Este é um texto sobre um filme de 2019, mas ainda extremamente atual(izado continuamente).
Desde sempre que o mundo é marcado por diferenças – sonoras, nos tons de cor, nas texturas, nos formatos, entre muitas outras. E, muito rapidamente, tais diferenças foram transformadas pelos seres humanos em desigualdades, assumindo-se em/como bases de estruturas sociais que veiculam e legitimam as hierarquias onde estão incorporados todos os privilégios e desprivilégios económicos, culturais, políticos, territoriais – no fundo, todos os consensos e as resistências sociais.
A passagem de comunidades de estilo mais rural, feudal ou monárquico para sociedades urbanas, ditatoriais ou democráticas complexificou as principais características daquelas injustiças, bem como a sua identificação e as lutas que a elas se referem. Também trouxe novos apanágios e novas disparidades. A desigualdade económica, por exemplo, já não se trata de uma simples separação entre ricos e pobres, mas contém no seu cerne subdesigualdades ou ramificações de desigualdade, como as diferenças nas fontes de acesso aos rendimentos (via esforço do trabalho ou via aquisição e poupança de capital) e nos tipos de pobreza apresentados por diversos especialistas de várias áreas (absoluta, relativa, precariedade, etc.). O mesmo acontece com todas os outros desequilíbrios, que justificam a emergência de cada vez mais e mais novos movimentos de intervenção social, dispostos a dar a voz e a cara pelas causas que defendem. No entanto, se existem muitas novidades ao nível das discrepâncias da nossa realidade, há, por outro lado, verdadeiros obstáculos que teimam em enraizar-se e manter-se vivos ao longo dos tempos em que cá andamos.
O filme sul-coreano Gisaengchung (mais conhecido pelas suas traduções inglesa – Parasite – e portuguesa – Parasitas), lançado em 2019, explica-nos de um modo fabulosamente arquitetado a ideia da frase anterior. E também a importância de compreender como se desenrolam as distinções socialmente normativas de base classista. Na obra cinematográfica, uma família de quatro membros (pai, mãe e dois filhos), subsistindo em condições de grande dificuldade financeira que passam pela realização de biscates e pelo desemprego, entra na vida de outra família, também composta por quatro pessoas com funções familiares equivalentes, mas que se manifesta dotada de uma abundância material. O modo de ingresso da primeira família na segunda ocorre através de um mecanismo de recomendação, onde, começando pelo filho rapaz, cada membro menciona ter um conhecido que se encaixaria bem num dado cargo que a família rica pretende ver ocupado para resolver as suas necessidades quotidianas (como as de transporte, de alimentação e de arrumação da casa), relatando informações falsas, porém elogiosas, a respeito da pessoa a que se indica.
O desenrolar do filme parece mostrar-nos que os constituintes do núcleo familiar pobre são os parasitas da outra família, na medida em que a servem nas suas carências, mas fazem-no de um modo desleal ao mentirem sobre as suas credenciais ou experiência profissionais e ao se importarem sobretudo com a ascensão a um estilo de vida mais luxuoso através dessa deslealdade. Todavia, nas palavras do próprio realizador Bong Joon-Ho, os parasitas são, na verdade, ambas as famílias, visto que a segunda utiliza a riqueza para responder às suas inabilidades nas lides mais práticas através da exploração do trabalho da família pobre. Assim, esta carga social parasitária alastra-se para os vários protagonistas e intensifica-se com o ritmo da narrativa.
Parasite alerta-nos, então, para uma grande questão relativamente à formação das nossas sociedades: a interpretação dos estatutos e das oportunidades. À medida que vamos compreendendo melhor a estratégia da primeira família, a perceção imediata maioritária é a de que esta representa o oportunismo dos desprovidos face à simpatia dos abastecidos. Mas é aqui que fica claro o quanto esta representação societal merece uma reflexão sobre os nossos próprios preconceitos. Enquanto a oportunidade é corrompida pelo baixo estatuto de classe no primeiro caso, no que concerne à família rica a oportunidade pode, devido ao elevado estatuto daquela, ser facilmente vista como um simples emprego de recursos na correspondência a uma dada premência. Neste sentido, existe pura e simplesmente incorporada no pensamento comum a ideia, altamente contestada pelas teses da Sociologia, de que a suplantação da pobreza só tem valor ético e simbólico se ocorrida pela meritocracia, enquanto a manutenção da riqueza, desde que aparentemente legal, é uma justa paga pelo esforço dos ricos.
Existe outro grande ensinamento, mais em jeito de crítica, que podemos retirar deste filme: a desconexão humana, da qual a contemporaneidade tem sofrido de uma forma retumbante. O facto de os membros da família pobre nunca terem mostrado arrependimento pelas identidades falsas que criaram para chegar à família abastada foi um fator importante para que as desigualdades de classe nunca fossem suspensas. Por isso, os papéis sociais superaram o contrato e o amor humanos que poderiam ter-se desenvolvido e tornado a solução mais benéfica e eficaz para todos.
Urge, destarte, pensar seriamente no mundo em que vivemos, dado que se este se apresenta cada vez mais globalizado a criação de redes de apoio social e de amizade necessita de suplantar o olhar fatalista e frequente da vida de que, a qualquer momento, alguém será parasita ou parasitado por alguém. Um mundo ameaçado pela multiplicidade de riscos naturais e artificiais. Uma realidade em que o trabalhador é visto como colaborador de uma empresa sem receber quaisquer melhorias de vida por essa sua ajuda ao sucesso da entidade. Justamente, Parasite não é só um conto de evidentes fraturas sociais; é também um convite (ou mesmo um apelo) à reestruturação das sociedades, com vista a uma maior harmonia humana.