Sea Shepherd. Na década de setenta o “primeiro navio da História a dedicar-se exclusivamente à defesa da vida marinha” embateu contra o Sierra (navio) provocando-lhe um grande rasgão vertical de dois metros e amolgou-o numa extensão de dez metros. Esta luta devia-se à proteção das famílias de baleias que a tripulação do navio dizimava. O objetivo destes navegadores do Sierra era aniquilar todo ou qualquer cetáceo que surgisse. Paul Watson, um dos fundadores da Sea Shepherd, declarou guerra aos caçadores de baleias e afundou cerca de dois navios em Portugal.

Passados quarenta e quatro anos, os que antes seriam identificados como “piratas com asas postiças de anjos”, são um auxílio para a polícia marítima local, a Marinha e os governos, nos mais diversos países.

Durante uma semana, o Gerador esteve à conversa com o Chris Storey, o diretor da Sea Sheperd Portugal, para que fosse possível entender este movimento de ação direta de conservação dos oceanos e as realidades portuguesas com que se depara. No entanto, não ficámos por aqui.

Colocando-nos numa realidade não tão distante, a música, o Hardcore iniciou-se também no final dos anos setenta, na altura, distinguido como Hardcore Punk. Pode surgir a questão: o que tem uma coisa que ver com a outra? Nesta reportagem, tudo.

Ao longo dos últimos anos, estas coincidências do passado levaram a uma parceria inédita entre o Hardcore e a Sea Shepherd que originou o Hardcore Benefit Sea Shepherd Portugal. Desta forma, juntámo-nos aos dois mundos e conversámos com algumas das bandas que contribuíram para esta compilação, resultante da produtora Believe Hadcore distro.

Sea Shepherd, a missão

Desde a sua fundação que a Sea Shepherd se assume como um movimento de ação direta de conservação dos oceanos. Chris Storey reconhece que esta mesma ação funciona: “lutámos durante muitos anos para acabar com a caça à baleia e isso está quase no fim. Como movimento, evoluímos e trabalhamos agora com a polícia marítima local, a Marinha e os governos, em muitos países”, afirma.

Logótipo Sea Shepherd

Atendendo a esta mesma evolução, a organização internacional é também conhecida como Neptunes Navy, isto porque muitos governos utilizam os seus navios e perícia para acabar com a caça furtiva entre outras coisas.

No caso português, este movimento é recente, “recebemos muitos pedidos nos últimos anos para começar a nossa jornada em Portugal, pelo que foi uma decisão fácil assim que tivemos oportunidade. É necessário um novo começo em cada país para que possamos criar consciência sobre a importância do nosso oceano”, reconhece o diretor.

A consciencialização das preocupações ambientais e da defesa das espécies são temas que estão cada vez mais em voga e, por isso, a organização acredita ainda que, para que ela exista, é necessário que “a raça humana compreenda a importância do nosso oceano”.

A sobre-exploração das atividades de pesca, a morte de espécies ameaçadas e a poluição são resultantes de uma “mão” — a do Homem. É nesta dimensão que as catástrofes naturais e ambientais se fazem ouvir, “isto causará tsunamis, inundações e muito mais. Se o oceano morrer, nós morremos“, explica-nos Chris.

Recorrendo a referências do passado, ainda que muito presentes, em entrevista ao Jornal de Notícias, em 2017, Paul Watson, ambientalista e fundador da Sea Shepherd, afirmou estar “cansado de conversas estéreis”, quando ainda pertencia à GreenPeace e isso foi também um dos motivos pelo qual contribuiu para a fundação da Sea Shepherd. Ao pensar sobre estas palavras hoje, Chris reconhece que a falha na ação e proteção dos recursos ambientais globais ainda persiste, “estamos mais conscientes, mas continuamos a matar até 250 milhões de tubarões por ano, por exemplo. Simplesmente pelas suas barbatanas.”

Acreditando que Portugal pode ser um dos países que permita parar o comércio destas barbatanas, o diretor apresenta-nos a iniciativa da União Europeia que apoia o fim da remoção e do comércio de barbatanas de tubarão. A mesma pode ser assinada até 2022.

Ainda com os olhos voltados para Portugal, o país ligado culturalmente ao mar, as principais preocupações destacadas pela organização assentam essencialmente na consciencialização local: “a maioria das pessoas não sabe o que está realmente no oceano e como cada organismo que lá exista é importante, por isso precisamos de trazer muito mais consciência à população local”, afirma Chris.

