“Em 2017 comecei a usar o copo menstrual porque me fazia confusão a quantidade de lixo que produzia todos os meses. Não me sentia bem com isso e, meses antes de mudar para o copo, até usava papel higiénico em vez de pensos ou tampões, porque achava que podiam ser menos nocivos. O plástico nos pensos, o cheiro a detergente e o odor que emitiam fazia-me mesmo confusão, e até achava que qualquer pessoa à minha volta podia notar. Um dia, nas minhas sugestões do YouTube, apareceu um vídeo sobre o copo e fez-me todo o sentido, nessa semana fui ao Celeiro e nunca mais parei de usar.” Esta é a experiência de Sara, que sentiu, há três anos, a urgência de mudar o seu método de recolha menstrual para reduzir a sua pegada ecológica, mas não só. Nos últimos cinco anos, cada vez mais pessoas decidiram começar a usar copos menstruais, cuecas absorventes, discos menstruais, pensos reutilizáveis e outros não tão conhecidos. Fazem-no para reduzir o seu impacto na produção de resíduos, mas também, muitas vezes, por uma questão de conforto. 

Só no ano de 2017, na Europa, foram utilizados cerca de 46 biliões de produtos menstruais descartáveis, o que gerou um valor aproximado a 590 mil toneladas de lixo — são dados de um estudo realizado pela ONG Rezero. O mesmo estudo indica que um ano de menstruação produz uma média de 5.3kg de CO2eq (equivalente ao dióxido de carbono), o que significa que nesses 46 biliões de produtos menstruais utilizados, cerca de 245 mil toneladas de CO2eq foram produzidas. Mas será que as pessoas que menstruam têm de se sentir culpadas, sendo que menstruar é uma condição que lhes está associada biologicamente e que nem sempre sabem ou conseguem utilizar métodos de recolha alternativos? Há várias respostas para essa pergunta. Importa, antes de mais, desmistificar a ideia de culpa e substituí-la por consciência. 

Pensar em sustentabilidade na menstruação é um exercício complexo, que pressupõe que se colem diferentes camadas, e que convida a uma análise interseccional. Nem todas as pessoas que menstruam se sentem confortáveis com métodos reutilizáveis, nem todas sabem da sua existência, nem todas têm sequer condições económicas para aceder a produtos de recolha descartáveis. Por isso mesmo, pensar a sustentabilidade menstrual pressupõe que se pense também em pobreza menstrual, em saúde, em conforto e em educação. “Vamos ter de ir fazendo uns pelos outros; eventualmente, não conseguimos todos avançar ao mesmo ritmo. Primeiro, a dignidade menstrual passa por sentires-te segura, e, depois, por conseguires dar essa resposta em termos ecológicos” — quem o diz é Patrícia Lemos, Educadora Menstrual e para a Fertilidade, fundadora do projeto Círculo Perfeito. 

Tota Alves, realizadora da série documental “O Meu Sangue”, disponível no RTP Play, tem sido, juntamente com Patrícia Lemos, uma das vozes principais na luta pela dignidade menstrual e na desconstrução de preconceitos e tabus em torno da menstruação. Um deles é o de que “todas as mulheres menstruam”, reforçado pela frase que normalmente surge quando alguém menstrua pela primeira vez: “já és uma mulher”. “Eu apercebi-me de que esta prática que as famílias têm de dizer às meninas que acabam de menstruar que já são uma mulher tem alguns problemas não só por elas próprias, mas também por uma questão social, que  é essa perpetuação do mito de que todas as mulheres menstruam e que só as mulheres menstruam. Mas de um ponto de vista pessoal, acho que é um bocado estranho, de repente, uma rapariga de 11 ou 12 anos ouvir dos próprios pais e familiares que já é uma mulher, como se essa mutação se desse com um estalar de dedos”, diz em entrevista ao Gerador.  

