que tornem os projetos maiores e mais escutados. Mas posso dizer que é, acima de tudo, função de management”, explica Ana.

Ana comenta que não se definem como uma agência de comunicação. “Somos uma agência que representa artistas e trabalha as carreiras do ponto de vista editorial, ajudamos na produção dos discos, fazendo contactos com editoras, ou não. Temos artistas que são suportados por editoras, que têm contratos assinados com editoras, e temos artistas independentes que fazem os seus próprios discos e os distribuem de forma independente. Temos também a parte de comunicação, mas quando há uma editora envolvida, normalmente a editora assume essa missão, ainda que com a nossa ajuda e supervisão, porque estamos mais próximas dos artistas e percebemos melhor aquilo que eles gostam e não gostam, com o que se identificam mais, ou não.”

No caso dos músicos que distribuem a música de forma independente, a Fado acompanha-os durante todo o processo, inclusive no contacto com os meios de comunicação e a presença nas redes. “Acho que não deve ser exigido aos artistas que tenham a capacidade de comunicar a sua música. Quer dizer, eles são artistas, têm de criar um produto – que é um nome feio que não gosto de usar – musical de acordo com o seu perfil, gostos e sonhos e nós tentamos cumprir os sonhos. Às vezes, tento pensar que sou uma cumpridora de sonhos dos outros, que acabam por ser também os meus. A ideia é que eles se sintam apoiados, suportados, acarinhados e bem cuidados no seu caminho.”

Desta forma, um manager pode ser visto como alguém que faz parte da equipa do artista, tal como um técnico, engenheiro de som ou luz. A sua relação com um artista, pelo menos numa etapa inicial, começa aquando do processo de seleção de que artistas agenciar. Ana revela que só escolheu um dos artistas que agencia e que os restantes propuseram-lhe trabalhar com eles. “Se gosto daquilo que oiço é quase uma coisa impulsiva, de eu quero isto e tenho de trabalhar isto, porque me identifico com a estética musical, o talento. Se fico encantada com o trabalho e talento, depois não consigo dizer não. Esse é o único critério que uso para decidir se quero avançar, ou não. Felizmente, só trabalho com gente que admiro muito. Não olho para números. Dá-me um gosto especial trabalhar com projetos desde o início. Portanto, projetos desde o início não têm números ou métricas em que nos possamos agarrar para prever se aquilo vai vender discos, concertos, se vai ter plateias de 100, 200 ou 1000 pessoas. O que está em causa é sempre a qualidade e o talento e se nos toca a nós que somos as pessoas que vamos estar perto e trabalhar com eles.”

Olhando para a lista de nomes dos artistas que se juntaram à Fado in a Box, pode identificar-se uma aposta na lusofonia. “Não era um objetivo. Acho que acaba por acontecer, porque sou completamente apaixonada pela música lusófona, seja portuguesa, angolana, cabo-verdiana, brasileira. Não é uma coisa em que defina uma estratégia para ter uma linha de artistas que encaixe em determinados mercados. Não. Nós temos os artistas que gostamos e depois vamos perceber onde é que eles encaixam e não o processo inverso.”

Toty Sa’Med em concerto no MIL, um dos agenciados da Fado in a Box

Em relação ao mercado da música, diz-nos que é um mercado difícil e volátil. “Felizmente há muita coisa boa a acontecer, mas infelizmente também há muitos lobbys, muitos interesses e coisas que podem dificultar o sucesso de pessoas que têm muito talento e cujos projetos estão cheios de qualidade. Obviamente que há músicos que têm uma amplitude de mercado maior e outros menor, mas nunca houve ninguém a quem eu tivesse apresentado músicos com quem trabalhamos que me dissesse que não gostava ou que era mau.”

No processo de conquistar mercado e de apostar na internacionalização, existe ainda outro interveniente importante – o promotor. “Nós conhecemos muito bem o nosso mercado e trabalhamos os artistas aqui no mercado português, mas, à partida, não conhecemos os outros mercados. Cada vez que queremos explorar um território novo, seja um país, seja um conjunto de países, precisamos de ter uma parceria com um promotor local que conhece os circuitos de música do país, conhece as estéticas, sabe-nos dizer onde é que determinado projeto encaixa melhor, para não andarmos a tentar vender tampões a homens”, explica Ana.

