A reportagem “Cerâmica: mais do que um ofício secular, a metáfora perfeita para a vida”, presente na Revista Gerador 27, teve como ponto de partida as novas vidas que a cerâmica tem ganho em Portugal. De fábricas centenárias, como a Sant’Anna e a Bordallo Pinheiro, ao artista Vitor Reis, levantou-se o véu a histórias de acidente e persistência nas quais a cerâmica é o médio para um vasto leque de possibilidades. A La Pata, Barro Alto e Circulo Ceramics surgem na mesma reportagem como três vozes da mais recente geração de ceramistas e é destes projetos criados por três mulheres que te falamos hoje.

As mãos de A La Pata pertencem a Diana, que já conhecia Margarida da Circulo Ceramics, que por sua vez acompanha o trabalho de Marta , ceramista que assina a Barro Alto. A realidade de Diana, Margarida e Marta tem como pano de fundo o século XXI e todos os avanços tecnológicos até agora conseguidos, com a possibilidade de criação de uma rede de diálogo entre uma geração de ceramistas millenials que idealizam, concretizam e vendem os seus próprios projetos. Para Marta, o caminho passa por “dourar o presente com uma imagem do passado”.

A La Pata

O percurso de Diana, criadora da A La Pata, começou nas Caldas da Rainha

A La Pata é o projeto que Diana criou quando decidiu levar a cerâmica mais a sério. Estudou Design de Equipamento na Escola Artística António Arroio, onde teve o seu primeiro contacto com este ofício, e foi quando se mudou para as Caldas da Rainha, para estudar na ESAD, que não conseguiu evitar mergulhar num universo cuja presença era tão forte à sua volta. Ainda nas Caldas, começou a sua formação mais especializada no CENCAL e quando voltou para Lisboa começou à procura de ateliê — “Aqui em Lisboa é uma aventura para arranjar ateliê”, confessou ao Gerador em entrevista.

Apesar de a sua intenção inicial ser dedicar-se exclusivamente à cerâmica, a “necessidade de pagar as contas” levou Diana a arranjar um part-time. Ao fim de algum tempo e com mais encomendas a chegar, despediu-se e começou a dar aulas de cerâmica num ateliê, experiência que lhe permitiu “evoluir mais”.

Diana confessa que nem sempre é fácil, mas que o trabalho de ceramista passa precisamente por ter disciplina e “muita paciência”. “A cerâmica dá-te uma liberdade criativa e é um processo muito introspetivo e de conhecimento; tu sabes que precisas de vários meses ou muito anos até começares a ficar boa, mas sabes que é um processo bom para ti, de auto-conhecimento também”, explica.

Na sua ótica, atualmente “ainda se vai buscar muito à cerâmica tradicional portuguesa, em termos de cores, o tipo de moldes que se faz, ou até das folhas e animais do imaginário de Bordalo Pinheiro”. Ignorar a tradição é impossível, e dela podem surgir “novas visões”, acredita.

No Instagram, a montra para as suas peças e o seu processo criativo, Diana detecta uma “comunidade” que torna a “atividade de ceramista menos solitária”, através da troca de ideias e experiências. Desta forma, sabe que estar sozinha no ateliê não significa estar sozinha no caminho a percorrer enquanto ceramista.

Podes acompanha-la através da sua conta no Instagram, onde não só vende as suas peças como partilha o processo por que passam até estarem finalizadas.

Barro Alto

Marta trabalha o Barro do Alto Tâmega 

A história de amor entre Marta e a cerâmica “surgiu por acaso, num pequeno estúdio de cerâmica num kibbutz em Israel”. “Foi amor ao primeiro toque, e agradou-me logo a ideia de trabalhar com um material tão banal — que se encontra facilmente em qualquer parte do mundo —, e ao mesmo tempo tão sensível”, partilha com o Gerador.

Rapidamente percebeu que esta é “uma atividade que se baseia muito em tentativa erro” e foi chegando aos objetos da Barro Alto “sem um objetivo concreto e sem restrições”, vendo a peça em si como “a finalidade”. Os pézinhos que são vasos (com ou sem unhas pintadas) são apenas uma das ideias que foi tendo, mas talvez as que mais vezes foram sendo destacadas em peças jornalísticas sobre os novos nomes da cerâmica.