Still de “O Meu Sangue”, de Tota Alves e Victor Ferreira

Essas ideias de que a menstruação é coisa de mulheres, que o TPM é a única altura em que a pessoa que menstrua pode estar mais sensível ou irritada, e que através de um determinado método de recolha tudo fica melhor é constantemente repetida através da publicidade. “Com Evax sentes-te livre”, “com Tampax podes fazer o que te apetecer” — ir à piscina, fazer o pino, chegar a cargos mais elevados na empresa. De acordo com Leonor Fernandes, que tirou um mestrado em Estudo do Branding do ponto de vista Sociológico e de Estudos Culturais e cuja tese se focou na publicidade em torno dos métodos de recolha, esse reforço é feito tanto por marcas de métodos de recolha descartáveis como as mais sustentáveis. “Por um lado, segue-se a mensagem de ‘o sangue é normal’, é algo que te torna forte e empodera, mas nas imagens nunca se mostra sangue encarnado, é sempre azul ou glitter. Mesmo o nome das cuecas absorventes costuma ser algo como ‘à prova de período’ — o que é isso de ser à prova de período? Remete para aquela ideia de teres de te defender. O discurso de grande parte destas marcas acaba por ser que aquilo que te vai tornar uma mulher poderosa, independente, uma CEO, e que te vai fazer destruir o patriarcado são ações individuais”, explica.  

Entre as treze pessoas ouvidas para esta reportagem do Gerador, todas consideram que é urgente educar, desde cedo, os mais jovens para que se deixe, finalmente, de olhar para a menstruação como algo que “é nojento”, que é “sinónimo de possibilidade de reprodução”, e que “é uma coisa de mulheres”. Sara, Sol, Nael, Beatriz, Flavia, Diana, Matilde, Catarina e Sofia contam, na primeira pessoa, porque decidiram mudar os seus métodos de recolha menstrual, através de testemunhos muito diversos, mas que se encontram num ponto comum também às restantes entrevistadas: é urgente agir, começando pela base de tudo, a educação. 

Conhecer o corpo, escolher o método

“A minha mudança [para o copo menstrual] ocorreu quando, eu e mais três amigas, o decidimos comprar numa promoção. O preço nunca foi barreira, porque não é assim tão caro, a questão é que nunca tínhamos falado no assunto e, do nada, uma delas enviou a promoção para o nosso grupo no Whatsapp e todas admitimos que tínhamos curiosidade por experimentar. As questões ecológicas foram, sem dúvida, o motivo principal, mas admito que já andava um pouco cética em relação aos tampões, pois existem opiniões controversas sobre o impacto do tampão na saúde vaginal”, partilha Catarina. Depois de receber feedback positivo por parte das amigas, que experimentaram primeiro, chegou a sua vez; ao final de um dia de utilização sem desconforto, dirige-se à casa de banho para retirar o seu copo e não consegue. “ Foi muito difícil mesmo. Andei a pesquisar na Internet como tirar e o porquê de estar preso. Entrei em pânico ao ver que havia mulheres que tinham de ir ao hospital tirá-lo. Eu não sei o que aconteceu, mas acho seriamente que foi porque há uma curva na vagina e a minha é muito alta, e o copo subiu tanto que ficou lá preso. Teve de ser o meu namorado a tirá-lo — ridículo”, partilha. 

“Portanto, eu comprei uma coisa, que ia colocar na vagina, e eu nem pensei em analisar a minha própria vagina para perceber se fazia sentido. Não estudei o mecanismo por detrás do instrumento. Já para não falar que, a primeira vez que o vi, achei-o enorme, e eu sou uma pessoa sexualmente ativa. Por isso, espero que as escolas invistam em educação sexual a sério, porque se eu, mulher adulta e sexualmente ativa, tenho dúvidas e dificuldades, nem quero imaginar uma miúda — porque estas alternativas são super interessantes, e se elas mal entendem os produtos normais, como é que vão sequer pensar nos produtos mais alternativos”, diz Catarina, no seguimento da sua experiência. Acabou por deixar de usar o copo, porque entretanto foi diagnosticada com vaginismo e “só de pensar em colocar aquilo na vagina, tinha um colapso nervoso”, mas sente que está melhor e pensa em voltar a tentar. 

Vânia Beliz, sexóloga e educadora menstrual,  nota que “quando se fala de métodos de recolha para colocar internamente, como o copo, o obstáculo está precisamente no desconforto em se tocar na sua própria genitália” que “isso tem que ver com uma educação muito repressiva em relação às meninas”. “Quando as meninas começam a descobrir e a querer tocar no seu corpo, como fazem os meninos, o que acontece é que as meninas são mais punidas quando o fazem. Ou seja, desde cedo é ensinado às meninas que tocar no pipi é uma coisa errada. Já para não se falar de como a vulva e a vagina são vistas como o sítio que não é bonito, que não cheira bem, que é mau, que é uma zona suja… e isso vai ficando na cabeça das mulheres”, partilha. É por isso, também, que pode parecer pouco normal às pessoas que menstruam tentarem conhecer melhor o seu corpo antes de perceberem qual é o melhor método para si (ou o tamanho adequado, no caso do copo menstrual).  

