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Samuel F. Pimenta

Uma entrevista a Samuel F. Pimenta, autor da obra literária "Velha", originalmente publicada na Revista Gerador 40, que podes descobrir também em baixo.

Fotografia da cortesia de Samuel F. Pimenta

A obra de Samuel F. Pimenta, tal como a sua ação, tem sido o reflexo da promoção dos direitos LGBTI+, dos direitos humanos e dos da Terra. Nesta Revista, escolhemos a sua a sua forma de olhar para o que nos rodeia para ocupar as páginas da obra literária. 

Nascido em Alcanhões, começou a escrever com 10 anos. Até ao momento, publicou oito livros, reconhecidos com vários prémios, além de estar presente em coletâneas, antologias e outras obras coletivas, em Portugal e no estrangeiro. Em 2022, editou o seu último livro, Ophiussa, um romance mitológico em que revisita o mito da fundação de Lisboa e das suas sete colinas a partir da tradição oral lisboeta. 
Como resposta ao nosso desafio, entregou-nos A Velha, uma história que nos dá a conhecer uma personagem que era a revolução perante a ameaça à liberdade e à memória, motivando a troca de perguntas e respostas que partilhamos contigo.

A Velha

Pela cozinha ascendiam as notas sinuosas de uma canção tão antiga quanto a Terra, numa língua que já nenhum humano conseguia entender. A Velha cantava. Segurava um feijão entre as mãos e sussurrava-lhe a canção dos ciclos e do tempo, a canção da terra, do ar, do fogo e da água, a canção do futuro e das memórias, a primeira canção alguma vez cantada. Fazia-o com as sementes espalhadas sobre a mesa, uma após a outra. Para que se lembrassem. Cantava-lhes a longa canção pausadamente, murmurando de olhos fechados, até finalizar o encantamento com um sopro. Por breves momentos, as sementes acendiam-se entre as mãos da mulher, estrelas bruxuleantes cuja luz logo se extinguia. E a Velha sabia que estavam prontas para voltar à terra.

Sobre a mesa da cozinha havia sacos de pano com sementes de todo o tipo, desde bolotas, girassol, oliveira, aveia, castanhas, grão, abóbora ou trigo. Sementes de legumes, de flores, de arbustos, de árvores, de frutos. Todos os dias, a Velha sentava-se à mesa para as escolher, pegando num saco de cada vez. Apesar do cuidado no momento da recolha, havia sempre uma ou outra estragada, e por isso era necessário voltar a verificá-las uma a uma, separando as sementes boas das danificadas. Seria um trabalho meticuloso, demorado e insuportável para quaisquer mãos humanas, levaria dias e dias, mas não para as mãos da Velha, habituadas à textura dos fios do tempo.

Terminou mais um saco de sementes e pegou noutro. Dedicava-se às sementes de maçã. Já escolhera sementes de maçãs camoesa fina, dos namorados, das velhas, do limoeiro, de espelho, da boa vontade, da serra, das malhas, engelhada, padre inácio, porta da loja, riscadinha, durázio, urázio, pedra, cabaçal aristides, casanova, costa, pêro pipo, pêro coroado, pêro pam, pêro rei, camoesa de coura, camoesa verde, camoesa do biribau, camoesa rosa, pipo de basto, papo lindo, branca, branca vasconha, victória, malápio da serra, malápio fino, bravo de esmolfe, casca fina, três ao prato, rosto mau, olho de boi, sangue de boi, corno de boi, tromba de boi, comendador, beijo da rainha, espriega, cu de burro, focinho de burro, docinha da abrunhosa, cunca, gronho, lemos, temporã, marmela, piparote, verdeal e lila. Iniciava agora a selecção das sementes de maçã da abadia. E enquanto as escolhia, lembrava como nas festas de Inverno se assavam maçãs porta da loja para misturar com vinho verde e açúcar, ou como se dizia que as maçãs bravo de esmolfe eram tão boas que só poderiam ser as maçãs do Paraíso, ou como as maçãs camoesa eram apanhadas ainda verdes no fim do Verão e deixadas a amadurecer em cima dos armários, perfumando as casas durante o Outono. 

