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Opinião de Marta Guerreiro

Voa voa Marta

Mais um ano passou. Estou no dia 31 de dezembro de 2020, numa cidade do…

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Mais um ano passou.

Estou no dia 31 de dezembro de 2020, numa cidade do Algarve, choveu durante quase toda a manhã. Apesar da chuva, a manhã continua fria. Eu e o meu namorado saímos de casa para almoçar com um casal amigo, numa cafetaria trendy no centro da cidade, bem perto de casa, e projetamos uma noite tranquila de passagem de ano, apenas os dois, ou quem sabe, com estes dois amigos. Na conversa, durante o almoço, havia em nós um sentimento comum: esperança para 2021. O ano vindouro só poderia trazer melhores dias. O último dia de 2020 passou entre conversas, leituras, momentos culinários e acabámos por passar a meia noite em casa, num momento íntimo, cheio de sabores, aromas e dança. Uma dança depois estou no dia 31 de dezembro de 2021, numa cidade do Alentejo. O céu hoje está azul, apesar do sol reinar, a manhã iniciou fria. Eu e o meu namorado saímos de casa para fazer as compras da semana no mercado municipal, que fica no centro da cidade, bem perto de nossa casa. À volta de uma mesa de esplanada, entre amigos, projectamos uma noite tranquila de passagem de ano em casa, com o gato Elias, ou quem sabe, com um ou dois amigos, num momento íntimo, cheio de sabores, aromas e com a vontade de dançar. No final da manhã, quando nos despedimos, havia um sentimento comum: esperança para 2022. 

A poucas horas de findar mais um ano, reflicto sobre a ‘sensação de tempo’ e como esta se tem vindo a alterar ano após ano.

Em criança sentia que um ano era um grande período de tempo. No inverno sonhava com os dias de verão. No verão a minha ideia focava-se na chegada do inverno. E todos estes momentos pareciam, na verdade, tão longínquos uns dos outros. Passava os meus dias a correr, mas o tempo não me acompanhava. 

Os anos eram tão, tão longos que não me recordava como tinha sido o último dia de cada um. Durante o dia 31 de dezembro prevalecia uma sede enorme de perceber como seria o novo ano, não revendo o que tinha feito neste que ainda teimava em não terminar. Como poderia eu lembrar, afinal os meses eram tão longos e tinha sido possível fazer tanta coisa. Os finais de ano eram festejados de uma forma eufórica, com o sonho de continuar a viver. E assim foi durante muito tempo, se bem me lembro.

Mas chegou uma altura, não consigo identificar dia, mês ou ano, em que a companhia do tempo que passeava ociosamente atrás de mim, desapareceu. 

Hoje, o que sinto é que o tempo voa. Perdi a calma das horas que vogavam, aquelas onde outrora corri.

O tempo deixou de andar, começou a voar, mas não num balão de ar quente. Apanha todos os dias um avião da Airbus ou da Boeing e parte sem me dar oportunidade de embarcar. 

Devo ter demasiadas malas para fazer check-in, porque sinto que passo os anos a fazer e desfazer malas sem embarcar. 

O ano de 2021 aconteceu colado ao de 2020 com uma super cola que não me permitiu perceber quando terminou um e começou o outro.

A sensação que tenho é que vivi uma repetição: confinamento; poucos momentos sociais; viagens, apenas as de trabalho; projetos profissionais condicionados; abraços limitados; política do medo a crescer; a governação do país desorientada; promessas para melhorar o consumo das energias renováveis; medidas sociais por implementar; desconfiança do outro.

Fica a promessa de um salto de avião em 2022… e a vontade de aprender a voar.

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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