Por entre os concertos internacionais em que tem acompanhado os seus artistas, Ana sente que, por norma, os artistas continuam a ser mais bem recebidos e compreendidos lá fora. “A reação do público, dos meios e produtores lá fora é muito mais respeitadora e compreendem muito melhor a estética que o Salvador Sobral defende no seu trabalho, do que cá em Portugal. Também acho que o Júlio é muito melhor compreendido lá fora do que cá. Mas isso já tem que ver com fazer música instrumental, e a música instrumental em Portugal ser mais difícil de trabalhar. Ainda assim, ele tem uma personalidade artística muito forte e vai conseguindo conquistar o espaço dele.”

Outra componente do mercado musical, que é de difícil gestão, é a relação com os meios de comunicação. “É difícil gerir, porque a maior parte das vezes o interesse que eles têm no artista não é o interesse que nós temos na comunicação que eles nos possibilitam. Isso acontece muito com o Salvador, porque está envolvido numa série de polémicas devidas à Eurovisão, da saúde dele. Então, sentimos que às vezes há jornalistas que nos procuram com o pretexto de quererem falar sobre a carreira do Salvador e sobre a música e depois chegam e não é nada daquilo. É tudo ao lado, é tudo menos aquilo. É uma gestão difícil de fazer, até porque temos de ser exigentes com os jornalistas. Temos de ser sérios, de lhes exigir um trabalho sério sem criar um conflito que depois vá prejudicar outros artistas que representamos e que tenhamos interesse em que eles falem sobre eles também. Ninguém tem interesse na vida pessoal do Toty Sa’Med, felizmente. O feedback que temos tido é que têm interesse na música do Toty e naquilo que o Toty faz. Devia ser assim para todos. Mas infelizmente sabemos que não é isso que vende.”

Os jornalistas musicais, os que se deparam diariamente com a constante evolução

Muitas vezes, ouvimos falar de novos artistas, ou de novos discos à espreita, pelos meios de comunicação. Chegamos mais perto do perfil do artista que admiramos pelas entrevistas feitas e viajamos com eles pelo mundo, através de críticas de concertos. É aí que entra outro interveniente que opera na indústria musical – o jornalista.

Simon Reynolds na masterclass sobre Jornalismo Musical, na convenção do MIL

É a temática do jornalismo musical que abre a convenção do dia 29 de março, numa masterclass dada por Simon Reynolds. Este começa por distinguir um jornalista de um crítico. Uma só pessoa pode desempenhar as duas funções simultaneamente, mas é importante que, aquando da leitura de um artigo, o leitor consiga perceber a diferença entre uma reportagem ou notícia e uma crítica. Uma reportagem usa uma linguagem impessoal, no sentido em que não tem que ver com o gosto pessoal do jornalista. Há uma procura pela história por detrás do trabalho e a missão de desvendar o que existe de interessante num determinado projeto. Já uma crítica é sempre pessoal e subjetiva. O crítico leva o seu gosto para a história que conta ao leitor e conta a sua história através da música que está a explorar no texto, havendo, indubitavelmente, um envolvimento pessoal.

Seguiu-se uma conversa sobre as novas regras do jornalismo musical, em que o moderador era Mário Rui Vieira, jornalista na Blitz. No final da conversa, fomos ter com ele para explorar um pouco mais do que implica ser jornalista musical em Portugal.

Em Portugal, não é usual ser-se exclusivamente jornalista musical, mas Mário consegue-o por trabalhar na Blitz. “Ser jornalista de música em Portugal, neste momento, não é fácil. É recompensador porque faço aquilo que gosto, ainda, mas quando começas a pensar na tua vida e no que queres para o teu futuro, será que eu quero continuar a viver nesta situação, que não é a situação ideal? Mas acho que isso tem que ver com o jornalismo em geral e não só com o jornalismo musical. Aquilo que me faz continuar é gostar daquilo que faço, de escrever, depois de escrever sobre música e de escrever sobre uma coisa que está em constante evolução. Não é uma coisa monótona. Na música, há sempre coisas novas a surgir e isso é o que mais me entusiasma. Haver novos artistas a surgir, haver novas formas de abordar a música, novas formas de compor.”

