Identidade. Personalidade. Carácter. Eu.
Palavras sonantes que visam delimitar e diferenciar uma pessoa do que, ou de quem, a rodeia. Um conjunto de características que, supostamente, nos define.
Como não poderia ser de outra forma, a nossa natureza curiosa motiva-nos a desvendar as nossas idiossincrasias. Para tal, analisamos cada comportamento que executamos, cada palavra que pronunciamos. Ambicionamos, portanto, aproximar-nos de um possível momento de iluminação e revelação sobre a nossa índole e fantasiamos sobre a possibilidade de sermos mais felizes e confiantes a partir do instante em que descobrimos quem somos.
Ao longo desta incessante busca, vamo-nos e vão-nos colocando dentro de várias caixinhas: a das profissões, a dos regimes alimentares, a das orientações sexuais, a das religiões, a dos clubes desportivos, a dos partidos políticos, entre muitas outras. Algo que até nos pode dar um certo alento, pois sentimos que pertencemos ali, que somos aceites e que, finalmente, podemos responder à pergunta milionária: “Quem sou eu?”
Agora que encontrámos a nossa tribo, não queremos comprometer o estatuto conquistado. Restringimo-nos aos limites que as caixas nos colocam, com as suas paredes, e tentamos corresponder às expectativas implícitas do nosso clã. Temos receio de colocar um pé de fora, de explorar para além do horizonte que conhecemos, pois isso iria estremecer a nossa identidade, aos nossos olhos e aos das outras pessoas.
Oportunidades que nos escapam por carregarmos o peso de ser. Verbo este que tem a capacidade de atribuir rótulos permanentes, que nos levam a criar um compromisso, voluntária ou involuntariamente, com o que lhes está subjacente.
Gostamos de gabar os atributos da nossa espécie. Contudo, parece que, em alguns momentos, ambicionamos ser e viver apenas numa dimensão. Ignorando a complexidade do que significa ser humano. Traçamos perfis com régua e esquadro que, por vezes, nos mirram e diminuem de tão redutores que são. Como se nos quiséssemos espreguiçar, mas estamos confinadas(os) a um espaço demasiado pequeno para o conseguirmos fazer.
Esta possibilidade de estagnação causa-me uma certa estranheza, pois não me parece congruente com a nossa forma de funcionamento. Prefiro pensar que as diversas áreas da nossa vida se traduzem em espectros, pelos quais vamos deslizando. Ora estamos num sítio, ora estamos noutro passado um tempo. Encararmos os acontecimentos como estados, faz com que a mudança deixe de ser uma ameaça à nossa personalidade e passe a ser um leve convite ao crescimento e desenvolvimento.
Questiono se os idiomas em que os verbos ser e estar se encontram fundidos, como acontece no inglês (to be), podem ajudar às pessoas a esmorecer estes limites e soltar algumas das suas amarras identitárias.
Comparativamente a gerações anteriores, privilegiamos de um mais fácil e diversificado acesso à informação e às experiências. O que, acompanhado pelo aumento da esperança média de vida, faz com que estejamos expostas(os) a uma maior variedade de estímulos, durante mais tempo. Estranho seria se não mudássemos ao longo desta viagem. Significaria estarmos fechadas(os) para o mundo, impermeáveis ao que nos rodeia e ao que habita dentro de nós.
Aceitar que a nossa existência se baseia num processo contínuo de exploração, descoberta e reestruturação, talvez nos ajude a desfrutar mais desta coisa chamada vida.