Fotografia de cortesia da Sea Shepherd

Atualmente, a primeira campanha distinguida em Portugal é a Sentinela, que se dedica a proteger espécies marinhas e a proteger animais encalhados. Atualmente, a organização reporta cerca de dois encalhamentos por dia no nosso país.
Estas situações podem dar-se devido a capturas acessórias, o ato de sonar ligado aos submarinos, redes, entre outros fatores.

É com esta realidade que a organização reconhece a necessidade de uma maior sensibilização em Portugal.

O HARDCORE também canta pelo Oceano

Em 2020, a Sea Shepherd Portugal e a Believe Harcore — distro juntaram-se. E, com isso, resultou a mais recente versão do Hardcore Benefit Sea Shepherd Portugal.

Cd e acessórios

Sendo uma estreia com esta produtora, a resposta “foi espantosa e estamos ansiosos por fazer mais”, afirma Chris.
É através dos donativos da Hardcore – a partir da venda de CDs e t-shirts – que a Sea Shepherd conseguirá realizar a limpeza dos destroços marinhos em todo o país.

A música Hardcore apoia a missão da organização e, através da produtora e músicos, procurou realizar um concerto de angariação de fundos. Esta foi também uma das razões pela qual a colaboração se edificou — “a sua paixão e entusiasmo”.

Questionado pelo porquê deste registo musical e das bandas que participaram na mesma — atendendo que parte delas estão ligadas diretamente ao ativismo — Chris responde-nos que “temos um forte apoio deste género musical e parecem estar alinhados com a nossa missão. Temos ainda fortes seguidores a nível mundial, como a Sepultura e Red Hot Chilli Peppers.”

Desde o momento inicial que o objetivo seria fazerem um concerto ao vivo, contudo, devido às circunstâncias atuais, foi necessário recorrer aos meios online, “desde as bandas ao que o incrível Hardcore [produtora] fez com os CDs e t-shirts especiais”, conta Chris.
Perante esta realidade, aguardam pela possibilidade de poder levar esta essência aos palcos.

Das cerca de vinte bandas que participaram nesta compilação, estabelecemos contacto com seis, entre elas: Take Back, Farsa, M.E.D.O, Cabeça de Martelo, AIM e GAEA.

Rapidamente recebemos contacto do outro lado. Sem hesitação, as questões fizeram-se ouvir.
No caso de Farsa, o convite para a participação surgiu através da produtora. Foi uma estreia para ambos.

Sobre o que os moveu a aceitar este convite foram várias as razões que enunciaram: “em primeiro lugar, naturalmente, uma certa afinidade com a Sea Shepherd. Uma afinidade que não decorre simplesmente da causa que a mobiliza (a conservação dos oceanos ou, mais genericamente, a luta ecologista), mas sim, especialmente, da forma como entende essa causa e dos métodos que privilegia para defendê-la (a ação direta). Não acompanhávamos a representação portuguesa da Sea Shepherd, mas estávamos familiarizados há muitos anos com o trabalho internacional da organização. Em segundo lugar, pesou a identificação com a iniciativa em si: o comprometimento com certas causas sempre fez parte do hardcore, mas, nos últimos anos, por diversas razões, essa postura dissolveu-se. O “benefit” é uma das expressões coletivas de comprometimento que remete para essa “tradição” e que tem tudo que ver com o que a banda entende por hardcore e com o que pretende para si própria: mais do que um projeto de autor, com uma identidade própria e independente, como pretendem as expressões artísticas individualizadas, Farsa só tem sentido enquanto parte de algo maior”, conta-nos Diogo Duarte, um dos elementos da banda.

Banda Farsa, fotografia de Teresa Oliveira da Silva

Acreditando que o Hardcore, como registo, e em especial, a sua banda, transcendem uma missão em conjunto com as causas, Diogo reconhece que “é um cliché dizer que o hardcore é mais do que música, mas o que é certo é que o sentido e a força que tem nunca seriam os mesmos se fossem só isso. Sem as letras, sem a ética do it yourself, sem o envolvimento com certas lutas, sem a forma horizontal de relacionamento, organização e comunicação, enfim, sem representar simultaneamente uma revolta e uma resposta contra um mundo disfuncional, o hardcore seria só mais um estilo igual a tantos outros.”

A banda conhece a Sea Shepherd há mais de 20 anos e este reconhecimento estabeleceu-se precisamente pelo hardcore, “por um CD “benefit” a reverter para a mesma organização, lançado em 1997, e que uniu duas bandas, uma portuguesa, os X-acto, e uma norte-americana, os Ignite”, acrescenta.