Mário Rui Vieira, jornalista musical na Blitz

A sua rotina enquanto jornalista passa por ir todos os dias para a redação, onde, de manhã, se gosta de dedicar ao noticiário para o site e, à tarde, trabalha nas entrevistas que tem em mãos, ou que vai fazer. “Como a Blitz também faz a música do Expresso, faço críticas a álbuns, ou preparo entrevistas que vou ter de fazer para a Blitz e para o Expresso e tento, que é uma coisa muito difícil e esquizofrénica, não fazer exatamente o mesmo texto para os dois meios com o mesmo material daquela entrevista. É como se fosse um trabalho de escritório das 10 horas às 18 horas, sendo que depois na época dos festivais tudo se altera e quando há concertos também. Portanto, vou trabalhar durante o dia e à noite vou ao concerto. Depois, vou para casa ainda escrever sobre o concerto. Geralmente, escrevo sempre a seguir ao concerto. Tento não deixar para o dia seguinte, porque é quando está mais fresco. Os nossos fins de semana também são muito condicionados. Se há um concerto ou um festival ao fim de semana, toda a rotina se altera. Mas há uma rotina fixa e sei que sou um caso excecional neste momento.”

No meio jornalístico, não tem dúvidas de que falta sangue novo, embora dê muito valor a quem trabalha na área há muito tempo. “Mas fazem falta vozes diferentes que, se calhar, não tenham tantos, e sinto isto e acho que é uma coisa da profissão que tento sempre não encaixar nisso, é tentar livrar-me de todos os preconceitos que tenho. Não tenho grandes problemas em escrever sobre música pop, como rock, música independente, música alternativa, sobre eletrónica. Não tenho problema nenhum nisso e tento sempre procurar aquilo que eu acho que é o melhor nessas áreas todas.” Sente falta de pessoas novas que escrevam bem e de forma descomplexada e desapoderada sobre todo o tipo de artistas. “As pessoas continuam a ser as mesmas e contra mim falo, porque já estou há 15 anos nisto. Mas é uma coisa que tento fazer. Tentar não me fechar demasiado naquilo que são os meus gostos e mesmo que eu não goste de determinados artistas, mesmo que a minha opinião sobre aquilo que eles fazem não seja a melhor, tento ir lá e descobrir alguma coisa que para mim faça sentido, que consiga transmitir às outras pessoas, e que para elas faça sentido também.”

Enquanto jornalista, as maiores dificuldades que sente são as económicas. “A equipa está cada vez mais pequena, temos cada vez menos meios. É difícil lutarmos para conseguir fazer cobertura deste ou daquele festival, a indústria também está num período de se retrair. Quando comecei, se calhar, ia muito mais vezes ao estrangeiro fazer entrevistas, ou vinham mais artistas a Portugal porque fazia parte do circuito na promoção aos discos. Hoje em dia, é raro vir cá um artista fazer promoção. Fazemos entrevistas por telefone, porque saímos desse percurso que eles faziam antes. É difícil viver do jornalismo, e em especial do jornalismo de música, em Portugal.” No entanto, considera que o papel do jornalismo na indústria musical é o de abanar a indústria, mostrando às editoras que os artistas que escolhem, porventura, não são a próxima grande estrela mundial, como esperavam. “Acho que o nosso principal propósito neste momento e aquilo que deveríamos fazer era mostrar que há muito mais do que as grandes editoras criam e deitam cá para fora.”

Mário na moderação da conversa “New rules: Music Journalism in 2019”, durante a convenção do MIL

Pegando na linha de pensamento desenvolvida aquando da conversa sobre lusofonia durante a convenção do MIL, também Mário sente que, em geral, ainda não se dá muita visibilidade à lusofonia ou a géneros musicais que não são tão populares. “Acho que estamos num período supersaudável da música portuguesa, em que há coisas boas em todos os géneros. A música portuguesa não fica nada atrás daquilo que se faz a nível mundial. Acho que temos bons artistas pop, bons artistas de música alternativa, ótimos rappers. Temos tudo isso. Estamos a fazer esse caminho, e isso é uma coisa engraçada. Mesmo no site da Blitz fomos notando isso. No início, quando fazíamos notícias sobre artistas portugueses muito pouca gente ia ler. Neste momento, há cada vez mais pessoas a ler artigos sobre artistas portugueses. Obviamente que isso nos dá muito prazer, mas sinto que ainda há muito trabalho para fazer.” Trabalho esse que considera passar por tentar sair de uma indústria do domínio anglo-saxónico. Deseja que “haja estrelas portuguesas, brasileiras, angolanas, moçambicanas que consigam saltar e que criem uma espécie de comitiva de música lusófona e que se abra para o mundo. Óbvio que estamos cá para refletir isso e tento ao máximo fazê-lo. Agora, óbvio que tento dar voz aos artistas em que acredito. Acho que há cada vez mais artistas angolanos de todos os quadrantes e géneros representados nos média portugueses. Agora, que ainda há muito trabalho para fazer, há, sem dúvida nenhuma.”