Educar, informar. Para desconstruir essa sensação de “nojo” e sujidade relativamente à menstruação que, consequentemente, leva a um desconforto para que melhor se conheça o corpo, Tota Alves acha que “era importante mudar os currículos [nas escolas] para a menstruação, ou o período, serem vistos como algo para além de uma componente do sistema reprodutor; como um reflexo da nossa saúde”. “Era ótimo começar-se a ver imagens com sangue vermelho, falar dos vários métodos de recolha menstrual, e tirar a palavra higiene, por exemplo, da comunicação sobre o tema. Na série [“O Meu Sangue”], percebemos que o melhor nome era método de recolha e não método de higiene, porque isso também faz com que haja um estigma associado a uma sujidade que não existe.”

Still de “O Meu Sangue”, de Tota Alves e Victor Ferreira

A sexóloga Vânia Beliz, indo ao encontro do que Tota Alves menciona e do que Leonor Alves já havia referido também, sublinha que “toda a propaganda que é feita para a higiene da vulva e da vagina” não aparece de forma proporcional “em relação ao pénis, que é um órgão que também precisa de ser limpo” ; “esse foco só acontece em relação à genitália feminina”. “Em toda a publicidade antiga relacionada com a recolha menstrual vês slogans do género — ‘sinta-se limpa e segura’, ‘sinta-se limpa e fresca’ —, sempre colocando o ónus da questão nos fluídos que saem da nossa vagina”, diz Vânia, “e há mulheres que nem lidam bem com fluídos normais, os corrimentos, que são normais do nosso canal vaginal, que têm nojo, usam pensos diariamente, porque não sabem como lidar com essas secreções; é algo que é muito desconfortável na intimidade, e temos muitas mulheres que acabam por nem usufruir do sexo, porque têm vergonha em relação a tudo isso”. 

“Quando tu falas nas escolas sobre a genitália, não falas sobre isto; não falas sobre corrimentos, não falas sobre vulvas e vaginas que são diferentes. Estes temas não são abordados na educação sexual, que precisaria, neste momento, de ser reformulada para ir ao encontro das necessidades que existem, porque quando eu faço uma oficina para mães e lhes mostro o que existe e quando lhes mostro os copos me dizem — ‘ah eu não sou capaz de pôr um tampão, porque tenho medo de me magoar, depois tenho medo de não conseguir tirar’. A vagina não é nenhum canal da mancha [risos]. É um canal praticamente fechado, não se perde nada lá dentro, mas continua a haver esses medos. E se as mães não estão confortáveis, não vão ensinar as filhas”, continua Vânia.

O caso de Sofia, que tem trinta anos e menstrua desde os nove anos e meio, foi positivamente diferente. O seu contacto com “métodos que não são, hoje, convencionais” foi aos 14 anos, quando a sua avó partilhou consigo que “toda a sua vida utilizou ‘panos’”. “Fiquei logo interessada”. “Sempre odiei aquele plástico dos pensos, faziam-me suar nas virilhas, eram desagradáveis. A minha avó coseu-me uma série de pensos em algodão branco, com uma mola que fechava as abas, e uma série de ‘cartuxos’ feitos de toalha, que inseria dentro desses pensos. Esses cartuxos podiam ser mais ou menos grossos, e podiam ser empilhados de acordo com o fluxo. Era super confortável e quentinho, mas rapidamente me apercebi das dificuldades do seu uso no dia a dia e especialmente na escola. Sem falar de os ter de lavar diariamente durante o período da menstruação. Por isso, esta foi uma experiência curta”, diz Sofia. 

Regressou inevitavelmente aos pensos e tampões até 2010, quando a irmã, emigrada na Bélgica, lhe falou do copo menstrual. “Pouco tempo depois, experimentei e adorei, porque não havia a preocupação de ter que ir à casa de banho a cada x horas mudar o penso ou tampão. Mas o copinho sempre teve o problema de verter ao longo do dia. Por isso, e até 2019, usava sempre o copinho com o penso diário a amparar. Em 2019, relembrei-me dos pensos de pano e comprei uma série deles, agora em microfibra e algodão, o que ajuda imenso na lavagem”, conta. “Se tiver de apontar a razão principal pela qual me fiquei pelo copinho e pensos de pano, é por questões financeiras. Os descartáveis são super convenientes, usa e deita fora, mas o gasto anual é ridículo. Como razão secundária, apontaria as questões ambientais e, também, de saúde. Os materiais dos pensos, e em particular os químicos usados na produção dos tampões, são péssimos”, reflete em voz alta. 

