“Que Estranha Forma de Vida”, “Wasted Waste” e “É P’ra Amanhã”, fazem parte do portfólio do realizador Pedro Serra, que, através dos seus documentários, mostra como podemos desperdiçar menos coisas e menos tempo para ganharmos mais espaço e mais tempo, aquilo que, hoje em dia, todos procuramos.

A sustentabilidade é um tema cada vez mais abordado pelos influenciadores, nas escolas, a nível político e também pelas marcas que têm alterado muitos dos seus produtos em função do tema da sustentabilidade.

Pedro Serra formou-se em realização pela ETIC e começou a fazer produção em televisão na Endemol, até ao ano de 2012, quando decidiu viajar pelo mundo e ter o primeiro contacto com temas relacionados com sustentabilidade, que até então desconhecia. Gosta de se rotular como vegan, sendo-o há quase nove anos, e minimalista por ser um defensor do direito à felicidade e liberdade de todos os seres sencientes. O seu primeiro trabalho é o documentário “Que Estranha Forma de Vida”, que aborda formas de vida paralelas à sociedade como a conhecemos, mostrando projetos alternativos ao sistema que procuram viver em harmonia com a natureza, sempre com uma visão do futuro baseado na sustentabilidade. O seu segundo trabalho é o “Wasted Waste”, um documentário sobre freeganismo, um estilo de vida alternativo baseado no boicote ao capitalismo que tem como objetivo reduzir o impacto do ser humano no ecossistema, através do resgate de resíduos, por exemplo. O seu mais recente trabalho é a série da SIC, “É P’ra Amanhã”, onde o realizador corre Portugal de norte a sul para mostrar iniciativas que trabalham diariamente para construir um futuro mais sustentável.

Em entrevista ao Gerador, Pedro Serra contou-nos mais sobre os seus três projetos, como a educação se reflete na nossa maneira de estar na sociedade e como as empresas se estão a adaptar às exigências dos consumidores. O realizador, que procura mostrar alternativas pela positiva, falou-nos ainda sobre a importância de selecionar informação e de nos questionarmos sobre o que produzimos e consumimos.

Gerador (G.) – A escola teve um papel importante na forma como, agora, vês o mundo?

Pedro Serra (P.S.) – Nunca tive uma relação muito boa com os sistemas vigentes de ensino. Falo dos convencionais, em que tive o meu percurso académico até ao 12º. Digo isto, porque nunca me revi no sistema de ensino de "despejar matéria", estudar sentado sete ou oito horas por dia e ouvir um professor em frente a uma plateia de miúdos com necessidades e desejos diferentes e onde se aprende muito pouco, na realidade. É um sistema que incentiva à competição e prepara cidadãos para o mercado de trabalho, a obedecer e cumprir funções sem fugir muito dos padrões exigidos. A criatividade e o espírito crítico não são tão estimulados. A meu ver, nessa idade, devíamos estar na rua a explorar o meio ambiente e a construir coisas. Mas claro, também tive professores que me influenciaram muito, e tenho a certeza de que deixaram lá a sementinha para coisas que, mais tarde, vim a desenvolver interesse, como a área da sustentabilidade.

(G.) – O teu trabalho no mundo do cinema passa por esse mesmo tema. Porque escolheste este caminho?

(P.S.) – Este tema não me dizia muito até 2012. Foi um ano de crise económica e crise pessoal, para mim, porque decidi abandonar tudo, na altura, e viajar. Percebi que todo aquele momento por que estávamos a passar era um conjunto de fatores, todos eles interligados. Comecei a questionar o meu estilo de vida, comecei a questionar todo o sistema capitalista, comecei a questionar o consumismo desenfreado de que esse sistema depende e as causas que isso tem no nosso ecossistema. Posso dizer que o interesse na sustentabilidade do mundo partiu da minha procura pela minha estabilidade e sustentabilidade e por perceber que não existe interdependência na Natureza. Tudo funciona em simbiose. E somos nós que temos de nos adaptar à Natureza, não o contrário.  


(G.) – És, de certa forma, alguém que abriu caminho para o ativismo social através do cinema, em Portugal. Quando decides pegar nestes temas, existe uma rápida e fácil aceitação por parte não só das tuas equipas, mas também das entidades e projetos que decides entrevistar?