Uma das ferramentas de comunicação que existe entre assessores de imprensa e jornalistas é o envio de notas informativas sobre os trabalhos dos músicos por email. Porém, tal como Nuno Chanoca referia, são inúmeros os emails que um jornalista recebe, sendo difícil captar a sua atenção. Mário revela que, para ele, estes emails têm de ser muito diretos em relação ao que o artista faz e enviarem a sua música para que a possa ouvir. “Acho que isso é mais importante do que tentarem vender-me aquela pessoa como o novo Drake. Isso a mim não me interessa. O que me interessa é ouvir a música e que eles consigam cativar-me para aquele artista que eles estão a promover.”

Embora reconheça um papel importante no jornalismo musical, não acha que o jornalista se deva dar uma importância desmedida, achando que o que escreve influencia o percurso de um músico. “Se eles (os músicos) acharem que aquilo que fazemos é importante, fantástico, se não acharem acho que devem continuar a seguir o seu caminho independentemente daquilo que a minha opinião em particular seja.”

Os artistas, as experiências dos Reis da República, Neev e Toty Sa’Med

Finalmente, chegamos àqueles cuja obra justifica a existência de uma indústria tão ampla e complexa – os músicos, os artistas. É a vertente de festival do MIL que se concentra neles e lhes dá oportunidade de subir a vários palcos para partilharem o seu trabalho com novos públicos e profissionais da música. Uns estão ainda no início, outros começam a apostar na sua internacionalização, mas todos vêm motivados para o MIL e com vontade de mostrar aquilo em que têm estado a trabalhar.

Reis da República, após a entrevista ao Gerador

Minutos antes do seu concerto no Estúdio Time Out, os Reis da República juntaram-se a nós no relvado junto ao quiosque. A conversa começa pelo início, ou seja, pelo nascimento desta banda. Inspirados por uma banda que começava a dar cartas, os Capitão Fausto, decidiram juntar-se para fazerem umas músicas. Por entre risos, dizem que quando se juntaram ainda não sabiam tocar bem guitarra, mas foi um grupo que se foi formando ao longo do tempo. Primeiro, tinham dois guitarristas, depois surgiu um baterista, depois a voz e, por fim, o baixista e teclista. Assim, os Reis da República hoje contam com Luís Ogando, Bernardo Sotomayor, José Sarmento, Madalena Tamen, Gonçalo Bicudo e Tomás Lobão na sua formação.

Contam que o mais complicado foi passar de dois a três elementos, pois já tinham tido para cima de cinco bandas e nenhuma tinha resultado. Quando, mais tarde, perderam o teclista e foram à procura de quem o substituísse, acabaram por levar para casa também um baixista – “baixo? Nem sabíamos o que era!” Foi Madalena quem escreveu as letras de Fábulas, que nos explica que não gostava muito de escrever sobre assuntos próximos. “Na altura, começámos a pensar no Fábulas e não era bem isso que tinha em mente. Achei que era divertido contar uma história a título de narradora e não ter mais qualquer tipo de envolvimento para além duma pessoa que conta a história do que aconteceu a alguém, que podia ser só um diz que disse dum amigo.”

Fábulas dos Reis da República

Não escondem a sua paixão em comum pela jardinagem, que aliás é uma ideia que tem ligação com as letras das músicas. “Na altura em que estávamos a gravar o disco, achámos engraçado pegar em efeitos sonoros para simular alguém num jardim, a fazer jardinagem. O Luís lembrou-se do som de uma bicicleta a passar, de se ouvir alguém a regar plantas, coisas desse género. A partir daí, decidimos usar coisas para a nossa sessão fotográfica para apresentar o disco. Foi uma linha contínua de pensamento”, revela Madalena. O tema foi inspirado em Syd Barrett, daí a personagem da narrativa do disco se chamar Sidónio. “Não é a história da vida dele, mas é uma história inspirada em parte da vida dele. Não é linear tudo o que dizemos sobre ele, mas são peças da vida dele que achámos piada e decidimos pegar por aí.”