Escolher o que me deixa mais confortável — física e mentalmente 

No caso de Sol, o à vontade que quer ter com a menstruação conduziu à sua opção pela utilização do copo, e faz com que continue a ser o método eleito. Elenca três aspetos principais: “para começar, o financeiro, porque se gasta muito menos dinheiro, segundo porque tampões e pensos, mas principalmente tampões, trazem possíveis riscos de saúde que o copo não traz (desde que bem esterilizado), e terceiro porque facilita dinâmicas sexuais no que toca a ter relações durante a menstruação”. 

O conforto e as questões financeiras foram também as razões que levaram Beatriz a utilizar o copo menstrual, de há dois anos para cá. Conta que demorou um pouco a adaptar-se “à posição correta em que o copo tem de estar para não verter, mas depois desse tempo de adaptação é super cómodo e prático”, uma vez que consegue usá-lo cerca de doze horas sem se preocupar. “A maior vantagem é mesmo o dinheiro que já não gasto em tampões e não ter de me preocupar se comprei tampões ou não quando o período aparece”, partilha. Já Diana, que mudou o seu método de recolha há um ano, também para o copo, recorda-se de ter recebido informação sobre este através da página de Catarina Barreiros, “uma referência na área da sustentabilidade e um exemplo daquilo que uma verdadeira influência no digital deve ser”, que “falou e fala muitas vezes das alternativas aos métodos tradicionais”. “Comecei a ler mais sobre o assunto, vi imensos vídeos para tentar perceber: 1— as vantagens a nível ambiental; 2 — a adaptação de outras mulheres. E não tive dúvidas de que seria algo positivo e o máximo que poderia acontecer era não me adaptar e sei que, infelizmente, acontece isso com muitas mulheres, mas comigo correu muito bem”, diz Diana.

E se nos casos de Sofia, Sol, Beatriz, Diana, Catarina e Sara o copo menstrual tem sido a opção sustentável que mais se adequa aos seus corpos e à sua relação com a menstruação, para Nael, Matilde, Flavia e Leonor as cuecas absorventes são o método de recolha mais confortável. “Há cerca de dois ou três anos comecei a ter uma consciência política mais ativa e a refletir sobre todo o meu consumo, e, inevitavelmente, as questões ecológicas passaram a fazer parte dessa reflexão”, conta Nael, que desde que usa cuecas absorventes não pensou mais em voltar aos métodos descartáveis. Nael, tal como Matilde, comprou as suas cuecas menstruais através de uma marca brasileira, já que só recentemente surgiu, no mercado, uma em Portugal. Ambas sentem que este não é um método muito conhecido fora de nichos e, no caso de Matilde, o conhecimento do mesmo deu-se quando estava a preparar uma viagem fora do país, em trabalho.

“Descobri as cuecas absorventes no ano passado, numa altura em que ia para o Brasil, e comecei a procurar marcas com as quais gostava de colaborar, e encontrei a Panthies. Achei incrível, não sabia que existia — isto também é uma coisa recente para mim. Decidi mandar vir umas. Já conhecia o copo menstrual, mas como não adoro usar tampão — só uso mesmo em último caso —, a ideia de ter o copo o dia inteiro fazia-me alguma confusão”, partilha. Tal como no caso dos copos menstruais, as cuecas absorventes têm vários tamanhos e tipos de absorção “consoante o fluxo”.“As cuecas duram imenso tempo, não são caras, e acho que são mesmo muito mais confortáveis do que os pensos.”