A banda apresenta uma consciência ambiental que se revela, em parte, nas suas letras, no entanto, “Farsa fala essencialmente de problemas sociais que não são independentes das questões ambientais, mesmo que não as nomeie. Recusamos, também, que a destruição ambiental seja tratada da mesma maneira, como se o problema derivasse, acima de tudo, dos nossos hábitos individuais e o pudéssemos resolver por deixar de usar palhinhas de plástico ou fazer reciclagem em casa. Na banda somos todos veganos ou vegetarianos e assumimos essa escolha, entre outras razões, pelo impacto ambiental. Não renegamos, por isso, certas escolhas individuais. Mas temos a convicção de que não será por aí que vamos salvar o planeta ou mudar o mundo. Nem foi pelas nossas escolhas individuais que o mundo se tornou aquilo que é, nem será pelos nossos hábitos individuais que ele se tornará noutra coisa melhor”, explica o vocalista.

Banda Farsa, fotografia de Teresa Oliveira da Silva

A relação criada conscientemente entre a cultura, através da música, e a luta por causas ambientais, nomeadamente, a sustentabilidade é algo que a banda também reconhece de imediato. “Foi pelas discussões e ideias que circulavam nesse contexto, há 20 e tal anos, que nos deparamos com certas preocupações ecológicas, quando o tema ainda não tinha espaço em qualquer agenda mediática ou partidária. Foi, também, por essa via que começamos a participar em ações pelos direitos dos animais e a relacionar essa questão com a ecologia, numa altura em que era tabu tratar um e outro tema conjuntamente e a própria ideia de direitos dos animais pouco ia além do cuidado com os animais domésticos. Acima de tudo, a relação que se criou entre hardcore e as questões ambientais foi importante por esta se ter formulado num plano abrangente (poder-se-ia dizer, como agora é comum, num sentido interseccional), em que a ecologia não aparecia dissociada de outros problemas, nomeadamente das condições de produção hegemónicas e, num sentido mais lato, das desigualdades de poder que atravessam a sociedade.”

Depois dos Farsa chegamos até GAEA, rapper integrante na compilação.
O convite chegou também pela produtora. Aceitou sem pensar duas vezes, até porque acompanha o trabalho da Believe Hardcore — distro e da Sea Shepherd: “já conheço a Sea Shepherd há bastante tempo. Talvez tenha ouvido falar nesta organização pela primeira vez em meados dos anos 90”, reconhece.

GAEA

Distinguindo-se como o “rap de intervenção e ativista”, luta constantemente pela libertação animal e isso reflete-se nas letras que escreve.

Atendendo ao facto de não existir oportunidade de realizar o concerto ao vivo, o artista acredita que a “mensagem” chegou ao público através de outros meios: “neste ano atípico, como dizes, cabe-nos usar todas as ferramentas e opções que temos à mão e fazermos o possível e impossível para ajudarmos os outros e passar uma mensagem positiva de entreajuda, solidariedade e direitos dos animais”, afirma.

Sobre os registos musicais, nomeadamente, o Hardcore, Punk Hardcore e Hip Hop, GAEA concorda que o papel deles foi e é fundamental nas causas — “eu cresci no underground do Punk Hardcore e Hip Hop. Nestes grupos, a que nós chamamos de ‘Cenas’, encontram-se muitas bandas e pessoas com ideias libertárias e com muita vontade de mudar o mundo e salvar o planeta de todas as  atrocidades humanas.
Desde sempre que bandas de Hardcore e Punk tiveram um papel muito importante na luta pelos direitos humanos e animais. Isso vê-se refletido nas letras, nos discursos entre as músicas (quando as bandas tocam ao vivo), em alguns designs de álbuns e merch, nos panfletos, zines e livros que, muitas vezes, se encontram nas bancas existentes nestes concertos.
São meios que transpiram e respiram revolução, tanto interior como social. São Cenas onde sonhadores e sonhadoras põem em prática as suas ideias e convicções. Onde nos educamos uns aos outros e onde a luta pela liberdade de todas e todos é uma missão em comum.”

Sobre uma Cultura e Música consciente, o artista responde-nos recorrendo ao seu trabalho a título de exemplo: “eu sempre fiz música com o intuito de passar uma mensagem que eu considero importante e urgente de ser debatida. São muitos os temas que abranjo nas minhas letras, mas sem dúvida que a nossa cultura fica mais rica se for uma cultura consciente e não opressora. Causas ambientais e sustentabilidade em geral deveriam estar muito mais presentes e enraizadas na nossa cultura. Só assim teremos um futuro melhor… aliás, só assim teremos um futuro. Ponto.” É também com este “ponto” consciente que chegamos até aos M.E.D.O.