Para palco gostam de levar algumas horas de ensaio, teclados e pandeiretas. “Levamo-nos a nós e o que cada um traz. E o que o que cada de um traz faz o Sidónio.” No MIL, veem uma grande oportunidade, por saberem que vêm pessoas de fora para ouvir as bandas. “Não é só o habitual público português a que estamos habituados. Apesar de cantarmos em português e isso ser uma coisa mais curta e fechada, é sempre bom haver pessoas vindas de fora de propósito para este género de eventos para virem ouvir as bandas portuguesas.” As únicas expetativas que levaram para palco foram as de apresentarem a sua música para o maior número de ouvidos possível. O que virá depois da participação no MIL não sabemos, mas descobrimos um plano entusiasmante para o mês de abril. A partir de dia 26 de abril, os Reis da República vão estar em tour com os Ganso, por sete palcos de Portugal.

NEEV em entrevista ao Gerador

Multi-instrumentalista, escritor, compositor e cantor sem rótulos, assim é descrito NEEV. Com raízes no rock, foi com 11 anos que ouviu White Stripes pela primeira vez e decidiu pegar numa guitarra, criando o seu som. Seja na guitarra, baixo, piano, bateria, ukulele, bandolim, ou lap steel, é um artista que se move na constante procura pela inovação. Encontrámo-lo na tarde em que iria dar um concerto no Estúdio Time Out e aproveitámos para trocar umas ideias.

Começámos por falar sobre o que é mais importante que um músico iniciante faça para que a sua música seja ouvida. “Primeiro que tudo, fazer música genuína, música que seja verdadeira. Parece um dado adquirido, mas infelizmente hoje em dia não é tanto. Pelo menos, é o que eu sinto. Essa deve ser a primeira pista para qualquer músico. Deve ser sempre a primeira coisa com que ele se preocupa. Este é um meio extremamente dinâmico. Não existe um caminho certo, em que podes dizer para ir para ali e corre tudo bem. É muito volátil, não é uma coisa muito consistente e não existe um caminho definido. O meu conselho, e o que considero mesmo importante, é, primeiro, fazer música genuína, música verdadeira. Começar sempre por aí e depois tocar o máximo possível. Tocar, tocar, tocar, tocar. Fazer tours. Obviamente, hoje, os social media são muito importantes, mas nem entraria muito por aí. Acho que o mais importante é tu fazeres a tua música, a seguir ires para a estrada, mostrá-la e vivê-la com as pessoas. Isso é o mais importante, isso é que alimenta tudo.”

NEEV em concerto no Estúdio Time Out, no MIL

Partilha que um músico conseguir mostrar a sua música numa sala não é fácil, pois “o público português não tem uma cultura muito vincada de ir a concertos, ir apoiar e de realmente pegar em projetos embrionários e crescer com eles. Não existe muito essa cultura em Portugal, infelizmente, principalmente quando se trata de música não cantada em português. Existe ainda uma grande repulsa. A oferta também não é muita em Portugal, a nível de salas. Cada vez está mais pequena e as que existem cada vez são mais difíceis de entrar. Mas em Lisboa, por exemplo, ainda existem muitas. Tens o Musicbox, o Sabotage, o Timeout, o B’Leza , o Titanic Sur Mer, ou seja, ainda tens alguns sítios, mas fácil nunca vai ser. Nada nisto é fácil. Nada do que é importante na vida é fácil e isto não foge à regra.”

A sua procura pela inovação já o levou a vários sítios, inclusive a uma viagem de cerca de cinco anos a fazer o álbum que concluiu há pouco tempo. “Foi imenso tempo precisamente por causa disso. Não diria tanto pela busca pela inovação. Não sou muito apologista do inovar pelo único propósito de inovar. Acho que as coisas têm de ser certas e verdadeiras para ti e, portanto, isso é o mais importante. Mas na procura por isso, por aquilo que é verdadeiro, te faz feliz e realmente queres passar, se tiveres realmente disposto a entrar nela é uma coisa muito imprevisível. Pessoalmente, demorou-me cinco anos e levou-me a muitos sítios. A muitos países, a muitas pessoas, a muitas relações que não resultaram, outras que resultaram, mas acho que também é aí que está a piada.”