Flavia, que é natural do Brasil mas vive em Portugal, comprou as suas primeiras cuecas menstruais em 2018. Desde então, nunca mais usou pensos ou tampões descartáveis, uma vez que tem sentido uma confirmação dos motivos que a fizeram querer mudar: o impacto ecológico é menor e a sua saúde íntima alterou-se, para melhor. “Hoje nós temos muito mais informação sobre como nem sempre os produtos de higiene disponíveis no mercado são pensados com cuidado para a saúde de pessoas com vulvas e vaginas. Pensos e tampões descartáveis possuem uma série de químicos e materiais sintéticos que causam grande impacto ambiental quando descartados, mas que também afetam nosso corpo e causam reações que nós muitas vezes naturalizamos, mas que são sinal de que algo está mal. Essa mudança me fez ter ciclos bem mais saudáveis e eu percebi que a nossa saúde e a saúde ambiental estão mais interligadas do que parece”, partilha com o Gerador

As questões relacionadas com a saúde são preponderantes para quem opta por mudar o seu método de recolha, a par das questões ambientais. Além de possíveis reações alérgicas que possam surgir através dos materiais de produtos descartáveis, uma das mais conhecidas é o Síndrome do Choque Tóxico, que  é “provocado pelo aparecimento de bactérias quando o produto de recolha está colocado há demasiado tempo” e que já aconteceu também com o copo menstrual, ainda que a percentagem de casos seja muito baixa, como conta Patrícia Lemos. Para a fundadora do Círculo Perfeito, cujo trabalho passa por ouvir muitas histórias e experiências de pessoas que menstruam, o mais importante na hora de escolher o método de recolha é “encontrar uma solução que se adeque às nossas necessidades” e saber “que há regras que temos de cumprir”. “As regras passam, no caso do copo, por exemplo, por ter de ser esterilizado entre utilizações. Um trabalho, creio que de 2018, apresentava como melhor alternativa fazer a esterelização sempre que este é retirado, o que obriga, na verdade, a que tenhas dois métodos de recolha distintos, ou dois copos”, sublinha. “Escolher o método de recolha adequado é um convite à responsabilidade por parte de quem faz essas escolhas.”

Patrícia Lemos lança em breve o e-book “Adeus pílula”, “um breve guia sobre o que esperar e fazer após a saída da contracepção hormonal”

“A menstruação é uma questão de saúde pública”

Menstruar pressupõe encontrar uma série de desafios ao longo dos dias em que, naturalmente, se precisa de ir a casas de banho que não integram espaços da intimidade das pessoas que menstruam. O conforto importa a toda a hora, para tornar mais natural a experiência, mas tem um peso preponderante em lugares públicos, tanto para quem utiliza métodos de recolha sustentáveis como para quem utiliza métodos descartáveis (sobretudo para este último caso). Num estudo conduzido por Vânia Beliz para o seu pré-projeto de doutoramento, no qual 455 mulheres foram inquiridas, a maioria considerava “muito importante” garantir as seguintes condições em casas de banho públicas: 

“Fechadura, na porta da casa de banho” — 79,1% 
“Papel higiénico disponível” — 93,3% 
“Caixote do lixo” — 81,1% 
“Água para lavagem das mãos” — 95,7% 
“Sabão, detergente para lavagem das mãos” — 87,2%
“Luz na casa de banho” — 67,4%

Para algumas pessoas que têm pensado o que é, de facto, essencial quando se pensa em menstruação, como é o caso de Vânia Beliz, mas também de Patrícia Lemos, Tota Alves ou Catarina Maia, autora d’O Meu Útero, projeto de sensibilização para a endometriose, a distribuição gratuita de produtos de saúde menstrual está no topo. Na semana em que o governo da Nova Zelândia anunciou que começará a distribuir gratuitamente estes produtos nas escolas para combater a pobreza menstrual e evitar que “algumas estudantes faltem às aulas”, como se lê nesta notícia do Público, importa recordar o Projeto de Resolução proposto pelo Bloco de Esquerda para que o mesmo acontecesse por cá. 

Como se pode ler no mesmo, “em Portugal,  o Orçamento do Estado para 2020  refere, no seu artigo 265.º, que o ‘Governo promove, durante o ano de 2020, medidas de  reforço do acesso a bens de higiene pessoal feminina, bem como de divulgação e esclarecimento sobre tipologias, indicações, contraindicações e condições de utilização’ ”. Esta proposta, que acabou por não ser aceite, ao contrário da que foi feita ao mesmo tempo relativamente ao diagnóstico da endometriose, pretendia ser uma resposta a essa vontade do Governo explicitada no Orçamento do Estado. 