(P.S.) – A relação com as pessoas com quem trabalho, normalmente, nasce sempre de uma química muito espontânea. São pessoas que eu sei que, à partida, vão estar super interessadas naquilo a que me proponho fazer. Quanto às pessoas e aos projetos que abordo, nem sempre é fácil. No início era mais difícil, porque ninguém conhecia o meu trabalho, logo, não confiavam em mim. O meu primeiro documentário esteve para ser cancelado várias vezes a meio das rodagens porque, simplesmente, algumas pessoas mudavam de ideias e já não queriam ser entrevistadas por receio à abordagem que eu pudesse ter sobre o seu estilo de vida, ou com medo de repercussões negativas, uma vez que não tinham como confiar em mim. Quando fiz o segundo documentário foi muito mais fácil porque o meu trabalho já era conhecido pelas pessoas da área. Já sabiam os meus propósitos e a minha linguagem. E até tive pessoas a quererem falar comigo porque sabiam que eu estava a fazer um novo documentário. Ainda assim, tive muita gente que não quis ser entrevistada com medo de represálias, uma vez que era um tema muito sensível. Na série "É P'ra Amanhã", o meu último projeto, fizemos uma campanha de crowdsourcing e tivemos mais de 800 entradas! Foi incrível ter as pessoas a quererem mostrar-nos projetos para abordarmos e vermos que existiam muito mais coisas tão boas em Portugal que nem fazíamos ideia! 

(G.) – Em 2015 lançaste o "Que Estranha Forma de Vida" onde mostras diferentes formas de viver. Houve alguma que te fosse mais difícil de entender e abordar na altura?

(P.S.) – A mais difícil foi, sem dúvida, a primeira que abordamos, Cabrum. Era uma comunidade muito fresca na altura, tinham apenas dois anos. Eles próprios ainda se estavam a formar, na fase da tentativa e erro, sem grandes fórmulas de funcionamento. Então era um pouco difícil entender o que poderia ser a sustentabilidade da comunidade a longo prazo. Mas acabou por ser ótimo também, porque consegui mostrar esse lado de uma comunidade que está a começar, e acabar com a comunidade mais antiga da Europa, Tamera.

(G.) – 2015 parece que foi ontem, mas há seis anos a sustentabilidade e os temas que abordas ainda estavam a dar os primeiros passos. Como foi a aceitação? Tiveste algum episódio que te tenha marcado?

(P.S.) – A aceitação foi muito boa, mesmo. Tive exibições do filme em todo o país e muitas no estrangeiro também, como nos Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, Espanha, Bulgária, Roménia e Croácia. Era um tema que as pessoas não conheciam e tinham muita curiosidade. Eu próprio, um ano antes de fazer o documentário, não fazia ideia de que existiam comunidades a viver assim. E ainda hoje em dia, este documentário é, de todos os meus trabalhos, aquele que continua a ser o mais visto. Está online há seis anos e todos os dias tem visualizações de pessoas de todo o mundo. O que mais me marcou foi quando eu ia a exibições em salas de cinema e via pessoas mais velhas na plateia. Por preconceito meu, ficava reticente à aceitação de ideias tão alternativas por parte dessas pessoas. Mas, surpreendentemente, na parte de perguntas e respostas, muitas dessas pessoas intervinham para dizer que aqueles estilos de vida comunitários representados no documentário eram muito semelhantes ao estilo de vida de antigamente nos meios rurais. A cooperação entre vizinhos, as trocas de bens sem o dinheiro como intermediário, a entreajuda, a dedicação à terra e o estilo de vida simples. Foi incrível, para mim!


(G.) – Um terço da comida que produzimos não é consumida, vai para o lixo, no entanto, em Portugal é proibido praticar o dumpster diving e o freeganism é um tema tabu. Que impacto teve o "Wasted Waste"?

(P.S.) – O "Wasted Waste" teve o impacto que eu queria que tivesse, que era quebrar esse tabu. Pelo menos nas pessoas que viram o documentário, que não faziam ideia do que era o freeganismo. Durante as rodagens do Wasted Waste, sempre que estava a filmar recolhas de comida no lixo, tive pessoas a apitar, insultar, perguntar o que estávamos a fazer e se não tínhamos vergonha. Como diz um dos entrevistados do documentário, "Vergonha não é ir buscar comida ao lixo. Vergonha é deitar comida no lixo". Em todas as exibições em que estive presente, notei uma empatia gigante por parte da plateia para com os freegans e para com os projetos abordados. Mesmo um ou dois anos depois da estreia, tive pessoas que entrevistei a dizer-me que houve muita gente a conhecer os seus projetos por causa do Wasted Waste.

(G.) – Achas que as empresas se estão a adaptar bem ao que os clientes pedem ou há muito greenwashing?