Ao terminar a selecção das sementes de maçã, a Velha cantou-lhes. Uma a uma. A manhã tornou-se tarde e a tarde tornou-se noite. E a Velha cantava. Não comia nem dormia, não precisava. E novamente a manhã tornou-se tarde e a tarde tornou-se noite. E a Velha cantava. Passou mais um dia e outro. E a Velha cantava. E depois de despertar todas as sementes de maçã, voltou-se para as sementes de milho.

Sorriu satisfeita para os sacos, havia centenas de grãos de todas as cores, pretos, amarelos, vermelhos, castanhos, cinzentos, cor-de-laranja, cor-de-rosa, brancos. Pegou no primeiro saco e logo lembrou um mito antiquíssimo e de terras distantes, em que os deuses haviam criado a humanidade a partir de uma maçaroca de milho. Como se estivesse a repetir esse gesto divino, começou a seleccionar as sementes, tratando-as com a mesma reverência devida às insígnias sagradas. E era justo fazê-lo, afinal dedilhava cordas da linhagem das mais antigas sementes, guardadas geração após geração, passadas da avó para a mãe e depois para a neta, sementes filhas de outras sementes, tocadas por tantas mãos e passando por tantas casas, terras e lugares. Começou por seleccionar o milho ancho, depois o milho blanco blandito, o milho naltel e tantas outras variedades de grãos até terminar com o milho mixteco.

As sementes sobre a mesa da mulher eram dos maiores segredos ao seu cuidado. Eram preciosas, raras. E proibidas. Haviam sido recolhidas pelos rebeldes, vindas de plantações ilegais.

Havia já trinta anos que só se estava autorizado a plantar as sementes permitidas pela lei, vendidas por um único produtor. Era proibido seleccionar sementes, guardar sementes de um ano para o outro, trocar sementes entre produtores, passar sementes de geração em geração ou colher sementes silvestres. Estavam autorizadas, somente, as sementes do produtor único, as oficiais, catalogadas e numeradas, as que haviam sido aperfeiçoadas em laboratório para serem as mais eficazes e as mais produtivas e apenas das espécies mais rentáveis. Eram as melhores, diziam todas as propagandas, apesar de só vingarem na terra com fertilizantes e venenos, apesar de gerarem frutos sem semente, apesar de forçarem os agricultores a comprar novas sementes todos os anos, apesar de a sua produção desenfreada extinguir tantas outras espécies. Mas havia quem resistisse, embora a lei fosse implacável. Quem não a cumprisse, podia ser preso, podia morrer.

A maioria das sementes escolhidas pela Velha era enviada para longe, devolvida à guarda de quem delas sabia cuidar. Mas outras germinavam espontaneamente nas suas mãos, os brotos a erguer-se numa erecção vagarosa, ainda a canção da Velha mal terminara. Essas eram logo deitadas à terra no bosque em redor da casa, um reduto idílico e raro numa era que fizera lei contra todas as formas de vida.

A Velha não se regia pelas leis humanas, havia muito tempo que vivia distante desse mundo. Jamais a encontrariam naquela casa junto à montanha, morada de deuses antigos e já esquecidos. Vivia num lugar que, para os arautos da supremacia do progresso e da ciência, era demasiado arcaico e merecedor de desprezo. Uma ruína. Estava protegida, ali. E se alguma vez aparecesse diante dessas gentes, facilmente a confundiriam com uma mendiga, com os seus trajes negros, uma bengala de aveleira curvada e nodosa, rugas abissais no rosto e os cabelos brancos num emaranhado de teias revoltas, envolta em xailes de lã e brumas de segredos. Havia muito que já ninguém lembrava o seu nome. Ou a sua existência, sequer.