Vânia Beliz, que tem trabalhado enquanto Educadora Sexual em escolas na zona do Alentejo, relembra que nestes contextos “devia haver kits de menstruação disponíveis, para que as meninas pudessem usar”. “Há muitos problemas de infeções urinárias e problemas intestinais porque há crianças e jovens que não conseguem usar uma casa de banho pública na escola. Ou porque não está limpa o suficiente ou porque não têm privacidade — há uma série de desafios.” E não são apenas as crianças e jovens que precisam destes kits; importa não esquecer pessoas que menstruam a viver na rua, que não têm possibilidade nem de comprar produtos de recolha menstrual descartáveis, nem de lavar e esterilizar métodos  reutilizáveis. 

“Acho que era muito importante o Estado responsabilizar-se por uma questão de saúde. A menstruação é uma questão de saúde pública, também. Da mesma forma que temos preservativos gratuitos nos centros de saúde, também seria interessante termos métodos de recolha gratuitos nos Centros de Saúde. Acho, até, que era interessante abrir-se essa prática à escala de todos os edifícios públicos — as escolas, as casas de banho públicas, os centros de saúde, os hospitais. E penso que era importante também haver estudos sobre o acesso das pessoas a estes produtos”, diz Tota Alves. “Eu costumo lançar para o ar uma espécie de boato, em que acho que é importante pensarmos: se alguém estudasse a quantidade de furtos que há nos supermercados, acredito que os produtos de recolha menstrual estariam num top dos produtos mais furtados. Isso também é um reflexo de pobreza, que neste caso é a pobreza menstrual — uma das camadas da pobreza é a pobreza menstrual, é a falta de acesso a bens de saúde básicos.”  

“Uma embalagem de pensos higiénicos custa 1€ no supermercado, se for de marca branca; sim, ok, e quem é que acautela essas compras? E se forem quatro filhas? E se as miúdas tiverem várias hemorragias de noite? E se precisarem de vários tipos de pensos? Devíamos estar preocupados com facilitar métodos de recolha de forma gratuita, para quem não consegue aceder a eles, da mesma forma que estamos a disponibilizar preservativos. Eu continuo a achar que os preservativos têm de continuar a ser de distribuição gratuita, mas  não percebo porque é que os produtos de recolha não são, porque melhoraríamos a vida de muita gente que menstrua garantindo essa disponibilidade”, partilha Patrícia na linha de pensamento de Tota.

Vânia Beliz trabalha em Portugal, e é por cá que se tem dedicado à formação de profissionais de saúde e de professores e alunos, mas pensa a questão da pobreza menstrual numa escala internacional. Através do projeto Adolescer, que vai dando a conhecer através das suas redes sociais, organiza kits menstruais para a Guiné e para São Tomé, onde se encontram pensos reutilizáveis, de pano, cuecas, um panfleto sobre a menstruação e outro sobre como higienizar os pensos. “A ideia é conseguirmos mais máquinas de costura, que queremos comprar lá (daquelas mais antigas, porque há sítios que não têm eletricidade), e queremos pagar a uma pessoa no terreno para dar aulas, para que elas aprendam a fazer os seus pensos, porque precisamos de pessoas que façam isto no terreno, também para minimizar o nosso envio”. 

O objetivo do projeto Adolescer é criar mecanismos para que se possam começar a produzir pensos reutilizáveis a n´ível local

Esses kits que hoje organiza para a Guiné e São Tomé, cujo contexto conheceu pelo seu trabalho como educadora sexual, surgiram através de um outro projeto que já tinha em Serpa, Avós da Puberdade. “Neste projeto que tínhamos com estas mulheres mais velhas, havia uma sessão em que falavam com os meninos e as meninas sobre a puberdade, e na segunda sessão as avós iam à escola com máquinas de costura e todas as crianças que quisessem faziam uma bolsinha. E depois púnhamos pensos, tampões, informação sobre o período, e elas iam para casa mostrar a bolsinha às famílias”, conta. E se no início Vânia tinha pensado este projeto apenas para as meninas, eventualmente acabou por perceber que seria mais benéfico incluir toda a gente. Porque informar é a chave — tanto para pessoas que menstruam, como para as que não menstruam.  

Avós da Puberdade foi um projeto intergeracional desenvolvido em Serpa

Derrubar mitos

“Lembro-me da aula em que aprendemos sobre isto e, quando algumas pessoas começaram a ter mais perguntas, a professora disse aos rapazes para saírem mais cedo, pois isto não era um assunto que lhes interessaria e os poderia enojar. Não digo que esta seja a norma, mas é, sem dúvida, um reflexo de uma estrutura onde é normal que rapazes cis achem o sangue menstrual nojento e que, por isso, se possam retirar da conversa, onde é normal dizer-se que este é um assunto apenas de mulheres cis”, recorda Sol. 