(P.S.) – Há, definitivamente, muito greenwashing, muito mesmo, e é preciso cautela. Mas não há como negar que as empresas já não ignoram o facto de o cliente estar cada vez mais consciente. A transparência em toda e qualquer indústria é, para mim, o mais importante. De resto, só posso acrescentar que, para mim, tudo o que é "crescimento verde" é uma ilusão. Não pode haver um crescimento dito "verde" num mundo que já ultrapassou há muito os seus limites. O Earth Overshoot está a acontecer em Julho/Agosto. Portanto, não pode haver crescimento nenhum, muito pelo contrário, precisamos de decrescer. 

(G.) – És o realizador da série "É p'ra manhã". Como surgiu esta ideia e como tem sido o feedback do público?

(P.S.) – A ideia nasceu inspirada no documentário Demain, um documentário francês, em que uma equipa procurou, pelo mundo inteiro, soluções inspiradoras para a crise climática. Nós quisemos fazer o mesmo, mas em Portugal. Conhecer o melhor que se faz cá, neste âmbito. O feedback tem sido muito bom. Depois da estreia na SIC temos recebido mensagens todos os dias de pessoas a quererem fazer exibições dos nossos episódios e, muitas delas, que são as que nos deixam mais contentes, são em empresas e escolas. Recebemos muitas mensagens de professores a pedirem-nos autorização para integrarem a série nos seus programas. 

(G.) – Qual a iniciativa que mais te maravilhou e com a qual mais aprendeste?

(P.S.) – Não consigo dizer uma em concreto, houve várias. Toda a aprendizagem que tive foi num todo. A própria série, em si, funciona se vires um episódio solto. Mas, para ficares mesmo com a perceção global completa, aconselho a ver os cinco episódios e pela ordem que lançámos. 

(G.) – Ainda há muitas iniciativas para serem conhecidas em Portugal?

(P.S.) – Muitas mesmo. Recebemos mais de 800 iniciativas só na campanha de crowdsourcing. Todas elas tinham potencial para serem abordadas. Selecionar os projetos a serem filmados foi um longo e moroso processo. No final, selecionamos cerca de 60. Tivemos de ter critérios muito específicos, entre eles, além da sustentabilidade do projeto, a sua contribuição social positiva na comunidade, ou a sua replicabilidade em qualquer ponto do país.

(G.) – Podemos esperar uma segunda temporada?

(P.S.) – Temos material para isso, e novos temas que gostaríamos de abordar. Eu, em particular, adorava fazer um episódio apenas dedicado à floresta e outro ao turismo, por exemplo. Mas tudo vai depender se conseguimos financiamento para tal.

(G.) – Olhando para o momento em que começaste a abordar estes temas e diferentes formas de vida, até ao teu mais recente projeto, o que mudou?

(P.S.) – Acho que as pessoas estão muito mais informadas sobre estes temas. Quando comecei, sempre que falava num tema como "permacultura", "recolher comida do lixo" ou "desperdício zero", tinha de explicar 99% das vezes cada conceito, porque as pessoas nunca tinham ouvido falar. Hoje em dia, estes conceitos estão muito mais a manifestar-se e isso tornou-se muito evidente nos últimos cinco anos. É uma diferença gigante, basta veres a quantidade de restaurantes vegan que existem hoje, e que existiam nessa altura. É um indicador excelente.

(G.) – Sobre o que ainda falta falar e que seja urgente colocar as pessoas a pensar?

(P.S.) – Todos os temas que eu considero urgentes já estão a ser falados. Sustentabilidade nunca foi tão falado como o ano passado. Veganismo e direitos dos animais, também, cada vez mais. Assuntos raciais e feministas estão a entrar novamente em força, felizmente, nas discussões da ordem do dia. Por isso, acho que o importante neste momento é, mais do que beber informação, selecionar informação. Temos tantos estímulos e tanto conteúdo a ser produzido instantaneamente, que é mais importante do que nunca aprofundar os assuntos, e não nos ficarmos por slogans. Ouvir e interpretar várias fontes. Mesmo nós, antes de produzirmos ou consumirmos alguma coisa, devemos perguntar-nos realmente se faz falta e se é necessário. 

*O Sobressalto trata-se de um projeto do Gerador, em parceria com a ZERO, que pretende unir a cultura e a sustentabilidade.
Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia cortesia de Pedro Serra

O Sobressalto é o projeto do Gerador e da ZERO que une a cultura e o ambiente, criando ferramentas para a transição verde e promovendo reflexões e debates junto da comunidade cultural. Um dos seus eixos é a criação de conteúdos jornalísticos, como este, dedicados à sustentabilidade nos meios do Gerador. Sabe mais aqui.