Ainda antes da proibição das sementes, já a Velha as seleccionava e armazenava em casa, como aprendera com quem aprendera antes dela, por isso foi com naturalidade que procurou os rebeldes que se opunham à implantação da nova lei para lhes oferecer ajuda. As suas mãos seriam parteiras das novas vidas e a sua casa um berço onde as sementes poderiam repousar, protegidas, armazenadas para os anos vindouros, até chegar o momento de as distribuir.

Inicialmente, os rebeldes franziram a testa e entreolharam-se duvidosos diante da proposta, era uma velha muito velha e certamente já não tinha olhos nem destreza para escolher tantas sementes. Mas logo perceberam haver um ânimo invulgar a habitar o coração daquela mulher, uma força quase sobrenatural, quando comprovaram como seleccionava as sementes de forma exemplar, sem falhas. Depois, com o passar dos anos, começou a haver quem dissesse que a mulher devia ser bruxa ou ter sangue de fada, como contavam as histórias antigas, pois ao contrário do que acontecia com tantos rebeldes que continuavam com produções livres, nem uma das rotas de sementes até à casa da Velha fora interceptada pela polícia. Dizia-se que fora a mulher a tecer protecções e encantamentos, uma tapeçaria invisível cujos fios saíam da casa e se entrelaçavam em todos os rebeldes que transportavam as sementes de um lado para o outro, mantendo à distância qualquer inimigo. 

À Velha não lhe importava o que diziam ou supunham. Viam-na como aliada, era o que bastava. Estava mais concentrada na tarefa a que jurara dedicar-se, levando-a como uma coisa muito séria. Sagrada.

Havia muitos, muitos anos, aprendera como cantar para as sementes, despertando-as do seu sono profundo e recordando-lhes a vida no seu âmago, para depois as devolver à boca da terra, como se fazia no tempo antes de o tempo começar a ser contado. Ao saber da lei contra as sementes livres, percebeu que era o momento de voltar a dizer essa antiga canção a todas as sementes que conseguisse resgatar. Porque as sementes únicas ameaçavam não apenas a liberdade, mas a memória.

Uma semente sem alma seria sempre uma semente estéril, incapaz de se entrelaçar nas raízes da vida e de nutrir o gérmen do futuro. Por essa razão, a Velha sorria sempre que via algum dos rebeldes levar para o mundo as suas sementes despertas. Ou quando era ela própria a lançá-las sobre o chão em redor da casa. Em qualquer tempo, e mais ainda quando a lei o proibia, não haveria acto mais revolucionário do que deitar sementes à terra.

Quisemos saber mais sobre a inspiração desta obra e partilhamos contigo, de seguida, a breve entrevista que fizemos ao Samuel.

Gerador (G.) – Foste o autor da obra literária desta Revista Gerador, com uma história sobre a Velha que cantava para as sementes «como se fazia no tempo antes de o tempo começar a ser contado». O que te levou a tratar este tema?

Samuel F. Pimenta (S. F. P.) – Para este conto, inspirei-me no folclore português e nas suas referências mitológicas mais arcaicas. A figura da Velha é omnipresente na nossa tradição oral, de norte a sul, em contos, lendas e mitos, umas vezes como bruxa, outras vezes como fada, umas vezes como mendiga, outras ainda como uma simples avó. A Velha é uma figura sobrenatural, além do tempo linear em que vivemos, um repositório da memória e da sabedoria da Terra, e dá nome a tantos penedos com morfologia humana, não só em Portugal, mas por toda a Península Ibérica. Mitologicamente, um dos seus ofícios é guardar sementes, pois personifica o período do inverno, em que as sementes permanecem recolhidas no escuro da terra até à primavera. Logo, a Velha tem uma missão ecológica, de garantir a continuidade da vida e dos seus ciclos. Uma vez que esta edição da revista trata a sustentabilidade, e dando continuidade aos temas que tenho vindo a tratar nas minhas obras literárias, fez-me todo o sentido evocar aquela que é, talvez, a primeira de todas as ativistas climáticas do mundo, à luz da tradição cultural portuguesa. 