“Breathe” de NEEV

Foi uma viagem que o levou também a um dos palcos desta terceira edição do MIL, em que o que mais cativa NEEV é a dinâmica – “sentes que o público e a resposta são completamente diferentes. O concerto, a tua presença no festival, não acaba no palco, começa no palco. Está aqui muita gente importante e é exatamente aquele tipo de festival que, para os artistas, o festival começa no palco e não deve acabar lá. A seguir tens reuniões, montes de coisas. É uma dinâmica gira. Conheces montes de gente, de artistas, há pessoas de todo o mundo, o que é ótimo. É perfeito, é exatamente isso que Portugal precisa.” Se nesta conversa se apresenta calmo e descontraído, é em palco que se transforma, acompanhado de harmonias consolidadas, imagens musicalmente fortes e uma voz surpreendente com agudos cristalinos.

Toty Sa’Med em entrevista ao Gerador

Ainda faltavam umas horas para o concerto no Viking, e Toty Sa’Med andava pela zona do Cais do Sodré de entrevista em entrevista. O cantor, compositor e multi-instrumentista nasceu em Luanda e é um dos artistas de culto da Nova Música Angolana. Com influências que vão do rock psicadélico ao jazz, tudo começou pela música africana. Foi na capital portuguesa que, em 2015, conheceu Kalaf Epalanga que o convidou para fazer parte da banda que levou ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Belém. A partir daí, nasceram parcerias musicais com Sara Tavares e Ana Moura.

Toty já sentia necessidade de expandir a sua música para lá de Angola. “Porque o mercado, para mim, em Angola não é necessariamente tão vasto e frutífero. Preciso de um bocadinho mais de ouvidos. Começando por Lisboa é uma boa oportunidade. Acho que tive um bom começo por estar associado a certas pessoas que já estavam muito bem estabelecidas em Portugal, sendo portuguesas, ou não. O caso da Sara (Tavares), que é portuguesa de ascendência cabo-verdiana, então há uma conexão imediata com ela por causa da africanização dela. Também compus para o último disco da Ana Moura com letra de Zé Eduarda Água Lusa, compus para a Cristina Branco também, com uma letra do Kalaf. Isso significa que já começo bem relacionado, então para mim a aceitação é uma questão de terem contacto com a minha música. Cada vez mais não temos barreiras, filtros, temos funis para a música e acabamos todos por ouvir de tudo um bocado e sinto que sou parte desse movimento que descentraliza um bocadinho essa coisa. A música africana era música ouvida na periferia e a música portuguesa, de raiz, era ouvida por todos os portugueses. Agora já não existe isso. Agora todos ouvem tudo e sinto-me parte desse movimento. A aceitação da minha música, hoje em dia, em Portugal, é o reflexo dessa comunidade que estamos a construir.”

Mona Ki Ngi Xiça por Toty Sa’Med

Quanto à lusofonia, Toty partilha que precisamos de ultrapassar a fase em que a categorizamos em vários níveis. “Existe o nível africano de lusofonia, depois existe o nível brasileiro e o português. Quando ultrapassarmos essa barreira, vamos perceber que a língua que nos une é um veículo bem mais forte do que como nós o tratamos. Mais que tudo, a lusofonia é, sim, o grande ponto de partida. Podemos explorar mais isso, porque mesmo os próprios portugueses, muitos deles, têm a sua costela africana, ou viveram em África, ou os pais viveram em África e são a segunda geração de africanos. Portugueses-africanos. Acho que é uma coisa interessante essa coisa da lusofonia. Quando ultrapassarmos essa fase acho que vamos tirar mais proveito desse movimento lusófono e Portugal vai poder, assim, assumir um papel que acho que não demora muito – o de centro dessa congruência de cultura.”

Por entre vários estilos musicais que o apaixonam, revela que o estilo musical que mais o faz sentir dentro de Lisboa é o estilo africano, “porque acho que está bem presente aqui e é vivido por todos, porque África está em pequenos cantos de Lisboa. Há sempre um pedacinho de África em nós e nas pessoas que moram em Lisboa.”