M.E.D.O, fotografia da cortesia da banda

Ao longo de uma conversa em que causas ambientais, sustentabilidade, consciencialização e direitos foram as palavras mestras entre o Gerador, o Rafael Rodrigues (baterista) e o compositor e vocalista Ricardo Catarro.

Assim como as outras bandas, os M.E.D.O já conheciam a Sea Sepherd desde os anos noventa, “a Sea Shepherd é uma organização que se preocupa com o ambiente e a defesa dos oceanos e nós também partilhamos dessas preocupações. Há muitas coisas em que os “sync” em sintonia”, conta-nos Ricardo.

Questionados sobre a importância que estas parcerias têm não só nas causas com na sociedade e na sua educação, Rafael diz-nos que “uma coisa que eu costumo dizer é que 90% dos ideais, para não dizer 100%, que defendo hoje em dia [Rafael] foram todos ensinados pelo Hardcore. A música é um veículo fundamental para passar essa mensagem e o Hardcore ainda mais porque trata-se de uma comunidade que partilha sentimentos bastante próximos e fortes e faz com que a ‘voz’ fique cada vez mais alta”.

Ricardo completa ainda que “a mensagem é muito importante para nós. Aliás, para todas as bandas hardcore. Acho que isso foi, essencialmente, o que nos agarrou, porque neste registo o conteúdo (letras e mensagens) é realmente importante. Gostamos do que fazemos e as pessoas também, mas a mensagem até supera isso”.

M.E.D.O, fotografia de Ruben Costa

Depois de questionados sobre a importância em recorrer à música para expor estas mesmas ideias, os artistas partilham que “neste último trabalho que lançámos na semana passada, “O Monopólio da Violência”, temos uma música e uma letra que se dedica só a referências ambientais. Já tínhamos um ou outro apontamento em trabalhos anteriores, mas esta é mesmo dedicada a isso como uma preocupação concreta que é o negócio que se faz em torno do ambiente. Por exemplo, recentemente tivemos o encerramento da refinaria em Matosinhos e, isso, pode parecer uma coisa boa. E é. No entanto, a eletricidade vai continuar a ser produzida através dos combustíveis fósseis simplesmente noutro local, ou seja, vai continuar a ser poluído da mesma fora, só que vai ser do outro lado da fronteira [Espanha] e, com isso, não há uma aposta real nas energias renováveis.”

Ricardo acrescenta ainda a questão das quotas da poluição “penso que foi na convenção do Rio de Janeiro que foram criadas umas as chamadas ‘transações das quotas de poluição’, ou seja, os países podem vender quotas de poluição uns aos outros, o que faz com que os países pobres e menos desenvolvidos, que estão endividados aos países mais ricos, como a União Europeia e os Estados Unidos, e não têm indústria as vendam e troquem essas quotas de produção pela dívida que têm. Ao mesmo tempo, isso vai perpetuar o seguinte: os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. E é importante perceber que existem limites de produção”.

Em relação ao que é necessário fazer, ou continuar, para que as questões ambientais sejam cada vez mais tidas em conta, “é importante passar estas questões para as gerações mais novas. Vai tudo atrás do superficial. A mensagem não lhe interessa. Vai tudo atrás do auto tune e o que interessa é o que vende. Galhar likes, vizualizações e está a andar. E tu realmente não vez ‘putos’ — porque também me sinto ‘puto’, com todo o respeito — que têm interesse por algo. É necessário passar o que realmente importa para essas gerações. A nossa já está cansada. Já sabemos quem temos do nosso lado e quem acredita no que defendemos. Isso é cada vez mais difícil”, partilha Rafael.

Sobre um longo caminho, o que esperar?

“Infelizmente, há sempre algo que precisa de ser feito”, diz-nos Chris Storey.
Neste momento, o foco do movimento está na África Ocidental na campanha IUU (pesca ilegal, não declarada e não regulamentada) entre outras campanhas.

No que toca a Portugal, concentram-se na limpeza de detritos marinhos, como por exemplo, a limpeza de praias em todo o país e as operações de mergulho para retirar as redes da água. Assim, contribuem para a necessidade intuitiva, a sensibilização e a obtenção de mais votos para a remoção das barbatanas de tubarão.

Quantos às bandas, eterniza-se a crença, a voz e géneros musicais que prometem fazer-se ouvir, ‘gritar’ palavras e construir mensagens de forma a tornar a sociedade “em algo melhor”.

Texto de Patrícia Silva
Fotografias da cortesia das bandas e de Sea Shepherd

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