G. – «Era proibido selecionar sementes». Que perigos existem numa cultura que promova o que é mais eficaz, produtivo e rentável em detrimento de todos os danos que esses resultados possam, de facto, causar? 

S. F. P. – Os perigos que enfrentamos atualmente, da urgência climática às violações dos direitos humanos. Foi o atual sistema patriarcal, capitalista, extractivista e monocultural que nos trouxe até onde estamos. E este sistema não reconhece o valor ecológico ou moral da vida, por isso não se importa que haja bilionários sustentados por trabalho mal remunerado ou até mesmo escravo, ou que se dizimem hectares de floresta e se persigam e matem os povos originários que nelas vivem, ou ainda que se a esventre a Terra para extrair mais e mais minerais para alimentar a tecnologia que visa dar resposta à demanda da produção desenfreada em que vivemos. Os perigos desta lógica são exatamente os que estamos a viver: o abismo civilizacional promovido por uma minoria com poder que, além de destruir ecossistemas, acentua ainda mais as desigualdades entre ricos e pobres. A continuar assim, em que planeta viveremos? 

G. – Uma «era que fizera lei contra todas as formas de vida», escreves. Consideras que determinadas políticas que vemos serem aplicadas nos levam a essa extinção? 

S. F. P. – Mas é óbvio, não é? Vejamos a história das espécies extintas. Em Portugal, extinguiram-se os ursos e quase se extinguiram os lobos e os linces, e estão em perigo árvores como o teixo e espécies de orquídeas, miosótis ou juncos. Mundialmente, perderam-se animais que vão desde o dodô ao rinoceronte negro. As abelhas e outros insetos polinizadores correm sérios riscos, face aos pesticidas utilizados e à destruição do seu habitat. Depois há as leis que visam patentear sementes, uma verdadeira ameaça à diversidade de culturas e à liberdade de produção, liberdade essa que exercemos desde o Neolítico. Em 2019, a revista Nature dizia que, nos últimos 250 anos, tinham desaparecido do planeta, pelo menos, 571 espécies de plantas. No mesmo ano, a ONU alertava para o perigo de desaparecerem 40 % das 6700 línguas faladas no mundo. Refiro estes dados porque falar da extinção de espécies de animais e plantas e falar da extinção da diversidade da cultura humana é uma e a mesma coisa: consequências nefastas do sistema destrutivo em que vivemos.

G. – Sentes que a sabedoria que assenta fora dos preâmbulos do «progresso e da ciência» é desvalorizada? Se sim, a que perdas nos leva, esse anulamento, enquanto sociedade?

S. F. P. – A tragédia civilizacional que vivemos está relacionada, também, com o esquecimento de outras formas de conhecimento, como os mitos. Criou-se a ideia de que o mito é uma referência ultrapassada quando em comparação com o conhecimento científico. Mas um tipo de conhecimento não exclui o outro. Ao deixarmos de nos relacionar através de mitos e de metáforas, perdemos uma dimensão simbólica da nossa existência. Isso é uma mutilação profunda, perde-se algo nesse processo. Tornamo-nos menos humanos. E ao perdermos essas dimensões, isso reflete-se no mundo. Quando se transmitia de geração em geração o mito de que o rio e a floresta eram deuses, todos sabiam que o rio e a floresta tinham de ser protegidos. Nesse modelo de pensamento, coexistiam diversos tipos de conhecimento. Atualmente, o conhecimento está fragmentado e não dialoga entre si, um julga-se mais legítimo do que o outro. É necessário que o diálogo volte a estar no centro da nossa experiência.

A obra literária foi originalmente publicada na Revista Gerador 40, que podes comprar aqui:

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