É através de projetos alternativos, de educação informal — como é o caso dos T Guys Cuddle Too, que desconstroem mitos em torno das vivências de homens Trans, inclusive com a menstruação — que vão sendo derrubados alguns muros. Este é um trabalho que também Patrícia tem feito, através da sua conta no Instagram, e que foi surgindo interiormente, com o tempo: “à medida que fui aprendendo com as pessoas que me foram aparecendo e dizendo ‘olha, eu não me identifico como mulher, mas também menstruo’, também fui fazendo esse caminho, e o objetivo sempre foi dar informação.” 

Com vários anos de experiência, reconhece que os estereótipos de género vão sendo reforçados por meio da menstruação, tanto no que toca à pressão de se “passar a ser mulher”, como na falta de disposição e desconforto da TPM — que, supostamente, “é normal”. “Dizem-te que é normal, que tem de ser, e quando fazes algo que pode passar por estares assoberbada de trabalho ou esmagada emocionalmente, com uma carga mental elevadíssima entre trabalho, gestão dos miúdos ou o que quer que seja, de repente é sempre porque és muito hormonal ou porque estás à espera do período. Eu acredito numa sociedade que evolui, num sentido de uma igualdade, quando deixarmos cair também estas construções de género que não servem a ninguém, e não podem continuar a servir também a quem menstrua”, diz ao Gerador.  

Sofia, que teve na sua avó uma fonte de informação ancestral, conta que, em sua casa, este assunto “nunca foi tabu entre as mulheres”, e que “com os homens era apenas um não assunto, mas nada de escandaloso”. “Foi-me permitido usar tampões desde a primeira menstruação, mas tinha amigas que não podiam por questões de ‘virgindade’. Agora, mais do que tabu, acho que existe mesmo é ignorância e desinformação: na adolescência ninguém me informou sobre as mudanças hormonais, sobre porque é que havia dias em que me sentia como merda e infeliz, o que me levava a ser bastante agressiva. E essa acusação do ‘deve estar com o período!’ em tom jocoso e depreciativo vem precisamente dessa desinformação. Mas está a mudar rapidamente”, diz optimista.  

Para Flavia, “o tabu hoje está mais disfarçado”. “Ninguém quer assumir que existe um tabu, mas também não está plenamente confortável para conversar sobre o assunto. Penso que é urgente que a menstruação seja finalmente vista como uma pauta de saúde e não de sexualidade… porque é assim que aprendemos na escola, não é? Só se fala em menstruação na sala de aula, porque sem ela não se pode ensinar sobre reprodução. Acontece que metade da população humana menstrua todo mês, durante cerca de 40 anos ao longo da sua vida, e com isso vem uma série de implicações físicas e emocionais que impactam o nosso quotidiano não só ‘naqueles dias’, mas durante todo o ciclo. Ter informação correta sobre nossos corpos é fundamental, até mesmo para procurar auxílio médico precisamos de saber identificar o que é ou não ‘normal’ ”. Entra aí, também, a importância de estar informada para saber ler o próprio corpo.

“Olha-se para a menstruação como um aborrecimento, uma coisa que se tem de aturar porque faz parte, e que acaba por perpetuar algumas coisas que ainda se dizem como ‘quando fores mãe, depois isto passa’, ‘tens estas dores para te preparares para a dor de parto’, sempre associando o teu ciclo menstrual à tua vida reprodutiva. Na verdade, enquanto não quiseres ser mãe, é como se não valesse a pena debruçares-te sobre este assunto, por isso deves inibir a dor menstrual com a toma da pílula — o que acontece muito frequentemente. Tens uma dor que está ligada à tua condição biológica e é como se enquanto não fizesses uso da tua capacidade reprodutiva não valesse a pena explorar. É mesmo uma questão de fundo, porque se as pessoas perceberem que o ciclo menstrual é um barómetro de saúde, olhariam para isto de outra forma”, completa Patrícia. 

“É necessária uma maior compreensão por parte de quem não menstrua sobre o que realmente acontece nos nossos corpos”, diz Nael. A chave pode estar na educação para todos e todas, de forma inclusiva. Sem tabus. 

Texto e colagem de Carolina Franco

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