Há no trabalho de Marta uma provocação inocente que alia a todo um processo muito seu — “A técnica antiga que eu adoptei de fazer o meu próprio barro é um reflexo da vontade geral de dourar o presente com uma imagem do passado”, conta.

Para Marta, os maiores desafios dos jovens ceramistas começam na dificuldade de se dedicarem inteiramente ao trabalho de ateliê, uma vez que “apesar de [a cerâmica] estar na moda não há muitos apoios”. “Na minha pouca experiência o maior desafio tem sido conciliar o meu gosto pessoal com as “exigências” do público – um problema que não se aplica só aos ceramistas” evidentemente”, confessa.

A cerâmica não é a ocupação principal de Marta, mas a procura pelas suas peças não é ocasional. Podes encontrar a cerâmica da Barro Alto na Limbo Shop (Rua do Machadinho, 48) e na Fabrica Features (Rua Garrett, 83), em Lisboa. Acompanha-a aqui.

Circulo Ceramics

Margarida começou o seu percurso na Caulino / Fotografia de © Matilde Viegas

A Circulo Ceramics é o projeto de Margarida, que atualmente se encontra em stand by, mas do qual já não se consegue desligar. Apesar de ter estudado nas Caldas da Rainha, como Diana, a sua relação com a cerâmica começou quando regressou a Lisboa e frequentou as aulas da Caulino, “que era o único sítio onde podia ter aulas além do Ar.Co, na altura”, conta. “Acabava por ser um momento do meu dia em que estava completamente off e gostei mesmo, foi uma ligação imediata.”

As peças de Margarida Fabrica foram uma inspiração inicial no começo do seu percurso que pouco a pouco se ia tornando cada vez mais sólido. Depois de 6 meses de aulas de cerâmica, percebeu que “se calhar conseguia fazer o mesmo em casa” e daí até receber uma grande encomenda de um hotel no Algarve, pouco demorou.

Tornou-se “responsável pela parte de cerâmica” do espaço VOLTA — agora FICA — no Lx Factory, onde começou a dar aulas e foi conhecendo outros novos ceramistas que, à sua semelhança, encontravam na relação com o barro o segredo para relaxar. “Tem havido um boom, completamente. Quando eu comecei só encontrei a Caulino, mas atualmente há imensos sítios. E acho que a cerâmica tem um poder um bocado estranho sobre nós porque estamos ali, sem pensar em mais nada, estamos mesmo tranquilos. Vemos uma coisa a nascer por nós, que é nossa, e isso é uma coisa muito bonita e que acaba por não ter preço, na verdade”, partilha com o Gerador.

Apesar de concordar com Diana na influência que a tradição tem no que se faz atualmente, Margarida sente que “algumas marcas da Dinamarca e da Suécia” influenciam “a nova visão da cerâmica em Portugal”.

Foi a pensar no circulo como representação “da procura” e “das muitas voltas que se dá até chegar a algum sítio” que Margarida decidiu chamar Circulo Ceramics à sua marca. Esta pausa que deu a si mesma e à sua marca podem ser precisamente isso, mas um circulo no seu caminho enquanto ceramista. Porque afinal de contas a cerâmica é, sem grande margem para dúvidas, a metáfora perfeita para a vida.

Ainda a podes acompanhar através da conta que mantém ativa no Instagram, ou no site da Circulo Ceramics.

 

Entre os dias 23 e 27 de setembro decorre a Semana da Cerâmica no Gerador. Depois de te darmos a conhecer uma breve história da cerâmica em Portugal, cinco fábricas seculares que resistiram ao tempo, a visão de Vitor Reis e três novas vozes da cerâmica em Portugal, segue-se mais um artigo em  gerador.eu e uma conversa na Central Gerador, hoje às 19h30. A semana da cerâmica, sobre a qual podes saber mais aqui, parte da reportagem “Cerâmica: mais do que um ofício secular, a metáfora perfeita para a vida” integrada na Revista Gerador 27.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Marta Malheiro

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