Toty Sa’Med no concerto no Viking, no MIL

É um dos artistas da Fado in a Box e que considera ter ido lá parar graças ao pianista Júlio Resende. “Como o Júlio Resende está na agência e tem ascendência angolana, então acho que o Júlio já tinha uma espécie de pré-set para perceber o que a malta africana andava a fazer. Acho que foi um dos aspetos preponderantes na decisão. Quando tivemos a primeira conversa, houve uma crença grande no meu talento, independentemente de onde eu vinha. Também tem que ver com isso. É uma agência que, na altura, estava à procura de coisas novas, de coisas que pudessem juntar ao seu plantel. Acho que foi um conjunto de situações que conspiraram a favor e sou muito grato à Fado in a Box, porque conseguiu reagir à minha música.”

Durante o concerto de Toty Sa’Med no Viking

O que mais o cativa no MIL é a comunicação e a facilidade em a promover entre os ouvintes, atores musicais, produtores, cantores e o seu público. Como única expetativa para o seu concerto levava a vontade de trazer aspetos novos à musicalidade africana. Se na primeira música o Viking ainda não estava cheio, rapidamente se esgotaram os lugares na sala. O público cantava com Toty, bem próximo dele, e ainda ajudou na escolha da música final. “Ainda há tempo para mais uma!”, dizia uma das ouvintes. Mais uma se tocou e deixou saudades e ânsia para que seja gravada.

As noites do MIL são passadas assim, de concerto em concerto, de descoberta em descoberta. Muitos foram os nomes, vozes, palcos, estéticas e criatividades que foram expostos durante estes três dias. No concerto de abertura, houve a oportunidade de ouvir Lula Pena, Letrux e Noite Bacaneza. A estes nomes, juntaram-se outros como as histórias cantadas de Rubel, a energia dos Paus, a enchente de Conan Osíris, o sentido de humor e alegria de Conjunto Corona, a introspeção musical de Filho da Mãe, os ritmos de Fogo Fogo, a contagiante PONGO e a doçura e elegância de Beatriz Pessoa.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Depois do MIL, a descoberta musical não pode parar

Durante três dias, o Cais do Sodré foi palco de uma network que envolveu profissionais da música e público. Falou-se do ouvido amador e do profissional, do valor da música, da importância e barreiras à lusofonia, das implicações do meio digital, mas também do crescente valor do mercado musical português. “Acho que a música portuguesa está a passar um momento maravilhoso. Temos artistas incríveis. Nunca tivemos tantas pessoas a ouvir música portuguesa, acho eu. O mercado digital, que é algo novo ainda em Portugal está, cada vez mais, a ficar exposto aos artistas portugueses. Há duas semanas atrás estava a olhar para o top de streamings no Spotify em Portugal e, nos 50 artistas do top de música mais ouvida em Portugal, ou seja, música que pode vir da Polinésia ou Hong Kong, tinhas 13 canções portuguesas, de artistas portugueses. Isso, para mim, são notícias fantásticas. Toda a gente está a trabalhar, os clubes, os festivais. Tens festivais gigantes de renome internacional. Acho que está tudo a acontecer”, confirma Afonso Rodrigues.

Lounge no Palacete dos Marqueses do Pombal

Podemos voltar ao exercício de imaginação. Músicos, produtores, editoras e agências de comunicação movem-se ao encontro uns dos outros na construção de novas alianças e projetos, cujo ímpeto inicial se cimentou aquando do MIL. No processo, é importante não esquecer tudo o que foi discutido e recolhido no decorrer desta convenção. Que o reconhecimento do valor da música passa pela transparência de todos os processos e agentes envolvidos, que o mundo digital cada vez mais deixa sobressair nomes portugueses nas playslists e atentar na importância de reconhecer e bem receber os nossos artistas e a riqueza da lusofonia que nos pertence e enriquece, não excluindo países e artistas em detrimento de um poder anglo-saxónico. O burburinho da música portuguesa torna-se cada vez mais forte e não restam dúvidas de que está saudável e recomenda-se. Agora, é só esperar para ver que surpresas a indústria musical nos reserva.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografias de Diana Mendes
O Gerador é parceiro do MIL

Se queres ler mais reportagens sobre a cultura em Portugal, clica aqui.